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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O autor deve sair ferido, morto e ressuscitado

Conversa com Pedro Eiras a propósito do romance A Cura (QuidNovi, 2012)

|Andreia Faria



- Descreve um book trailer possível para A Cura.

Dois homens lutam. Um é psicanalista; o outro, ***. Um round por mês: treze consultas, mais um prólogo para definir as regras, um epílogo para sarar as feridas. Como se uma ferida alguma vez sarasse.

- Um dos títulos possíveis para a A Cura, apresentado inclusivamente na capa, é Uma sátira. Uma sátira de quê ou de quem?

Outro dos títulos possíveis é Por que razão tudo o que escrevo se transforma logo noutra coisa diferente? Talvez este livro comece por satirizar um alvo, e termine a satirizar outro... Em todo o caso: uma sátira de mim a mesmo mesmo, dividido entre várias personagens. Como sempre.

- O autor sai ileso das suas ficções?

Não. De maneira nenhuma. Ou então, é porque as coisas correram mal, e então a vida continua, incólume. Mas o autor deve sair ferido, morto e ressuscitado: absolutamente diferente de si mesmo depois de escrever o livro. E não por um programa, uma metamorfose mecânica, mas porque ao escrever atravessa um lugar que não conhecia, que ainda não existia. Ele parte para esse lugar desconhecido, mas quem regressa já é o outro.

- Ouvi dizer que Freud é um dos teus autores favoritos, e A Cura vive muito das leituras que dele fizeste. A tua relação com Freud fica maculada pelas descobertas que o teu narrador faz ao longo do livro, ou continuas a lê-lo com a mesma frescura?

Bem, a minha relação com Freud nunca foi imaculada; acho que ninguém pode ter uma relação imaculada com Freud, nem sequer antes de o ler (somos freudianos e anti-freudianos mesmo antes de abrir A Interpretação dos Sonhos). Lembro-me das minhas primeiras leituras, de Introdução à Psicanálise, de Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci, etc.: eram leituras violentas, irascíveis. Porquê? Muitas vezes, é para responder a esta pergunta que escrevo. Dito isto, acho Freud um autor magnífico, e quanto mais discuto com ele mais ele me fascina. Se as descobertas do meu narrador “maculam” Freud, isso só pode tornar a leitura mais fascinante. Não me interessa fazer as pazes com Freud.

- O Tiago Sousa Garcia, que apresentou o teu livro no Porto, disse a certa altura que a psicanálise se assemelha em muito à crítica literária: na minúcia da análise, na ausência de crença na inocência do texto, na procura do não-dito, do que o texto quer esconder. Estás de acordo?

Sim, absolutamente de acordo. Sou professor de literatura na Faculdade de Letras do Porto, e espero que as minhas aulas sejam uma espécie de psicanálise do texto lido. Uma aula é interrogar um breve poema durante uma, duas horas, como se fosse um analisando num divã. Ao fim de duas horas, com sorte, o poema começa a revelar o seu inconsciente. E duas horas é pouco tempo, porque a profundidade de um poema é infinita. Então, nenhuma inocência e nenhum acaso: tudo fala, cada vírgula esconde um crime, cada pergunta uma redenção.

- Miguel Real disse no JL que és um dos poucos críticos literários que ousa escrever romances e “sujar as mãos”. Sentes que, enquanto crítico, a escrita de romances te põe a cabeça a prémio?

Espero que os meus ensaios literários estejam tão maculados como as minhas ficções: que se sintam os grãos de terra, o atrito da escrita em todos os meus textos... E, no fundo, talvez não haja contradição: eu coloco-me problemas a mim mesmo; se lhes tento responder com argumentos teóricos, leituras lentas de textos de outros autores, ou com personagens e enredos, o desafio seminal é o mesmo. Espero que os meus romances sejam uma forma de pensar, como os meus ensaios são uma forma de ficção, uma dramaturgia do pensamento.

- Em alguma circunstância o teu escritor foi boicotado pelo teu crítico?

Não. O crítico ajuda o escritor, e vice-versa. O crítico lança obstáculos ao escritor, mas isso serve para o acordar. E o escritor usa o crítico para tornar a escrita mais difícil. Na verdade, nem sequer consigo distingui-los: trabalham juntos, sujam-se juntos.

- Como vês o teu lugar de escritor numa altura em que a publicação de livros passa da democratização à vulgarização? O acesso à publicação de tanta gente que, há umas décadas atrás, não seria validado como "autor(a)", abre novas possibilidades ou limita o trabalho do escritor tal como o entendes?

Não tenho nada contra o “acesso à publicação”; pelo contrário. Não me reconheço, como leitor, em muitos dos livros que são publicados hoje, mas isso também vale para os livros de qualquer época histórica. Acho que um entendimento crítico do que se escreve e publica é fundamental, claro, sobretudo quando existe uma tal sobrecarga de textos em circulação. Mas é uma questão que não me incomoda; o que realmente importa é só: que, no meio de tantos escritos, surjam os livros valiosos, os que me ferem.

