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domingo, 22 de dezembro de 2013

Desenhar a poesia

Entrevista a Luís Quintais
|Clara Henriques
Luís Quintais desenha a poesia como quem anuncia o que há de mais próximo do que é belo, do que é musica.
Neste "Depois da Música" acabado de editar, há um forte peso de memória, do mundo e das influências de que somos todos filhos. Deixemo-nos ficar nas palavras que se seguem.


Óscar Lopes escreveu sobre Eugénio de Andrade que os seus poemas são “um modo de realidade-esperança, uma esperança impensável, a não ser talvez em música e em poesia paramusical”. Que relação há entre a tua poesia e a música?
A música sempre foi uma influência decisiva. Curiosamente não apenas pela forma como isso é central na construção de um poema, na forma com ele soa, na intensidade expressiva que lhe encontro ou não, mas também no plano das ideias, se quisermos. A música não é apenas som organizado, é também ideias que encontram a sua expressão acústica, e que, nesse encontro, potenciam outras ideias ainda: as ideias que a poesia trabalha ou deve trabalhar. Depois há as homenagens a músicos que sempre me perseguiram. Vai de Monteverdi aos Blues do Delta e não fica por aí. E há mais. A música é uma das metáforas mais produtivas que conheço para compreender a nossa condição presente. Este Depois da música (2013) é sobre isso. Nós vivemos depois da música, depois do sentido, depois de Auschwitz. 
Dizes, a dada altura, que “a literatura é uma província da poesia”. Como habitam em ti uma e outra?
Eu não acho que a poesia seja literatura. A poesia está mais próxima de algo que é prévio à literatura. Aliás, a literatura é uma instituição e uma instituição agonizante, provavelmente já morta. Contrariamente ao que se diz por aí, a poesia continua, continuará sempre, enquanto houver linguagem e humanidade. Daí que a literatura seja somente uma província da literatura.
Ao longo do livro, percebemos que há uma forte influencia musical dos anos 80. De que forma é que esta sonoridade te influenciou enquanto autor?
Sim, muito. Eu vivi em Lisboa durante uma parte significativa da minha vida. Depois de ter chegado do «Ultramar», vivi em Lisboa até aos meus 27 anos. Ainda hoje a entendo como a minha cidade. É uma sombra em tudo o que escrevo, e uma memória de uma memória, também, porque pouco a pouco a minha imagem da cidade e da minha já remota juventude se vai apagando, reinventando, sendo outra, e outra ainda. E a década de oitenta vivia-a em Lisboa. A música desse período, é uma uma música disfórica, densa, talvez doente, mas urgente. Joy Division, anos oitenta, Lisboa, essa foi a minha juventude perdida.
As referências à biografia ou à memória surgem muitas vezes neste Depois da música. Que relação trazes com o passado?
Não é possível fugir à memória. Ela sitia-nos. Duração e escombro, é assim o passado. À medida que envelheço vai havendo cada vez mais passado. Em verdade, escreve-se para os mortos e para os vindouros. O presente não existe.
Como antropólogo achas melhor a divisão de tudo por disciplinas, províncias, continentes, a sistematização e o rótulo, ou antes pelo contrário?
Eu sou um antropólogo atípico. As diferenças e as separações são produtos históricos, realizações políticas. Não aprecio particularmente a axiologia. O meu pensamento é verdadeiramente nómada, ou é assim que me vejo ou gosto de ver. Deleuze tem sido uma influência importante nisso.
Vivemos numa época em que somos atropelados pelo que há de mais efémero ou, arrisco, superficial. Que lugar terá a palavra nesta era? Que lugar terá também a poesia?
A poesia é também uma resposta ao empobrecimento da linguagem e do humano. É aí que estamos. A poesia é uma forma de resistência. Onde há poder há resistência. É aí que estamos. É aí que estaremos sempre.
O que fica depois da música?

O mundo acabou há muito. Ficaram-nos as cinzas e o pó. Depois da música, ficou a poesia, malgré Adorno.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O autor deve sair ferido, morto e ressuscitado

Conversa com Pedro Eiras a propósito do romance A Cura (QuidNovi, 2012)

|Andreia Faria



- Descreve um book trailer possível para A Cura.

Dois homens lutam. Um é psicanalista; o outro, ***. Um round por mês: treze consultas, mais um prólogo para definir as regras, um epílogo para sarar as feridas. Como se uma ferida alguma vez sarasse.

- Um dos títulos possíveis para a A Cura, apresentado inclusivamente na capa, é Uma sátira. Uma sátira de quê ou de quem?

Outro dos títulos possíveis é Por que razão tudo o que escrevo se transforma logo noutra coisa diferente? Talvez este livro comece por satirizar um alvo, e termine a satirizar outro... Em todo o caso: uma sátira de mim a mesmo mesmo, dividido entre várias personagens. Como sempre.

- O autor sai ileso das suas ficções?

Não. De maneira nenhuma. Ou então, é porque as coisas correram mal, e então a vida continua, incólume. Mas o autor deve sair ferido, morto e ressuscitado: absolutamente diferente de si mesmo depois de escrever o livro. E não por um programa, uma metamorfose mecânica, mas porque ao escrever atravessa um lugar que não conhecia, que ainda não existia. Ele parte para esse lugar desconhecido, mas quem regressa já é o outro.

