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terça-feira, 22 de abril de 2014

Resumo e objetivos da estória

|Maíra Matthes

Essa estória é sobre a superfície escura do mar e o reflexo branco que oscila sobre essa mesma superfície. Como eles são uma e mesma coisa, essa estória é sobre a superfície do mar que é, ora escura, ora reflexo branco. Essa estória é sobre a simplicidade. É sobre algo como: um jarro sobre a mesa. Ela visa retratar a impressão de plenitude e vazio que podem tomar conta de alguém se, por ventura, este alguém se deparar com o mar, numa noite, provavelmente sozinho. A pretensão dessa estória é fazer o leitor se sentir literalmente sozinho, rodeado pela noite e diante superfícies escuras com reflexos brancos. É fazer com que o leitor consiga ver na imagem do mar a imagem de:

um jarro sobre a mesa.

O leitor vai sentir TUDO. Inicialmente o narrador divagará (por aproximadamente uma página e meia) sobre a natureza do PLENO. O narrador parte do pressuposto de que a visão das superfícies escuras com reflexos brancos remete à ideia de plenitude e pretenderá convencer o leitor disso evocando lembranças sobre superfícies, solidão e jarros. Em seguida o narrador afirmará que TUDO não é TUDO senão englobar dentro de si o VAZIO. O PLENO pode não ser o VAZIO, mas o TUDO para ser TUDO precisa ter TUDO MESMO dentro de si, e isso inclui o VAZIO. Então, aproximadamente mais uma página e meia será desenvolvida sobre a natureza do VAZIO.

Mas eis que, de repente (na estória) começa a chover. E os pingos não são poéticos, eles são a antipoética batendo nas costas do leitor. A chuva funcionará como quebra narrativa e terá a função de trazer a “experiência do cotidiano” para o interior do texto. O objetivo desse corte é fazer o leitor se sentir “começando a ficar molhado do lado de pessoas alegres que conversam entre si sem ao menos desconfiar que aquele mar diante de si poderia ser comparado a um jarro sobre a mesa.” [extrato p.4]. Caso o pacto ficcional esteja funcionando, o leitor, nesse momento, se sentirá tremendamente ofendido. Percebam: ele terá sido lançado dos altos píncaros da especulação sobre o PLENO e o VAZIO para a vulgar condição de se sentir “começando a ficar molhado.” Ele terá, então, vontade de cair em alto mar e poderá comparar essa imagem com a de quebrar o vaso que estava em cima da mesa.  E a estória vai acabar assim, com a palavra “desespero” estranhamente flutuando no meio da última frase.


Ps. É importante ressaltar que o término ideal da estória é fora-textual, isto é, a estória apenas terminaria verdadeiramente se e somente se o leitor tentasse suicídio por afogamento ou lesões corporais graves oriundas de profundos cortes de vidros tipo ‘vidros de jarro’. Caso isso não ocorra, não se pode dizer com toda certeza que a estória teve um fim.

