|Paulo Bandeira Faria
Agora que da vida conheces o valor
Sombra e vento numa tarde de calor
Agora que da vida conheces o valor
A criança dando-te a mão junto à água fria
Agora que da vida conheces o valor
Uma lareira castanhas neve e jeropiga
Agora que da vida conheces o valor
O livro o corpo o prazer da partida
Não te despeças e vive-a com ardor
Pois a morte disso tudo te deu justo valor
Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Bandeira Faria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Bandeira Faria. Mostrar todas as mensagens
sábado, 27 de abril de 2013
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Garanto-te estar bem e que não temo
|Paulo Bandeira Faria
Garanto-te estar bem e que não temo
Mas durante a noite levantas-te
E deparas com o que me tolhe
Repetindo que estou bem abraço-te
E levo-te para a cama sobre os meus passos
Tu de novo a bebé anterior aos medos
Mas nos meandros da minha insónia
Por muito que ambos o silenciemos
Descobres o que escondo nos olhos
Garanto-te estar bem e que não temo
Mas durante a noite levantas-te
E deparas com o que me tolhe
Repetindo que estou bem abraço-te
E levo-te para a cama sobre os meus passos
Tu de novo a bebé anterior aos medos
Mas nos meandros da minha insónia
Por muito que ambos o silenciemos
Descobres o que escondo nos olhos
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Há...
|Paulo Bandeira Faria
Há um banco na praça Sultan Hammet, frente à Mesquita Azul
Muito perto do obelisco egípcio e do edifício dos correios
Que tem um coração onde pus o meu nome
Deixando espaço livre para outro.
Há um sítio no palácio Topkapi onde se vê o Bósforo
A torre Galata e os barcos a entrarem
E as casas de madeira e os laivos muito azuis
Das águas em manhãs intensas.
Há velhas árvores solitárias em zonas do Sahel
Perto de aldeias onde os conhecimentos antigos
Perduram nos nossos espantos.
Há ilhas cheirando a especiarias, mercados coloridos
Salas escuras com dores de escravos e praias
De ondas verdes e espumas amarelas
Que encrespam a minha pele à espera que a aqueçam.
Há selvas fechadas e quartos trancados e varandas sobre
Os sons mais suspeitos do rio e galopes
De tempestades que se aproximam para simplesmente
Aconchegarem o meu sono noutros braços.
Há aeroportos e autoestradas sem fim
Portos piscatórios com pubs quentes e cerveja morna
E sidra fria e café aromático e cigarros compartilhados.
Há um sofá e projetos delineados em noites
De televisão apagada. Há desejo constante
No sofá, na banca da cozinha, na cama, no banco de trás
Do carro, no escritório, num prado verdejante à beira
De sinuosas escarpas. Há casas rurais frente ao oceano
E manhãs passadas na cama, almoços brindando a embriaguez
Do vinho tinto, tardes de passos lentos à chuva, noites de
Loucuras repetidas e nunca consumidas
Dure-se os anos que viva. Há
Histórias nos altos dos Andes e nos vales dos Himalaias,
Nas ilhas do Índico e nos comboios do Rajastan,
Nas estepes da Ásia e nas ruas de Nova Iorque,
Nos fiordes da Noruega e nos mágicos lagos da Irlanda,
Nas ventosas praias da Dinamarca e nos plácidos hotéis do sul de Espanha,
Nos crepúsculos dos dias de trabalho e nas noites de copos
Da Galiza com amigos, e nas rias onde velejo
Vendo nos contornos dos montes um rosto conhecido.
Há dias de tristeza em que o outro não desiste
E de alegria em que o outro se ri
Da nossa alegria esfuziante. Há dias de monotonia
Em que o pequeno-almoço é levado à cama
E ambos ficam enroscados a ler livros guardados há muito
Apreciando bordados, olhando números e letras
Organizarem-se num sentido definitivo
Por simplesmente estar a ser palmilhado.
Há momentos em que o mundo se ergue contra
E o amor apaixonado se ergue mais ainda e grita
“É meu, vão-se lixar todos
Ninguém me rouba este sonho!”
