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terça-feira, 4 de março de 2014

Editorial: O silêncio e o jogo

|Luís Filipe Cristóvão



No meio de toda esta confusão, no mundo, no país, na rua, ocorreu-me que o editorial desta mês poderia ser, simplesmente, uma imagem. Hesitava entre a letra da música de Los Hermanos, o apropriado “Todo o Carnaval tem seu fim”, ou a adaptação de uma frase que anda a anos perdida na minha cabeça, transformada agora em “o silêncio deveria ser, definitivamente, a tua filosofia”.

Ocorre que há uns meses visitei o Convento do Varatojo e a sua Mata Sagrada, pelo que acorri à pasta onde guardo uma série de fotografias dessa ocasião, em busca de alguma que pudesse transportar, como maior eficácia, esse elogio ao silêncio. No entanto, a que me saltou à vista foi esta, a de um improvisado campo de futebol onde, imagino eu, alguns dos frades franciscanos se arriscam, de tempos a tempos, a um disputado dérbi.

Encontrei-me assim, quando em busca do silêncio, perante a clara evidência de que não há como parar o jogo. A cada ocasião, a necessidade de fazer o movimento que dará origem a outro e a outro, logo de seguida. Não me ocorre melhor imagem para entrar, agora que o Carnaval termina, no mês de março.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Editorial: Nos 19 anos do ATV

|Luís Filipe Cristóvão

O mês de fevereiro marca o 19º aniversário do ATV – Académico de Torres Vedras, casa deste projeto literário que agora leva o nome de Revista Literária Sítio. Os 19 anos da associação marcam uma plena maturidade de um projeto que, mesmo vivendo diferentes vidas ao longo da sua existência, preocupou-se, sempre, em alimentar bases para o seu crescimento.

Assim também por aqui tentamos que isso seja possível. Mesmo perante dificuldades, desesperos ou desilusões. Tornando o mais importante, não aquilo que nos pode ferir neste momento, mas o que crescerá de cada problema na descoberta da sua solução. Mais do que parecer um otimista em excesso, da mesma forma que noutras alturas foi de negativismo que tentaram cobrir as minhas palavras, trata-se de exercer, sobre todo e qualquer momento, um esforço realista.

A realidade é, neste momento, a de um projeto à procura do seu rumo. As ideias de solidariedade, bem-estar, criatividade e esforço social que fazem parte da essência do ATV estão bem expressas no projeto da Sítio. Torná-lo bem mais abrangente é a missão de cada um de nós. Porque acreditem não custa nada, ser realista por um minuto que seja em cada dia e arriscar o impossível.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Editorial: Um ano

|Luís Filipe Cristóvão

Faz hoje um ano que a Revista Literária Sítio regressou para manter uma existência exclusiva online. Este regresso deveu-se à vontade de um punhado de pessoas, cada uma a partir do seu canto, a imaginar formas de dar espaço público aos autores que gosta de ler. Começámos por procurar os nossos amigos, as nossas ligações, para alargarmos, como sempre foi o destino da Sítio, a demanda para quem acabou por se juntar a nós. No fundo, é para isso que servem as revistas literárias, para encontrar gente que não estava ao nosso alcance conhecer de outra forma.

Mantemos a porta aberta sem grandes pretensões. Não são as linhagens literárias, nem os desejos vazios de ser “alguém” no mundo editorial que nos mantém neste trabalho. É, sim, uma vontade férrea de não desistir do que, parecendo tão natural, vai sendo cada vez mais raro: o viver as coisas pelo simples prazer que elas nos oferecem. Sem deixar que medos nos aterrorizem, sem permitir que ansiedades nos retirem de entre os dedos o que não conseguimos agarrar. A vida segue, na Sítio, dia a dia, com mais uma leitura, mais um projeto de vida de alguém que nos encontra.

