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sábado, 3 de maio de 2014

A campanha da vida

|Clara Henriques


“Aderiu à campanha dos pontos?”
Grita uma voz, quase máquina, quase nada
Sobre um balcão de um café.
Ninguém lhe liga mas todos lhe respondem:
- Solidão.
Ninguém lhe fez o convite
Mas ela chega e é mundo, é vida, é chão.

De todos os olhares
Que cruzam o meu
Nenhum que saiba ficar
Nenhum que saiba lutar
E é já manhã.

Grito conforme o passo que me assiste
E nada insiste
Na palavra vã.

Sobra a multidão
De um mundo então
E de quem tem de fazer dos dias:
“Já aderiu à campanha dos pontos?”
Para ganhar o pão.


E a resposta é Não.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Manchetes

|Clara Henriques

Não te conforto o desejo amarrado
Nem te dou as páginas humedecidas
Não sei vincar as golas ao recado
Às portas do teu quarto sempre despidas.

Não te quero em rasgos minguantes
Compassos que atropelam a ordem do dia
Nem te sei nas horas rasantes
Na pele que a tua mão sem querer dizia.

Não quero ser manhã e escurecer
No teu beijo traído entre o caos
Não quero a redenção para encher
Mil e uma manchetes nos jornais.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Desenhar a poesia

Entrevista a Luís Quintais
|Clara Henriques
Luís Quintais desenha a poesia como quem anuncia o que há de mais próximo do que é belo, do que é musica.
Neste "Depois da Música" acabado de editar, há um forte peso de memória, do mundo e das influências de que somos todos filhos. Deixemo-nos ficar nas palavras que se seguem.


Óscar Lopes escreveu sobre Eugénio de Andrade que os seus poemas são “um modo de realidade-esperança, uma esperança impensável, a não ser talvez em música e em poesia paramusical”. Que relação há entre a tua poesia e a música?
A música sempre foi uma influência decisiva. Curiosamente não apenas pela forma como isso é central na construção de um poema, na forma com ele soa, na intensidade expressiva que lhe encontro ou não, mas também no plano das ideias, se quisermos. A música não é apenas som organizado, é também ideias que encontram a sua expressão acústica, e que, nesse encontro, potenciam outras ideias ainda: as ideias que a poesia trabalha ou deve trabalhar. Depois há as homenagens a músicos que sempre me perseguiram. Vai de Monteverdi aos Blues do Delta e não fica por aí. E há mais. A música é uma das metáforas mais produtivas que conheço para compreender a nossa condição presente. Este Depois da música (2013) é sobre isso. Nós vivemos depois da música, depois do sentido, depois de Auschwitz. 
Dizes, a dada altura, que “a literatura é uma província da poesia”. Como habitam em ti uma e outra?
Eu não acho que a poesia seja literatura. A poesia está mais próxima de algo que é prévio à literatura. Aliás, a literatura é uma instituição e uma instituição agonizante, provavelmente já morta. Contrariamente ao que se diz por aí, a poesia continua, continuará sempre, enquanto houver linguagem e humanidade. Daí que a literatura seja somente uma província da literatura.
Ao longo do livro, percebemos que há uma forte influencia musical dos anos 80. De que forma é que esta sonoridade te influenciou enquanto autor?
Sim, muito. Eu vivi em Lisboa durante uma parte significativa da minha vida. Depois de ter chegado do «Ultramar», vivi em Lisboa até aos meus 27 anos. Ainda hoje a entendo como a minha cidade. É uma sombra em tudo o que escrevo, e uma memória de uma memória, também, porque pouco a pouco a minha imagem da cidade e da minha já remota juventude se vai apagando, reinventando, sendo outra, e outra ainda. E a década de oitenta vivia-a em Lisboa. A música desse período, é uma uma música disfórica, densa, talvez doente, mas urgente. Joy Division, anos oitenta, Lisboa, essa foi a minha juventude perdida.
As referências à biografia ou à memória surgem muitas vezes neste Depois da música. Que relação trazes com o passado?
Não é possível fugir à memória. Ela sitia-nos. Duração e escombro, é assim o passado. À medida que envelheço vai havendo cada vez mais passado. Em verdade, escreve-se para os mortos e para os vindouros. O presente não existe.
Como antropólogo achas melhor a divisão de tudo por disciplinas, províncias, continentes, a sistematização e o rótulo, ou antes pelo contrário?
Eu sou um antropólogo atípico. As diferenças e as separações são produtos históricos, realizações políticas. Não aprecio particularmente a axiologia. O meu pensamento é verdadeiramente nómada, ou é assim que me vejo ou gosto de ver. Deleuze tem sido uma influência importante nisso.
Vivemos numa época em que somos atropelados pelo que há de mais efémero ou, arrisco, superficial. Que lugar terá a palavra nesta era? Que lugar terá também a poesia?
A poesia é também uma resposta ao empobrecimento da linguagem e do humano. É aí que estamos. A poesia é uma forma de resistência. Onde há poder há resistência. É aí que estamos. É aí que estaremos sempre.
O que fica depois da música?

