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sábado, 22 de junho de 2013

Hino em memória

|Rute Castro

é tempo deste peito de vontade cuidar de uma presença,
e a graça coexistir com o assombrear de um templo- a mão estendida em rogo- como o exceder de uma simplicidade santa aquando da data em sina,
tudo a Ti, a oferenda de passos e o peso de significado às costas,
afim da salvação, deste depois em alguns de nós.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

esperar

|Rute Castro

reparar na janela interna de avistar longe e seres casa na manhã de frutos, nas páginas de dedo na boca e no mar a abraçar o céu.

acreditar fiel nesse espaço sagrado.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A casa que fala

|Rute Castro


Emília,

três vezes, as bocas das coisas caladas, quando tudo susteve a respiração, a água parou o reflexo, também a minha voz por falar, também eu por dizer, mas três vezes, as mãos, os pés, nós, os dedos nos dedos, a solidão por me acompanhares, o peso gelado de uma noite sem fim, os olhos abertos à escuridão, o coração, preso, o coração, mãos nas mãos, escada abaixo,

Emília,

a mão estendida ao reencontro, a palidez do momento, as folhas estáticas lá fora, suspensas, por viver, os rostos dos vizinhos, as rugas de espera, os gritos interrompidos entregues ao espanto da casa, hirta, a engolir a memória, minutos caíam de esperança em gotas que alcançavam a terra, a mão estendida ao reencontro, três vezes, o toque, eu a fugir de mim, o meu corpo primeiro do que eu, o confronto dos tempos que se tocam, pelos dedos, o contágio abraçado pela solidão, a mão estendida, três vezes que ouvi,

Emília,

e eu a aproximar-me, como se me aproximasse da dúvida, a confusão a estremecer a vontade, as plantas a crescerem em volta da casa, como cresceram os séculos, os séculos em que não vi, o rosto, os meus olhos, a casa, três vezes, por detrás da porta, translúcida, as mãos nas mãos, as plantas a enlearem-se por dentro, horas que seriam séculos,  o tempo transportado à ilusão, a voz que me aproximava, a música das montanhas a embalar a morte, aproximei-me,

Emília,

nos meus olhos, na resignação dos animais , na rua deserta, no cansaço dos vizinhos à janela. As dálias, as orquídeas, as rosas, por toda a casa, os buracos abriam-se à possibilidade, três vezes, juro que foram três vezes, antes do sol, eu à minha porta, os dedos nos dedos, o tecto pedinte de chuva, as plantas, o caminho só de ida.
Percorremos a memória, o pertencer, mãos nas mãos, eu ao meu ouvido, o caminho que não volta, o reencontro, a memória como que plácida a apertar-me por dentro, de maneira a que me encolha perante mim, a que me esconda dos meus olhos, da porta, da mão estendida, da história da casa que fala.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

creator

|Rute Castro

Trago espaço adormecido neste escuro que canta. Somos nós o  brinquedo interior de apanhar sonhos.

terça-feira, 18 de junho de 2013

animus

|Rute Castro

Tu.

de fora os sábios ferozes nesta corrida de ingénuos

vertes tão bem este sorriso de apertar o peito.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

de profundis

|Rute Castro

 treme-nos tudo atrás da porta, esconde-se o passado na voz por todo o lado e aquece o ar que deforma essa cruz altíssima de querer na boca,

                             de ser fugidio com força de ar o peso de esquecer.

Rute Castro - Biografia


Rute Castro nasce em 1982 em Faro, reside depois em diversas cidades, passando por Caldas da Rainha, Lisboa e até mesmo pela cidade da Guarda.
Com a idade de catorze anos resolve participar no prémio literário António Aleixo, ganhando por esta altura o primeiro prémio entregue pela escritora Lídia Jorge. Desde então nunca parou de escrever, dedicando-se primeiramente à prosa e mais tarde à poesia.
Licenciou-se em Língua e Cultura Portuguesa e fez uma pós-graduação em Ciências da Cultura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Em 2012 foi finalista na competição Fnac Novos Talentos de Literatura com o conto “Sobre os passos que matam”.