Há contas feitas em conjunto, poupanças dialogadas
Sensibilidades respeitadas e gestos discutidos
Liberdades tão mais belas porque decididas em uníssono
E infinita compreensão. Há hábitos perdidos
Por sentimentos descobertos para que duas existências
Sejam a materialização uma da outra.
Há estradas sem horizonte e motéis perdidos
Onde dois corpos se reencontram
No apaixonado conhecimento do que é seu.
Há Veneza e coffee-shops de Amsterdão onde fumarei
Flores de ilusão para nos seus contornos
Te ver outra ainda, e ramos de flores oferecidas
Em ruelas bordejadas por canais.
Há museus, galerias e lojas e restaurantes orientais
Bares incomuns e trajetos de silêncio
Em que um dorme para o outro estar acordado
E logo se encostar a descansar para o outro
O conduzir à incógnita de um novo lugar
Na curva da estrada, por detrás da janela florida
Onde lençóis de linho branco relembrarão
A contrastada evidência do negro e do vermelho.
Há o regresso ao que não se gosta com a ternura
De que um preço que se paga repetidamente
Só vale a pena pela pessoa da sua vida.
É esse nome que quero no banco da praça Sultan Hammet,
É esse o corpo que quero na cama de ilhas do Índico
No sofá de uma pequena casa de madeira
Nas noites tristes da velhice
Nas tardes alegres dos sucessos
Nas manhãs desencantadas pelas dúvidas
E nelas sempre o apoio e a compreensão que tem sentido
Ser mimado e vivido em conjunto.
São esses dois que quero pelas poeirentas pistas do Sahel
E nas resguardadas praias do nordeste do Brasil
E nas eternas letras dos poemas
E nas dedicatórias dos livros
E nos quadros mais bonitos
E no desinteresse do trabalho
Com pressa para se regressar a casa
Trancar a porta e dizer
“Aqui ninguém entra! ”
E quero esse rosto a ver o meu rosto enquanto velejo
E a limpar o meu rosto frente às eternas neves do Kilimanjaro
E dos perdidos vales do Tibete, a caminho de Lhassa.
E quero esse rosto junto ao meu em praias de águas turquesa
E cafés com vidros molhados pela chuva impenitente
E na almofada com o meu aroma
E no chuveiro onde a chamo
Para que venha sentir o mesmo calor que eu.
E quero esse rosto presente no dia em que sonho o que for
Um filho, uma filha, um livro, uma exposição, ou outro projeto
De qualquer tipo de viagem,
Sensual, intelectual ou geográfica.
E quero ver nele o reflexo do arco-íris das minhas emoções
E ver nele o espectro das minhas recordações
E nele a encantadora confiança de todas as exclusividades.
Por todos os sítios em que andei
Procurei partes de mim e do que sou e poderia ser,
Mas fi-lo sempre com a ilusão de que outra pessoa
Poderia vir a refazê-los ao meu lado.
Se és tu, coloca nesse destino o teu nome
No dia em que cada um dos dois achar ter chegado
O momento certo para vivê-lo.
No dia em que o teu destino tenha também o sentimento
Destes versos. No dia em que
Duas pessoas tenham a certeza de que devem deixar
Uma pele antiga para luzir outra nova
Entrevista e intensamente descoberta e sentida
Numa noite fria, numa cama de solteiro, num quarto
Onde alguém amou morrer porque sentia renascer
Neles outra existência.
O dia dos outros dias partirá quando menos se espera
E o nosso será decidido em conjunto. Já se sabe o horizonte
Já se conhecem muitos dos obstáculos. Mas todos
Serão superados se acreditarem que
Há locais pelo mundo e pelo tempo
Que desde sempre
E para sempre
Lhes estiveram destinados.
Há um banco na praça Sultan Hammet, frente à Mesquita Azul
Muito perto do obelisco egípcio e do edifício dos correios
Que tem um coração onde pus o meu nome
Deixando espaço livre para outro.
Há um sítio no palácio Topkapi onde se vê o Bósforo
A torre Galata e os barcos a entrarem
E as casas de madeira e os laivos muito azuis
Das águas em manhãs intensas.
Há velhas árvores solitárias em zonas do Sahel
Perto de aldeias onde os conhecimentos antigos
Perduram nos nossos espantos.
