|Philippe Delerm
Mr. Mouse dança como um urso. O seu fôlego de corredor a pé permite-lhe rodopiar durante bastante tempo, mas nenhuma graça, nenhuma leveza, nenhuma técnica. Paciência! No tempo em que era rato jovem, contentava-se em ver dançar os outros, na festa de Brambly Town. Baforadas melancólicas de gaita-de-foles ressoam-lhe ainda nos ouvidos. Deixava-se ficar ali, sentado no pequeno muro; todas as ratitas rodopiavam, tão delicadas, e ele incapaz de ousar convidá-las – e tinha tanta vontade de o fazer! Um dia, num casamento, deram-lhe como acompanhante uma bonita prima. Jeremy ainda se lembra daqueles slows langorosos, com as patas esticadas longe da infortunada – uma vergonha!
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sábado, 13 de abril de 2013
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Onde o nosso herói confessa sem vergonha excessiva uma tendência gulosa para se ver ao espelho.
|Philippe Delerm
Mr. Mouse costuma ver-se ao espelho.
Este hábito pouco ou nada se alterou ao longo dos anos. No entanto, Jeremy
Mouse domina, qual filósofo, os elementos da análise: trata-se de um reflexo
adolescente. O ratinho não se observa, nem o rato velho. Mas o ratolas começa a
procurar-se nos espelhos, por receio de agradar e desejo de existir, ou então o
inverso, enfim… Mr. Mouse baralha-se um bocado. A perturbação insinua-se – algo
lhe diz que, se tiver a sorte de envelhecer, haverá sempre de se ver com
vaidade no fundo dos tachos reluzentes, na superfície do Charco-dos-Salgueiros…
Será que Mr. Mouse tem necessidade de agradar? Necessidade, talvez não.
Vontade, é outra coisa. A ver se nos entendemos. Mr. Mouse não anda, desde há
muito, a deitar olhares lânguidos, à população feminina da vizinhança. Com as
mais jovens, passaria por sátiro, e é demasiado amigo das da sua idade para se
atrever qualquer pestanejar com um inefável vago na alma. Aliás, não há nada de
vago na sua alma, e se estiver apaixonado, é pela Emily Mouse, cada dia um
pouco mais – sim ; não há assim tanto tempo quanto isso, algumas outras ainda
lhe pareciam desejáveis, mas agora conhece-as melhor, a vontade diminui, ou
então aumenta o amor, vá-se lá saber, ou então tem um bocadinho a ver com a
idade.
Não, as espreitadelas ao espelho de Mr. Mouse não se destinam à
avaliação objectiva das suas virtualidades sedutoras, não têm qualquer velada
intenção estratégica propriamente dita. E também não é um tique. Mr. Mouse
recorda-se. Quando era rato jovem, receava sempre achar-se feio. Ia depressa
ver-se num pedaço de vidro e isso tranquilizava-o: na verdade, não estava mal
de todo. Mas três segundos depois, voltava o desejo de confirmar esta
serenidade, e um novo olhar no espelho reconduzia-o à angústia original. Que
inferno!
Hoje, os seus olhares são apesar de tudo mais sossegados. Reconhece-se
quase sempre, com as suas roupas de cavalheiro-campestre-elegante-confortável,
o seu grande focinho do South West, a sua figura ainda aceitável, gentilmente
guarnecida pela sabedoria dos anos. Mas se Jeremy Mouse estivesse assim tão
seguro de si, será que continuaria a não deixar escapar a menor oportunidade de
reflexo? Tem vergonha de o confessar, mas até já tem dado por ele a olhar-se
nos vidros dos quadros pendurados na parede do terreiro.
Mr. Mouse sacode a cabeça; em menos de nada, o seu pensamento torna-se
niilista. Nunca se é completamente sábio, nem completamente si próprio, nem
completamente nada. Ou então talvez seja menos grave: é preciso amedrontar-se e
esquecer-se, e depois rapidamente festejar o reencontro.
Philippe Delerm, Mister Mouse ou a Metafísica do Terreiro, Trad.
Clotilde Simões, Livrododia Editores, 2007
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Onde a literatura dos ratos levanta voo graças ao apoio moral dado pelos gerbos.
|Philippe Delerm
Mr. Mouse escreve. Não se trata de
alta literatura, descansem. São antes aguarelas, pequenas pinceladas, uns esboços.
Ele teria aliás preferido pintar. Cada vez que a Emily tirava as sua paletas de
aguarela para fora, os seus grandes blocos de papel de desenho Moulin d’Arches
, Mr. Mouse ficava com vontade de fazer qualquer coisa com aquilo: a
desarrumação em si já parecia um
sucesso! Os álbuns para ratinhos da Emily são tão belos! Mas não, a sério, é
demasiado desajeitado para qualquer expressão gráfica. A culpa não é sua:
ensinaram-lhe a escrever com a mão direita, embora seja canhoto. Então, nos
serões em que Emily pintava, Mr. Mouse instalava-se no cadeirão para ler.
Acreditava que podia embarcar em romances apaixonados, com histórias
palpitantes, aventuras, livros para nos atemorizarmos no meio de ondas de dez
metros a saborear no canto da lareira.
Mas não há nada a fazer. Mr. Mouse está demasiado velho, sem dúvida, ou então
acreditou demasiado nessas histórias quando era ratito – já não tem jeito para
viajar assim, desde então.
