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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Sabor Interior

| Pedro Marques

Paulista ainda traga, cospe e passa o pé? Orgulho da caminhonete, tara por shopping e “modernidade” fizeram São Paulo exportar seu quinhão a Minas, Goiás. Tempo de antibiótico, plástico, pastor, analista dizendo o que é a vida ao homem. Não fosse fundo o poço, não sobrava areia para nossa identidade. É notável quando um escritor paulista dá no peito: sou do interior, sô!



Ricardo Flaitt (1976-) masca o interior que largou Cornélio Pires por causa da Capital. Cidades com mais cinquenta mil viventes perderam a batalha. Em vez de ensinar dignidade à metrópole, tomaram lições de desumanidade. Mococa, berço do poeta, virou mini-capital de problemas. E o interior é maior que cinemas, palcos, crimes e carros aos milhares. Pra que duzentos eventos por noite, se o sonho digere dois, três? É outro o tempo do poema caudaloso, terreno em que este poeta se destaca dos viciados em pílulas e sacadelas.

É cicatriz na cara e vida na caçamba. Naturalmente 3D. Ricardo tem paladar poético, o sentido mais afeito ao “experimentar”. Provar pela boca é guardar conteúdo dentro, saber do bom e do ruim no ato. Esta poesia tem o ritmo da gustação, papilas afiando olhos, narizes, ouvidos, dedos. Todos os sentidos a partir da língua: “Junto um punhado de terra na mão / Aperto profundo até extrair as sementes”.

Sabor, sentido que desbotou. Viramos uns devoradores sem apreciar nada. O antropófago do século XVI conhecia mais o que mordia do que nós, que convertemos comer e beber em consumir. Caboclo tem mãos e pés de lixa, pele de sol, pelo deitado no sereno. Mas tem língua de esmeril, conhece saboreando, polindo o que diz e mastiga até virar algo seu, interior, memória perene. “E assim, o mundo todo seliquefazia no mais profundemim.”

O poeta sabe o sabor que fala, vê, cheira, ouve, toca, amarga. Pedra, marimbondo, rua, cigarra, moça, fruta caem na língua que esmerilha cinco sentidos do corpo, diversos sentidos da palavra. O Domesticador de Silêncios (2013) doma o mundo pelo paladar, cujo ruído surdo é a mastigação da força nova sobre as sabidas coisas. Difícil comer e falar, lance de mau educado ou bom poeta. E a deglutição monta acordes saborosos, naturais, herméticos: “quimiciriguelas”, “dendagente” ou “prélasdiquiririnchaço”.

A febre de cores lembra Murilo Mendes, no passado, e Ricardo Lima, no presente: “Cosia botões com cascas de laranjeiras em terno de andorinhas”. As touceiras de sons ecoam Manoel de Barros (ontem), Antonio Geraldo (hoje): “E era réptil ritmo que doverso em min'medra”. É que nenhum poeta inventa a vela, faz ventar (“a insanidade do vento”) do seu jeito as vozes que vem de antes, do longe. Domesticar silêncios, nesse sentido, é também pilotar a tradição que, na calada, tormenta a noite do caboclo.



Pedro Marques é professor de Literatura Brasileira da UNIFESP e doutor em Teoria e História Literária pela UNICAMP.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Para lá do bem e da Cura. - Parte II

