terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Isto não é só p’ró inglês ver


Entrevista a João Bentes

|Luís Filipe Cristóvão

Aos 32 anos, depois de participação em duas antologias de poesia algarvia, João Bentes lança o seu primeiro livro em nome próprio.

É a oportunidade para encontrarmos a voz mais segura de um Algarve alternativo ao dos prospetos turísticos e, por consequência, ao Algarve lírico que inunda vários ramos da poesia portuguesa. João Bentes escolhe o título Odes para, num claro tom de ironia, conjugar Ginsberg e vários grandes poetas da literatura portuguesa, apresentar-nos, sem capas nem receios, um Algarve que vive e sobrevive, durante o ano inteiro, independentemente das nossas sedes de veraneantes.




Desde sempre, na poesia de autores algarvios, se pode assistir a uma tensão entre um tom mais lírico e um tom mais popular. No teu livro, vais buscar o título Odes, mas o teu texto é rugoso. Procuras uma síntese ou vês esta opção como uma provocação?

Ainda que distinga os textos, considero-os todos da mesma matéria, reflexo de uma ideia determinada, reunidos sob o mesmo punho. No meu entendimento, uma ode é um texto que sublima, é uma exaltação, é um canto, e eu creio que atinjo esse lirismo em vários momentos ao longo do livro, apesar de recorrer a esse tom mais popular. Mas escolho Odes também pela ironia, ou provocação se preferires, que vem desse contraste entre o texto rugoso do real e o nome polido e clássico do livro. É uma alusão a este mundo de aparências e simulações que me inquieta bastante. Isto não é só p’ró inglês ver.


A divulgação como autor esteve, desde o início, ligada a grupos de promoção da literatura, como a A.R.C.A ou o Sulscrito. Consideras importante a existência destes núcleos para se conseguir uma afirmação de uma poesia que está longe do que pode ser visto como os centros editoriais do país?

Para mim foi muito importante, num certo momento, ligar-me a estruturas que me permitissem divulgar o que ia escrevendo; não foi premeditado, mas acabou por acontecer. Há dez ou doze anos atrás, andava eu e mais uns quantos, uma vez por semana, a ler poesia e a beber vinho nas ruas da cidade velha de Faro. Esta foi uma primeira aproximação, e é daí que vem a primeira publicação da minha geração, através da A.R.C.A. O Sulscrito é uma consequência lógica, que permitiu ampliar uma vaga criativa ligada à literatura aqui a sul, e aproximá-la do resto do país. É de realçar o contacto com as pessoas que fui conhecendo, com quem partilhei algo, e isso só foi possível graças a estas estruturas. Os apoios institucionais para este tipo de projectos não abundam, e agora então nem se fala. Fazem um outdoor com umas meninas a dançar o corridinho a dizer “Faro apoia a Cultura” e mantêm a ARCM – Faro, uma associação com mais do que provas dadas nesta cidade em vinte e dois anos de existência, com a corda no pescoço e uma ordem de despejo em tribunal… Por sorte, projectos como o Sulscrito ou a 4Águas vivem da vontade e persistência de alguns resistentes, e mesmo com recursos mínimos, acho que se criou uma raiz que permite uma continuidade, e isso é deveras crucial para afirmar a criação literária aqui do sul.


Neste teu livro há, claramente, um investimento pessoal, dado o tom biográfico de muitas das composições. Consegues separar o que é poesia e o que é vida?

Não muito, e confesso que não invisto muito nesse sentido. Uma leva à outra. Se a minha vida trespassa a minha poesia, a poesia infiltra-se na minha vida. Vejo isso como um oroboro (creio que se escreve assim): uma serpente que se devora a si própria, o princípio e o fim. Acho que tenho um verso algures que é “mas a lírica não mata a fome”, que tem tanto do que é vida como do que pode ser a poesia.


Haverá também uma tentação a ler, nos teus poemas, algumas influências de autores estrangeiros, ao nível do estilo. Que leituras te levaram a esta forma de poema?

Não posso negar que tenho Howl and Other Poems, de Ginsberg, como referência. Não posso esquecer um poema de Antonio Orihuela, poeta espanhol, do qual se me escapa o nome. Mas também me afecta bastante o Opiarium ou a Ode Marítima. Sinceramente, sempre li mais autores portugueses. Que dizer de um Ruy Belo torrencial ou um Herberto desconcertante? Que dizer da agonia delirante de Sá‑Carneiro ou o Animal Olhar de Ramos Rosa? João Lúcio, mesmo não sendo eu um profundo admirador da sua poesia, inspira-me um poema (oh meu algarve…). O FMI de José Mário Branco é absolutamente extraordinário, e coloco-o ao mesmo nível dos que mencionei antes. E já agora, e porque não, António Aleixo. Para mim este é um assunto pouco linear. No fundo é tudo um acumular de momentos e circunstâncias que me tocam, e há coisas que deixam marcas mais profundas, e delas se alimenta o ímpeto. Os poemas deste livro são essencialmente longos e repletos de imagens. Para exprimirem o que pretendia, tinham que ser duros e explícitos, tinham que ser arrojados. Tinham que ter o fulgor que é desta inquietação, que vem de ver o mundo desta forma. Há ideias que não podem ser resumidas, e quando ganham a sua própria força, têm que ser o tudo ou ser o nada. Quero dizer que há, também, algo para além da leitura que me levou a esta forma.



O teu primeiro livro, agora editado, reúne poemas datados desde 2008. Depois desta estreia, como vês o passo seguinte na tua “carreira” de poeta?

Julgo que será difícil, a curto prazo, voltar a um registo como o do Odes. Foi um livro esgotante em alguns aspectos, e que me deixa a estranha sensação de que pouco mais se pode dizer. Por outro lado sinto que não dá para parar, e é inevitável que isto tenha um seguimento. Por isso espero, em breve, poder criar um suporte musical para alguns destes poemas. Será publicado, em Março ou Abril, um conto meu, o “Dois mil e coiso”, na nova colecção da 4Águas, que se chama “onda curta”. Tenho andado a reunir e a rever alguns textos que fui escrevendo em paralelo aos do Odes, e durante o último ano, a que chamo, no seu conjunto, “canções sem rede”, dos quais irei fazendo alguns apontamentos no blogue. São textos mais curtos, que buscam outra crueza, mas sem perder de vista a linha geral deste meu primeiro livro nem o apuro do escárnio. Tenho uma outra ideia para um poemário ainda em germinação, e um conto aguardando conclusão. E tudo o resto se verá.



Fotografia de Miguel Godinho