Há ilhas cheirando a especiarias, mercados coloridos
Salas escuras com dores de escravos e praias
De ondas verdes e espumas amarelas
Que encrespam a minha pele à espera que a aqueçam.
Há selvas fechadas e quartos trancados e varandas sobre
Os sons mais suspeitos do rio e galopes
De tempestades que se aproximam para simplesmente
Aconchegarem o meu sono noutros braços.
Há aeroportos e autoestradas sem fim
Portos piscatórios com pubs quentes e cerveja morna
E sidra fria e café aromático e cigarros compartilhados.
Há um sofá e projetos delineados em noites
De televisão apagada. Há desejo constante
No sofá, na banca da cozinha, na cama, no banco de trás
Do carro, no escritório, num prado verdejante à beira
De sinuosas escarpas. Há casas rurais frente ao oceano
E manhãs passadas na cama, almoços brindando a embriaguez
Do vinho tinto, tardes de passos lentos à chuva, noites de
Loucuras repetidas e nunca consumidas
Dure-se os anos que viva. Há
Histórias nos altos dos Andes e nos vales dos Himalaias,
Nas ilhas do Índico e nos comboios do Rajastan,
Nas estepes da Ásia e nas ruas de Nova Iorque,
Nos fiordes da Noruega e nos mágicos lagos da Irlanda,
Nas ventosas praias da Dinamarca e nos plácidos hotéis do sul de Espanha,
Nos crepúsculos dos dias de trabalho e nas noites de copos
Da Galiza com amigos, e nas rias onde velejo
Vendo nos contornos dos montes um rosto conhecido.
Há dias de tristeza em que o outro não desiste
E de alegria em que o outro se ri
Da nossa alegria esfuziante. Há dias de monotonia
Em que o pequeno-almoço é levado à cama
E ambos ficam enroscados a ler livros guardados há muito
Apreciando bordados, olhando números e letras
Organizarem-se num sentido definitivo
Por simplesmente estar a ser palmilhado.
Há momentos em que o mundo se ergue contra
E o amor apaixonado se ergue mais ainda e grita
“É meu, vão-se lixar todos
Ninguém me rouba este sonho!”
Há contas feitas em conjunto, poupanças dialogadas
Sensibilidades respeitadas e gestos discutidos
Liberdades tão mais belas porque decididas em uníssono
E infinita compreensão. Há hábitos perdidos
Por sentimentos descobertos para que duas existências
Sejam a materialização uma da outra.
Há estradas sem horizonte e motéis perdidos
Onde dois corpos se reencontram
No apaixonado conhecimento do que é seu.
Há Veneza e coffee-shops de Amsterdão onde fumarei
Flores de ilusão para nos seus contornos
Te ver outra ainda, e ramos de flores oferecidas
Em ruelas bordejadas por canais.
Há museus, galerias e lojas e restaurantes orientais
Bares incomuns e trajetos de silêncio
Em que um dorme para o outro estar acordado
E logo se encostar a descansar para o outro
O conduzir à incógnita de um novo lugar
Na curva da estrada, por detrás da janela florida
Onde lençóis de linho branco relembrarão
A contrastada evidência do negro e do vermelho.
Há o regresso ao que não se gosta com a ternura
De que um preço que se paga repetidamente
Só vale a pena pela pessoa da sua vida.
É esse nome que quero no banco da praça Sultan Hammet,
É esse o corpo que quero na cama de ilhas do Índico
No sofá de uma pequena casa de madeira
Nas noites tristes da velhice
Nas tardes alegres dos sucessos
Nas manhãs desencantadas pelas dúvidas
E nelas sempre o apoio e a compreensão que tem sentido
Ser mimado e vivido em conjunto.
São esses dois que quero pelas poeirentas pistas do Sahel
E nas resguardadas praias do nordeste do Brasil
E nas eternas letras dos poemas
E nas dedicatórias dos livros
E nos quadros mais bonitos
E no desinteresse do trabalho
Com pressa para se regressar a casa
Trancar a porta e dizer
“Aqui ninguém entra! ”
E quero esse rosto a ver o meu rosto enquanto velejo
E a limpar o meu rosto frente às eternas neves do Kilimanjaro
E dos perdidos vales do Tibete, a caminho de Lhassa.