Faz hoje um ano, online, fará, em breve, treze anos, que esta caminhada começou. Sempre com a presença do ATV – Académico de Torres Vedras, como base de apoio para uma ideia. Os grandes projetos fazem-se em equipa, mútuo apoio, multiplicada esperança. Há também lugar para ti na Sítio. Bom 2014.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O óbvio

|Luís Filipe Cristóvão

Encaminhamo-nos para o óbvio diariamente. Acordamos a horas certas, saímos de casa com as roupas regulamentadas, picamos o ponto, sorrimos e queixamo-nos com a destreza habitual, tiramos o almoço da lancheira, tomamos um café no mesmo sítio de sempre, fumamos um cigarro a pensar no vazio. Depois, a mesma lenga-lenga, até que nos deitamos, de novo, à hora do costume.

Para o combater, resta-nos pouco mais do que a imaginação. Sonhamos sem sair do lugar, desejamos sem falar, buscamos sem que nada o permita entender. Lutamos contra o óbvio de forma silenciosa, mas obstinada, contagiando tudo o que nos rodeia com essa vontade de fazer diferente. Fugimos enquanto nos entregamos. Não é assim tão difícil de entender, nem tão complicado de perceber.

Parece que estamos aqui, mas estamos longe. E é esse o nosso sítio.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Editorial: Da vida e da morte num país que acaba

|Luís F. Cristóvão

Muito antes de este ser o dia de visitar os mortos, eu acordava bem cedo com a excitação de ter um saco do pão, em pano, pronto, para sair de casa em busca do “pão por deus”. Era um hábito forte e enraizado na aldeia do meu pai, onde o feriado do primeiro de novembro também marcava o aniversário do grupo desportivo, e juntava toda a gente da aldeia, em bailes populares pela noite e jogos de futebol no campo pelado durante a tarde. A manhã, essa, era das crianças, à solta pelas ruelas, ao “pão por deus”.

Foram dezenas e dezenas de rebuçados, bolachas, broas, chupa-chupas, línguas de gato… Na casa de algum primo, uma moeda de 25 escudos, um verdadeiro tesouro prateado, porta para uma série de outras guloseimas ou pequenas compras durante o resto do dia. No café, lembro-me também do “pão por deus” significar uma ou duas carteirinhas dos calendários da bola, onde bigodudos jogadores apareciam prontos a ser colecionados religiosamente, guardados numas capas que estavam sempre perto de mim, no meu quarto, ao acordar.

Muito antes de este ser o dia de visitar os mortos, este foi o dia de festejar a vida. Depois crescemos e saímos de casa para caminhar por cemitérios, em silêncio, em busca de palavras que imaginamos ecoar pelas copas das árvores que, nestes dias, nos protegem mais da chuva do que algum raio de sol envergonhado.  Mas isto, também era dantes.

Hoje ficamos em frente aos computadores, a exercer o mesmo trabalho de um qualquer outro dia. Hoje ficamos presos nas repartições, nas salas de professores, nos balcões das lojas. Hoje não há vida, nem morte, que nos valha. Por algum tipo de negociação que nos custa a perceber, apagaram do calendário um dia que, para mim, não era religioso no sentido canónico de uma qualquer Igreja, mas que fazia e continuará sempre a fazer parte da religião da minha memória.

Hoje ficamos apenas por aqui. Num país que acaba.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Editorial: Sem tempo para guerras

|Luís Filipe Cristóvão

Sem tempo para guerras, assumimos a luta pelo sonho – sonhamos um espaço onde os autores podem divulgar o seu trabalho e onde leitores podem descobrir novos caminhos de saber. Falhamos, constantemente, umas vezes atrás das outras, mas não desistimos. Ao nosso sonho correspondem, mensalmente, novas vozes e novas ideias, as nossas portas estão abertas, façamos deste recreio um espaço para nos renovarmos.

Sem tempo para guerras, assumimos a luta pelos nossos direitos – inventamos o que ocupa o vazio e permanecemos em constante desbravar de sensações. Queremos que as nossas palavras sejam sentidas, queremos que as nossas imagens sejam emocionantes, queremos que o nosso estímulo não se perca no vazio. Connosco, estão todos os autores que comungam deste desejo de ser maior, entre as nossas janelas corre o ar, façamos desta sala um espaço para nos encontrarmos.