sábado, 15 de março de 2014

O peixe além do rio

|Márcia Barbieri

E os frutos estavam todos suspensos sobre minha cabeça, verdes no princípio, não podia me mexer, qualquer movimento romperia a tarde – rotação translação – bagunçaria o solstício. O dia esticava e os figos continuavam podres, fatiados, é como se os pássaros os tivessem estripados antes de devorá-los. Olhei em direção à janela, ela estava fechada, já não sei precisar a quantos anos, imaginei o corpo do meu pai estendido na cama como se fosse uma fruta que ainda amarra a boca, esperando amadurecer. À força. Pensei na solidão branca e calcificada do esqueleto, vendo os músculos se descolarem aos poucos. Pensei na carcaça das baleias brancas. Quando era menor eu acreditava que deveria ter medo dos mortos, achava que eles eram onipresentes e podiam escutar meus passos-ruídos sobre o assoalho de madeira. Quando escurecia ficava com os olhos bem abertos para poder me defender, caso eles aparecessem. Depois fui percebendo que os vivos eram muito mais assustadores e surgiam a qualquer hora e me agarravam com as mãos pegajosas e frias de suor. Lagartos amarelos. Percebi com os anos que o ranger de dentes eram dos seres que estavam em vigília, conhecidos por essas bandas como homo erectus.
− Ela tem razão, parece um planeta.
− Não brinca! Eles são grandes e pouco estéticos, tenho vergonha de olhar no espelho, minha cara está virando uma monstruosidade.
− Deixa de besteiras, já te falei que depois da cirurgia, tudo voltará ao seu devido lugar.
− Às vezes, me sinto completamente entorpecido...
− Você divaga muito, tem uma mente ágil, você percorre lugares desnecessários, sente dores ilusórias, a sua ansiedade é que está te matando, os caroços são apenas manifestações desse seu estado mental perturbado.
− O que adiantaria¿ Uma dose maior de fluoxetina¿
− Quem sabe... O que acho mesmo é que precisa aprender a ser como as moscas.
− Como assim¿ Que vantagens eu teria em ser como as moscas¿ Revirar merda¿ Já faço isso bem demais, não é fácil viver todos os dias, querendo ou não atolamos o pé na merda.
− Não foi bem isso que quis dizer... As moscas chafurdam na merda o tempo inteiro, mas nem por isso se tornam merda, continuam sendo feitas de outra matéria, uma matéria mais nobre, voam sem culpa para outros corpos.
− Tem toda razão, não sou feito da mesma matéria das moscas, até gostaria de ser assim solto, mas sou dado a afetos fáceis, o caos alheio me perturba e desorganiza. Não consigo pousar em outros corpos e sair ileso. Você consegue¿
− Não sei, acho que sou mais frio que você. De qualquer forma estou achando esse papo pesado demais. Quer um cigarro¿ Você está muito tenso hoje.
− Você é o único médico que me recomenda cigarros para acalmar meu humor. Não fumo há três dias, mas acho que estou precisando mesmo de um pouco de fumaça para anestesiar meu cérebro.
− Então, tome logo dois, assim se sentirá anestesiado por mais tempo.
− Passa aí, tenho certeza que me sentirei melhor quando anoitecer. Se é que hoje vai anoitecer...
− Talvez pense assim porque vive numa insônia permanente.
− É difícil adormecer sabendo que existe algo ruindo embaixo da terra.
− Você é mesmo um rapaz complicado, o que se move embaixo da terra que te assusta tanto a ponto de tirar seu sono¿ Roedores gigantes¿
− É obvio que já sou grande o suficiente para acreditar em roedores gigantes. Não é disso que estou falando, eu me refiro a parte geográfica da coisa.
− Geográfica¿
– Você nunca sentiu medo das placas tectônicas¿
− Você está brincando! Você acha mesmo que já perdi o sono pensando no movimento das placas tectônicas¿
− Por que não¿ Você não acha incrível imaginar que enquanto dormimos as placas estão todas lá, se movendo embaixo dos nossos corpos inertes, rindo da nossa inércia¿
− Pra ser bem sincero amigo não acho isso incrível, não ligo a mínima pra essas coisas. A única coisa que me faz perder o sono é o sexo e assim mesmo só durante o ato.
− Tem toda razão, é besteira minha, sou um lunático.
− Eu sei e isso me diverte bastante.
− Meu cigarro está acabando, está quase queimando a ponta dos dedos e continuo pior do que antes, acho que preciso de um médico mais otimista.
− Tem razão, ando ácido esses dias, é o mal da velhice, meu garoto.
− Então espero não envelhecer.
− Infelizmente não é uma opção.
− Pode me dar mais um cigarro¿ Assim posso me distrair até em casa. Já vou, não quero que perca mais seu tempo comigo, deve ter um monte de clientes te esperando e eu aqui te empatando.
− Larga de besteira, não atendo mais ninguém esse horário, meu expediente já acabou, você sabe que não faço a linha do bom samaritano. Fica tranquilo.
Fui embora com um peso nos ombros. Acendi o cigarro e fui observando o desenho que a fumaça fazia no ar. Nas ruas todos os rostos se pareciam, embora em nenhum deles eu me reconhecesse. Era mais uma vez o velho macaco em frente ao espelho. Conversar com Paulo não me aliviava muito, ele era uma grande figura, mas nossos corpos eram feitos de uma combinação totalmente diversa de átomos, o que nos tornava praticamente seres de outra espécie. Perto dele eu me sentia um símio. Um símio que estava há milhões de anos na Terra, entretanto ainda trazia a mão dura e inábil, uma mão que ainda não sabia utilizar os instrumentos civilizatórios, os dedos longos e pouco articulados, nunca fui bom em pinçar objetos pequenos. Eu ainda produzia fogo lascando pedras. Utilizava vasos de cerâmica. Ainda me escondia em cavernas úmidas e fazia pinturas rupestres das minhas caças. Procurava adivinhar o futuro lendo as vísceras dos porcos. Sacrificava animais para amenizar a fúria dos deuses. Era inútil conversar sobre as coisas que me incomodavam, ninguém poderia levar a sério um homem que se assemelhava a um peixe, mexia a boca como um peixe desesperado, tirado há pouco da água. Ninguém poderia entender o coração oco de um ventríloquo. Os bonecos de cores variadas distraiam a anemia das paredes. Artérias e veias se confundiam na vastidão do meu corpo. Lembro da minha perna sendo rompida por canos e todos pedindo que me acalmasse, era apenas uma ponte de safena, milhões de homens já tinham se beneficiado com esse método aparentemente invasivo. Eu estava acostumado às suturas, às trepanações, a membros que não pertenciam a meu corpo. Um ventríloquo. Tinha a impressão que às vezes a minha alma ficava presa naqueles bonecos. Outras vezes me sentia numa sessão vutu, como se todos os meus movimentos fossem controlados por uma mão invisível atrás do palco ou um homem vestido de preto para não ser visto pela plateia.
− Sabe como eu vejo a vida¿
− Como poderia saber se a cada dia você é outro¿ Tenho a impressão que te traio com esse outro que por vezes se apossa do seu corpo.
− É como se a vida fosse uma daquelas goiabas grandes, você pega a faca, corta e dentro ela está bonita e vermelha, então você prepara seus dentes e perfura a polpa, mas na segunda mordida, você vê uma larva branca tentando escapar em meio ao desenho das sementes. E a fruta está tão irresistível que o impulso é devorá-la com larva e tudo. Você para e pensa: “Que importância tem essa larva branca e raquítica¿”
− E o que acontece¿ Você devora a goiaba ou o bicho anêmico vence¿
− Isso é o que eu ainda não sei. Em determinados momentos acredito que venceríamos a larva, em outros acho que a larva riria de nossa cara.
− Não posso escolher por você, mas quando eu era criança, eu nunca pensava, simplesmente engolia aquele bicho branco fingindo não enxergá-lo. Hoje ainda faria o mesmo.
− A infância é maravilhosa por isso, o impulso pela vida sempre ganha.
− Falando assim até parece que você é muito velho...
− E não¿
− Não!
− É que você está fazendo como a maioria, medindo minha vida por anos, assim realmente eu fico parecendo um garotinho.
− E como eu deveria fazer¿
− Deveria calcular levando em conta as experiências que tive.
− Talvez, mas assim é muito difícil ser precisa.
− Não quero que seja precisa, só que entenda que sou bem mais velho do que aparento e quero que me respeite por isso.
− Você sabe que eu te respeito e admiro.
− Eu vejo além da sua cara, e isso não é bom. Eu queria boiar na superfície, como a maioria das pessoas.
− Eu não estaria aqui se você boiasse como a maioria, você sabe, o que me prendeu foi ver em você um escafandrista.
− Não sei... Será que sou mesmo um escafandrista ou apenas um louco que colocou pedras no bolso antes do mergulho¿
− Um escafandrista, com toda certeza. Você me trouxe novamente à superfície, eu ainda vejo o fundo, mas de um lugar seguro.
− Eu gosto de sentir o quanto confia em mim.
− E a cirurgia, conseguiu marcar¿
− Consegui sim, mas você sabe o que penso dessas cirurgias.
− De novo!
− Não quero bancar o chato, mas eu não agüento mais ficar me cortando e esperando outro nódulo aparecer.
− Mas o que o Paulo falou¿
− O de sempre, a cirurgia será um sucesso, nem vai parecer que você tirou nódulos do rosto, vamos torcer para que eles desapareçam de vez.
− Então, qual é o problema¿ Ele não disse que dará tudo certo¿
− Sim, disse, mas você se lembra quantas vezes ele falou isso¿ Em todas as cirurgias ele diz que a probabilidade de reaparecer os cistos é mínima, no entanto, eles sempre reaparecem, eu quero ser mais paciente, mas está difícil.....
− Não podemos fazer nada até a cirurgia. Você tem que se acalmar, não foi você mesmo quem disse que esses cistos são de fundo emocional¿
− Por isso mesmo acho improvável que eles desapareçam, é como se minha alma quisesse tomar forma, deixar de ser abstração, matéria gasosa e se transformar em algo concreto, ainda que sem nome, quisesse se apropriar do meu sangue.
− Você sabe que não me incomodo com seus nódulos, eles me parecem um mundo paralelo, planetas girando em órbita, girando em torno de você.
− Me consumindo, essa é a verdade...
− Você sabia que amanhã acontece o perigeu¿
− Como poderia me esquecer¿ Não durmo há uma semana, imaginando as placas tectônicas se movimentando embaixo do meu corpo...
− Será uma noite linda! Li no jornal que não haverá nenhuma catástrofe. Não deveria se preocupar tanto com os movimentos da Terra.
− Não me lembro dos jornais terem falado das tsunamis antes de elas ocorrerem... e depois como posso dormir tranqüilo sabendo que a Lua está mais próxima da Terra¿
− Só os ignorantes têm o sono profundo.
− Às vezes, você consegue ser muito mau!
− Não é maldade, eu juro! Eu adoraria fazer parte dessa massa amorfa e homogênea, você nem imagina o quanto eu gostaria...
− Esquece isso, vamos pra cama e eu te faço ser um pouco dessa massa amorfa e homogênea... seremos uma coisa só, um monstro de duas cabeças e vários membros... hermafrodita...
A lua vagava solitária na cartografia dilacerada do meu corpo, minhas tripas doíam e eu não sabia o que fazer. Paulo já tinha me explicados milhões de vezes que eu tinha tendências a doenças psicossomáticas. No começo me assustei com a extensão do nome, mas ele me garantiu que não era nada sério, era como se meu corpo formasse pequenos nódulos para poupar minha mente. Tinha operado oito vezes, mas os nódulos ainda apareciam nos lugares mais inusitados. O penúltimo apareceu dentro da orelha, enorme e vermelho. Anuncia gostava, dizia que era igualzinho um planeta perdido no sistema solar e não era nem preciso de um telescópio.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O jardim branco

|Márcia Barbieri

“O homem é a semente da degradação”

Olho para o céu e vejo Deus transformado em um pássaro negro de origami e ele devora a carne verde que se forma em volta da minha carcaça e ele vai espalhando no músculo da rocha a minha combinação incerta de átomos.

Volto ao jardim branco em frente ao salão de festas, um acorde ainda ressoa longe no meu ouvido esquerdo. Disfarço minha ânsia de gritar. Ele continuava lá sentado no banco, como se eu estivesse ali o tempo todo mirando seu perfil. Ele me falava sobre a sua misoginia, sobre o quanto repugnava as mulheres, no entanto, elas nem eram capazes de retribuir tal aversão, eram tolas demais para experimentar o ódio. Como ele podia respeitar alguém que não sabia nutrir ódio pela humanidade¿ Como ele podia respeitar alguém que se curvava ao menor tremor¿ Considerava que o buraco no meio de suas pernas era a prova mais evidente e atroz de sua fraqueza. Nunca conseguira encontrar uma mulher que sustentasse a palavra até o fim, sua língua é mais ágil que seu cérebro. Diferente dos homens, que podiam ser calhordas, mas jamais voltavam atrás em seus acordos. Olhe bem para mim, diga se eu não estou certo quanto as minhas colocações¿

Divaguei um pouco enquanto ele pronunciava suas blasfêmias, o que bem poderia ser o que ele chamava de um defeito tipicamente feminino. Ajeitei o cabelo que escapava por baixo do chapéu. Apalpei meu externo, à procura inútil dos meus seios, eles são ridiculamente pequenos e escorregam facilmente...
Não sei se a culpa era dos pelos grossos que cobriam todo o meu dorso ou do meu chapéu coco um tanto masculino. O fato é que ele não parecia reparar que eu era de uma espécie inferior a sua.
Estendi meus dedos em volta do pescoço como se procurasse um pomo de adão ou desapertasse uma gravata borboleta que não existia. Ele reparava em meus movimentos e pigarreava de alegria, afinal, éramos tão parecidos que ele podia se deitar na minha cama e não tocar no meu sexo, porque meu órgão era grande, pesado e imponente como o dele e como dos touros que não foram castrados. Eu não era como as outras que tinham as genitálias escondidas na abstração e nas gretas do corpo, meu clitóris despencava das minhas ancas como um sino enferrujado prestes a cair.

