Entrevista a Susana Sánchez Aríns
– parte dois
|Eduardo Estevez
Logo interessa-me saber se, para além dos propósitos concretos de cada livro,
há na tua obra uma intencionalidade mais global. Pergunto-te com isto em
concreto pelas tuas preocupações vitais (o papel da mulher na construção do discurso,
a ideia ou as ideias de nação, este tipo de coisas) mas também por como vês o
teu papel ou o papel da tua escrita no tempo que lhe toca desenvolver-se.
Sou assim tão ingénua que ainda, apesar dos
tempos que estamos a viver, acredito na possibilidade de deixar um mundo melhor
para as gerações vindouras.
A terra da que se alimentam as minhas raízes
foi semeada, irrigada e estercada por outras pessoas, algumas sabidas, a
maioria anónimas. Deram forma a uma língua, uma cultura, uma comunidade.
Língua, cultura e comunidade que hoje estão em perigo de extinção. Ao tempo,
tocou-me em sorte nascer mulher, mas o acaso colocou-me numa região do planeta onde
a questão de género implica menos perigos: pude estudar, sou uma pessoa
independente social e economicamente e posso erguer a voz sem medo da
represália.