O mundo acabou há muito. Ficaram-nos as cinzas e o pó. Depois da música, ficou a poesia, malgré Adorno.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O cansaço precoce de quem tem de continuar

|Clara Henriques

Os dias são também espaços de cansaço e solidão. É muito maior a estrada da rotina do que as curvas de luz que se escrevem no caminho. Talvez por isso Rita cumprisse todos os dias os apertos do 711 que a levavam sempre ao mesmo destino, sempre com as mesmas caras, sempre a acentuar os dias exaustos. De vez em quando saía uma paragem antes da habitual, qual desvio no de sempre que a fazia mais leve e mais distante do emprego a recibos verdes ou dos 10 euros na conta a uma semana do fim do mês. Depois ia, Rossio dentro bebendo das gentes que não via mas que sabia comporem o fim-de-tarde. 29 anos e os pés arrastados, as mãos pálidas à sombra da ilusão.

Naquele dia conseguiu um lugar sentada. O 711 ia menos apertado e Rita deixou-se cair numa cadeira à janela. Chovia. O desenhar das poças erguia-se altivo e nenhuma voz se entendia na certa. Não sabe bem quando reparou no velho que se sentara a seu lado, mas o boné igual ao do Avô fê-la regressar das poças vazias e entrar dentro daquela viagem de uma forma diferente. O velho, personagem longínqua e vinda da ternura, espreitava o nada como quem pede para partir. Rita atreveu-se no seu colo num só trago de doçura. Por parecer o Avô já ido, pelo silêncio feito da confusão, pelas memórias que os dois não tinham. O velho sentiu-lhe o olhar. Enquanto na cabeça de Rita já se desenrolava poesia. Quantos anos teria o velho a desenhar-lhe as mãos ásperas? Quanta vida? Quanta culpa? Quanta miséria engalfinhada no que não se cumpriu? Que história o faria, ainda, ter a coragem de entrar naquele 711, num qualquer inverno de chuva? E que destino? E quanto Amor?

Conversaram uma vida. Trocaram batalhas, ensinaram-se uma e outra geração. E não uma única palavra, não uma única história. O autocarro travou na paragem antes e o velho arrastou-se na bengala até à porta e saiu, envolto numa qualquer missão carregada no que há de mais só. Ela deixou-se ficar, caída naquele lugar à janela que era agora de uma culpa imensa. Ela - quem devia ter tido coragem para sair. E continuar.

domingo, 3 de novembro de 2013

No horizonte de coisa nenhuma

|Clara Henriques


A falta de memória política é um compasso atroz no desenvolvimento de qualquer nação.

Acompanhar o que se tem escrito e dito sobre José Sócrates nesta última aparição que tem como desculpa um livro sobre tortura, é sentir que de facto há uma transversalidade amnésica que delineia todos os quadrantes da querida portugalidade. Pior do que isso. Há neste linguarejar quotidiano um terrível desprezo pela profundidade. Hoje em dia as manchetes desaguam em debates televisivos que por sua vez vestem os comentários domingueiros dos ex-futuros políticos, também eles actores deste circo. Inventam-se discursos, assumem-se culpados e andamos a viver o presente político tendo José Sócrates como personagem fulcral em todas as frentes. O que não é novo, como sabemos. Sócrates é, de facto, um animal político, uma personagem de amores e ódios e provocador de inquietações desmedidas, mas assumi-lo como único culpado do estado do país actualmente supera a infâmia. Não vou entrar no porquê ou no porque não. Já enfastia o que se tem dito e devia ser um dever cívico assumirmos a tal memória política e sermos obrigados a saber na ponta da língua a história que nos desenha a todos.