A mulher é cheia de pretensões e na sua cabeça germinam apenas futilidades, diz conhecer o abismo dos homens, enquanto sua alma não passa de um porão cheio de quinquilharias. Como poderia adivinhar a ranhura na face do macho? No entanto, qualquer pedra desse jardim pode dissertar mais sobre a evolução humana do que esse ser rastejante originário da vértebra fraturada de um cão sarnento. Eu não tocaria na vagina de uma mulher nem que me pagassem, todas elas são dentadas.

Consegue sentir a música? Inteira, eu digo, sem distinguir os instrumentos de sopro ou a agonia das cordas¿ Sem imaginar a orquestra, o maestro ou a intriga entre os artistas que fingem cantar em uníssono como se fossem um só corpo, uma só voz, um só anseio¿ Uma mulher não conseguiria, ela ficaria horas analisando sobre a importância das notas utilizadas, o compasso, o ritmo, a harmonia, porque para ela é mais  importante a origem do que o produto final. Remói os miomas do seu útero e não é capaz de reconhecer a cria que rasga sua vulva.

Ele continuava discorrendo como um maníaco depressivo. Olhei para seu rosto animalesco, para a curvatura das suas costas, um pouco disfarçada pelo terno escuro, para os seus débeis e longos dedos. Recordei da primeira vez que o vi sem roupa através da fechadura, não conseguia entender como eu podia amar um homem como aquele, um primata, eu me perguntava se ele participara daquela tal evolução que transformou os macacos em homo erectus, a sua coluna vertebral era tão envergada que eu poderia também ver a sua semelhança com um cachorro, nunca com outro homem ou com um ser divino, feito de matéria porosa e perfeita.

Embora ele não percebesse, ele também não passava de um símio, que por um erro conceitual do Ser ganhou o nome de homem.

Toquei de novo o avesso da minha cartografia. A mulher era um corpo oco até que Deus a sodomizou, ejaculou o sêmem da desgraça na sua cloaca. Então, ela deu o primeiro suspiro, descobriu que o mundo era semelhante a um pântano, deixou de ser objeto vazio para se tornar um simulacro e simultaneamente um criadouro de homem.

Quando vi o quanto era ridícula minha forma, pensei em partir. Contudo, ao olhar ao meu redor, eu percebi que estava só, não havia ninguém além de mim no jardim branco, não havia nenhuma festa no saguão, nem danças e o som de jazz que escutava não passava do coaxar dos loucos do outro lado do muro das lamentações e tampouco o jardim branco existia. Um escaravelho rolava um esterco de um lado para o outro imitando os movimentos de translação e rotação. Eu estava suspenso por uma espécie invisível de corda, o balé das marionetas, eu poderia despencar a qualquer momento e experimentei o medo pela primeira vez. Dei uma cutucada embaixo das minhas costelas, não senti nada, minha carne se tornou gelatinosa e transparente. Definitivamente eu estava no não-lugar e meu nome era Deus.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Gênese

|Márcia Barbieri

Ela estava há milênios ajoelhada naquele cubículo e expunha com certa vaidade uma fratura no fêmur esquerdo. Brincava com uma Matrioshka. Tirava e recolocava as várias bonecas russas, enfiava o dedo no miolo, encontrava a menor de todas, rasgava com uma faca, duvidando da sua entranha oca, do seu corpo sem órgãos, como se através dessa manobra pudesse resolver sua demência ou seus problemas de ancestralidade.

Olhando-a assim, acreditei que ela jamais morreria, estava enganado, ela era uma barata branca e logo seria esmagada. Não foi fácil ver seu corpo estendido na pedra. Aqueles seres estranhos, vermelhos e mascarados (sempre considerei a máscara uma repetição desnecessária), falando línguas estrangeiras, dançando e urrando, imitando o som gutural dos animais. Ofereceram-me um cálice de sangue, eu deveria celebrar a morte, sacralizar o útero que foi meu abrigo, minha origem. A caverna era escura, úmida. Havia na parede da rocha, atrás do seu corpo, o desenho de uma vulva aberta e gigante, em volta caçadores com seus membros em ereção, em outra gravura um antílope estava montado em uma mulher nua e grávida, aos seus pés demiurgos ejaculavam.

Colocaram em minhas mãos um instrumento pontiagudo, fizeram gestos que indicavam que eu deveria retirar as vísceras do cadáver e fazer uma trepanação. Hesitei, mas concordei, a matéria era uma abstração e nunca foi sólida, era uma rachadura, uma trinca no tempo-espaço.

Sei que existe um animal rastejante que circula em sentido anti-horário pelo meu útero (sou um homem castigado com um útero) se espreguiça nas minhas trompas, se enrosca nas paredes do meu intestino, como um cão de rua que não morde, mas fareja, mas fede. Trêmulo começo a estripar aquele corpo-origem. Partenogênese. Ovo cósmico.

O ritual de sepultamento continua e eu sigo fazendo a trepanação. Lamento porque nunca me senti parte desse mundo, porque quando cheguei o mundo já estava instituído. É como se eu fosse uma orelha implantada no organismo de um sapo. É como se eu tivesse despencado em um país estrangeiro e por todos esses anos continuei um exilado no meu corpo-máquina. Preciso ser civilizado, sou homem e preciso entender o sorriso fingido dos hipócritas, a boca banguela, desnuda dos desalmados. A humanidade se alimenta parindo ovos chocos. Preciso ser homem, trabalhar, acasalar, conversar, entender de política, entender a rosa dos ventos, fingir felicidade, matar os porcos que aparecem nas noites sujas, quando tenho as vértebras trincadas e pinos na mandíbula.

Nasci no corpo-simulacro de um homem evoluído. No entanto, minha alma tem uma corcunda feia e incurável, minha alma é de um egiptopiteco, um primata franzino de seis quilos.

Então, diga, como não ser arrebatado se não tenho olhos nas costas? Ando atento pela casa e em todas as portas multiplicam ferrolhos enferrujados. Como posso sorrir se sou um amontoado de átomos, os quais poderiam tanto estar em mim como numa cadeira de vime. Ela me falou que eu era fraco e por isso estava em eterna diáspora. Eu catava piolhos de um macaco de pelúcia. Só não era mais ridículo porque eu nascera inteiro, sem amputações. Era nesse ponto que ela se enganava Eu era a própria amputação, a própria rachadura na coluna de Deus. O meu quarto-mundo era uma incubadora e eu estava fadado a viver cem anos e continuar prematuro.

Um enxu de moscas andam tontas e circunspectas em torno do meu mamilo. Não sinto cócegas, não as expulso, acompanho sua coreografia macabra nas redondezas do seu peito. A angústia não é muito diversa de um amontoado de larvas de inseto. Barroca.

Coagulo a noite. Navalho a face profícua de Deus. Continuo a trepanação. Depois de um tempo eu era só o exoesqueleto de uma cigarra, vazio, solitário, oco.

Não havia dúvida do que eu deveria fazer. Abri a vulva da minha mãe e voltei ao seu útero. Invaginação do fora. As esporas, os cascos, os trotes, a noite, o beco deixaram de me incomodar.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Encarnación

|Márcia Barbieri

Encarnación gostava de ficar sentada sob o sol olhando os emaranhados da videira. Ela se esparramava e ocupava a tarde podre. Eu as via de longe, já enamorado, já adivinhando os sacrifícios que ela me custaria. Encarnación, Encarnácion, Encarnación, eu sou fascinada pelo seu nome. Ela ria gostoso, quase gargalhava, desses risos de gente velha “minha filha esse nome traz má sorte, não deseje minha sina, se contente com os monstros que tem pra alimentar”. Não ligava, Anna lhe parecia solitário demais, lembrava as migalhas do tempo, os bagos fermentando as vistas. Nos dias de festa, as moças arreganhavam as saias e esmagavam os cachos com os pés. Foi assim que ela experimentou pela primeira vez o gosto da carne, disfarçado no gosto vermelho da uva.