E quero esse rosto junto ao meu em praias de águas turquesa
E cafés com vidros molhados pela chuva impenitente
E na almofada com o meu aroma
E no chuveiro onde a chamo
Para que venha sentir o mesmo calor que eu.
E quero esse rosto presente no dia em que sonho o que for
Um filho, uma filha, um livro, uma exposição, ou outro projeto
De qualquer tipo de viagem,
Sensual, intelectual ou geográfica.
E quero ver nele o reflexo do arco-íris das minhas emoções
E ver nele o espectro das minhas recordações
E nele a encantadora confiança de todas as exclusividades.
Por todos os sítios em que andei
Procurei partes de mim e do que sou e poderia ser,
Mas fi-lo sempre com a ilusão de que outra pessoa
Poderia vir a refazê-los ao meu lado.
Se és tu, coloca nesse destino o teu nome
No dia em que cada um dos dois achar ter chegado
O momento certo para vivê-lo.
No dia em que o teu destino tenha também o sentimento
Destes versos. No dia em que
Duas pessoas tenham a certeza de que devem deixar
Uma pele antiga para luzir outra nova
Entrevista e intensamente descoberta e sentida
Numa noite fria, numa cama de solteiro, num quarto
Onde alguém amou morrer porque sentia renascer
Neles outra existência.
O dia dos outros dias partirá quando menos se espera
E o nosso será decidido em conjunto. Já se sabe o horizonte
Já se conhecem muitos dos obstáculos. Mas todos
Serão superados se acreditarem que
Há locais pelo mundo e pelo tempo
Que desde sempre
E para sempre
Lhes estiveram destinados.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
E subitamente descobres que te encontras
|Paulo Bandeira Faria
E subitamente descobres que te encontras
Gravemente doente
Já no estádio 4 de uma escala de 1 a 4
Por uma vez estás entre os primeiros
Na linha da frente
Para o improvável milagre, ou o desastre
Dão-te entre 1 e 5% de possibilidades
De sobreviveres aos próximos 5 anos
E o teu filho + novo ainda só tem 4
Derrubar-te-ás, quem sabe, antes dos 50
Depende como reajas ao tratamento
Do que já tens e de novas metástases
É assim, paulo, o teu fim, pensa-o agora
Porque a palavra morte tornou-se presente
Não pertence já a um futuro + ou – abstrato
E subitamente descobres que te encontras
Gravemente doente
Já no estádio 4 de uma escala de 1 a 4
Por uma vez estás entre os primeiros
Na linha da frente
Para o improvável milagre, ou o desastre
Dão-te entre 1 e 5% de possibilidades
De sobreviveres aos próximos 5 anos
E o teu filho + novo ainda só tem 4
Derrubar-te-ás, quem sabe, antes dos 50
Depende como reajas ao tratamento
Do que já tens e de novas metástases
É assim, paulo, o teu fim, pensa-o agora
Porque a palavra morte tornou-se presente
Não pertence já a um futuro + ou – abstrato
terça-feira, 23 de abril de 2013
No dia em que morri…
|Paulo Bandeira Faria
No dia em que morri
Um operário aqueceu as mãos numa fogueira antes de ir trabalhar
Duas pombas procuraram o sol para descansar
Uma nuvem só partiu sozinha
E uma árvore só quebrou a monotonia
De um horizonte gelado.
No dia em que morri
Uma ria esteve intensamente azul pela manhã
Mais cinzenta pela tarde
E à noite uma miríade de luzes aconchegadas no sopé da colina
Esparziram-se pelo espelho negro da água até esta margem.
No dia em que morri
Uma senhora bebeu um café já frio
À espera do amante que não veio.
Uma amiga tinha-a confrontado com esta pergunta:
– Já enganaste o teu marido?
– Já.
– E então?
– Da primeira, chorei; na segunda, não; na terceira, ri-me.
No dia em que eu morri
Ela saiu do café morta
Por chegar ao umbral da sua casa
E aí poder chorar livremente
Antes de entrar
E confrontar-se com um marido
Que nunca a beija.
No dia em que ela morreu, morremos ambos.