Sobre A Cura, de Pedro Eiras

|Tiago Sousa Garcia

Há alguns plot twists que vou optar por manter secretos mas, mesmo que os revelasse, não trairia em nada o prazer da leitura. Os óbvios: a identidade do paciente, o desfecho, a identidade do narrador. O primeiro pode ser desfeito com o simples folhear das páginas; os outros dois vão-se tornando progressivamente mais claros ao longo da narrativa e, quando chegam, não são exatamente uma surpresa. Mas também não teriam que ser. Mais uma vez, A Cura não é um policial, não caminha para uma revelação final que explicará tudo; A Cura, como a cura da psicanálise, é um processo, e é nesse processo que se esconde o prazer da leitura. A narração, percebemos mais tarde, não nos quer esconder nada, até nos poderia revelar nas primeiras páginas o desfecho – e fá-lo, se estivermos atentos – sem qualquer prejuízo. O narrador faz com um leitor o que um analista faz com um analisando: aponta os caminhos, mas deixa que seja o próprio a percorrê-los sozinho.
É muito difícil falar de um livro que é todo ele interditos: um narrador quase sem nome, um mensageiro X., um paciente Z., uma companheira que, apesar de ser dos poucos personagens com nome, é talvez das mais obscuras, um professor com nome de compositor alemão que é como um pai, ou como um Deus, ou como um Deus Pai, apesar do quase ateísmo de quase todos os envolvidos. A sequência de consultas opõe – e sublinho opõe – o narrador e Z., mas todos os outros personagens vão sendo convocados pelo depoimento. Há ainda mais um, talvez o maior de todos, que se posiciona acima do narrador, olhando-o, sobranceiro: Freud. Cada consulta é encimada com uma epígrafe de Freud, desde A Interpretação dos Sonhos, de 1900 até Moisés e o Monoteísmo, de 1938 – daí a breve história da psicanálise no título. Há duas excepções a esta regra: prólogo e epílogo, o primeiro com Freud, mas anterior ao texto seminal de 1900, o segundo com o Eclesiastes, a única epígrafe que não é retirada da obra do fundador da psicanálise e, também por isso, talvez a mais importante. Mas esta não é a primeira vez que o Eclesiastes surge na narrativa. Desde as primeiras páginas que o analista nos confessa uma relação estranha e próxima com o Eclesiastes. Mais estranha ainda porque o narrador declara não ser religioso, nem na sua juventude, apesar de ter sido educado na fé católica.
As relações deste narrador são, aliás, todas estranhas e estranhamente próximas. A relação com a companheira é quase simbiótica a princípio e quase parasítica no fim; a relação com o professor Wagner, o mestre e modelo, é dependente iniciou-se com uma mentira menos que mentira; a relação com Z., o paciente das consultas, essa, é ainda mais complexa.
A relação do analista com Freud é, apesar de tudo, a mais clara. Freud é Deus, as suas obras são a palavra sagrada. O analista defende Freud contra tudo e contra todos, batalha para o recuperar num mundo que quer desacreditar a sua teoria, enraivece-se com a mera referência ao anti-cristo Jung. E, todavia, apesar de tudo o que disse até agora, não sei se posso considerar A Cura como um romance acerca da psicanálise.
A psicanálise está presente em tudo, é certo. É o método e o caminho do narrador. Mas reduzir o romance à psicanálise seria, claro está, redutor. Se a psicanálise é o foco de tanta atenção, é-o apenas porque este mundo nos é dado a conhecer através dos olhos de um personagem que vê tudo pela psicanálise, que não consegue deixar de enquadrar o que o rodeia num quadro de egos, ids e superegos, Édipos e Laios, Hamlets, conscientes e inconscientes. A Cura mostra-nos como a psicanálise é muito mais que uma ciência ou teoria absurda – dependendo de que lado da barricada nos decidimos colocar. A psicanálise, para este narrador, é o óculo que lhe permite ver e entender o mundo, como a religião para um crente.
Os paralelos entre a psicanálise e a religião multiplicam-se com uma claridade impressionante para todos menos para o próprio narrador. Este paradoxo de uma ciência quase religião é, talvez, o conflito central deste livro. Também nesse campo A Cura marca pontos: não é apenas um romance mas uma tese; mas não é um romance de tese, isto é, quando o livro termina percebemos que não fomos expostos a argumentos a favor ou contra a psicanálise ou a religião; entenderemos o desfecho de maneiras opostas, de acordo com a nossa própria posição. Mais, se esta não for clara, reconheceremos a nossa posição no confronto, nessa altura. Vou ser mais claro: A Cura não nos descreve apenas nem a análise de Z., nem a auto-análise do narrador; o romance leva o leitor a descobrir algumas coisas sobre si próprio, como se o analisando fosse o próprio leitor e o analista o romance.
Mas há mais. Talvez por defeito profissional, ao longo destas páginas fui percebendo também – ou antes, o livro levou-me a perceber – como a psicanálise e a crítica literária são, tantas vezes, similares. A interpretação de um sonho ou a interpretação de um romance são, frequentemente, o mesmo processo com objectos distintos. O analista procura o que o sonho não diz, o crítico procura o que o livro não diz; o analista constrói pontes entre o sonho e o real, o crítico constrói pontes entre o romance e o real; o analista afirma que todos os seus diagnósticos estão no analisando, e que mais não fez que as trazer ao consciente, o crítico jura a pés juntos que as suas conclusões estão no texto, e que ele não fez mais que as trazer à luz. Podia continuar.