- Ouvi dizer que Freud é um dos teus autores favoritos, e A Cura vive muito das leituras que dele fizeste. A tua relação com Freud fica maculada pelas descobertas que o teu narrador faz ao longo do livro, ou continuas a lê-lo com a mesma frescura?

Bem, a minha relação com Freud nunca foi imaculada; acho que ninguém pode ter uma relação imaculada com Freud, nem sequer antes de o ler (somos freudianos e anti-freudianos mesmo antes de abrir A Interpretação dos Sonhos). Lembro-me das minhas primeiras leituras, de Introdução à Psicanálise, de Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci, etc.: eram leituras violentas, irascíveis. Porquê? Muitas vezes, é para responder a esta pergunta que escrevo. Dito isto, acho Freud um autor magnífico, e quanto mais discuto com ele mais ele me fascina. Se as descobertas do meu narrador “maculam” Freud, isso só pode tornar a leitura mais fascinante. Não me interessa fazer as pazes com Freud.

- O Tiago Sousa Garcia, que apresentou o teu livro no Porto, disse a certa altura que a psicanálise se assemelha em muito à crítica literária: na minúcia da análise, na ausência de crença na inocência do texto, na procura do não-dito, do que o texto quer esconder. Estás de acordo?

Sim, absolutamente de acordo. Sou professor de literatura na Faculdade de Letras do Porto, e espero que as minhas aulas sejam uma espécie de psicanálise do texto lido. Uma aula é interrogar um breve poema durante uma, duas horas, como se fosse um analisando num divã. Ao fim de duas horas, com sorte, o poema começa a revelar o seu inconsciente. E duas horas é pouco tempo, porque a profundidade de um poema é infinita. Então, nenhuma inocência e nenhum acaso: tudo fala, cada vírgula esconde um crime, cada pergunta uma redenção.

- Miguel Real disse no JL que és um dos poucos críticos literários que ousa escrever romances e “sujar as mãos”. Sentes que, enquanto crítico, a escrita de romances te põe a cabeça a prémio?

Espero que os meus ensaios literários estejam tão maculados como as minhas ficções: que se sintam os grãos de terra, o atrito da escrita em todos os meus textos... E, no fundo, talvez não haja contradição: eu coloco-me problemas a mim mesmo; se lhes tento responder com argumentos teóricos, leituras lentas de textos de outros autores, ou com personagens e enredos, o desafio seminal é o mesmo. Espero que os meus romances sejam uma forma de pensar, como os meus ensaios são uma forma de ficção, uma dramaturgia do pensamento.

- Em alguma circunstância o teu escritor foi boicotado pelo teu crítico?

Não. O crítico ajuda o escritor, e vice-versa. O crítico lança obstáculos ao escritor, mas isso serve para o acordar. E o escritor usa o crítico para tornar a escrita mais difícil. Na verdade, nem sequer consigo distingui-los: trabalham juntos, sujam-se juntos.

- Como vês o teu lugar de escritor numa altura em que a publicação de livros passa da democratização à vulgarização? O acesso à publicação de tanta gente que, há umas décadas atrás, não seria validado como "autor(a)", abre novas possibilidades ou limita o trabalho do escritor tal como o entendes?

Não tenho nada contra o “acesso à publicação”; pelo contrário. Não me reconheço, como leitor, em muitos dos livros que são publicados hoje, mas isso também vale para os livros de qualquer época histórica. Acho que um entendimento crítico do que se escreve e publica é fundamental, claro, sobretudo quando existe uma tal sobrecarga de textos em circulação. Mas é uma questão que não me incomoda; o que realmente importa é só: que, no meio de tantos escritos, surjam os livros valiosos, os que me ferem.

Post-scriptum: ainda sobre as máculas, a sujidade, o atrito –
em Stalker, de Andrei Tarkovsky, há um travelling picado sobre textos, moedas, ícones, terra, tudo submerso em água. Vemos esses restos de civilização ascenderem na tela, devagar, muito tempo. Tarkovsky deitou esses bocados de livros, textos e imagens na água, mãos-cheias de terra por cima, e aos técnicos que preparavam o filme, estupefactos, explicou: «Isto – é a matéria de que os sonhos são feitos.»


terça-feira, 29 de outubro de 2013

“Escrevo para ter acesso a mim mesmo”