Vivemos cada vez mais isolados na absorção do imediato, perdemos a curiosidade pelo fundo do poço, pelos bastidores, pelo que vem de dentro. Somos filhos de uma superficialidade que nos impede de agarrar na informação e fazer qualquer coisa com ela. Bebemos os soudbytes que os jornais reproduzem, somos construção do que os alinhamentos editoriais nos impõe e vamos, lenta e repetidamente, construindo a nossa realidade à luz de qualquer coisa que nem nome tem.

Nos entretantos, um espaço imenso para o que pode ser uma boa assessoria política. Nos entretantos, um espaço imenso para albergar livros-tese, promover a heróis quem já dissemos odiar e reeleger os Cavacos desta vida.
As urnas são o mais cruel reflexo da amnésia política de que somos dotados. E tudo isto daria um excelente espectáculo de entretenimento, não fosse o terrível facto de nos atirar a todos para o horizonte de coisa nenhuma.

terça-feira, 4 de junho de 2013

"Um critério para avaliarmos aquilo em que nos transformamos"

Entrevista a Manuel Jorge Marmelo

|Clara Henriques


Segura no olhar a timidez onde se deixa acontecer quando o lá fora oferece movimento a mais. Desenha palavras como quem dança na realidade que a todos nos abraça e a verdade é que o encanto da sua escrita se faz de tempo. Jornalista e autor de mais de uma dezena de romances, Manuel Jorge Marmelo conta, em entrevista à Sítio, o Porto que traz dentro, as viagens de autocarro que agora vemos publicadas e as paragens a que a vida o obrigou. Para ler e reler.

Foste considerado, pela Porto Editora, uma das Personalidades Portuenses do séc. XX. Que responsabilidade acarreta esta nomeação de personalidade do Porto?
A inclusão no dicionário constitui um orgulho enorme, mas não acarreta responsabilidades maiores do que aquelas que já tinha em 2001, quando fui incluído nesse dicionário. Sinto-me responsável, isso sim, pelos meus filhos, por dar-lhes uma casa, comida, estabilidade, e tentei, durante 23 anos, ser um bom profissional do jornalismo. Mas não precisei de uma entrada num dicionário para estar consciente das minhas obrigações. Comecei a trabalhar com 15 anos num gabinete de contabilidade, entrei para o jornal Público aos 18, como estagiário, e fui pai aos 22. Aquilo que tenha sido capaz de fazer dependeu, sempre, da responsabilidade com que fosse capaz de crescer e aprender com quem sabia mais do que eu.

Por falar no Porto, é inevitável associar esta cidade ao que é o Manuel Jorge Marmelo. Nasceste e vives aqui. Que lugar tem o Porto na tua escrita?
O Porto é a minha casa, é onde tenho as minhas raízes, as minhas pessoas, os meus lugares e os meus livros. Inevitavelmente, o Porto e o modo de viver dos portuenses terá acabado por moldar a minha maneira de ser e, consequentemente, também aquilo que escrevo. Umas vezes mais às claras, outras vezes de forma mais disfarçada, o Porto está presente em quase todos os meus livros, é o cenário a partir do qual partem as caravelas da imaginação que me levaram a descobrir outras paragens, reais ou imaginadas.

Habituaste-nos, durante algum tempo, às tuas Crónicas do Autocarro que publicavas diariamente no blogue Teatro Anatómico. Agora é tempo de as lançar em livro, embora seja uma edição em formato electrónico. Porque não uma edição em papel?
O motivo é relativamente prosaico: algumas pessoas perguntavam-me, de vez em quando, por que não publicava as crónicas, mas nunca nenhuma editora mostrou interesse nisso. Quando resolvi equacionar a possibilidade de reunir as crónicas num livro, ainda ponderei a possibilidade de fazer uma edição de autor tradicional, em papel, mas, estando desempregado, pareceu-me que os custos que isso implicaria excediam o meu orçamento (e também a minha capacidade para rentabilizar o investimento). Optei, por isso, por fazer um livro electrónico, que apenas implicava o custo do meu trabalho de aprender a paginar os textos e as horas que gastei a fazê-lo.