Estas são apenas algumas das razões que me levaram a escolher A Cura para publicação, mas havia mais, muito mais. No entanto, o motivo primeiro e maior é muito simples: o livro é bom, muito bom. Sim, eu sei, o crítico não deve fazer juízos de valor. Porém, quando li este livro pela primeira vez, não o fiz como crítico. Li-o como representante de uma entidade que mais não faz que criar juízos de valor acerca do mundo literário: este é bom, este não é, aquele deve ser publicado, aquele não deve; e, mais do que cruel, para mim a oportunidade de olhar para um livro e procurar uma resposta simples sempre foi muito libertadora. Os editores são, talvez, a mais determinante das portas do cânone: se um livro não é publicado, não existe. Por isso espero que me perdoem o orgulho imenso que tenho em ter ajudado este livro a existir.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Para lá do bem e da Cura. - Parte I

Sobre A Cura, de Pedro Eiras

|Tiago Sousa Garcia

Pensei em começar com uma piada. Ahem: quantos psicanalistas é que são precisos para mudar uma lâmpada? Dois, um para mudar a lâmpada, o outro para segurar no pénis, quer dizer, na escada!  Acertaram, A Cura é um livro sobre corridas de cavalos.
Freud teria certamente muita coisa a dizer acerca do motivo pelo qual eu tentei começar por fazer rir. A verdade é que não estou aqui para falar de psicanálise – nem saberia como fazê-lo. Estou aqui para falar de um livro fantástico que tive o prazer de ajudar a trazer a público.
Fantástico. Sabe bem poder usar adjectivos nestas coisas. Há algum tempo atrás, quando estava ali no lugar onde está a Andreia, tentava nunca usava estas palavras. Estava a representar uma editora e sabia que ninguém no público queria ouvir um vendedor. Hoje posso usar todos os adjectivos que me apeteça: fantástico, brilhante, inquietante. A Cura é tudo isto. Mas já lá vamos.
Antes de falar um bocadinho sobre o livro, queria partilhar o modo como o livro chegou até aqui. Conheci o Pedro Eiras há já alguns anos, não muitos, não poucos. Foi meu professor na Faculdade de Letras em diferentes disciplinas, três, penso eu. Por algum acaso, não sei bem como – sinceramente não me lembro muito bem – ficamos amigos. Os anos passaram, contra todas as probabilidades comecei a trabalhar exactamente naquilo que desejava: uma editora; pagavam-me para, entre outras coisas, ler e sugerir o que podia ou devia ser publicado. A certa altura, fui tomar café com o Pedro. Já não estávamos juntos há muito tempo, lembro-me que, nesse fim de tarde, falámos durante horas. Já há algum tempo que pensava em desafiá-lo para publicar alguma coisa connosco. Quando nos encontramos nesse dia, tinha também isso na cabeça mas, por algum motivo, não o disse. Talvez por pudor, somos amigos, mas a nossa relação começou com um desequilíbrio de poder, ele o mestre, eu o discípulo. Na cabeça do Pedro, percebi depois, algo de semelhante se devia estar a passar. Felizmente para todos, ele foi menos amedrontado que eu. Quando nos despedíamos, estendeu-me um manuscrito, pediu-me que o lesse. Era um romance, este romance. Li-o avidamente e, alguns dias depois, sabia que o queria publicar. Meses passaram, aqui estamos.