Entrevista a João Anzanello Carrascoza
 | Eliana Castro


    Cinto de segurança é acessório inútil para quem decide viajar na escrita emocional de João Anzanello Carrascoza. Também é preciso avisar (pra quem nunca leu seus livros) que ele jamais conduz seus textos pelas autoestradas, em pistas expressas. Prefere levar o leitor para passear por estradas vicinais, viscerais. Foi assim – só para citar algumas viagens - em O Vaso Azul, Espinhos e Alfinetes, Contos Mínimos, Aquela Água Toda ... e é exatamente isso que ele faz agora, no romance Dos 7 aos 40, recém-lançado pela editora Cosac Naify. Carrascoza é um hábil condutor, com prêmios importantes. Entre eles, o Jabuti (O vaso Azul, que recebeu em 2007, e este ano, com Aquela Água Toda, que está entre os finalistas) e o Portugal Telecom 2013 (também com Aquela Água Toda na semifinal).
    Mas não é exatamente por causa da sua reconhecida fama de bom condutor que o cinto de segurança é dispensável. Na verdade, o correto seria dizer que, com ele, usar o acessório é inútil. Simplesmente porque Carroscoza dirige sua escrita de maneira tão intensa que não há como se proteger de acidentes de percurso: quando nos damos conta, saímos da pista em que estávamos, invadimos o acostamento e, de repente, pow! passamos a circular dentro de nossas próprias veias, até entrarmos bem no fundo do coração, em um lugar que não é mais só dele, mas nosso e dele, entrelaçado como interseções rodoviárias.
   “Escrevo para construir um mundo no qual as coisas poderiam ter sido e também para partilhar experiências e sentimentos. Quando o que me toca, toca o leitor, entro em harmonia com o outro. Escrever é buscar a si mesmo para encontrar o outro. Minha escrita é comovida”, confessa.

Quadros de Sentimentos
   O livro Dos 7 aos 40 é a perfeita tradução desse desejo do autor, de estar em harmonia e contaminar o leitor com sua emoção – e ainda conta com uma curiosa estrutura. A história é contada em dois tempos – o do menino e do homem. Ligeiramente ou totalmente autobiográfico, não importa. O que vale é a estrada: em uma pista, as histórias do menino, narradas em 1ª pessoa; na outra, as histórias do adulto, contadas em 3ª pessoa. “A vida da gente tem que ter um retrovisor. Estamos indo pra frente, mas temos que olhar um pouco para trás para entendermos todo o percurso que fizemos, pra depois seguir adiante”, afirma.
   O romance começa com a narração do menino, que mora em Cravinhos, pequena cidade do interior do Estado de São Paulo, no Brasil [onde Carrascoza nasceu e morou por anos]. Na sequência, pula para a do adulto quarentão, que abandonou o interior e vive em São Paulo, capital do estado e uma das maiores cidades do mundo. [Carrascoza vive em São Paulo, formou-se em publicidade e é professor na ESPM, Escola Superior de Publicidade e Propaganda] Essas duas vias, dos sete aos quarenta, são cruzadas e suas diferentes visões, alternadas em capítulos ao longo do romance. “O livro não está amarrado a uma linha do tempo. Salta de um episódio para outro. Porque a vida também não tem amarração: dá pequenos saltos. Os capítulos são espelhados. São como quadros de sentimentos”, conta.
   A diagramação do romance reforça isso, ao dispor tudo o que é narrado pelo menino na parte superior da página, onde o texto aparece blocado, e, em cada capítulo, faz referência a uma descoberta: morte, tristeza, namoro... Já a voz adulta está disposta na parte de inferior das páginas e surge desalinhado. “Quando garoto, a gente está na fase em que nomeia as coisas à nossa volta e os sentimentos. As pessoas têm nome e optei pelo texto blocado porque, no romance, a sua história desse menino já foi escrita”, explica. “Na fase adulta, você tem a consciência de que é apenas mais um ser”. Para essa parte do livro, ninguém tem nome próprio. A ideia é falar de um universo emocional que, de um modo ou de outro, está dentro de cada um. O texto desalinhado reforça o tempo presente, em que as coisas ainda estão acontecendo, sem sabermos, ao certo, como vão terminar.



Inspirações
     “Aos sete anos, estamos começando a ler as palavras e o mundo. Aos quarenta, já temos uma história escrita, uma vida social. O mundo tá te olhando”, observa Carrascoza, que se inspirou em Vidas Secas, de Gaciliano Ramos.  “Graciliano criou um conjunto de histórias, que Antonio Cândido [crítico literário brasileiro] chama de rosácea, porque cada capítulo é uma pétala. E, em cada história, Graciliano dá elementos para o leitor compor a sua história. Foi o que fiz”, explica.

    Dos 7 aos 40 se beneficia bastante da direção habilidosa de Carrascoza, sem dúvida,  um dos melhores contistas brasileiros. Embora seja um romance, pode ser lido de diversas maneiras. A primeira leitura possível é da forma como o autor organizou a narrativa. Mas também podemos ler o mesmo livro de modo desordenado, porque cada capítulo é um conto – e dos bons. Podemos, ainda, ler apenas a história do menino ou do adulto, como se cada uma fosse um romance separado. E o mais interessante é que, independentemente do modo que o leitor decida explorar as estradas por onde Carrascoza nos leva, o romance não se perde no caminho. E sempre nos conduz, por meio da prosa poética do autor, para o fundo do coração. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Entrevista a Ramón Blanco

|Eduardo Estevez

Conversa entre o nosso colaborador Eduardo Estevez e o poeta Ramón Blanco, em destaque, esta semana, na Sítio.