Anna era descendente de uma tribo distante. Um povo que viveu pacificamente na Terra há milhares de anos. Um povo selvagem que na época de pouca fartura devorava ritualisticamente seus cadáveres. Era o que ela sempre me contava enquanto colocava os meus dedos na boca e chupava com força. Eu não duvidava, não tinha como duvidar, eu tinha visto tudo desde a primeira vez que bati os olhos nela.

A clarividência é meu inferno, muita gente reza todos os dias para ter o meu poder. No entanto, jamais desejaria, nem mesmo ao meu pior inimigo, conseguir enxergar todas as frestas que vejo, cada minúsculo buraco, é como uma lagarta de fogo que percorre infinitamente o mesmo tronco e mesmo sabendo da sua sina é impossível trilhar outro caminho. Eu sei as tramas de todas as minhas histórias e isso não me impede de vivenciá-las.

Quando eu conheci Anna já sabia seu destino, já sabia como seu corpo se entranharia no meu – videira vasta sem espaço, vísceras mortas devastando o asfalto. Foi impossível não me apaixonar por Anna, ela exalava um cheiro de desgraça que me corrompia e me aproximava. Seria capaz de lamber seus pés até que ela adormecesse.

A primeira vez que entrei na sua casa, me assustei. Na parede do seu quarto estava pendurado um cavalo que era só sombra por dentro, os olhos vazados, os músculos exaustos disfarçando o oco, como se tivesse sido devorado por um monstro.

Não foi fácil convencê-la do meu amor, ela tinha um olhar atravessado, não via o que estava a um palmo do seu nariz, mas o que estava diametralmente oposto a ele. Olhando para o chão, só conseguia enxergar as teias de aranha do teto. Eu compreendia perfeitamente, eu também não era a pessoa mais normal do mundo. Um dia ela me confessou que era verdade o que eu tinha visto, ela era descendente de um povo chamado Antípodas.

Antes disso, antes da sua confissão, passei várias noites em claro tentando entender o que aquilo poderia significar. Na cabeça me apareceu Antípodas, comecei me impressionando com a origem da palavra, em seguida fui imaginando os mapas, a cartografia traçando opostos, de um jeito ou de outro a matemática me intrigava. Mas não foi a matemática que me levou a descobrir que na Antiguidade seus parentes tinham os pés opostos. Comecei a compreender porque a primeira vez em que vi Anna ela corria entre as videiras plantando bananeira. Na segunda vez que a encontrei ela tinha um espelho colado no peito, andava rindo, catando as uvas estragadas e colocando na boca, de longe escutava os estalos e o cheiro fermentado da sua língua geográfica.

Embora nunca tenha me enxergado por completo, Anna começou a me enamorar. Ela gargalhava quando escutava minha voz, saía da posição de bananeira e me dava uma lambida no rosto. Não posso dizer que isso me impressionava, pois eu já sabia do que Anna era capaz.

Anna cutucava o chão, comia desesperada as raízes, os tubérculos, as pequenas minhocas. Não satisfeita passou a comer torrões de terra. Ah, meu Deus! Quem me dera fosse apenas isso. Depois passou a comer pequenos cadáveres. Chorava me implorando perdão, dizia que não era culpa sua, era coisa herdada. Primeiro eram corpos mortos de coelhos, gatos, cachorros, cavalos. Até o dia em que experimentou a carne de uma moça. Foi além, devorou a carne macia de um bebê.

Fui visitá-la, como fazia todo entardecer desde que nos amamos pela primeira vez. Havia sangue por todo lado. Ela me olhou triste-feliz-arrependida, confessou que não foi capaz de se controlar. Cutucou o umbigo, primeiro no meio, depois em volta, retirou aquela espécie de novelo-ninho-pintura abstrata que se formava dentro dela. Comeu o próprio feto – meu primeiro filho, o primogênito. Me calei. Ela me olhava faminta. Nunca tive medo, eu sabia que ela se contentava em sugar meu sêmen, ele era um pouco da minha carne. No entanto, não queria deixá-la furiosa, desde criança tive tendência a acumular sobras embaixo da unha, isso me irritava. Agora essas sobras me salvavam a pele do sacrifício. Anna não era ruim, só tinha herdado o vício nefasto de seus antepassados.

Ofereço minhas mãos solícito. Ela agarra e rói minhas unhas com desespero. Ela traz o pequeno espelho de moldura laranja no peito. Lá fora, eu posso enxergar os emaranhados da videira e a tarde quente apodrecendo os bagos.

terça-feira, 11 de março de 2014

O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas

|Márcia Barbieri

Eram coisas minúsculas que me faziam não entender o mundo, como dois interruptores para apagar a mesma luz ou o som vindo da Ásia e saindo de uma caixa negra ou morangos mofarem tão rápido ou o gosto das pitangas serem tão parecidos com os das cerejas ou as flores que terminam em um falo ou a teta alimentar o universo ou um espelho esférico invertendo meu pânico ou dois homens se amando com o desespero que nunca conheci ou o amor ser um criadouro de moscas estéreis zunindo zunindo zunindo dó ré mi fá sol lá si cataclismas no meu cérebro larvas obesas ruindo a carne vespas negras no fundo do quintal ou o tédio enferrujado esburacando a manhã ou buchada ser uma iguaria ou crianças comendo testículos de bois ou um escorpião amarelo atravessando o deserto comendo a própria cria ou a diáspora das nossas mãos durante as masturbações ou bonecas infláveis serem tão perfeitas ou o ódio insano dos homens pelos touros ou a beleza dos chifres espiralados dos antílopes negros ou mulheres clonando-parindo como animais ou a disputa selvagem dos homens pela buceta das fêmeas. O pensamento da aranha tecia absurdos sobre minha tíbia rótula patela minha vizinhança meus membros eram uma máquina de encaixes arruinados e eu era um ser obtuso e ter o crânio de um animal era o menor dos meus problemas. Coma logo a aranha antes que suas ideias se tornem matéria coma logo a aranha antes que ela teça a revolução coma logo a aranha antes que cem luas despenquem de suas patas peguem a faca e cortem o verbo ao meio só sobrará a ação. E nossa cópula fosse a união de mil garras, armistício, campo minado, fratura de invertebrados. Não entendi quando percebi que essas coisas pequenas entre as pernas num ângulo diálogo monólogo obscuro não fosse capaz de provocar asco, não entendi quando percebi que existiam idiossincrasias em todas as genitálias, eram todas tão diferentes uma das outras... Olhei de novo para minha e tive vergonha. De que espécie eu era¿ Por que meus buracos e seus contornos eram tão pavorosos¿ Ela era rosada e grande, uma membrana pesada e com bainhas desproporcionais os pelos cresciam em direções variadas perdidos entre uma ordem e outra. As estrias formavam ramificações difíceis de entender. Desviei o olhar não gostava de encará-la por muito tempo. Eu jamais deixaria que ele me visse, não assim, onde eu não era normal, onde a duração do tempo se distendia nos meus pequenos-lábios, pensei na solidão dos ornitorrincos... na feiúra incompreensível dos peixes abissais... nas dobraduras se desdobrando na minha pele fina. De novo os ornitorrincos e os peixes abissais. Eles como eu não eram daqui e eu pensei: é bem estranho ser estrangeira no próprio corpo é bem estranho ser estrangeira no seu país é bem estranho estar sitiada nas escórias da própria carne é bem estranho conhecer apenas as superfícies das coisas inanimadas.

Olhei para seus olhos castanhos e clamei, você que não me conhece não me deixe nunca sair da minha terra não me deixe pisar em outros solos áridos não quero conhecer outros países não quero conhecer outros dementes não quero lamber a falência de outro corpo não quero sentar na rigidez de outro pau não quero enrolar minha língua em outras línguas não quero ter certeza que a felicidade não existe em parte alguma, quero ter essa esperança rasa de que em alguma parte o ar é rarefeito, as palavras são todas francesas e a lama é branca...

Você me olha com um olhar idiotizado, o olhar de todo homem que já passou dos trinta e eu desfaleço. Você podia me fazer parar, agarrar meus pulsos, amarrar minhas mãos nas grades da cama. Você não faz nada, só me olha, um gato paralisando sua presa. Retiro a armadura do eu penduro na parede texturizada grandes rosas secas arabescos que não existem mais a arquitetura falida nostalgia rococó retiro as carrancas retiro as máscaras japonesas enfio o dedo na sujeira do umbigo retiro os caranguejos da minha última morte retiro a penugem do buço agora sou não eu essa cor opaca massa mole matéria quase morta parecendo o abdômen de um inseto ou um incesto de dois irmãos.