Este não é o primeiro livro do Pedro Eiras, nem sequer o primeiro romance. Muito longe disso. Um rápido escrutínio da última página do livro é suficiente para que se perceba a dimensão gigantesca da sua obra. Romance, ensaio, conto, teatro, poesia. A certa altura, já o cumprimentava a perguntar quando é que saía mais um livro. Mas a dimensão não é nada, a prolixidade é irrelevante. Relevante é a qualidade inegável e o talento do Pedro Eiras em cada um dos seus livros. É um ensaísta corajoso, um dramaturgo que gosta de torturar os seus personagens, um romancista que se delicia com as grandes questões que coloca aos seus diminutos protagonistas.
Se me perguntarem, não saberei enumerar quais as razões me conduziram à certeza de que tinha que publicar este livro. Há muitos factores em jogo numa decisão, alguns muito prosaicos e muito pouco românticos. Publicar um livro é, apesar de tudo, um negócio e, por muito que assim quisesse, não poderia ignorar a responsabilidade que tinha para com os meus colegas de trabalho. Para nós, o mundo editorial era, acima de tudo, o nosso ganha pão. Por isso também, quando o Pedro me estendeu o manuscrito, temi que fosse tentado a publicá-lo apenas porque éramos amigos, mas ele logo me tranquilizou. Disse-me que, antes de tudo, procurava a minha opinião sincera e que, caso eu não gostasse ou não o pudesse publicar, não era importante. Quando li as primeiras páginas, percebi que todas estas dúvidas eram irrelevantes. Lembro-me de a Paula Almeida me dizer, nos meus primeiros dias na editora, que se descobre se um livro é bom, ou não, muito rapidamente. Admito que a minha inexperiência me impediu de perceber imediatamente o que isso queria dizer. Pensei: sim, um livro mau é fácil de identificar. E é verdade, das centenas de livros que recebia, às vezes não precisava de mais do que uns segundos para perceber se devia continuar a ler ou não. Há casos lendários. O que eu não percebi: um livro bom também se pode identificar em segundos. Foi o que aconteceu com A Cura.
Diz-se que um livro não se julga pela capa – talvez sim, talvez não – mas certamente que muito se pode dizer de um livro pelo título. Este agarrou-me logo pelo título, ou antes, pelos títulos. Uma Sátira ou Algumas Improváveis Consequências do Juramento de Hipócrates ou A Cura ou Breve História da Psicanálise ou Por que Razão Tudo o que Escrevo se Transforma Logo Noutra Coisa Diferente. Era um título generoso e, aquele A Cura, central, era particularmente interessante. Do restante título podia tirar algumas conclusões: Sátira, não levar demasiado a sério; Juramento de Hipócrates, envolve médicos que se vêm obrigados a alguma coisa; Psicanálise, bem, envolve psicanálise; Porque razão tudo o que escrevo, temos um narrador na primeira pessoa que se vê a perder o controlo da sua narrativa, a própria multiplicidade de títulos me dava sinais de uma narrativa imprecisa, cheia de avanços e recuos, de ditos, não ditos, interditos e incertezas. Mas aquele A Cura, central, sintético, dizia muito mas deixava-me a desejar muito mais: este livro era um processo, não um resultado; quem curava, quem era curado? Curado de quê, como, por quem? Um livro mau dar-me-ia todas as respostas, mas este não é um livro mau.
Depois, as primeiras páginas. É uma confissão, uma memória, um caso clínico, mas não um diário. Não há datas, nem sequer capítulos. Há consultas, e toda a narrativa se arranja à volta destes momentos centrais. A consulta, isto é, o processo de cura, é o essencial, tudo o resto é acessório.

