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sábado, 19 de janeiro de 2013

39ª Maneira de Amar: anunciar (5:8)

|Joana Serrado


Hadewich consegue através do seu crescimento no amor adquirir a plena autoridade para falar, para anunciar as inscrições que leu no rosto do amado. Na sua feminilidade nunca abandonada, a Beguina relembra-nos aqui o seu grande mandamento, essa sua saudação que
também ela é a expressão da sua eterna preocupação para com a comunidade em que está inserida.
      A sua autoridade está conquistada, a sua preocupação é de mestra, de guiar as suas pequenas Beguinas para que elas próprias possam constituir uma vanguarda da prática íntima do amor justo. Assim se constata como é necessário boa companhia para iniciar a peregrinação do amor: a sagrada comunidade, da qual toda a jovem beguina faz parte. Recuperar o que é seu, no direito da dádiva divina, mas também como essa dádiva se opera transversalmente, passando do meu para o nosso.


In Guarany, 4águas, 2012.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

tus dedos en mi vísceras

|Joana Serrado


Doem-me os cafés da minha cidade
os que fecham ao domingo
os que fecham para obras
os que fecham para férias
os que fecham indefinidamente
os que fecham por fechar
os que não precisam de fechar e se trespassam trespassando-nos.
Sei que vou morrer com eles
sei que vou morrer sem eles.
Sei que o teu corpo é um corpo perecível
corruptível.
Sinto a tua morte nos meus ossos


e não consigo salvar-te.
Sinto a tua frigidez
a tua alvura apodrecida
a maneira como os teus maxilares se adormecem um no outro.
Só o perfume das violetas que brotam do teu corpo me faz respirar.



In Guarany, 4águas, 2012.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

13ª Maneira de amar: abraçar ou prender (8:3)


|Joana Serrado

O abraço é a condição de possibilidade de toda a união. É a maneira como, a seu tempo veremos, a Amada fica prisioneira da sua própria essência, que é o amor, mas também da Liberdade. É a extrema dádiva do amor que é o corpo – de um corpo que se preparou para o
amor, para a doçura, para o conhecimento total. Não há abandono da criaturalidade, pelo contrário, esta é um imperativo para amar.
Eis-nos no âmago do experienciar amoroso (mística): Hadewijch utiliza dois verbos distintos – abraçar e prender – para mostrar os dois pólos da vida humana: o prazer e a dor. Entre o experienciar – sentir – e o experienciar – provar: toda uma dinâmica experiencial baseada nos sentidos se concatena. Ser-se Cristo na doçura (ou natureza), mas também nas fraquezas, nas imperfeições, as quais, não sendo pecado, mostra o imperioso mandamento de viver e morrer com Cristo. Experienciar é despertar todos os sentidos. É prender, abraçar a criaturalidade.


In Guarany, 4águas, 2012.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Os Estatutos do Amor


|Joana Serrado

1. (Direito à Possibilidade)
Que todo o abraço seja tão contundente como o teu olhar.
Que todo o olhar seja tão emergente como a tua palavra.
Que toda a palavra seja tão urgente como a tua mão nos meus cabelos.

2. (Direito ao Espaço e ao Tempo)
Que haja tempo em bloco e não ruptura de tempo.
Que a minha ilha seja teu porto e teu porto nos seja santo.
Que a comunhão se faça tanto no beijo como no silêncio.

3. (Direito à Fecundidade)
Que do teu umbigo nasçam flores com seiva de primavera.
Que eu possa viver do seu perfume e sobreviver à sua acidez sem as
desflorar.
Que o prazer não precise de extrema – unção mas que a unção do
prazer seja extrema.

4. (Direito à Perfeição)
Que a palavra “amor” nunca seja proferida em vão.
Que o amor venha já feito, perfeito e não por fazer.



In Guarany, 4águas, 2012.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

XXI


|Joana Serrado

XXI
____________:Debaixo do viaduto há uma gráfica e uma loja de latas. Vendem-se mais coisas, das quais nunca percebi a utilidade: jarras, vidros de todas as espécies, pisa-papéis, caixas, objectos que nunca vira nem soubera o nome. A loja arrasta-se para dentro, com estantes e prateleiras às quais não se tem acesso. Há sempre promoções numa moeda que já não existe. A loja pede baixinho para se trespassar. O seu mundo já não é deste reino. A gráfica, por baixo,
dá sinais de vida, ocasionalmente, mas nada perturba o trespasse da companheira de cima. Entro lá como uma criminosa. Compro uma lata verde, onde poderei guardar o meu poema de amor. Poderia também comprar uma jarra ou um pisa-papéis – deve fazer falta, talvez, para guardar uma violeta e impedir que as cartas de amor esvoaçassem pela janela. Poderia simultaneamente salvar a loja do trespasse e escrever um poema de amor? Ou poderia comprar duas, três, cinco latas? Dizer ao dono que poderia transformar a loja numa loja de latas, de todas as cores, para aquela multidão que gritava contra o edifício, para todos eles escreverem e nela guardarem um poema de amor? Mas ele nem sequer me ouve, avia-me o pedido e desaparece por entre as prateleiras quase despidas para nunca mais ser visto.
      À saída está um bêbado (será o velho do jardim?). Vive à porta da loja que vai fechar. Todos os dias assiste à promoção das latas e dos pisa-papéis. 
       E aperto a minha lata contra o peito e corro debaixo do viaduto.


In Guarany, 4águas, 2012.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

IV - Guarany


|Joana Serrado


IV
GUARANY: Ao descobrir a Avenida, subindo-a ao ritmo da respiração, vi-o. Mesinhas solitárias esperavam por mim. Um empregado velho branquejante se arrastava balouçando o seu disco de metal. O café vazio, as paredes translúcidas – aqui escreverei o meu poema de amor. Mas a segunda vez que lá passei, armada de caneta e papel, o Guarany estava camuflado por jornais. Só o ferro dourado, por entre novidades atrasadas, era indício de ouro. Todas as outras vezes que se seguiram, quando me arrastava para outros cafés, o Guarany continuava fechado, sempre fechado, fechado para férias, fechado para descanso do pessoal, fechado indeterminadamente. Como seria possível? Esperava que os empregados se dirigissem para a porta, retirassem os jornais que cobriam a vitrina, e que tudo voltasse como dantes, por um dia! e que eu lá escrevesse o meu poema de amor. Passados dois anos, hoje mesmo, cambiaram o aviso: Por favor, não afixar cartazes. Agradecemos a sua compreensão. A gerência. Espreitei pelo papel (nunca o deveria!): tintas, as mesas desaparecidas, o balcão irreconhecível, o criado branquínio transformado em pó branco. Tintas. tenho medo. O meu poema em obras: A gerência agradece a compreensão.


In Guarany, 4águas, 2012.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Joana Serrado


Joana Serrado nasceu em Aveiro em 1979 e estudou filosofia, neerlandês e teologia em Coimbra, Porto, Berlim e Groningen. Foi Fulbright Visiting Fellow na Harvard Divinity School em 2010. Desde 2012 é investigadora em História do Misticismo e Teologia Feminista na Universidade de Oslo, onde também ensina Literatura Lusófona.