Você sussurra no meu ouvido surdo labirinto bigorna eu eu eu eu o eco ensurdecedor de todas as suas ideias olho seu palato em decomposição e você continua agora num grito sufocado eu eu eu e eu coloco a corda frouxa e suicida em torno do seu pescoço vejo a língua enrolada e a baba grossa de um epilético.
Você sopra no meu olho sem cílios eu eu eu e recorda um velho refrão cavalos cavalgam na cartografia do seu dorso–cavalos negros selvagens cavalgam no seu leito– mas isso não é importante–o eu está morto. Sou uma massa amorfa e coalhada e o sol apodrece minhas vértebras e o líquido que me tirou das penúltimas meninges explode na minha garganta há um pêndulo enferrujado entre minha laringe e minha traqueia falar não é tão indolor quanto parece ainda mais nesse lugar suspenso onde cada palavra cai um rifle ainda mais nesse campo de marionetas onde não perdura a consciência íntima do tempo.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Ser feliz

|Teodoro Balaven

, imagino que no inferno você tenha um emprego, esteja em cidades e viva cercado por milhares de pessoas dizendo para você buscar o equilíbrio e ser feliz.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Beijo

|Teodoro Balaven

, ela, hoje mais do que nunca se lembrou do telefone de caio, ela, está próxima da certeza absoluta de estar sozinha, ela, decidiu que fará com as pessoas o mesmo que faz com os produtos, não estando em acordo ou se o atendimento foi ruim simplesmente deixa de comprar, ela, deixará de ir até as pessoas, ela, estóica, sabe que isto vai custar caro, mas fará poupanças, a casa será térrea e terá barras de apoio por todos os lados, sabe que será assassinada pelo amante de sua acompanhante, enquanto estiver dormindo, sozinha.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

robert, um bom velhinho

|Teodoro Balaven

, Robert, um pobre velhinho de 92 anos, contabilizou nesta noite de sexta-feira seu sétimo estupro.
Curiosamente, Robert, estuprava suas vítimas - companheiras das casas de repouso - com uma agulha de crochê.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Vendo ótimo apartamento 23 metros quadrados

|Teodoro Balaven

, que porra é aquela, não sei, tá vindo pra cá, tá, porra não pode, mas o que é aquilo, parece uma seta, que merda é aquela, é uma pessoa, não sei, não é, acaba logo com isto, p!á!, pronto tá no chão, vai lá, caralho cara, era uma menina, o que, uma menina daquelas que ficam nas esquinas, como assim?, porra, tu é idiota, daquelas que fazem propaganda para construtoras, porra. foda-se. quem mandou pegar o caminho errado.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

reprodutor

|Teodoro Balaven

, acho melhor a gente não se mêtê.
, e ele tá abrindo a calça, tá?
, e ele tá com a mão na boca dela, tá?
, e ele tá puxando a saia dela, tá?
, e ele tá apertando ela no vidro do ônibus, tá?
, e ele tá com o pinto duro, tá?
, e ele tá virando ela de lado, ta?
, e ele tá segurando o pinto, tá?
, e já chegou nosso ponto, já?
, mulher, acho melhor a gente não se mêtê.

domingo, 12 de janeiro de 2014

DO INFINDÁVEL AMOR QUE NÃO ACABA NEM COM REZA FORTE

|Cláudia Assis



Porto, segunda-feira, 25 de dezembro. O despertador toca às 8h da manhã, como já era hábito naquela casa. Contudo, ela já estava acordada há algum tempo, contando as voltas que os ponteiros do relógio davam, vezes sem conta. Já tinha percebido, inclusive, que chovia torrencialmente lá fora. Pior: chovia torrencialmente cá dentro do peito! O despertador insistia com o seu barulho habitual, numa tentativa vã de expulsá-la da cama. Mas a verdade é que ela não queria sair dali, de debaixo das cobertas. Era como se ali estivesse, de algum modo, protegida. Silêncio. Finalmente o despertador calou-se e, ainda de debaixo das cobertas, ela apenas virou, encolhendo-se em posição fetal. Não é preciso ser grande conhecedor de psicanálise para perceber que ali, deitada daquele modo, ela só queria proteger-se. Chovia muito lá fora. De repente, se deu conta que as suas mãos, pousadas sob o rosto, estavam molhadas. “Está chovendo cá dentro”, divagou consigo mesma, num pensamento quase surrealista. E muito rapidamente a menina se deu conta de que sim, chovia cá dentro. Os seus olhos eram uma tempestade só! O despertador tocou outra vez, dando-lhe conta de que já havia passado longos 10 minutos. “Mas como, se eu sequer pisquei meus olhos?”, questionou-se. Pobre menina, a sua tristeza até a impedia de ver o tempo passar.

[...] Após alguma insistência do abominável aparelho responsável por mantê-la acordada às horas, levantou-se. Parou por alguns segundos diante do seu telemóvel. É que havia um lembrete a piscar: “Hoje é 25, dia de celebrar o amor. Vamo’bora levantar, pretinha!”. O lembrete tinha sido escrito por ela mesma. Era um modo de não permitir que a sua memória pouco confiável deixasse que tal data caísse no esquecimento. Afinal, tratava-se de uma celebração. Não, não era ao Natal que o lembrete referenciava, mas sim ao amor que veio para transformar os seus dias. E por alguns segundos, uma espécie de filme da sua própria vida passou diante dos olhos. Ela sorriu. Lembrou-se daquele domingo em que a sua vida mudou por completo, do menino que viria para fazer os seus dias mais felizes, de passear a tarde inteira, entre uma provocação e outra, porque, afinal, estava nervosa e era um modo de não deixar que ele percebesse. Mas ele percebeu! E no momento EXATO, calou-a com um beijo. E do beijo fez-se o amor. Quase que instantaneamente. “Adoro a tua pele!”, dizia ele, enquanto passeava as suas mãos, como se quisesse mapear as costas dela. Ela, por sua vez, tentava relembrar um soneto de Vinicius. Mas sua memória... ah!... a sua memória nunca foi o seu forte. Ela sorriu novamente. E depois chorou por lembrar o quão difícil foi deixá-lo partir. Teria percebido claramente que a sua vida jamais seria a mesma. E não foi!

[...] Não havia volta a dar, hora de levantar. Era preciso encarar o mundo e a sua dura realidade. Já de pé, ela decide parar tudo e escrever uma carta de amor. Possivelmente a derradeira. “Que seja! É dia de celebrar o amor e assim será!”, resmungou a menina outrora mulher-tempestade. Papel e caneta na mão [que carta de amor que é carta tem que ser escrita à moda antiga], ela ensaia as suas primeiras linhas. Mas não tarda muito até por em causa aquele feito: “Isso nunca estaria à altura dele. Como poderia eu impressionar um escritor?”. Triste consigo mesma, amassa uma, duas, muitas folhas de papel. Pensa em desistir. Mas desistir também não era do seu feitio. Nunca foi. Algo a faz congelar: os seus ouvidos detectam aquela que passaria a ser a canção deles. “And i'll be anything you ask and more. You're going hey hey hey hey hey hey hey... It's not a miracle we needed. No i wouldn't let you think so. Fold it, fold it, fold it, fold it...”. Inevitavelmente a sua memória viaja no tempo, relembrando-a do dia em que dançaram de rosto colado na sala-cozinha do seu pequenino apartamento. Tantas foram as vezes que fizeram amor ao ouvir aqueles versos... Tão inevitável quanto acordar aquelas memórias foi sorrir com elas. Era impossível não sorrir ao lembrar do menino que se vestia de azul só para impressioná-la. “Sabia que ficas mesmo bonito de azul?”, disse ela uma única vez, sendo o suficiente para que ele não perdesse a oportunidade de lhe roubar sorrisos apenas por se vestir ao gosto dela.

[...] Com o findar da música, a nostalgia que reside no fim dos amores eternos fez-se presente, fazendo-a chorar. Descompassadamente, chorou! Percebeu que seria impossível escrever mais uma carta de amor. Não por faltar amor, muito pelo contrário, mas por ainda haver amor em demasia no seu peito. Era por perceber que já não o veria mais vestido de azul a fazer cenas bobas rua à fora que chorava. Era duro perceber que o seu menino-amor já não estaria mais ali para dançar com ela no meio da rua, como se o resto do mundo parasse para os ver. “Vam'bora arrastá' pé, pretinha!”, dizia ele com um sotaque abrasileirado, só para vê-la derreter-se em seus braços. Pretinha... nunca mais o ouviria dizer “és a minha pretinha”. Não tinha como não chorar. “Como é possível ser indiferente ao amor depois de ter sido tocada por ele?”, perguntava a si mesma, em voz alta, numa espécie de protesto ao universo, o mesmo universo que lhe havia pregado esta peça [fez-lhe provar do amor, fez-lhe ver o amor através dos olhos dele, arrancando-lhe depois isso das mãos, e dos lábios, e do corpo, mas não do coração.