Má escolha de palavras: o narrador, descobrimos rapidamente, é um analista freudiano, por isso nada é acessório, tudo tem um significado. Esta é uma das grandes vitórias deste livro: qualquer leitor, mesmo o mais desprevenido, percebe rapidamente que tem de estar atento a tudo, que tudo tem um nível de significância escondido, e fá-lo sem recorrer à simplicidade do policial, que imediatamente convida o leitor a fazer parte do jogo, nem à complexidade do ilegível. Subtilmente, o narrador mostra ao leitor como ler o livro: procurar o não dito, ver todas as palavras como imprescindíveis. Desde as primeiras páginas que percebemos que não há uma palavra a mais, não há excursos, não há inconsequências, tudo o que aparece na página deve ser lido como se fosse o nome do assassino.

(continua)

domingo, 6 de outubro de 2013

O Corpo de Lúcifer (Ensaio poemático)

|Luís Coelho

Se bem que uma certa Espiritualidade esotérica – e em particular a Teosofia de Blavatsky – pretenda fazer do aparente binómio «Corpo – Espírito» uma Mónada de substancialidade espiritual em que tudo é Uno e em que o Uno é o Absoluto, a tentação de contrapor a tal coerente monismo o protótipo de uma dualidade do tipo «Espírito vs. Matéria» não pode deixar de ser sentida enquanto produto de uma natural devassa interna, que é aquela que, urgindo o mecanismo de defesa de cariz psicanalítico, contenta a natural aversão à Unidade e a atracção à transubstanciação de fronteiras.
Jaz já, então, a tentação demoníaca nesta tão grotesca tendência para a fragmentação de uma Unidade, na qual toda a diversidade e todo o movimento conspiram nos termos de um jogo de ilusões, teatro de máscaras que apela à multiplicidade de um Demiurgo que se contenta com a quimera do livre-arbítrio decisor. 

domingo, 10 de março de 2013

«Como na Religião não aja outro tisouro mais precioso que os livros aptos para estudo […]» : bibliotecários conventuais, guardiões de tesouros.


|Rui Prudêncio

Constituindo o livro impresso o primeiro produto industrial da civilização ocidental a partir do último quartel do século XV, gradualmente as bibliotecas europeias tornaram-se espaços de grande concentração de volumes, sendo essa aliás uma das suas funções: acumular informação. Se antes o processo acumulativo seria lento, pois a feitura do livro era um labor integralmente manual, logo demorado e dispendioso, com o advento da produção tipográfica, paulatinamente as bibliotecas coleccionaram milhares de volumes. O crescente ritmo de aquisição tornou a gestão e manutenção dos acervos bibliográficos mais complexa e exigente.

Neste contexto, para além das tarefas habituais de organização (catalogação, classificação, arrumação, pesquisa) o bibliotecário vê reforçadas outras funções. O Renascimento enche as estantes, traz mais leitores, e entre tantos volumes, empréstimos, entradas e saídas era imperioso ao bibliotecário desenvolver métodos e técnicas de controlo de circulação e de conservação do livro, afim de prevenir potenciais riscos de extravio ou roubo e minimizar os efeitos do manuseamento.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A intervenção divina no roque português

|Luís Filipe Cristóvão

No dia em que é lançado o novo álbum de Samuel Úria, O grande medo do pequeno mundo, a Revista Literária Sítio associa-se a esse acontecimento com a recuperação de uma conferência apresentada no Congresso Poéticas do Rock, no dia 8 de abril de 2009, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 