Andar de autocarro pode ter tanto de poético como de hilariante. Que estímulos te fizeram agarrar este tema? Como começou este périplo das Crónicas do Autocarro?
Começou por acaso. Quando, há três anos e meio, a empresa em que trabalhava se mudou para a Baixa do Porto, onde é caro e difícil estacionar, optei por me deslocar de transportes públicos para o trabalho e, desse modo, fiquei em contacto com o mundo muito particular dos autocarros do Porto, as histórias e as personagens que os utilizam.
Logo desde a primeira viagem, e sem ter nada planeado, comecei a escrever pequenos apontamentos de viagem no blogue Teatro Anatómico, sem nenhuma pretensão, como um divertimento, ainda que, a dado passo, essa realidade se tivesse cruzado com o romance que estava a escrever, "Uma Mentira Mil Vezes Repetida". O livro, em que comecei a trabalhar antes do meu regresso aos autocarros, tinha um narrador que inventava um livro falso enquanto circulava nos transportes públicos, pelo que, a dada altura, me pareceu adequado utilizar as crónicas como ambiente do romance. Daquelas, iniciais, que aproveitei para o romance, só a primeira aparece agora no livro das Crónicas do Autocarro, pelo carácter inaugural que tem.
Mas depois de o romance estar terminado continuei a escrever esses apontamentos e fi-lo até Outubro do ano passado, altura em que fui despedido e deixei de ter de me deslocar para trabalhar. Creio que o fiz sobretudo como um modo de evasão e, a partir de determinada altura, como um jogo literário que ia tecendo com os outros passageiros sem que eles soubessem disso, mas também como forma de fixar o modo como as pessoas comuns avaliam a realidade e reflectem em que vivemos todos.

Estas crónicas revelaram-se um sucesso e creio que não foi uma coisa que esperasses. Uma das pessoas que as seguia com atenção era o Manuel António Pina. O que se poderá encontrar do Pina no escritor? E no Jorge?
O sucesso é muitíssimo relativo, neste caso. Sei que o Pina apreciava as crónicas, falava-me delas quando nos encontrávamos ou falávamos ao telefone, mas, para teres uma ideia, em cerca de um mês só foram vendidos 23 exemplares desse "sucesso". Grande sucesso, não?
Quanto à segunda parte da questão, nem sei muito bem o que responder. O Pina era um ser humano irrepetível e um escritor notável. Guardo para mim, sobretudo, o seu exemplo de humildade, humanidade, civismo, ironia e seriedade, e aquela frase em que ele perguntava o que acharia de nós aquele que fomos quando tínhamos 20 anos. É um critério excepcional para avaliarmos aquilo em que nos transformamos com o passar do tempo. Espero nunca me esquecer disto.

És jornalista e autor de uma dezena de romances, entre outras coisas. Como é o teu processo criativo? A ideia, as primeiras linhas, as personagens, o sentido da história...
O processo é muito variado — embora exista quase sempre uma ideia inicial e pouco definida que depois vai germinando aos poucos — e tem dependido bastante do tempo que me restava depois das obrigações familiares e profissionais. Agora que estou desempregado posso dispor de mais tempo, de uma forma mais regular, e isso é um desafio enorme. Deixei de ter desculpas para errar. Se, como dizem os meus editores, os meus livros continuarem a ter poucos leitores, vou ter, se calhar, de me convencer que o problema é meu; dedicar-me a outra coisa, bricolage ou bordados, ou então  escrever sem expectativas de publicar e de ser lido.