Sem tempo para guerras, não desistimos. Não precisamos de mais razões para fazermos aquilo que queremos fazer. E o que nós queremos, agora – como querem todos vocês que por aqui passam em busca de espaço para publicar, algo para ler, muito para sonhar – é isto. Esta é a Sítio. Construam nela a vossa casa.



Nota: Porque esta revista é feita por múltiplas vozes, os editoriais passam agora a ser assinados. A cada um deles, corresponde uma cara, um pensamento, um desejo. Tal como a cada dia, nos poemas, nas prosas, nas fotografias. 

sábado, 25 de maio de 2013

Proibido Fumar

|Luís Filipe Cristóvão


O médico, diga trinta e três, trinta e três, eu a olhar fixamente para o esqueleto guardado a um canto do consultório, sem conseguir respirar, quanto mais dizer alguma coisa, um esqueleto branco e luzidio, com os ossinhos todos no lugar certo, inquebráveis como os brinquedos dos cães e sem pó como a sala sempre tão arrumadinha da Marlene, o médico, trinta e três, e eu a pensar outra vez na Marlene, já sem ouvir nada, sem conseguir dizer nada, sem pensar, completamente, sem pensar, a Marlene, há quanto tempo eu não fodo a Marlene, há quanto tempo não a oiço dizer, lambe-me cabrito, há quanto tempo não a vejo a passear a mini-saia pelo supermercado, há quanto tempo, Marlene, não fazemos amor no sofá da tua sala, o médico, trinta e três, caraças, trinta e três, e eu a explodir num ataque de tosse convulsiva.

   O senhor tem que ter cuidado consigo, muito cuidadinho, já viu em que estado está este exame aos pulmões, o senhor não tem vergonha, e eu não, não tenho vergonha, sim, confesso, três maços por dia, três macinhos, gigante, há mais de trinta anos que fumo gigante, e não é agora que os vou largar, doutor, eu preciso tanto deles, fazem-me tanta companhia, logo quando acordo, sozinho na cama, um cigarrinho, para acalmar a tosse e começar bem o dia, e depois aquele stress todo de andar sempre de um lado para o outro, a carregar caixas e caixas de bebidas, aquilo é carregar, voltar ao camião, acender cigarro, mandá-lo fora quando paro, carregar outra vez, o doutor acha que isto é vida, tem que ser o cigarrinho, doutor, tem que ser, pelo dia todo, só três macinhos, só três, que eu agora até deixei de fumar à noite.

   Desde que a Manuela e o puto saíram lá de casa que me andava a fazer espécie não haver nada para fazer depois de jantar, depois ter ido ao café espreitar a bola, ouvir a conversa da malta, um gajo volta para casa e não há nada, só o cigarrinho e depois?, até a Marlene me deixou de ligar, olhe, o puto deixou o computador lá em casa, sabe, o computador, e eu pus-me a experimentar aquilo, está a ver, internet, quem diria que eu me punha na internet, está a ver, mas eu até sou todo pintas e invento umas conversas giras, sabe, é verdade, doutor, umas conversas para aqui, outras para ali, digo que sou inventor, artista, escritor, doutor, está a ver, pus-me a dizer a uma gaja que era escritor e tretas, e agora não é que ela quer que eu escreva um romance, pá, um romance, não deve ser brincadeira, mas eu sou assim todo pintas, e pus-me a escrever, doutor, é verdade, invento umas coisas e assim, e lá vai saindo, doutor, por isso peço desculpa pelo trinta e três, peço desculpa pela tosse, mas os três macinhos não me os tira, que eu só deixo de fumar quando escrevo o romance.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Labirinto

|Luís Filipe Cristóvão


Existir-te é ser como um labirinto. Aproximar às minhas mãos o poder de criar e destruir todo um novo ser, alguém que aparece e logo se evapora, nas demoradas noites que inventas.