Post-scriptum: ainda sobre as máculas, a sujidade, o atrito –
em Stalker, de Andrei Tarkovsky, há um travelling picado sobre textos, moedas, ícones, terra, tudo submerso em água. Vemos esses restos de civilização ascenderem na tela, devagar, muito tempo. Tarkovsky deitou esses bocados de livros, textos e imagens na água, mãos-cheias de terra por cima, e aos técnicos que preparavam o filme, estupefactos, explicou: «Isto – é a matéria de que os sonhos são feitos.»


domingo, 21 de abril de 2013

Escrever para suprir

|Andreia C. Faria




A leitura e a escrita como tarefas em função das quais organizar os dias surgem muito cedo, mais fruto das circunstâncias do que de uma opção consciente. Ler e escrever (melhor do que a maioria dos miúdos o faria então) começou por ser, aos 8, 9 anos, a minha forma de exercer poder. De impressionar. De me situar perante mim própria e perante os outros.

Se tivesse sido uma princesinha, uma rainha da beleza pré-púbere, se tivesse oportunidade de andar ao ar livre em vez de passar horas fechada num pequeno apartamento, certamente não teria começado a escrever - teria coisas melhores para fazer. Escrevo porque não sou uma estrela rock, não sou campeã de ténis, não sou fotógrafa ou actriz ou realizadora de videoclips. Escrevo porque a escrita é o que me sobra para encenar o corpo.

A escrita nasce da solidão. Uma criança é como um gato - altiva da sua solidão, sem memória de um entendimento que não seja consigo própria. Depois cresce e apaixona-se e escreve para retornar a esse estado edénico da primeira solidão.

sábado, 20 de abril de 2013

Basta saber que por aqui se escoa o sangue para me precaver

|Andreia C. Faria



Basta saber que por aqui se escoa o sangue para me precaver



Já me conhecem
as mulheres, vêm ter comigo se nas ancas
não lhes cabe a dor. E eu troco

por amor o trabalho de sublimação, o invisível
transbordado por um fio, eu ensaio a cada noite
os quinze minutos do seu consentimento. É só este

o afecto que me guardam, reunir em seco
o sangue, o simulacro, e trazê-lo por cisternas
e raízes pelas coxas, vindo de longe, de fora
do corpo, unindo-me a elas no que se esvai

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Ali sentadas, na areia

|Andreia C. Faria


Ali sentadas, na areia
em frente ao mar, aguardando
que um casal de idosos acabasse de passar,
não nos beijámos
Tão próximas, medíamos
o cansaço, as fúrias sazonadas, a impura
frase com que a pele rasura
a juventude

Desfeita a onda, mais nenhuma
comoção. E só volto a lembrar
a recusa que nos deu início
se no chão da sala encontro
o teu leve estremecer
de peixe posto vivo onde
não há água ou aridez
que a morte traga
Os meus dedos investem
a tautologia do choque,
uma boca fechada

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O meu pai falava em francês para estranhar a língua

|Andreia C. Faria


O meu pai falava em francês para estranhar a língua
Fazia os mais esquivos versos que eu já tinha ouvido
à boca da mulher roufenha que o meu pai
também era. Em acessos regulares escoava-os
a tosse ou caíam-lhe dos punhos na mesa de jantar
Rendilhados, animais polutos
comíamo-los, entretecíamos no estômago
um filho de carne

*

O meu pai era um homem grande
mas uma mulher pequena, e assim cambaleava
severamente no terraço onde os outros homens
obsidiavam pedras, excrementos, os mínimos muros
que o faziam tropeçar. O meu pai amava
um rapaz moreno como lixívia, um negro
que em nossa casa se sentava, recobrindo com óculos escuros
as vantagens do trabalho infértil
Todos os dias o meu pai lhe aparecia,
a mulher estremunhada, e rarefeito no vidro repetia
os seus versos de amante imerso
A langue, na condição de velha excêntrica,
na sua lascívia infantil, fazia a vez
do falso pudor, desabotoava o sexo
e com dedos anelares propulsava a escuridão

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Dormíamos de janela aberta

|Andreia C. Faria


Dormíamos de janela aberta
e aliada ao sangue a lua
era véu que nos retardava a face
Desavinda da terra
montavas à sombra de estacas
o corpo
onde havia de passar o meu
modesto, incontuso
afeiçoava a água em espirais

Entre nós não havia lisonja
e parando os gestos revelavam
o pó comestível da febre
A doença era o nosso sintoma
Se te amava era sem sono
adiando a noite inteira
a comprida dormência dos membros
no nosso futuro andamento
fantasmas

terça-feira, 16 de abril de 2013

Flúor

|Andreia C. Faria


Agradeço-te, mãe, o flúor
que até aos seis anos tomei em comprimidos
Serve de herança a melhor dentição
Deste-me as falhas, também
o carácter, mero utensílio
da sorte com que encarar os dias
o silvar nas frinchas
da fala
as dores
e o ranger da criação

Se pela boca começasse
a alma a abrir-se e por tal paisagem
divisasse eu primeiro
a oclusão do céu deixando
intacta na terra
a geração dos vivos
poderia (e tu pela raiz)
salvar-me antes mesmo
de aprender a ler

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O último banho de mar depôs-me na pele

|Andreia C. Faria


O último banho de mar depôs-me na pele
um caracter neutro, balsâmico, decifrado pela infância
Um frio súbito, restituído de sentidos

Ainda hoje a felicidade me vem de dentro como uma traição

Vi a minha pele à transparência
e mesmo a ondulação, transfigurando, dava-lhe
a integridade do que se desfralda a amar. O mar
não me esperava, a comparência de uma antiga
onda

Quanto mais esparso o sexo, mais
espessa fica a pele, e em pouco tempo
seria o oceano um olho cego, a água densa
de uma esfera, um gigante dobrado no seu leito de basalto