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sábado, 26 de janeiro de 2013

Em trânsito


|João Luís Barreto Guimarães

Metaxu

No
terminal principal do aeroporto de Frankfurt
um clérigo franciscano arrisca
por entre o pecado. Pobre
obediente e
casto. Seu hábito cor-de-terra parece
já levitar (preso ao solo
pela mala onde traz
a vida inteira).
Estamos ambos de passagem. Ele
para a eternidade. Eu para
a vida efémera.


In você está aqui, Quetzal

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A marca de João Luís Barreto Guimarães


Recensão do livro você está aqui 

|Luís Filipe Cristóvão

Depois de em 2011 ter publicado a sua Poesia Reunida, João Luís Barreto Guimarães volta aos originais com a publicação de você está aqui, numa edição da Quetzal.  

Um dos poemas que pode ser visto como peça central deste volume traz o título “Bicicleta para o infinito”. Escolhido para destaque na abertura do livro, o poema aparece, na sua forma completa, no final do volume. Neste poema, pressente-se a ideia de que a viagem é um lugar imóvel

pedalo
pedalo
não saio do mesmo sítio.

que se faz na escrita

pedalo atrás do manuscrito

através da observação dos outros

gosto de os ver errar atrás de logros distintos

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Meditação em Váci Utca


|João Luís Barreto Guimarães

Ao Rui Lage

A tarde: passei-a a assistir à guerra
pela televisão. Nenhum dos nossos está em falta
enquanto nesses lugares se contam
desaparecidos. Ninguém
da nossa geração esteve na revolução. Outros
(antes de nós)
fizeram as nossas guerras (quando
chegámos aos dias já a guerra havia sido
chegámos para lutar tinha
o ditador caído). Para nós só sobejou outra
sorte de batalhas (levantar cada manhã o
peso imenso das pálpebras)
correr por um lugar na trincheira
do balcão.
A tarde inteira assisti à guerra
pela televisão (deste lado do ecrã não se
passa frio
ou fome). Sirvo-me um copo de vinho num
gesto despreocupado enquanto assisto em directo
ao estrear de outra batalha. É terrível
quando cai a cor do vinho tinto
no branco puro
da toalha.


In você está aqui, Quetzal
Disponível nas livrarias a 25 de janeiro de 2013.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Verdadeiros inimigos


|João Luís Barreto Guimarães

Estou em idade de ter verdadeiros inimigos.
É quase inevitável. Parece-me mesmo
normal. Já erro
pela cidade há demasiado tempo. Estranho
era que ninguém tivesse reparado
em mim. É esta a idade de ter
verdadeiros inimigos
é sabido que possuo predicados invulgares
(sou visita de casa da angústia e
do tumulto
há muito que trato por tu a dúvida e a inquietação)
é fácil que sobrevenha quem sinta invídia
de mim. Cheguei à idade de ter verdadeiros
inimigos (prometo
alimentá-los com novos conseguimentos:)
apenas reclamo para mim um
direito natural.


In você está aqui, Quetzal
Disponível nas livrarias a 25 de janeiro de 2013.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Uma viagem pela palavra


Entrevista a João Luís Barreto Guimarães

|Clara Henriques
    

Em toda a viagem há um momento de pausa. Um lugar onde se encosta a estrada já percorrida e se encara de frente o que há-de vir. Em todo o poema há uma vírgula por mudar, uma sílaba por fazer. Também João Luís Barreto Guimarães sentiu que era altura de parar, olhar e voltar a “re-parar”. É esta a viagem que surge agora relatada no seu mais recente livro “você está aqui”, que chega às livrarias no próximo dia 25.
À conversa com a Revista Sítio, o autor confessa estar numa fase em que se sente, cada vez mais, dentro da vida.
É talvez este o tempo de chegar.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Bicicleta para o infinito


|João Luís Barreto Guimarães

Ao
assentir os 40 subi a uma bicicleta das que
pedalo
pedalo
não saio do mesmo sítio. Já me disseram:
assim falho a experiência real (o
vento frio na face
o marulhar magnífico) mas
pedalando à janela sobre a marginal de Leça
gosto de os ver errar atrás de logros distintos
(um fato de treino rosa
a juventude perdida) cá de cima eu
pedalo atrás deste manuscrito
(escrevo
rasuro
reparo: ) a meus pés
outro infinito.



In você está aqui, Quetzal
Disponível nas livrarias a 25 de janeiro de 2013.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Um ponto no mapa (ou talvez um poema)


Pequeno pseudo-ensaio vagamente descritivo da obra de João Luís Barreto Guimarães. 

|Alexandra Malheiro

Alain, comentando Válery, diz-nos que "todo o pensamento começa por um poema". Lembro-me disto sempre que leio João Luís Barreto Guimarães, ainda que um pouco ao contrário, acreditando que nele os pensamentos acabam tornando-se poemas. Poemas como pensamentos, como um apontamento que tiramos ao andar pela rua, ao observar. Como se estivéssemos a ler um livro e fizéssemos uma anotação na margem, um sublinhado, João Luís faz o mesmo com o que observa, com as mais comezinhas ocorrências quotidianas como o trilho de óleo que o carro deixa na garagem e faz depois prendê-las ao seu próprio pensamento, com frequência uma divagação sobre uma memória poética, alguma coisa que leu, um quadro de viu, uma cena de um filme. Tem sido assim em todos os seus livros, um jogo metonímico e de linguagem que começa nas cenas quotidianas mas que nos leva muitas vezes por uma via erudita, às vezes de menor compreensão para os menos viajados. Quando falo em viagem digo-o, também, de forma lata aproveitando a amplitude da palavra seja a viagem física que fazemos a outros lugares seja a viagem que os livros, a arte, enfim, a cultura nos proporciona.