[...] O tempo passa mesmo a voar. Era preciso ir tomar um banho que, afinal, não se podia atrasar para o trabalho. Sem se dar conta, os seus pensamentos vagueiam e ela relembra um dos momentos mais fantásticos e inesquecíveis dos dois: um banho quente em sua banheira tão pequenina quanto o seu apartamento. Mas eles tinham tanto amor um pelo outro que de nada importava onde nem como, desde que estivessem juntos. Encaixados um no outro, naquela mistura morna de água e sais de banho, ele acariciava carinhosamente o corpo dela e, vez ou outra, sussurrava-lhe algumas obscenidades. Especialmente no que tocava à “Sagrada Bunda”. Religião ele não tinha, já a bunda dela... ah!... a bunda dela era por ele cultuada com algum fanatismo, é certo. Sem notar, ela está dando uma suas gargalhadas por relembrar que ele a fotografava despudoradamente. E ele costumava gostar das suas gargalhadas.

[...] Ela sai para o trabalho. Atrasada, mas com a ideia fixa de que tem que lhe escrever uma carta de amor. A derradeira, possivelmente. Mas tinha de lhe escrever mais uma vez. Mais um dia havia sem saber nada sobre ele. “Como será que ele está? Será que no trabalho correu tudo bem? Terá feito para o jantar aquele frango com caril que eu tanto adoro? E sorvete de chocolate para sobremesa? Terá ele se lembrado, ao menos uma vez, que o dia de hoje deveria ser o dia de celebrar o amor? Terá sentido saudades minhas?”, questionou-se menina-mulher-tempestade.

[...] Já em casa, e depois de muito hesitar, não desistia da ideia de lhe escrever uma carta de amor. A derradeira, afinal. Mas logo apercebe-se que, por mais que muito quisesse, que desejasse intensamente, não havia palavras capazes de representar o medo que sentir por estar sem ele, a tristeza de ver a sua história de amor escapar-lhe por entre os dedos, sem que ele ao menos soubesse quanto amor ainda havia dentro daquele velho peito. Ainda assim, ela sorri ao lembrar das juras de amor que costumava ouvir dos lábios dele, das tonteiras e promessas de “juntos serem mais”m tão característico dos enamorados. E que força que tinha aquele amor! Eles eram capazes de sacudir o mundo, se preciso fosse, pois para além de tudo, eles tinham um ao outro. As abundantes lágrimas caem infindáveis, borrando mais uma das muitas tentativas de carta de amor. Ela chora porque não entende que ele prefira lembrar dos dias mais sombrios que ambos enfrentaram que dos muitos momentos de cores, cheiros e sabores que experimentaram. Ela não entende e não aceita. É que o amor gigante de outrora ainda reside em seu peito e ela só deseja ter um final feliz AGORA que é bem melhor que ficar eternamente à espera do PARA SEMPRE.

[...] Ela olha para para o relógio e se dá conta de que era meia noite em ponto, lembrando-se de que dizem que este momento do dia é um bocado mágico. Ela juntas as mãos espalmadas, fecha bem os olhos, e reza seja lá para o deus que for, desejando só mais uma vez, antes de deitar e dormir, que o sonho mau acabasse e que os seus dias voltassem a ter como destino os [a]braços dele. Ao contrário dele (cético como mais ninguém que já tenha conhecido), ela acredita em milagres, em finais felizes, no poder do amor e coisas ditadas por era forte. Ele costumava adorar isso nela. Ela olha para a mesinha ao lado da sua cama e vê a fotografia dos dois, a silhueta de um beijo congelado no tempo e no espaço. Sorri docemente e diz: “te encontro nos meus sonhos, pretinho. Beijo nosso, infinitos e mais além!”.

[...] Ela se deita, suspira fundo, fecha os olhos e, então, adormece, porque em seus sonhos ela ainda pode ter a sorte de amanhecer nos braços dele.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Saltos Altos

|Olinda P. Gil

Quando a minha irmã ficou desempregada, ainda se arranjava como se fosse para o emprego durante muito tempo. No emprego que tinha antes era necessário ir sempre muito arranjada, fato de saia ou de calça, saltos altos, pintura sóbria e cabelo arranjado. Depois começou a cansar-se de se arranjar assim só para ficar em casa. Abandonou os saltos altos, deixou de se pintar e de arranjar o cabelo, e por fim deixou de vestir fato de saia e casaco. Aliás, chegou a uma altura em que só vestia fato de treino, porque só se sentia confortável assim.
Depois de enviar muitos currículos e de responder a muitas propostas de emprego, a minha irmã é chamada para uma entrevista. Vai ao armário e todos os seus fatos lhe estavam largos, pois tinha emagrecido desde que ficara desempregada. Escolheu um, mas teve de o mandar apertar, para que lhe servisse.
No dia da entrevista voltou a vestir-se como antes, arranjou o cabelo, pintou-se solenemente e calçou uns sapatos de salto alto. Quando está a chegar à paragem de autocarro, o que precisava de apanhar estava pronto a sair. A minha irmã teve de correr um pouco para o tentar apanhar. Foi nesse momento que caiu e partiu um pé. Já não foi à entrevista.
Estou a contar isto tudo para vos explicar o que aconteceu já depois dela ter regressado a casa com o pé engessado. O marido e os filhos foram-na encontrar sentada no chão, junto do armário onde guardava os sapatos, a cortar todos os saltos. Depois os sapatos tiveram de ser jogados para o lixo, pois ficaram um pouco estranhos, como barcos naufragados.



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Xadrez Alcoolizado

|Olinda P. Gil

Ainda hoje não sei. Se gostei ou não daquela prenda que me deste num aniversário. Não sei se gostei porque não percebi a intenção.
Está certo que o meu xadrez era velho. Tinham‑mo dado em criança, para eu aprender. Eram peças de plástico, já gastas pelo tempo e amolgadas pelo uso. Tomara‑lhe um amor fiel. Por isso nunca tinha comprado um novo, tirando o do computador que dava para jogarmos juntos pela net quando estávamos longe.
Ultimamente tens sido o meu único parceiro de xadrez.
Se tiver sido por isso, agradeço a intenção de me dares um xadrez novo. Nesse caso gostei da prenda.
Mas poder‑me‑ias ter oferecido outro xadrez. Um em madeira, de fabrico artesanal indiano, ou um antigo, comprado num antiquário, peça de museu. Há uns muito giros, de que sempre gostei, com as peças em ónix branco e preto. Até me podias ter dado um em louça da Vista Alegre.
Se me querias dar uma coisa de valor.
Agora um xadrez em que as peças são pequenos copos de cristal com as figuras pintadas.
Explicaste‑me o uso: enchiam‑se os copos. Cada peça fora do jogo era um copo bebido por quem a perdia. A ver quem perdia pela embriaguez. Podia ser que um dos dois caísse antes do xeque‑mate.
Até se podia encher os copos com conteúdos diferentes. Vinho branco e tinto. Martini rosso e bianco.
Disseste que eu gostava de Martini.
Não achei graça nenhuma ao teu comentário. Mas tu riste‑te sozinho.
Por acaso estarás a chamar‑me bêbedo?