Durante algum tempo, Mr. Mouse sentiu-se infeliz com esta enfermidade, e
arranjava consolo como podia: fingia seguir o caminho das linhas, mas apenas
mergulhava no quase silêncio do terreiro, no arruivado da cerveja e na
claridade das chamas. E depois, como que por magia, outros livros chegaram-lhe
ás patas. Livros diferentes, livros deliciosos que não falam de grande coisa,
mas que se comem e se bebem com o olhar. O primeiro começava assim:
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Onde o prazer físico aparece de repente como componente essencial do bem-estar dos terreiros.
|Philippe Delerm
Pois é, ficaram surpreendidos?
Mr. e Mrs. Mouse fazem amor, às vezes, enfim, com bastante frequência – quando se ama, não se anda a fazer contas. Isso já se sabe, responder-me-ão, nem era preciso dizer. É verdade, é preciso é que tudo saiba bem, muito bem, mesmo sem o dizer. Não há dúvida de que é por essa razão que não se fala nisso. Mas os pensamentos de Mr. Mouse revelam-se contraditórios. Tem muito orgulho neste croissant quente da sua vida o qual é preciso tratar pelo termo ridículo de sexualidade. Os sentimentos de Mr. Mouse neste capítulo ainda são dos mais burgueses: a melhor sexualidade é por definição aquela que não se apregoa em cima dos telhados. No entanto, um pouco por aqui, um pouco por ali, Mr. Mouse gosta de dar a entender que corre tudo bem com ele. Virilidade pretensiosa? Não, sinceramente, Mr. Mouse pensa que é bom não deixar para esses extravagantes ratos de Hollywood o apanágio de exaltar as delícias do corpo.
Pois é, ficaram surpreendidos?
Mr. e Mrs. Mouse fazem amor, às vezes, enfim, com bastante frequência – quando se ama, não se anda a fazer contas. Isso já se sabe, responder-me-ão, nem era preciso dizer. É verdade, é preciso é que tudo saiba bem, muito bem, mesmo sem o dizer. Não há dúvida de que é por essa razão que não se fala nisso. Mas os pensamentos de Mr. Mouse revelam-se contraditórios. Tem muito orgulho neste croissant quente da sua vida o qual é preciso tratar pelo termo ridículo de sexualidade. Os sentimentos de Mr. Mouse neste capítulo ainda são dos mais burgueses: a melhor sexualidade é por definição aquela que não se apregoa em cima dos telhados. No entanto, um pouco por aqui, um pouco por ali, Mr. Mouse gosta de dar a entender que corre tudo bem com ele. Virilidade pretensiosa? Não, sinceramente, Mr. Mouse pensa que é bom não deixar para esses extravagantes ratos de Hollywood o apanágio de exaltar as delícias do corpo.
terça-feira, 9 de abril de 2013
Onde se descobre que a degustação da cerveja pode ser sublimada e elevada ao patamar da pesquisa estética.
|Philippe Delerm
Mr. Mouse gosta de cerveja, eis o seu menor defeito. Não desdenha as louras,
desde que não sejam demasiado amargas. Suporta as morenas, quando não são
demasiado encorpadas. Mas os seus amores são as ruivas, cujos reflexos lhe
lembram talvez certos recantos sedosos do corpo de Mrs. Mouse.
Mr. Mouse não bebe por beber, apenas
para matar a sede. Tomar uma cerveja é para ele um culto. Entrega-se-lhe de
corpo inteiro, indiferente ao resto do universo. Primeiro é preciso escolher o
copo certo para a cerveja. Mr. Mouse possui uma colecção deles: barrigudos ou
dilatados, arrumados numa prateleira do louceiro, todos eles gravados com o
nome de uma marca. Mr. Mouse não saberia consumir uma cerveja sem a consumir no
seu copo. Se os espelhos-feiticeiras
dos quadros de Van Eyck reflectem o seu próprio assunto, a composição em abismo
de Mr. Mouse não é menos refinada. Continente e conteúdo respondem um ao outro
numa subtil dialéctica: ele bebe o nome, a ideia, tanto quanto a realidade
móvel do líquido.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Onde se vê que a deterioração do património mobiliário não é mais do que uma perversão da alquimia do prazer.
|Philippe Delerm
- É bom que se comece a pensar em trocar esse cadeirão!
Mr. Mouse sabe muito bem porque é que Mrs. Mouse disse aquilo. É por
causa deste gesto. Sente-se incapaz de o impedir. Sempre que se senta no velho
cadeirão de curvas macias e apetitosas, Mr. Mouse começa por contemplar as
chamas da lareira numa perfeita imobilidade. Mas em breve, negligentemente, a
sua pata direita começa a deslocar-se no braço do cadeirão, em busca desse
rasgão no tecido cor-de-rosa e de algumas palhinhas desgrenhadas. Como lutar
contra esta insidiosa volúpia? Mergulhando na palha áspera, agravando a ferida
do veludo, Mr.Mouse não procura alívio para uma simples comichão. É muito mais
sério, e ainda mais irreprimível: ao enfiar a pata no braço do cadeirão, Mr.
Mouse atinge o cúmulo do bem-estar, o ponto frágil em que a sensação de prazer
físico se torna tão pura, tão aguda que se casa com a satisfação serena da
felicidade.
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