Existir-te é como me dar a perder, estar sempre prestes a oferecer-me como um objecto aos olhos de quem mais não quer ver do que o simples objecto em que me torno. E tudo isto acaba por se tornar num grande mar onde nos perdemos: eu, eles, e até tu, quem sabe, porque o facto de seres coloca-te a um pequeno passo de seres perdida.

Nas entrelinhas da história, cresce em mim a inexactidão desta vida. Pois se fui livre para me fazer assim, pois se foi gozo o que colhi das primeiras noites. [uma viagem para além do que sempre fui, na barca que eu sempre quis experimentar, no oceano que eu desejei depois de lido nos livros que escondo no fundo da gaveta]. Chego mesmo, quando me preparo para ser-te, a sentir uma espécie de ingratidão por mim. Pois se eu sou a beneficiária de te ter criado, pois se sou eu a razão de existires.

Na génese de tudo isto surgiu o desejo recalcado, a ausência de quem me confortasse. Demasiados anos à espera de encantamento. Despropositadas esperanças no encontro de um amor, de algo próximo disso. Nenhum abraço, nenhum olhar. E em cada noite, ao deixar cair a cabeça na almofada, a lágrima escorrida, o desejo que crescia. Ao acordar, onde nada restava que não fosse depressão, a chuva de readquiridas esperanças, frustradas logo ao sair da porta.

Na génese de tudo isto, uma menina que sonha. Uma criança que chora. Uma mão que se fecha. [e há quem espere toda a vida, sempre no mesmo círculo de ilusões, e até ao último passo para a morte, nunca se aperceba, nunca se encontre a si, no centro da arena do circo, ignorada por uma plateia vazia]. Um dia eu vi-me. Um dia eu vi-me. Senti-me. E estava vazia.

Como é incrível que o vazio possa ser tão dinâmico e venha a retirar do vácuo todos os elementos necessários à criação de um novo ser. Como é fabuloso perceber de onde viemos, ao sermos nós a mão formadora de uma nova vida, iludidos na possibilidade de sempre ter o controlo sobre o novo ser que nasce.

Eu sou a que aparece atrás da porta da casa de banho, eu sou a que cresce entre as árvores do bosque, eu sou a que se descobre num banco pútrido do jardim. Onde eles me desejam, eu sou. Quando eles me desejam, eu estou. Tudo isso em mim. Tudo isso em ti. E no entanto…

Em todo o poder há um descontrolo. Quando o poder é maior, tornando-se absoluto e absolutista, a proximidade da perda está lá, a hipótese do abismo aparece proporcionalmente. É nesse canto que eu me perco. É aí que existir-te é como me dar a perder. A construção é objecto mas o objecto fere-me a mim. Ao conquistar a antítese do sonho, volta a nós a necessidade dele, a lágrima caída na almofada suja do contacto com os cabelos, os meus cabelos que quando teus ficam marcados pelas mãos porcas daquele outro objecto que são eles.

Apercebo-me… No fundo, o objecto gera objecto. Eu não te criei. Eu apenas persegui o que pensava poder encontrar. E não mais fiz do que me enganar, pois que fui tu, e enganar-te, pois que, ainda assim, sempre fui eu. Existir-te é existir-me. Existir-me é um labirinto.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ele

|Luís Filipe Cristóvão


Um deles amava mulheres feias. Ninguém acreditava que fosse possível amar tantas mulheres e tão feias como aquele fazia. E o que tornava de ainda mais difícil compreensão aquele fetiche era o facto de ele ser tão bem parecido que, com relativa facilidade, encontrava mulheres bonitas muito interessadas nele. Ali, num canto do bar, ele bebia mais um copo de whisky e falava das suas mulheres. Das mulheres feias.

