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quinta-feira, 7 de março de 2013

Se as noites existem


|Minês Carvalheira

Se as noites existem,
e elas existem e passeiam
nos telhados das casas dos amigos,
e, às vezes, não há telhados
mas só mesas e candeeiros
onde miam os gatos e cai
a chuva e se embalam
os amigos, a água que entrou
pela porta
e nos amigos
deve secar no estendal da palavra.

Se as noites existem e
elas existem se não há como
as não deixar sair
pelas janelas das casas,
e só os gatos, na verdade, entram e saem
ao mesmo tempo
porque não são exactamente de dentro
ou de fora
e miam mas nunca caem só,
como a chuva,
há sempre mais telhados do
que amigos
ou abrigos.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Um poeta pelos pulmões


|Alexandra Malheiro

Agora os dias são mais curtos, não sei se pela força do calendário, a aproximação da Invernia, se por nos teres deixado assim, tão desavisadamente, a olhar o vazio, o buraco negro por onde partiram as palavras. Levaste-as contigo, decerto.

Agora que aqui não estás, o que dizer (ou pensar, que sei eu?) sobre a vaga de frio que vem com o Outono, da gramática que nos falta porque nos faltas, dos poemas todos que ainda estão por escrever?

Agora que a cidade sussurra a tua ausência, as bibliotecas choram-te em silêncio, “porque o resto é silêncio (que resto?)”, elas sabem que não voltarás a dar nome às palavras, nem voltarás a abrir-lhes os livros, que nem Milne, nem Borges nem Céline  te trarão de volta dos mortos agora que talvez tenhas achado  “um lugar onde pousar a cabeça”.

terça-feira, 5 de março de 2013

Manuel António Pina por...

|Manuel Jorge Marmelo


Ainda não sou capaz de dizer da falta que o Pina me faz. Quando me lembro dele, tantas vezes, fica-me um vazio por dentro, duro como uma pedra na barriga. Mas depois lembro-me do sorriso amável que ele tinha, das histórias que contava, dos gatos e dos serralheiros, dos taxistas e dos polícias, dos piropos que coleccionava — e sorrio também. Tenho a memória cheia de imagens do Pina, de frases do Pina, de exemplos do Pina, e só por causa disso creio que sou um homem melhor do que aqueles que não o conheceram, não o leram, não conversaram com ele. Quero ver se não me esqueço de não permitir que aquele que fui com vinte anos tenha razões para se envergonhar de mim. 

Tanto silêncio

|Manuel António Pina


Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
Formas indecisas
Procurando um eixo que
Lhes dê peso, um sentido capaz de conter
A sua inocência,
Uma voz (uma palavra) a que se prender
Antes de se despedaçarem
Contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz “eu”;
Se tiveres ouvidos suficientemente privados
Podes escutar o teu coração
Pulsando sob a palavra da tua existência,
Entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
Ouves o teu coração (as tuas palavras “o teu coração”)?


in Livro Primeiro

segunda-feira, 4 de março de 2013

Onde estás agora?


|Jorge Sousa Braga


  ao MAP



Onde estás agora
Oh meu amigo?
Nem dentro
Nem fora
Nem muito longe
Nem muito perto
Talvez nos primeiros
Raios da aurora
Talvez no deserto
No mais incerto
E improvável
Lugar

Onde estás agora
Oh meu amigo
Que não te oiço?
Talvez no fim
Da estrada
Envolto em poeira
Numa cadeira
De baloiço
Em frente ao grande
Tudo
Ou ao grande
Nada

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Quem vencerá o Prémio Literário Casino da Póvoa? - 1


Esta semana damos destaque à programação do Correntes d’Escritas, Encontro de Escritores de Expressão Ibérica que decorrerá na Póvoa de Varzim entre 21 e 23 de fevereiro. Hoje e amanhã visitamos os oito nomeados para o Prémio Literária Casino da Póvoa. Os primeiros quatro nomeados, de cujas obras a concurso apresentamos um poema, são Ferreira Gullar, Manuel António Pina, Hélia Correia e Fernando Guimarães.