--> es poeta de ritmo lento, canto menos de ritmo de edición. escribes máis do que se ve? ou é que os proxectos che levan tempo? como son os teus procesos de escrita?
Escribo poesía regularmente desde os 16 anos. Aos 25 publiquei Orfeu en soños, que viña ser unha escolma do que quería salvar, de entre centos de textos que fora creando con pouco valor literario. Son perfeccionista, co cal esta valoración negativa serve para case todo o que levo escrito. Emily on the road foi medrando ao longo de seis anos, mais, obviamente, sucedéronse períodos totalmente improdutivos ou nos que só escribía algunha colaboración para as revistas. Penso moito o que quero contar, a redacción non me leva tanto. E nunca deixo de corrixir, o cal vai en contra da publicación.

--> medraches a carón (ou dentro) dun colectivo poético. pero eu penso que unha das características que diferencian a escrita máis nova en galiza é que os procesos son moito máis individuais que foron en xeracións anteriores (digamos, dos 80, incluídos para atrás). concordas con esta idea? como influíu na túa escrita o feito de que se desenvolvese no seu dun colectivo?
O colectivo Sacou foi para min unha escola e un senfín de estímulos. Del saíron algúns dos meus mellores amigos, cos que sigo a compartir lecturas e conversas sobre literatura. Coincido contigo en que o proceso é agora máis individual; de feito constátoo en min mesmo desde o intre en que Sacou pasa a segundo plano. En calquera caso nese colectivo cadaquén tiña un estilo moi diferenciado, e ademais de poetas había narradores e pintores. A cohesión viña dada máis ben, nalgúns casos, pola ideoloxía política.

--> coñeces de preto o sistema editorial galego e, ademais, es investigador da literatura do país. cal é a túa avaliación sobre a súa saúde? como ves o momento actual da produción e da edición en relación coas novas (e xa nin tan novas) formas de edición, distribución e difusión?
A literatura está no mellor momento da súa historia. Cada vez hai voces máis interesantes (e xa ían facendo falta). Outra cousa é o soporte editorial; a precariedade condena a literatura á volta ás catacumbas. A única vantaxe que podería derivarse sería unha maior selectividade á hora de publicar; por desgraza, que se publique pouco non significa necesariamente que publiquen os mellores, senón simplemente os que máis venden ou (aínda peor) os que máis amigos teñen. Valoro positivamente as novas canles de difusión do libro, mais coido que o filtro aínda segue a ser o formato papel. A xestión editorial é necesaria, e aínda máis no campo dixital.

--> levas andada media galiza co teu libro "on the road". cóntame esta experiencia de poesía en escena 
Esta xira comezou case como unha broma, por iniciativa do editor, e converteuse nun espectáculo exitoso que deu bastante que falar. Debín facer unhas trinta presentacións. Sen dúbida axudou a vender ben o libro. Tiven a sorte de contar co saxofonista Pablo Sax, cuxas improvisacións son a alma dos recitais, aínda que el diga que a partitura é o propio texto. Algunha xente díxome que esta multiactividade lembraba á que había nos noventa.

--> e, para pechar, gustaríame saber se xa estás argallando algún libro novo ou algún proxecto literario novo.
Estou a traballar nun libro-reportaxe (por chamarlle dalgunha maneira) sobre un río e as historias que del me contaron ou lin; a editora xa agarda por el, mais o seu caudal non para de medrar. Tamén teño varios proxectos narrativos en marcha. E imaxino que volverá a poesía, pois é o único xénero no que non me sinto alleo.


terça-feira, 4 de junho de 2013

"Um critério para avaliarmos aquilo em que nos transformamos"

Entrevista a Manuel Jorge Marmelo

|Clara Henriques


Segura no olhar a timidez onde se deixa acontecer quando o lá fora oferece movimento a mais. Desenha palavras como quem dança na realidade que a todos nos abraça e a verdade é que o encanto da sua escrita se faz de tempo. Jornalista e autor de mais de uma dezena de romances, Manuel Jorge Marmelo conta, em entrevista à Sítio, o Porto que traz dentro, as viagens de autocarro que agora vemos publicadas e as paragens a que a vida o obrigou. Para ler e reler.

Foste considerado, pela Porto Editora, uma das Personalidades Portuenses do séc. XX. Que responsabilidade acarreta esta nomeação de personalidade do Porto?
A inclusão no dicionário constitui um orgulho enorme, mas não acarreta responsabilidades maiores do que aquelas que já tinha em 2001, quando fui incluído nesse dicionário. Sinto-me responsável, isso sim, pelos meus filhos, por dar-lhes uma casa, comida, estabilidade, e tentei, durante 23 anos, ser um bom profissional do jornalismo. Mas não precisei de uma entrada num dicionário para estar consciente das minhas obrigações. Comecei a trabalhar com 15 anos num gabinete de contabilidade, entrei para o jornal Público aos 18, como estagiário, e fui pai aos 22. Aquilo que tenha sido capaz de fazer dependeu, sempre, da responsabilidade com que fosse capaz de crescer e aprender com quem sabia mais do que eu.