Por exemplo, a Fátima. Doze anos mais velha que ele, à porta dos quarenta. Os dentes encavalitados uns sobre os outros, quase todos aninhados por pequenas cáries ou outros vestígios de indiferença. Um nariz fino e pequeno onde pousavam dois olhos esbugalhados, de um castanho sem graça. As sobrancelhas carregadas, uma pele desleixada. O cabelo oleoso, sempre mal penteado. Um amor sem igual, segundo ele, a mais sincera relação que duas pessoas podem ter. Algo que, sendo incompreensível ao mais mediano dos humanos, para aquela mente iluminada pela beleza das mulheres feias, representava o mais alto esplendor de luz divina.

Muitas vezes eu e outros amigos tentámos compreender o que o tinha feito assim. Muitos lembravam uma tal Dina ou Lina, um amor de adolescência, uma mulher brilhante, de doces feições, que o arrebatou cruelmente e ao fim de dois meses o trocou por um outro jovem, quiçá mais treinado nas particulares manhas do amor adolescente. Diziam que isso quase o tinha levado ao suicídio, tendo-o traumatizado de tal forma que nunca mais se houvera aproximado de um qualquer rasto de beleza.

Era difícil de compreender, sem dúvida, e esta história melancólica e distante parecia resolver de certa forma a ansiedade que nos tomava a todos, sempre que o víamos, o maus belo dos homens sós daquele bar, entrar acompanhado pela última novidade dos horrores femininos. Vânia, Tânia, Luísa, Teresa, Armanda, Leopoldina (esta juntando ao pacote um nome também ele horrível), Ana Maria, Maria José, Alexandra… Um rol de tristezas para os nossos olhos.

Outra das histórias que se contavam sobre aquele belo e estranho personagem era a de uma Mariana ou Margarida que, aquando dos seus vinte e poucos anos, lhe teria roubado o coração. Era uma espécie de deusa grega, divinal nos seus traços de mais bela dos humanos. Um ano inteiro de um amor arrebatado que terminou, tristemente, numa noite em que o nosso amigo a interpelou beijando outro terráqueo, um ex-namorado do liceu.

Todos percebiam que tais desventuras só poderiam levar a um temor irreflectido perante as mulheres, mas daí a procurar só senhoras de pouco tranquilizante aspeto era um demasiado longo caminho. E por isso vivíamos perturbados com as infelizes escolhas daquele que designávamos como o mais belo dos nossos. Quando a madrugada já ia longa, eis que ele saía do canto escuro do bar, embalado na garrafa de whisky que se desfizera em seus lábios. Mesmo com todo aquele álcool, ele mantinha a pose de general, as costas direitas, o olhar penetrante. Belíssimo, sem dúvida. Saía do bar e vagueava pelas ruas molhadas. Sem que ninguém o percebesse, era esse amor pelo estranho que o fazia mover-se ainda.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Tiago

|Luís Filipe Cristóvão


Em memória de Tiago Alfredo Cristóvão

Escrevo esta história de memória, a maneira como se contam todas as boas histórias. Como não me lembro de muita coisa, e de muitas outras nem nunca soube o rasto, escrevo aquilo que lembro e imagino aquilo que ignoro. Quando nasceu, nos anos vinte do século de mil e novecentos, este rapaz não fazia ideia de que o seu nome, Tiago Alfredo Cristóvão, iria ser tão marcante para os homens da sua prole. Sem que o quisesse, os seus irmãos, o seu filho, os seus netos, passariam a ser reconhecidos todos por Tiago, uns por nomeação de nascimento, outros por ligação familiar. A mim, pessoalmente, sempre me soou particularmente confortável ser conhecido por este nome, uma maneira qualquer de ser identificado a um grupo, a uma tradição, uma forma agradável de ser reconhecido pelos outros. Para o bem e para o mal, os Tiagos sempre ficaram conhecidos por serem pessoas de bem, de trabalho, de concretização e de trabalho.