Um pai levou um filho pelas ruas num triciclo
Empurrando-o e sorrindo por o ver agarrar tão bem o volante
Um estudante olhou uma vez mais o exame
Aprovado, diante do pequeno-almoço que a mãe
Lhe preparou tão contente
De vê-lo com o curso quase terminado.
No dia em que morri nasceram muitas crianças
E outras mais podiam ter nascido, uma das quais
Com os meus olhos e o meu sorriso.
Na manhã desse dia
Muito longe, um homem enganou uma mulher que lhe vendeu
Um maço de tabaco numa rua cheia de lixo e movimento
Exigindo-lhe o troco do valor de uma nota que não lhe tinha dado.
Era fumador inveterado.
Na tarde desse dia, ia eu a conduzir,
O homem voltou a dar 20 à espera de exigir troco de 50,
Mas a vendedora só largou o maço depois
De lhe exigir que dissesse o valor da nota em voz alta.
Deu-lhe então o troco de 20 e o maço
(fazia eu uma curva fora de mão)
E disse-lhe:
– Quando o tiver terminado, estará morto.
O homem riu-se e acendeu o primeiro cigarro
Mas à medida que avançava o dia em que eu morri
Cigarro a cigarro, aumentava nele o medo
E logo um pavor irracional, e logo um pânico injustificado
Que lhe arrancava o sorriso cínico dos lábios
E a segurança de qualquer afirmação.
Na tarde do dia em que morri
Num café de idosos serviram uma água a um rapaz
Que telefonava para um hotel em frente.
O frio das pedras suportava
Eternidades de intempéries. Raios de luz
Repetiam-se em infinitas esperas
Uma cama esperava por ser desfeita
Um corpo esperava
Por beijos num canto da boca
E logo noutro canto da boca
E logo no centro da boca
Numa entrega sem restrições.
Na tarde do dia em que morri
Uma música de P. J. Harvey chamada One line
Tocou pela primeira vez nas rádios
Mas eu percebi On line e pensei escrever um texto dramático
Que deixarei para o início de outra vida.
No fim da tarde em que morri
Pela primeira vez telefonei para a rádio a pedir
Que a repetissem
E subi escadas até ao número de um quarto
Batendo duas vezes à porta
E a porta aberta trouxe a luz que já faltava
Ao fim da tarde desse dia em que morri
Contigo
Pela primeira vez.
– Desde então tenho morrido por ti todos os dias
Sem nunca saber se alguma vez nascerei para ti um dia...
Diria a mulher ao marido que nunca a beija
Porque já não pode dizê-lo ao amante que não veio
E um homem perdido
Atirou o maço com três cigarros à baía
E a chorar procurou a noite toda
Essa mesma noite em que eu morri contigo várias vezes
Para pedir a alguém que aceitasse o troco roubado no dia anterior.
Durou quanto tempo?
Durou quanto tempo a memória da noite em que
Em ti
Morri?
Durou quanto tempo a procura do homem
Desesperado por um cigarro,
Que na manhã seguinte foi encontrado
Numa rua com lixo e quase sem movimento,
Ao som de One line de P. J. Harvey,
Por uma humilde vendedora de cigarros avulso
E maços para os mais endinheirados
– ou os que já nada tinham a perder –
Com uma facada nas costas?
A noite em que morri
Uma infinidade de vezes
Matou-nos uma infinidade de vezes, cigarro a cigarro
Em impotências, equívocos e mentiras,
Sem noites em que chorasses comigo e outras em que te risses
Sem, simplesmente.
Passou um mês. Quantas vidas vivemos desde então?
Quantos fomos e sonhámos ser
Desde a manhã em que o operário começou o dia aquecendo as mãos
E terminou com alguém percorrendo as ruas em busca de perdão
Recebendo apenas uma navalhada
Longe, longe, mais longe que nós
On Line?
Um dia perguntaram-me:
– Quando sabemos que um poema deve terminar?
Na altura respondi:
– Quando está tudo dito.
Não está certo, vejo-o agora: um poema como este termina
Quando temos a certeza absoluta
De que nada está concluído
E tudo o que foi dito foram dúvidas.
Não saberei nunca quando termina este poema
Mas garanto-te que a recordação da noite
Em que contigo, em ti e por ti morri
Permanecerá para sempre.