Por falar no Porto, é inevitável associar esta cidade ao que é o Manuel Jorge Marmelo. Nasceste e vives aqui. Que lugar tem o Porto na tua escrita?
O Porto é a minha casa, é onde tenho as minhas raízes, as minhas pessoas, os meus lugares e os meus livros. Inevitavelmente, o Porto e o modo de viver dos portuenses terá acabado por moldar a minha maneira de ser e, consequentemente, também aquilo que escrevo. Umas vezes mais às claras, outras vezes de forma mais disfarçada, o Porto está presente em quase todos os meus livros, é o cenário a partir do qual partem as caravelas da imaginação que me levaram a descobrir outras paragens, reais ou imaginadas.

Habituaste-nos, durante algum tempo, às tuas Crónicas do Autocarro que publicavas diariamente no blogue Teatro Anatómico. Agora é tempo de as lançar em livro, embora seja uma edição em formato electrónico. Porque não uma edição em papel?
O motivo é relativamente prosaico: algumas pessoas perguntavam-me, de vez em quando, por que não publicava as crónicas, mas nunca nenhuma editora mostrou interesse nisso. Quando resolvi equacionar a possibilidade de reunir as crónicas num livro, ainda ponderei a possibilidade de fazer uma edição de autor tradicional, em papel, mas, estando desempregado, pareceu-me que os custos que isso implicaria excediam o meu orçamento (e também a minha capacidade para rentabilizar o investimento). Optei, por isso, por fazer um livro electrónico, que apenas implicava o custo do meu trabalho de aprender a paginar os textos e as horas que gastei a fazê-lo.

Andar de autocarro pode ter tanto de poético como de hilariante. Que estímulos te fizeram agarrar este tema? Como começou este périplo das Crónicas do Autocarro?
Começou por acaso. Quando, há três anos e meio, a empresa em que trabalhava se mudou para a Baixa do Porto, onde é caro e difícil estacionar, optei por me deslocar de transportes públicos para o trabalho e, desse modo, fiquei em contacto com o mundo muito particular dos autocarros do Porto, as histórias e as personagens que os utilizam.
Logo desde a primeira viagem, e sem ter nada planeado, comecei a escrever pequenos apontamentos de viagem no blogue Teatro Anatómico, sem nenhuma pretensão, como um divertimento, ainda que, a dado passo, essa realidade se tivesse cruzado com o romance que estava a escrever, "Uma Mentira Mil Vezes Repetida". O livro, em que comecei a trabalhar antes do meu regresso aos autocarros, tinha um narrador que inventava um livro falso enquanto circulava nos transportes públicos, pelo que, a dada altura, me pareceu adequado utilizar as crónicas como ambiente do romance. Daquelas, iniciais, que aproveitei para o romance, só a primeira aparece agora no livro das Crónicas do Autocarro, pelo carácter inaugural que tem.
Mas depois de o romance estar terminado continuei a escrever esses apontamentos e fi-lo até Outubro do ano passado, altura em que fui despedido e deixei de ter de me deslocar para trabalhar. Creio que o fiz sobretudo como um modo de evasão e, a partir de determinada altura, como um jogo literário que ia tecendo com os outros passageiros sem que eles soubessem disso, mas também como forma de fixar o modo como as pessoas comuns avaliam a realidade e reflectem em que vivemos todos.

Estas crónicas revelaram-se um sucesso e creio que não foi uma coisa que esperasses. Uma das pessoas que as seguia com atenção era o Manuel António Pina. O que se poderá encontrar do Pina no escritor? E no Jorge?
O sucesso é muitíssimo relativo, neste caso. Sei que o Pina apreciava as crónicas, falava-me delas quando nos encontrávamos ou falávamos ao telefone, mas, para teres uma ideia, em cerca de um mês só foram vendidos 23 exemplares desse "sucesso". Grande sucesso, não?
Quanto à segunda parte da questão, nem sei muito bem o que responder. O Pina era um ser humano irrepetível e um escritor notável. Guardo para mim, sobretudo, o seu exemplo de humildade, humanidade, civismo, ironia e seriedade, e aquela frase em que ele perguntava o que acharia de nós aquele que fomos quando tínhamos 20 anos. É um critério excepcional para avaliarmos aquilo em que nos transformamos com o passar do tempo. Espero nunca me esquecer disto.

És jornalista e autor de uma dezena de romances, entre outras coisas. Como é o teu processo criativo? A ideia, as primeiras linhas, as personagens, o sentido da história...
O processo é muito variado — embora exista quase sempre uma ideia inicial e pouco definida que depois vai germinando aos poucos — e tem dependido bastante do tempo que me restava depois das obrigações familiares e profissionais. Agora que estou desempregado posso dispor de mais tempo, de uma forma mais regular, e isso é um desafio enorme. Deixei de ter desculpas para errar. Se, como dizem os meus editores, os meus livros continuarem a ter poucos leitores, vou ter, se calhar, de me convencer que o problema é meu; dedicar-me a outra coisa, bricolage ou bordados, ou então  escrever sem expectativas de publicar e de ser lido.