1 – Igrejas Cheias do Domingo

Não é muito comum encontrar numa faixa de um álbum de roque português o refrão “Igrejas cheias ao domingo”. Aliás, mais que incomum, durante muitos anos, acharíamos intolerável que isso acontecesse (acredito que boa parte de vocês continua a achá-lo intolerável e pergunta-se, talvez com alguma propriedade, porque é que eu estou aqui, porque é que eu estou a falar disto). Mas, partindo do princípio filosoficamente indiscutível de que Deus está em todo o lado, não poderíamos pensar que ele deixaria de imiscuir-se num meio tão dado a endeusamentos como o roque português. Então, o que torna possível repetir este refrão em concertos por todo o país? Tiago Guillul. Foi ele o primeiro músico a assumir um posicionamento religioso no seu roque. Mais do que assumir, alias, parece claro, desde o primeiro álbum, que tentou aperfeiçoar um projecto de afirmação do universo Flor Caveira, enquanto uma produtora musical independente e protestante, nos princípios e na mensagem (embora sem exclusividade). Logo, mais tarde ou mais cedo, já deveríamos saber que isto acabaria mesmo por acontecer.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Inventar a realidade

|Henrique Manuel Bento Fialho


   Não há nada a fazer. A dor é a dor e com músculos rasgados não se brinca. Trabalha-se. Não sei quem foi Gustave Caillebotte. Nunca me preocupei em aprofundar as suas dores. Não trabalho a arte como quem afaga o chão, sou de distracções brutas no que toca a pormenores e acabamentos. Pior que isso, sou da preguiça. Sou do não querer saber mais, do ficar a olhar e sentir, vindos não sei de onde, uma série de comichões internas que, por vezes, se tornam tão insuportáveis como uma distensão muscular. Os meus amigos ladrilhadores não conhecem o quadro. Já lhes tenho dito: em 1998, quando estive no Museu d’Orsay, vi-vos por lá. Eles não acreditam. Como lhes digo estas coisas em momentos de bebedeira, pensam que estou a alucinar, que é mentira, que é mais um dos meus delírios pseudopoéticos. Mas eu não deliro com quadros de Caillebote. Eu deliro com corpos femininos e citações de Nietzsche: «a arte não é apenas imitação da realidade da natureza mas precisamente um suplemento metafísico da realidade da natureza, e a ela adicionado com o fim de superá-la» (O Nascimento da Tragédia, trad. Teresa R. Cadete). Trata-se, é certo, de uma citação inicial, mas tão luminosa quanto Os Afagadores de Soalho, de Gustave Caillebotte.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Reflexões sobre a poesia


|João Camilo


I

Que pretende a poesia? Criar personagens interessantes, em particular e para começar o do próprio poeta, um indivíduo que “escreve poemas”, que através da escrita reivindica um lugar na galeria de “figuras” da nossa sociedade? Assim se sai do anonimato, é certo. Mas talvez se escreva poesia para reconstruir a experiência? Isto é: para fixar o que já se perdeu ou nunca chegou a ser; para pensar, divagar, contestar; para interrogar, protestar, explicar; para investigar, construir, destruir; para corrigir, reinventar - e assim por diante, a porta das hipóteses fica aberta.

Agindo assim contribui-se para a existência de um universo humano com sentido, o sentido que séculos de cultura e civilização foi elaborando. Ao escrever um poema situamo-nos e situamos os outros nesse universo cheio de sentido. Para o aperfeiçoar negando-o ou criticando-o, para nos interrogarmos sobre as razões da sua existência e sobre a sua coerência, para o confirmar e provar que o seu sentido tem sentido, um sentido que se pode discutir, sobre o qual se pode discorrer.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Gonçalo M. Tavares