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Clube de Teatro

|Olinda P. Gil

Quando entrou para o Liceu não passava de um rapazola franzino, caixa‑de‑óculos, com um ar desconfiado e bom aluno. Era apenas mais uma face com borbulhas entre outros que preenchiam os corredores. O Liceu era de renome, cujos alunos eram filhos de famílias bem posicionadas, com a obrigação de dar continuidade aos pais. À parte disso, eram como todos os da sua idade: procuravam as raparigas mais simpáticas, elas procuravam‑nos. Começaram a sair à noite juntos, faziam brincadeiras, exageros, crueldades.
Nunca era convidado para estes convívios. Não ficava bem num grupo um rapazola magro, apesar de às vezes lhe darem simpáticas palmadas nas costas. Davam‑lhe o seu devido valor e respeito por ser bom aluno.
No Liceu havia um clube de teatro, no qual ele se inscreveu. Levaram‑no a curiosidade, o desejo, o bater das palmas e as luzes sobre a maquilhagem que lhe permitiam ser um outro numa outra vida. Iam representar Shakespeare – Romeu e Julieta, peça escolhida por inquérito na escola. Calhou‑lhe o papel de mensageiro.
Estudou‑o afincadamente. Leu Shakespeare todo. Decorou as falas de todas as personagens. Treinava‑as ao espelho. Lia estudos, a biografia, as curiosidades.
No dia antes da representação a “Julieta” adoeceu. Só ele sabia a fala.
Foi constrangido, sem dúvida. Ter de ficar com ar de menina. Mas não tinham antigamente os homens de fazer os papéis de mulheres?
Quando os colegas o reconheceram nem queriam acreditar. Pensavam que ele seria o mensageiro. A princípio riram‑se. Mas depois notaram a importância da personagem. E a paixão com que a representava. Um bom actor representa qualquer papel, mesmo que este seja o de mulher.
No final sentiu‑se que os aplausos iam apenas na sua direcção. Fora do palco, todos os colegas lhe vieram dar os parabéns.
Tudo isto se passou no primeiro ano de Liceu. Depois os colegas reconheceram nele mais que um rapazola franzino. Começou a sair com eles à noite, a fazer desporto, arranjou namorada. E, claro, continuou a fazer teatro. No ano seguinte iria ser Édipo.
Quando, passado tempo, estava já no último ano de Faculdade, e se fez no Liceu um encontro para antigos alunos, foi com alegria que se reencontrou com os seus colegas. Quem diria?! O rapazola agora ultrapassava os colegas em altura. Dava abraços fortes e calorosos, falava com segurança e simpatia. O desporto dera‑lhe presença. E o teatro: ensaiava agora Filodemo.



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Na Basílica de Nossa Senhora dos Mártires

|Olinda P. Gil

Pediu para me ir encontrar com ela na Basílica de Nossa Senhora dos Mártires. Jamais a tinha tido por religiosa. Nem eu o sou. Pelo que nem sequer sabia onde era o templo.
Mais tarde fiquei a saber que era apenas por desconhecimento meu. Que passava à porta dele vezes sem conta e acaridava muitas vezes os mendigos que lá costumam estar. Sem, no entanto, já lá ter entrado. Deus não é propriamente o que procuro na minha vida.
Estacionei o carro não muito longe. Ela tinha tido a inteligência de marcar o encontro de manhã, quando o movimento era menor em ruas comerciais. Fora por isso que achara lugar tão depressa.
Entrei no Largo do Chiado. Cumprimentei Pessoa. Observei os transeuntes insólitos que por ali costumam andar. Avistei o centro comercial. No quiosque ao pé da Basílica comprei um jornal desportivo para saber as últimas do futebol, subi as escadas e dei esmola a um cego que tocava maravilhosamente música francesa num acordeão.
Já o contei. Nunca lá tinha ido. E senti o que sinto quando entro em qualquer igreja. Uma confusão por entre as imagens que sou incapaz de reconhecer. A agonia que aquela luz de semi-penumbra vermelha das velas me faz, e o cheiro que me enjoa. À direita, ajoelhada, uma velhota rezava um terço de contas brancas.
À esquerda, ela, perto do altar, observando uma parede. Simples como sempre: uns jeans, uma blusa preta demasiadamente decotada para uma igreja, os ténis, o cabelo solto. Tão longo... Como tinha crescido desde a última vez que a vira. Cada vez mais magra.
Tentei dar um passo para me aproximar, mas antes que o pudesse fazer ela deu pela minha presença. Fazia‑me sempre isto, como se fosse capaz de sentir o meu cheiro.

Beautiful as a goddess
Ugly as a witch

Sorriu‑me. Linda e feia como sempre. E senti‑me triste de por vezes me esquecer que ela existia. Cheguei perto dela, toquei‑lhe suavemente nos ombros e cumprimentei‑a:
Achas que me podes tocar? Quando foi que eu te dei autorização para tal? – A sua voz estava zangada e agressiva, sem que no entanto perdesse a suavidade e sensualidade de uma mezzo.
Nunca. Ela nunca me dissera que a podia tocar. Nem nunca mo deixava. Olhei os lábios dela. Quem seria que os poderia beijar?
Sabes quem pintou este quadro? – Passara agora para um tom de mudança de conversa, como se não me tivesse dito aquilo.
Olhei em frente e vi o que estava a observar. Era uma bela pintura da Última Ceia de Cristo. Não lhe respondi. Por não saber, e também porque pensei tratar‑se de uma pergunta retórica. Mas com ela eu estou sempre enganado...
Eu também não sei. Mas gostava de saber quem teve a ideia de o fazer.
Uma simples ideia religiosa. – Comentei eu Quantas representações da Última Ceia de Cristo haverá neste mundo?
Ela olhou‑me. Primeiramente ofendida. Mas depois o olhar tornou‑se caridoso. Eu era afinal um simples ignorante.
Já reparaste por acaso como Jesus está representado? Com aquele brilho em volta da cabeça como se fosse uma auréola de glória, o pão levantado ao nível do peito parecendo a imagem do Sagrado Coração de Jesus.
Olhei para o quadro. Eu não conseguia perceber o que ela estava a dizer. Porque eu não entendia nada de religião. E agora parecia também não entender nada de arte.
Suspirei. Estava a deixar‑me levar pela sua subtileza. Afinal ela também não sabia nada. Estava apenas a fingir, como, aliás, sempre faz, só para me impressionar. Nem sabia quem o tinha pintado. Dirigiu‑me para um dos bancos.
Porque quiseste que eu viesse ter aqui contigo?
Porque queria! – E deitou‑me um sorriso malicioso de criança. E foi então que percebi tudo.
Deveria conhecer bem o sítio. Apenas estava a representar a sua própria ignorância. Sabe que assim pode jogar comigo e magoar‑me.
Ao mesmo tempo levou‑me para ali porque ela sabe o desejo que lhe tenho, e sabe também que não lhe posso resistir. Num local sagrado, onde sabe que por norma eu não devo tentar persuadi‑la a nada. E até veste um decote para me provocar.

Strong as a soldier
Fragile as a child

Ela sabe que, como um copo de cristal, eu lhe posso tocar e que nesse momento se desfaz em cacos.
Porque me fazes isto? Não vês que eu sofro por não te poder tocar? – Mas ela esboçou novamente o seu sorriso.
Nunca mais te quero ver. – A voz dela parecia repleta de gozo e de prazer. Soltou uma pequena gargalhada que ecoou na igreja. A surpresa e a tristeza devem‑me ter ficado estampadas no rosto. Levanta‑se e vai‑se embora. Na igreja eu não podia correr atrás dela. Seria falta de respeito. Pelo espaço sagrado. Pela oração silenciosa que a velha senhora fazia. Fico.
Provavelmente será melhor assim. Ela é irreal como uma fada. Não pertence ao meu mundo. O melhor será esquecê‑la. Ou viverei eternamente sem entender quando ela está a falar a sério ou a rir de mim.
Talvez tudo isto agora fosse apenas uma brincadeira. Um teste para descobrir as minhas reacções. E ela esteja à porta a sorrir à espera que eu saia.