Saiu este mês a 10ª edição do teu romance “As mulheres deviam vir com livro de instruções”. O que é que não percebes nas mulheres que gostarias de ver explicado num livro de instruções?
É uma pergunta antiga, para a qual tenho uma resposta sempre pronta: o autor da frase do título é o senhor Madureira, o personagem do livro, não sou eu. Não que as mulheres não sejam, também para mim, e passe a generalização, uma entidade colectiva misteriosa e uma maravilhosa perplexidade. Mas o encanto feminino também reside aí, no que não se percebe e se vai desocultando aos poucos, às vezes a duras penas. Pela minha parte, portanto, dispenso o livro de instruções. Mas creio que esse romance, com os seus defeitos e virtudes, vai um pouco para além do carácter apelativo do título (que, bem sei, me garantiu leitores que nunca antes tinha tido e que não voltei a ter depois). O livro é também um retrato de uma época e, se calhar, parte da explicação para as dificuldades que hoje vivemos.

                                   
Tens uma crónica muito bonita - a “Morte”, que terminas dizendo que não sabes “onde escondes os teus cadáveres”. O que trazes dentro, neste preciso momento da tua vida?
Neste momento trago dentro a necessidade de encontrar uma nova forma de vida, de ganhar a vida tão honestamente como até aqui. Gostava que a solução pudesse passar pela literatura, mas, neste momento, essa é uma possibilidade tão quimérica e improvável que, na verdade, começo a ponderar, isso sim, que outras coisas posso ser capaz de fazer para além do jornalismo (do qual me sinto, hoje, bastante órfão, apesar das muitas coisas que nele aprendi; na verdade, aprendi quase tudo no jornalismo, onde tive a sorte de entrar aos 18 anos e de ter tido como mestres pessoas que tinham uma ideia do que podia e devia ser o jornalismo, e uma ética; devo-lhes quase tudo).

E também trago dentro a satisfação de ver os meus filhos a transformarem-se em pessoas muito bonitas e generosas, bem formadas e responsáveis. Tenho a certeza de que vão ser pessoas muito melhores do que eu tenho sido. Isto é o melhor presente que a vida me deu. E já ninguém mo tira.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A poesia que nos escolhe


Entrevista a Ruth Ministro

|Clara Henriques



“Todos os poemas são feitos de mar”.

O teu último livro, Dos intervalos das horas – 2011, divide-se em 4 momentos: a madrugada, a manhã, a noite e, por fim, os intervalos das horas. Nasce-te poesia em todas as horas?
De alguma forma, a poesia faz parte dos meus dias e acaba por estar presente em todas as horas, quer eu queira, quer não. A minha paixão pela poesia, como é aliás apanágio das paixões, é algo que não posso controlar, não depende de mim, está para além do consciente e do racional e das horas e dos lugares. Não é que esteja a pensar em poesia a toda a hora, também não é assim, mas há uma propensão para encontrar no quotidiano o seu quê de poesia, embora nem sempre isso queira dizer que consigo escrever um poema. Eu na verdade acredito que é a poesia que nos escolhe para a escrever e não o contrário. A inspiração é qualquer coisa que toca o divino, vem não se sabe de onde e atinge-nos como um raio de luz, independentemente da hora do dia ou da tarefa que estamos a desempenhar no momento, essa até pode ser tão ou mais ridícula e pouco poética como fazer a cama ou lavar a loiça… por vezes é uma palavra que surge, um verso que se desenha em torno dela, outras vezes é algo que vemos e que forma uma ideia poética, depois só temos que conseguir guardar essa inspiração até ao momento de escrever o poema.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Um pouco fora do lugar


Entrevista a Susana Sánchez Aríns – parte dois

|Eduardo Estevez



 Logo interessa-me saber se, para além dos propósitos concretos de cada livro, há na tua obra uma intencionalidade mais global. Pergunto-te com isto em concreto pelas tuas preocupações vitais (o papel da mulher na construção do discurso, a ideia ou as ideias de nação, este tipo de coisas) mas também por como vês o teu papel ou o papel da tua escrita no tempo que lhe toca desenvolver-se.

Sou assim tão ingénua que ainda, apesar dos tempos que estamos a viver, acredito na possibilidade de deixar um mundo melhor para as gerações vindouras.
A terra da que se alimentam as minhas raízes foi semeada, irrigada e estercada por outras pessoas, algumas sabidas, a maioria anónimas. Deram forma a uma língua, uma cultura, uma comunidade. Língua, cultura e comunidade que hoje estão em perigo de extinção. Ao tempo, tocou-me em sorte nascer mulher, mas o acaso colocou-me numa região do planeta onde a questão de género implica menos perigos: pude estudar, sou uma pessoa independente social e economicamente e posso erguer a voz sem medo da represália.