No dia em que morri
Um operário aqueceu as mãos numa fogueira antes de ir trabalhar
Duas pombas procuraram o sol para descansar
Uma nuvem só partiu sozinha
E uma árvore só quebrou a monotonia
De um horizonte gelado.
No dia em que morri
Uma ria esteve intensamente azul pela manhã
Mais cinzenta pela tarde
E à noite uma miríade de luzes aconchegadas no sopé da colina
Esparziram-se pelo espelho negro da água até esta margem.
No dia em que morri
Uma senhora bebeu um café já frio
À espera do amante que não veio.
Uma amiga tinha-a confrontado com esta pergunta:
– Já enganaste o teu marido?
– Já.
– E então?
– Da primeira, chorei; na segunda, não; na terceira, ri-me.
No dia em que eu morri
Ela saiu do café morta
Por chegar ao umbral da sua casa
E aí poder chorar livremente
Antes de entrar
E confrontar-se com um marido
Que nunca a beija.
No dia em que ela morreu, morremos ambos.
Um pai levou um filho pelas ruas num triciclo
Empurrando-o e sorrindo por o ver agarrar tão bem o volante
Um estudante olhou uma vez mais o exame
Aprovado, diante do pequeno-almoço que a mãe
Lhe preparou tão contente
De vê-lo com o curso quase terminado.
No dia em que morri nasceram muitas crianças
E outras mais podiam ter nascido, uma das quais
Com os meus olhos e o meu sorriso.
Na manhã desse dia
Muito longe, um homem enganou uma mulher que lhe vendeu
Um maço de tabaco numa rua cheia de lixo e movimento
Exigindo-lhe o troco do valor de uma nota que não lhe tinha dado.
Era fumador inveterado.
Na tarde desse dia, ia eu a conduzir,
O homem voltou a dar 20 à espera de exigir troco de 50,
Mas a vendedora só largou o maço depois
De lhe exigir que dissesse o valor da nota em voz alta.
Deu-lhe então o troco de 20 e o maço
(fazia eu uma curva fora de mão)
E disse-lhe:
– Quando o tiver terminado, estará morto.
O homem riu-se e acendeu o primeiro cigarro
Mas à medida que avançava o dia em que eu morri
Cigarro a cigarro, aumentava nele o medo
E logo um pavor irracional, e logo um pânico injustificado
Que lhe arrancava o sorriso cínico dos lábios
E a segurança de qualquer afirmação.
Na tarde do dia em que morri
Num café de idosos serviram uma água a um rapaz
Que telefonava para um hotel em frente.
O frio das pedras suportava
Eternidades de intempéries. Raios de luz
Repetiam-se em infinitas esperas
Uma cama esperava por ser desfeita
Um corpo esperava
Por beijos num canto da boca
E logo noutro canto da boca
E logo no centro da boca
Numa entrega sem restrições.
Na tarde do dia em que morri
Uma música de P. J. Harvey chamada One line
Tocou pela primeira vez nas rádios
Mas eu percebi On line e pensei escrever um texto dramático
Que deixarei para o início de outra vida.
No fim da tarde em que morri
Pela primeira vez telefonei para a rádio a pedir
Que a repetissem
E subi escadas até ao número de um quarto
Batendo duas vezes à porta
E a porta aberta trouxe a luz que já faltava
Ao fim da tarde desse dia em que morri
Contigo
Pela primeira vez.
– Desde então tenho morrido por ti todos os dias
Sem nunca saber se alguma vez nascerei para ti um dia...
Diria a mulher ao marido que nunca a beija
Porque já não pode dizê-lo ao amante que não veio
E um homem perdido
Atirou o maço com três cigarros à baía
E a chorar procurou a noite toda
Essa mesma noite em que eu morri contigo várias vezes
Para pedir a alguém que aceitasse o troco roubado no dia anterior.
Durou quanto tempo?
Durou quanto tempo a memória da noite em que
Em ti
Morri?
Durou quanto tempo a procura do homem
Desesperado por um cigarro,
Que na manhã seguinte foi encontrado
Numa rua com lixo e quase sem movimento,
Ao som de One line de P. J. Harvey,
Por uma humilde vendedora de cigarros avulso
E maços para os mais endinheirados
– ou os que já nada tinham a perder –
Com uma facada nas costas?