São várias as histórias que eu lembro do meu avô. E várias delas me assaltam a memória quando tento ver, lá para trás, quem ele foi. Nasceu no Casal da Parafuja, casal que para mim sempre foi só um moinho que eu via ao longe, porque nunca subi lá acima. Não sei bem porquê, sempre fiquei do caminho, em baixo, a ver, a imaginar, o que seria lá em cima o Casal da Parafuja. A história mais antiga que eu conheço dele, teria ele nove anos, e foi com o pai para Santa Cruz, numa viagem que demorava um dia inteiro, com o objectivo de trabalhar naquilo que sempre foi o seu trabalho, a construção. Sempre que ele falava desta história, os seus olhos pequenos voltavam aos nove anos assustados, que de manhã, ao acordar, sentindo o pai por longe, avistaram pela primeira vez o mar, e toda aquela confusão de branco, espuma e névoa, lhe pareceram casas a cair. Depois, como eu o imagino, cresceu com aquele ar de marialva que sempre trazia consigo. Começou a fumar aos doze anos, dizia sempre orgulhoso ao acender de cada cigarro, devia andar por bailes, com o cabelo penteado, puxado para trás, devia trabalhar que se fartava, empreiteiro de uns e outros, e assim foi fazendo a sua vida, ganhando experiência e confiança por entre aqueles que partilhavam o mesmo labor. Casou tarde, ao que sei, já perto ou depois dos trinta, e não me parece que alguma vez tenha o casamento retirado algum brilho aqueles olhos pequenos, travessos, que sempre voltavam aos nove anos.

Acho que sempre o tratei por tu. Lembro-me de o tratar só por Tiago, como se fosse um amigo do prédio ao lado, um colega da escola. Ele ia comigo ao futebol e nunca dizia de quem gostava, a não ser do Belenenses no ano em que foram campeões. Ele estava sempre nas obras e andava sempre com malandrices, fossem cassetes de anedotas, poster’s de miúdas, conversas daqui e dali. Nunca dizia o nome quando tocava à campainha. Era um “oi”, um “oi” esticado e sonoro que, mais que anúncio, era um grito de guerra que eu ouvia sempre que o escutava no intercomunicador. Ele permanecia calado e ria. Era um malandro encartado, que bebia o seu copo, que brincava com os talheres em cima dos pratos para marcar ritmos de cantigas. Era também o patrão implacável, sempre a marcar em cima, rabugento, mandão. Se alguma coisa fica em mim dele, é essa rabugice intrínseca de quem acha que sabe o que está a fazer (e ele, a maior parte das vezes, sabia) e quer que as coisas fiquem a seu jeito. Era fácil ser neto dele, era mesmo muito fácil, até porque ele nunca ficou velho, nunca ficou velho a sério até ter ficado velho demais.

É fácil gostar dos mortos. É fácil gostar dos mortos porque houve sempre coisas que ficaram por fazer, coisas que ficaram por dizer. Durante a vida, o meu avô Tiago não foi um homem fácil. Porque nunca se é fácil quando se sabe muito bem aquilo que se quer fazer. Sabe-se tão bem que se acaba por fazer a maior parte das coisas sozinho. E isso chateia e magoa os outros. Mas também, como todos aqueles que  se fazem sozinhos, o meu avô Tiago soube amar incondicionalmente aqueles que o rodeavam. E tenho a certeza que amou até aos últimos momentos. Não somos homens muito fortes, nós, os Tiagos. Andamos constantemente perdidos entre aquilo que achamos que tem que ser feito e aquilo que achamos que temos que fazer. A última construção do meu avô foi um sopro, um sopro que ele deu quando se atirou da vida abaixo. Partiu assim porque não há satisfação possível para um Tiago nesta terra. Vamos sempre fazer decididamente por nós aquilo que nos haverá no fim de nos fazer sentir sozinhos. Sozinhos com as ruínas de nós mesmos e com o amor que sentimos pelos outros.