Saiu este mês a 10ª edição do teu romance “As mulheres deviam vir com livro de instruções”. O que é que não percebes nas mulheres que gostarias de ver explicado num livro de instruções?
É uma pergunta antiga, para a qual tenho uma resposta sempre pronta: o autor da frase do título é o senhor Madureira, o personagem do livro, não sou eu. Não que as mulheres não sejam, também para mim, e passe a generalização, uma entidade colectiva misteriosa e uma maravilhosa perplexidade. Mas o encanto feminino também reside aí, no que não se percebe e se vai desocultando aos poucos, às vezes a duras penas. Pela minha parte, portanto, dispenso o livro de instruções. Mas creio que esse romance, com os seus defeitos e virtudes, vai um pouco para além do carácter apelativo do título (que, bem sei, me garantiu leitores que nunca antes tinha tido e que não voltei a ter depois). O livro é também um retrato de uma época e, se calhar, parte da explicação para as dificuldades que hoje vivemos.

                                   
Tens uma crónica muito bonita - a “Morte”, que terminas dizendo que não sabes “onde escondes os teus cadáveres”. O que trazes dentro, neste preciso momento da tua vida?
Neste momento trago dentro a necessidade de encontrar uma nova forma de vida, de ganhar a vida tão honestamente como até aqui. Gostava que a solução pudesse passar pela literatura, mas, neste momento, essa é uma possibilidade tão quimérica e improvável que, na verdade, começo a ponderar, isso sim, que outras coisas posso ser capaz de fazer para além do jornalismo (do qual me sinto, hoje, bastante órfão, apesar das muitas coisas que nele aprendi; na verdade, aprendi quase tudo no jornalismo, onde tive a sorte de entrar aos 18 anos e de ter tido como mestres pessoas que tinham uma ideia do que podia e devia ser o jornalismo, e uma ética; devo-lhes quase tudo).

E também trago dentro a satisfação de ver os meus filhos a transformarem-se em pessoas muito bonitas e generosas, bem formadas e responsáveis. Tenho a certeza de que vão ser pessoas muito melhores do que eu tenho sido. Isto é o melhor presente que a vida me deu. E já ninguém mo tira.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A poesia que nos escolhe


Entrevista a Ruth Ministro

|Clara Henriques



“Todos os poemas são feitos de mar”.

O teu último livro, Dos intervalos das horas – 2011, divide-se em 4 momentos: a madrugada, a manhã, a noite e, por fim, os intervalos das horas. Nasce-te poesia em todas as horas?
De alguma forma, a poesia faz parte dos meus dias e acaba por estar presente em todas as horas, quer eu queira, quer não. A minha paixão pela poesia, como é aliás apanágio das paixões, é algo que não posso controlar, não depende de mim, está para além do consciente e do racional e das horas e dos lugares. Não é que esteja a pensar em poesia a toda a hora, também não é assim, mas há uma propensão para encontrar no quotidiano o seu quê de poesia, embora nem sempre isso queira dizer que consigo escrever um poema. Eu na verdade acredito que é a poesia que nos escolhe para a escrever e não o contrário. A inspiração é qualquer coisa que toca o divino, vem não se sabe de onde e atinge-nos como um raio de luz, independentemente da hora do dia ou da tarefa que estamos a desempenhar no momento, essa até pode ser tão ou mais ridícula e pouco poética como fazer a cama ou lavar a loiça… por vezes é uma palavra que surge, um verso que se desenha em torno dela, outras vezes é algo que vemos e que forma uma ideia poética, depois só temos que conseguir guardar essa inspiração até ao momento de escrever o poema.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O outro lado da chuva

|Clara Henriques


Emprestei-te à vida
e foi sem querer.
Esqueci-me que as manhãs seriam
depois desertas
que não mais o banal
e o selecto.

Emprestei-te ao
décimo
andar
da solidão,
esquecendo-me de quem mora
nos patamares
do silêncio.

Entreguei-nos à cidade
em magnólias ainda
por acontecer.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Uma viagem pela palavra


Entrevista a João Luís Barreto Guimarães

|Clara Henriques
    

Em toda a viagem há um momento de pausa. Um lugar onde se encosta a estrada já percorrida e se encara de frente o que há-de vir. Em todo o poema há uma vírgula por mudar, uma sílaba por fazer. Também João Luís Barreto Guimarães sentiu que era altura de parar, olhar e voltar a “re-parar”. É esta a viagem que surge agora relatada no seu mais recente livro “você está aqui”, que chega às livrarias no próximo dia 25.
À conversa com a Revista Sítio, o autor confessa estar numa fase em que se sente, cada vez mais, dentro da vida.
É talvez este o tempo de chegar.