terça-feira, 12 de março de 2013

A face lírica de uma obra em construção


Entrevista a Susana Sánchez Aríns – parte um

|Eduardo Estevez


Apesar ter nascido em 1974 em Vilagarcía de Arousa, Susana Sánchez Aríns diz-se estradense (do concelho da Estrada, no interior da província galega de Pontevedra). Contudo, desde há tempo mora no contorno da ilha de Arousa onde dá aulas de língua espanhola e literatura num centro de ensino secundário.
É licenciada em Filologia Hispanica e em Filologia Portuguesa pela Universidade de Santiago de Compostela.
Mantem um blogue de poesia desde 2006 (dedos como vermes), mas não será até 2009 quando a autora veja publicada a sua primeira obra em forma de livro: [de]construçom, com a que obteve a edição de 2008 do Prémio Nacional de Poesia Xosemaría Pérez Parallé para autores e autoras inéditas. O livro foi editado pela Espiral Maior, a mais importante editora de poesia em língua galega.
Em 2012 publica mais dois títulos: Aquiltadas (na Estaleiro Editora) e A noiva e o navio (na Através Editora).
É uma autora muito ligada à net. Para além do blogue mencionado, mantém um outro: como pam da boca, no que deixa constância das suas leituras e criou dois blogues para acompanharem o percurso de cada um dos seus últimos títulos: a noiva e o navio e aquiltadas.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Uma métrica especial


Entrevista a Luis Henrique Pellanda – parte 3

|Carolina Vigna-Marú


Terminamos a publicação da entrevista a Luis Henrique Pellanda falando da sua música e da banda Woyzeck (na foto, Pellanda aparece em primeiro plano). Ficamos também a conhecer uma das músicas produzidas pela banda que conta com Pellanda na voz.

 Qual a diferença, além das questões técnicas, é claro, entre escrever um roteiro, um conto, uma música? Exigem momentos de vida ou emocionais diferentes ou é apenas um cumprir de agenda: agora preciso/quero fazer isso, amanhã faço aquilo?

Acho que a música sempre foi algo mais emocional. Já escrevi bastante música, mas com ela nunca me senti envolvido num trabalho profissional ou mesmo intelectual. Não estou dizendo que os músicos não trabalham com o intelecto, por favor. Comigo é que era assim, uma espécie de desafogo alegre, algo teatral, envolvendo voz e movimento, dança e corpo, algo que exigia minha presença física num palco e certa desenvoltura de ator, uma máscara, no bom sentido. Não era eu, era o que eu gostaria de ser naquele momento de celebração. É um troço prazeroso, mas cansa. Cansa, mas quando você para, faz falta, e isso é evidente, pois tudo que nos dá prazer, quando acaba, faz falta. Hoje não trabalho com isso, apenas me divirto com isso, e muito raramente. É questão de prazer, não envolve agonias produtivas.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Não posso viver aqui sem escrever sobre essa vida


Entrevista a Luis Henrique Pellanda – parte 2

|Carolina Vigna-Marú



Na segunda parte da entrevista a Luis Henrique Pellanda, começamos por falar da sua literatura, passamos pelo jornalismo e acabamos por entrar na intimidade do autor, buscando  aquilo que é o seu posicionamento perante o ato de escrever.

 Em O macaco ornamental, o único conto que não é escrito na primeira pessoa é “São Menécio”, que narra, justamente, um homem com a capacidade de sentir a dor dos outros. A alteridade é isso, sentir a dor dos outros? Ainda, mais ou menos no mesmo tema, na maioria das vezes seus personagens estão lidando com as questões masculinas modernas, pós-feminismo, pós-divórcio, pós-tudo, sem ter um pingo de chauvinismo neles, ao contrário de muitos outros autores brasileiros. Você se preocupa com isso, acha que seus livros podem ser uma contribuição para a igualdade?

Pergunta boa, nem sei por onde começar a responder. Gostaria de ser menos vago, mas acho que vou fracassar. Vamos lá. Em relação a meus personagens, faço uma confissão pessoal: tenho certa tendência a gostar dos outros. Sim, é um defeito, não é? Um tara, sei lá, uma fraqueza. Vai que sou perverso? Mas gosto dos outros (não de todos, é claro), e me sinto bem quando consigo me relacionar com alguém. Comemoro, acho um milagre da boa vontade humana — isso existe? Pois tendo a retratar meus personagens a partir dessa minha maneira de viver em comunidade. Quero também me relacionar com eles, apesar de não concordar com tudo que fazem ou dizem fazer. Talvez eu sofra de algum tipo doentio de delicadeza. Dia desses, o João Gilberto Noll disse que me considerava um “escritor delicado” e até perguntou se o termo me ofendia. Muito pelo contrário, achei ótimo, talvez eu deva assumir isso, como quem se assume viciado em álcool, por exemplo. Sou um bêbado, sou um delicado. Pois assumo (só a delicadeza, deixo claro, pois não bebo faz um bom tempo). Sobre contribuir para a igualdade escrevendo, olha, acho que é algo bonito, importante e bem difícil de se fazer. Não acho que devemos escrever sem alguma motivação relevante para nós, sem um objetivo, sem pretensões. Acreditar nisso me parece uma espécie de falsa humildade, uma soberba doida. Então, se um dia alguém me convencer de que algo que escrevi efetivamente ajudou a diminuir as diferenças entre os seres humanos, e as populações humanas, e as nações humanas, puxa, acho que ficarei bastante feliz. Quem não ficaria?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Não me preocupo com a naturalidade


Entrevista a Luis Henrique Pellanda – parte 1

|Carolina Vigna-Marú



Luis Henrique Pellanda é escritor, músico e jornalista. Ou seja, é alguém que pode ser encontrado de todos os lados da barricada onde a palavra está presente. Numa entrevista que se prolongará por três dias, quisemos saber um pouco de cada uma das vertentes do seu trabalho. Assim começamos pelo cruzamento da entre conto e crónica, fugindo rapidamente para o que acontece com a literatura na internet.