A noite em que morri
Uma infinidade de vezes
Matou-nos uma infinidade de vezes, cigarro a cigarro
Em impotências, equívocos e mentiras,
Sem noites em que chorasses comigo e outras em que te risses
Sem, simplesmente.
Passou um mês. Quantas vidas vivemos desde então?
Quantos fomos e sonhámos ser
Desde a manhã em que o operário começou o dia aquecendo as mãos
E terminou com alguém percorrendo as ruas em busca de perdão
Recebendo apenas uma navalhada
Longe, longe, mais longe que nós
On Line?
Um dia perguntaram-me:
– Quando sabemos que um poema deve terminar?
Na altura respondi:
– Quando está tudo dito.
Não está certo, vejo-o agora: um poema como este termina
Quando temos a certeza absoluta
De que nada está concluído
E tudo o que foi dito foram dúvidas.
Não saberei nunca quando termina este poema
Mas garanto-te que a recordação da noite
Em que contigo, em ti e por ti morri
Permanecerá para sempre.
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Quando o silêncio te salva das tuas palavras
|Paulo Bandeira Faria
Quando o silêncio te salva das tuas palavras
Até seres pura contemplação
Quando o silêncio revela em ti os sons do teu corpo
Sussurrando que – para tua surpresa – ainda estás vivo
Quando o silêncio se introduz pelas frinchas do vento
Ou quando no silêncio descobres a nova dimensão
Da dor tão grande que sentes, então sabes
Que o silêncio existe porque já o levas dentro
Quando no silêncio esqueces o tempo
Quando nos teus pesadelos caem dentes
Quando as árvores entre a bruma lembram fantasmas sem luz
Quando a Jesus queres dar descanso descendo-O da cruz
Quando o melhor de ti não apazigua
Nem o martírio da tua noite nem a de ninguém
Quando os teus trajetos se tornam indefinidos, então vês
Que o silêncio existe porque já o levas dentro
Não é o mundo todo que te rodeia em silêncio
Tu é que já és ao silêncio do mundo alheio
Quando o silêncio te salva das tuas palavras
Até seres pura contemplação
Quando o silêncio revela em ti os sons do teu corpo
Sussurrando que – para tua surpresa – ainda estás vivo
Quando o silêncio se introduz pelas frinchas do vento
Ou quando no silêncio descobres a nova dimensão
Da dor tão grande que sentes, então sabes
Que o silêncio existe porque já o levas dentro
Quando no silêncio esqueces o tempo
Quando nos teus pesadelos caem dentes
Quando as árvores entre a bruma lembram fantasmas sem luz
Quando a Jesus queres dar descanso descendo-O da cruz
Quando o melhor de ti não apazigua
Nem o martírio da tua noite nem a de ninguém
Quando os teus trajetos se tornam indefinidos, então vês
Que o silêncio existe porque já o levas dentro
Não é o mundo todo que te rodeia em silêncio
Tu é que já és ao silêncio do mundo alheio
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Marta Tchizúri
|Paulo Bandeira Faria
Na altura já escrevia e ela
dizia-me: Não percas tempo com isso.
Então, dava-me a mão e levava-me do fim até ao início. Conseguia-o num espaço
de tempo que nunca lhe bastava, mas a mim me deixava exausto, lavado em suor e
a tremer. Depois descíamos até à rua e íamos a uma esplanada frente ao mar
beber uma cerveja atrás de outra e comer marisco. Aos garotos que se
aproximavam, ela enxotava com palavras que nunca entendi. As águas espalhavam
destroços pela praia e as palmeiras estavam pintadas de branco até meio, creio
eu que para não subirem os bichos. Não sei. Nunca entendi isto – eu estava aqui
apenas de passagem.
O dono da empresa tinha-me dito: Se fores até lá tratar da barragem, sobes
mais depressa que os outros. Aquilo é esquisito, mas tu tens cuidado, não vás
para a cama sem protecção e vais ver que voltas inteiro. Foi isso que
disse. E acrescentou: Para mais, vamos
pagar-te em dólares e ali és um rei. Que te parece?
Pareceu-me bem.
Subscrever:
Mensagens (Atom)