|Manuel A. Domingos

De todos os novos autores de Língua Portuguesa, Gonçalo M. Tavares (1970) é aquele que melhor consolidou o seu lugar no panorama literário português. Em Portugal recebeu vários prémios, incluindo: Prémio LER/Millennium BCP (2004), Prémio José Saramago (2005) e Grande Prémio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores (2007). A nível internacional recebeu: o Prémio Portugal Telecom (Brasil, 2007), Prémio Internazionale Trieste (Itália, 2008), Prémio Belgrado Poesia (Sérvia, 2009). E foi ainda nomeado para o Prix Cévennes (França, 2009), que diz respeito ao prémio para o melhor romance europeu. Recebeu, ainda: Prémio Melhor narrativa Ficcional da Sociedade Portuguesa de Autores (2010), Prémio Especial de Imprensa Melhor Livro Ler/Booktailors (2010), Grande Prémio Romance e Novela da Associação Portuguesa de Autores (2011), Prémio Fernando Namora/Casino do Estoril, Melhor Livro Ficção (2011), Premiado no Portugal Telecom (Brasil, 2011), Prémio Fundação Inês de Castro. Para além de inúmeros livros publicados em dez anos (30 entre 2001 e 2011), que vão do romance e do conto à poesia, do ensaio ao teatro, Gonçalo M. Tavares cedo estabeleceu o seu percurso, isto é, o seu “programa” de escrita. Prova disso é a divisão feita pelo autor da sua obra publicada até à data: O Reino. Foquemos a nossa atenção neste último.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Ray Loriga

|Rui Malheiro

"Gosto de Jean-Luc Godard e de Ingmar Bergman. Não gosto de grão-de-bico. Gosto de Espanha. Não gosto de Espanha. Gosto muito de França, porque a conheço muito pouco. Gosto da comédia, inclusive por cima do respeito, porque como dizia Larry Flynt, famoso pornógrafo, o nosso sistema está criado para assegurar as liberdades dos piores de nós. Gosto dos meus amigos. De ler e de beber com os meus amigos. Não gosto nada que o Papa vá num papamóvel, porque se Cristo tivesse tido guarda-costas não teria existido Cristianismo. E falando de Cristo, Lenny Bruce, o irreverente e tristíssimo cómico norte-americano, dizia que se Cristo tivesse nascido no Texas no século XX, e não em Jerusalém há dois mil anos, os católicos usariam cadeiras eléctricas à volta do pescoço em vez de cruzes"
(Ray Loriga)


"O pior de tudo não são as horas perdidas, nem o tempo por detrás e por diante, o pior são esses espantosos crucifixos feitos com pinças para a roupa". Com esta frase, Ray Loriga (Madrid, 1967) principia Lo peor de todo (1992), a sua primeira novela, rapidamente conotada com a "Geração X" de escritores espanhóis, cujo estilo transpirava álcool, drogas e rock and roll, rótulo que Ray Loriga sempre renunciou, ao afirmar que nunca ambicionou pertencer – ou deixar de pertencer - a qualquer geração.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Um ponto no mapa (ou talvez um poema)


Pequeno pseudo-ensaio vagamente descritivo da obra de João Luís Barreto Guimarães. 

|Alexandra Malheiro

Alain, comentando Válery, diz-nos que "todo o pensamento começa por um poema". Lembro-me disto sempre que leio João Luís Barreto Guimarães, ainda que um pouco ao contrário, acreditando que nele os pensamentos acabam tornando-se poemas. Poemas como pensamentos, como um apontamento que tiramos ao andar pela rua, ao observar. Como se estivéssemos a ler um livro e fizéssemos uma anotação na margem, um sublinhado, João Luís faz o mesmo com o que observa, com as mais comezinhas ocorrências quotidianas como o trilho de óleo que o carro deixa na garagem e faz depois prendê-las ao seu próprio pensamento, com frequência uma divagação sobre uma memória poética, alguma coisa que leu, um quadro de viu, uma cena de um filme. Tem sido assim em todos os seus livros, um jogo metonímico e de linguagem que começa nas cenas quotidianas mas que nos leva muitas vezes por uma via erudita, às vezes de menor compreensão para os menos viajados. Quando falo em viagem digo-o, também, de forma lata aproveitando a amplitude da palavra seja a viagem física que fazemos a outros lugares seja a viagem que os livros, a arte, enfim, a cultura nos proporciona.