Sem entender porquê dirijo‑me de novo para o quadro. E tento compreender o que ela me queria dizer. E vejo que, com o pão elevado à altura do peito, mais parecia que Jesus tinha o seu próprio coração nas mãos. Um temor apodera‑se de mim. Naquele momento Ele sabia que ia morrer. Segurava a Sua Morte e oferecia‑A aos seus discípulos.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Liberdade de Escrita

|Olinda P. Gil

O lápis sabia escrever melhor que ninguém: melhor que a esferográfica, que a caneta de tinta permanente, que a antiga pena de outros tempos.
Era um campeão. Vencia todos os concursos organizados pelo papel. Sabia mais sinónimos, adjectivos e verbos que todos os outros...
Conseguia construir mil e uma situações nas suas histórias que provocavam os mais variados sentimentos nas mais variadas pessoas. Fazia os poemas mais belos alguma vez ouvidos, que se perdiam, voando e dançando por entre árvores e canaviais quando ele os declamava.
A antiga pena tinha imensa inveja dele, porque se julgava detentora de toda a sabedoria: por ser mais velha e por ter passado pelas mãos de todos os antigos autores. Era sábia, certamente, mas era a inocência e ingenuidade do lápis que conquistava os corações do mundo. A pena poderia escrever bem e com sapiência, mas jamais como o lápis.
A caneta de tinta permanente era vaidosa e julgava que, por as suas letras serem as mais belas, os efeitos no papel serem os mais esplêndidos, o seu escrever ser o mais suave, era ela quem tinha mais valor. Mas quando as suas palavras se liam toda a beleza que a sua tinta e risco continham desaparecia. Jamais escreveria como o lápis.
A esferográfica, de origem humilde, julgava se ser a maior escritora por ser a detentora de todos os sofrimentos. Porque era uma simples operária ignorada e mal tratada pelos seus patrões, escrevinhava os seus sentimentos num papel rasca. Mas escrevia sempre as mesmas coisas, as mesmas ideologias, as mesmas lutas que todos já estavam fartos de ler. Quanto mais valia a pureza e infantilidade do lápis! Jamais o talento do lápis seria ultrapassado!
Ora houve um dia que as invejosas escritoras se juntaram para difamar o lápis. E resolveram então fazer um concurso inédito: um concurso com um tema: a liberdade. O papel aceitou por não saber o que queriam as malvadas escritoras cegas de inveja. A liberdade era um tema complicado, e o lápis, habituado a coisas simples e com a fraca sabedoria simbólica de uma criança atrapalhar se ia.
A pena falou da liberdade que tinha quando voava nas asas de um pássaro. A caneta de tinta permanente falou da liberdade da água durante o percurso do rio e comparou a à sua tinta escorrendo de dentro de si. A esferográfica falou na liberdade política, na liberdade de ideias que tanto estava habituada. E o lápis não escreveu absolutamente nada. Estava nervoso, chorava, partia se lhe o bico, e porquê? A pobre criança não sabia o que era a liberdade. Deixou então de escrever.
E o tempo foi passando, pouco a pouco, e ele, desesperado por não saber o que era a liberdade, já nem comia, nem dormia. Andava sempre perdido por entre os campos, escondido na escuridão e nas sombras da noite. E tinha vergonha de não saber o que era a liberdade.
Estando o lápis um dia a meditar (que coisa tão estranha para uma criança!) aparece uma pomba que poisou perto dele.
– Sabes o que é a liberdade? – Dirigiu se lhe – Era o modo como vivias antes, feliz e fazendo o que querias: a partir do momento que te impuseram algo, um tema, tu perdeste a liberdade.
Então o lápis deu se ao trabalho e escreveu sobre a liberdade seriamente, analisando a como ainda ninguém tinha feito. E a pena, a caneta de tinta permanente e a esferográfica descobriram então que afinal ainda não sabiam o que era a liberdade.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A filha que tomou conta da casa

|Olinda P. Gil

- Que é feito daquela revista que trouxe da biblioteca? – perguntou ao marido numa segunda-feira de manhã.
- Deve estar na pilha de revistas e jornais.
Mas não havia nenhuma pilha de revistas e jornais em casa. Pelos vistos, a filha tinha resolvido, durante o fim-de-semana, dar uma das suas arrumações, e a pilha de livros e revistas fora para a reciclagem.
- A revista era nova! O que digo agora na biblioteca? Fizeram-me especial favor em deixar trazer a revista para casa.
Não havia resposta para isso, portanto o marido não a deu. Deixou-a atarantada na sala, mudou de divisão. Talvez tenha ido para a casa de banho.
Sempre se dera bem com o marido. Paixão de juventude, sempre serviram de exemplo de casal feliz, entre as outras pessoas. Mas ultimamente ele deixava-a sem resposta, principalmente em conversas em envolvessem a filha. Esta adquirira a mania das arrumações e das limpezas, e dava volta à casa como se fosse dela. A mãe, que não era muito dada aos serviços domésticos, andava a sentir-se à parte das decisões familiares. Podia não ser arrumada, mas ainda era a mãe daquela casa.
- Quando é que ela sai de casa?
- Mas tu queres a tua filha fora de casa?
A resposta do marido demonstrava raiva. Não era bonito desejar que a filha saísse de casa. Enquanto lhe apetecesse estar, deveria permanecer. Assim ditam os costumes meridionais. Mas a verdade é que a rapariga tinha conseguido encaminhar bem a sua vida de adulta. Mas decidira que só sairia de casa quando encontrasse marido. Mas que ideia mais retrógrada! Assim, nunca sairia de casa! Não haveria homem que a quisesse se ela continuasse obcecada com as arrumações.
- Não te importas que ela mexa nas tuas coisas? – Ainda perguntou ao marido. Este respondeu-lhe que não se importava. Mais! Até gostava. Adorou quando ela lhe selecionou a roupa interior, e lhe deitou fora aquilo que já estava muito velho. Também gostou quando ela lhe guardou em separado a roupa de verão e a de inverno, ou quando lhe ordenou as camisas, no roupeiro, por cores.

Não havia como falar com ele a este respeito. Ele estava do lado da filha. Pegou na carteira e foi à rua. Passou num quiosque, comprou um exemplar da revista que desaparecera, para assim tentar remediar o assunto com a biblioteca. No quiosque, um jornal de classificados chamou-lhe a atenção. Talvez fosse altura de procurar um espaço para si própria, uma casa onde pudesse ter a roupa desarrumada e a loiça por lavar.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Esperanza

|André Domingues

A cidade chama-se Esperanza e as ruas de Esperanza estão cheias de mapas urbanos, que, por sua vez, estão repletos de círculos desenhados a marcador vermelho com a inscrição: Usted no está aquí. A provocação não faz parte do espírito de Esperanza, por isso o viajante incauto pode esquecer qualquer campanha de marketing e publicidade e concentrar-se apenas na sua bela desorientação, tentando ressuscitar a lógica e, sobretudo, nunca perder o ânimo. Assim, ao deparar-se com um dos milhares de mapas urbanos no coração de Esperanza, o viajante tem ao menos uma certeza: pode estar em qualquer lado da cidade, menos ali. A confusão agrava-se quando de 10 em 10 metros e em qualquer direcção que ouse tomar um novo mapa urbano lhe aparece pela frente com a mesma inscrição, precisamente sobre o mesmo lugar (rua, praça, avenida, encruzilhada) onde estava a anterior. Mas um raciocínio precipitado pode originar deduções fatais. Se todos os mapas representam sempre um único lugar da cidade no qual o viajante definitivamente não está, então é possível que nenhum mapa cumpra verdadeiramente a sua função e que aquela parte da cidade contemplada nem sequer tenha realidade material.
Nada mais errado. Esperanza é uma cidade atípica, projectada a partir de um só extracto da realidade que se repete infinitamente pelo espaço. A Calle de la Confianza, a Avenida de los Expectantes e a Plaza de la Posteridad estão unidas entre si e, consecutivamente, às suas réplicas, que se estendem, como aranhas magistrais, até Anhelo de la Sierra, Santa Ansiedad e Ciudad Revelada, já nos arredores de Esperanza. Chegando até aqui, torna-se cómodo aceitar que o problema de Esperanza é muito menos obscuro e borgesiano do que à primeira vista podia parecer, resultando menos de um enigma de características cósmicas e dissimuladas e mais da incompetência gritante dos seus serviços municipais: como em cada mapa urbano aparece apenas o detalhe do local e não uma perspectiva alargada da cidade, nenhum dos locais assinalados em qualquer um dos mapas pode afirmar que representa aquele exacto extracto da realidade. Daí a pertinência da inscrição: Usted no está aqui. Seguido do magnífico slogan da cidade: Siempre hay que tener Esperanza.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Visitas inesperadas

|André Domingues

São 23 horas e 33 minutos do último dia de 1899. Estou com Nikola Tesla, no seu laboratório em Colorado Springs. Tesla diverte-se a descodificar sinais extraterrestres, através da dissecação de frequências atípicas que lhe fazem lembrar ruídos de tempestades cerebrais. A sua convicção está ébria de futuro e compromisso, desejo e disparate. Por mais que queira convencê-lo do logro em que está há anos enredado, não me sinto capaz de frustrar assim uma mente histórica e muito menos de trespassar o direito ao delírio de um homem com a flecha da consciência eterna, soberana e universal.
Por isso, e para que Tesla não morresse de susto ou da imensa realidade da sua arte, disfarcei-me o melhor que pude de Mark Twain que, por essa mesma altura, o visitava com bastante regularidade. E trouxe-lhe um excelente vinho francês para o jantar.