Seu primeiro livro, O macaco ornamental, tem “contos” escrito acima do título. Já o Nós passaremos em branco, foi publicado na coleção “Arte da crônica”. Então, tenho grande esperança de você resolver uma pendenga que sempre surge em conversas sobre literatura: qual a diferença entre conto e crônica?

Não sou bom nisso de corresponder a esperanças. Acho que fico devendo, pois vem se tornando cada vez mais difícil fixar diferenças dessa natureza, ou mesmo estabelecer um pequeno conjunto de regras que sirva a todos os autores, cronistas ou contistas, da mesma maneira. Até o romance tem enfrentado suas crises de identidade: o texto mais ligeiro, nem cem páginas de fragmentos, já está apto a ganhar prêmios específicos para o gênero. O que difere, hoje, o romance e a novela? Pelo jeito não há nem régua nem estatuto universal. Falando do que faço, o que posso garantir? Que vejo distinções muito claras pelo menos entre os meus contos e as minhas crônicas. Nestas, o narrador obrigatoriamente se confunde com o autor; ou seja, sou eu. Cronista, apesar de usar recursos narrativos próprios da ficção, converso diretamente com o leitor, outra entidade real, até prova em contrário. Já nos contos, mesmo quando em primeira pessoa, dialogo com outro personagem inventado. E o narrador obviamente não sou eu. Nas crônicas, falo de eventos cotidianos ou pequenos (tudo é pequeno, na verdade), mas prefiro encontrar neles alguma característica de exceção, mesmo que essa exceção esteja na minha maneira de interpretar ou dirigir o que narro. Nos contos, não busco o cotidiano, nem a rua, a praça, a cidade. Sou um contista de personagens, acho, quase um autor de monólogos literários.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Uma clareira no mar


Entrevista a Aurelino Costa

|Luís Filipe Cristóvão


Em semana de Correntes d’Escritas, decidimos procurar uma das figuras emblemáticas deste encontro. Aurelino Costa é um autor da Póvoa de Varzim, que desde o primeiro momento tem feito parte do programa do encontro, funcionando, tantas vezes, como um um representante informal do poder que este evento tem na cidade.

Nascido em 1956, Aurelino Costa é poeta e diseur, sendo que na edição de 2013 voltará a estar nas Correntes para apresentar o seu novo livro, Domingo no Corpo, da Deriva Edições. Procurando encontrar as origens deste encontro e as sensações que ele desperta nas pessoas que mais intimamente o vivem, não será de estranhar, para quem conhece Aurelino, que a entrevista rapidamente se transformou, ela própria, num poema. Como sublinha o autor, a certo passo, “os encontros podem criar uma clareira no mar”.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Uma espécie de artesanato do espírito


Entrevista a Flávia Rocha

|Luís Filipe Cristóvão

Ao convidarmos Flávia Rocha para o destaque desta semana na Revista Literária Sítio, procuramos encontrar não só a autora, mas também a editora da revista Rattapallax, a antologiadora de poesia, a criadora do Curso de Criação Literária na Academia Internacional de Cinema. 

No fundo, fomos pela poesia em busca das ideias de quem vive uma experiência total no campo literário. Esta entrevista demonstra, em toda a medida, a abrangência do trabalho de Flávia Rocha, onde expressões de partilha, comunidade e rede estão bem presentes.  


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Isto não é só p’ró inglês ver


Entrevista a João Bentes

|Luís Filipe Cristóvão

Aos 32 anos, depois de participação em duas antologias de poesia algarvia, João Bentes lança o seu primeiro livro em nome próprio.

É a oportunidade para encontrarmos a voz mais segura de um Algarve alternativo ao dos prospetos turísticos e, por consequência, ao Algarve lírico que inunda vários ramos da poesia portuguesa. João Bentes escolhe o título Odes para, num claro tom de ironia, conjugar Ginsberg e vários grandes poetas da literatura portuguesa, apresentar-nos, sem capas nem receios, um Algarve que vive e sobrevive, durante o ano inteiro, independentemente das nossas sedes de veraneantes.



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Uma viagem pela palavra


Entrevista a João Luís Barreto Guimarães

|Clara Henriques
    

Em toda a viagem há um momento de pausa. Um lugar onde se encosta a estrada já percorrida e se encara de frente o que há-de vir. Em todo o poema há uma vírgula por mudar, uma sílaba por fazer. Também João Luís Barreto Guimarães sentiu que era altura de parar, olhar e voltar a “re-parar”. É esta a viagem que surge agora relatada no seu mais recente livro “você está aqui”, que chega às livrarias no próximo dia 25.
À conversa com a Revista Sítio, o autor confessa estar numa fase em que se sente, cada vez mais, dentro da vida.
É talvez este o tempo de chegar.