É esse peso que sentimos nos pés hoje, ao sair daqui. Esse peso que nos acompanha em todos os dias da nossa vida. O primeiro Tiago, talvez o mais corajoso, talvez o mais descontraído, morreu. Já não temos um “oi” que nos ponha em sentido. Já não temos quem nos marque o ritmo das cantigas com os talheres. Já não temos o marialva de cigarro ao canto da boca. Já não teremos mais histórias para nos lembrarmos no futuro. Agora, só nos restamos a nós.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Quando o barco atracar no cais

|Luís Filipe Cristóvão


Luzia, se tu soubesses, tenho 46 anos, tenho 46 anos a mais, e vejo que cada dia passa mais depressa, sempre tão depressa, a cada dia que passa e eu a acordar de madrugada para ir para o trabalho, a acordar de madrugada sem uma ponta de sorriso esquecido no canto da boca, sempre a mesma rotina de fazer a barba, tomar banho, o café a correr, o cigarro mal apagado antes de entrar no autocarro, Luzia, dá-me vómitos, dá-me vómitos toda aquela gente, todas as manhã, Luzia, se tu soubesses.

Manuel, como te posso dizer, eu a acordar todas as manhãs e sem sentir que tenho um homem ao meu lado, eu a acordar todas as manhãs e a sentir-me mais velha que a minha mãe e a minha avó juntas, deus as tenha lá no céu, eu a acordar todas as manhãs, e sempre a pensar, como será o dia de hoje, o que me poderá acontecer, todas as manhãs, e a saber sempre, sempre, que não há nada de novo, nunca há nada de novo, Manuel, tenho 41 anos, tenho a idade das actrizes do cinema, mas para mim ninguém olha, por mim, ao que parece, já ninguém se interessa.

Luzia, se tu soubesses, oito horas por dia naquele escritório é uma eternidade, oito horas por dia ali fechado, sem uma cara diferente, sem uma voz lavada, sem uma vista diferente pela janela, oito horas e o rádio sempre na renascença, oito horas por dia e sempre as mesmas notícias, ali fechado, Luzia, se tu soubesses, tenho 46 anos, tenho 46 anos a mais, e oito horas depois de estar ali fechado, o cigarro mal apagado antes de entrar no autocarro, Luzia, dá-me vómitos, dá-me vómitos toda aquela gente, todo aquele suor, Luzia, oito horas fechado no escritório.

Manuel, como te posso dizer, os putos saem contigo de manhã e voltam contigo à noite, é sempre comprar pão e tomar um café, é sempre Fátima Lopes, Sofia Alves, é sempre enganar a fome com qualquer coisa, é sempre passar a ferro, fazer as camas, pensar no jantar, telenovela, telenovelas, pensar no jantar, o que vão eles querer hoje, telenovela, telenovelas, Manuel, tenho 41 anos, tenho a idade das actrizes, eu fico em casa a ver telenovelas, muitos dias nem sei se faz sol ou se chove, telenovela, telenovelas, eu tenho a idade das actrizes.

Luzia, se tu soubesses, chego a casa sempre tão enojado, chego a casa sempre tão doente, e os putos que não se calam, e telenovela na merda da televisão, nem sequer consigo ler o jornal direito, nem sequer consigo pensar limpo, os putos não se calam, a merda da televisão na telenovela, Luzia, se tu soubesses, e eu que nunca te digo nada, chego a casa tão enojado, a merda da televisão, eu nunca te digo nada, Luzia, se tu soubesses, que não há nada para te dizer quando um gajo chega a casa tão enojado, a merda da televisão e os putos que não se calam.

Manuel, como te posso dizer, o jantar na mesa e tudo pronto sempre a horas, já tinha tantas saudades vossas, ver-vos, ver-nos todos juntos, já tinha tantas saudades vossas, e tu calado e os putos aos gritos, o jantar na mesa e eu ali, Manuel, porque não falas, eu queria saber quem viste hoje, porque não falas, eu queria saber o que fizeste hoje, eu queria saber porque não me beijas, eu queria saber porque não te agarras a mim e choras comigo, Manuel, eu tenho 41 anos, eu queria saber porque é que eu tenho a idade das actrizes e tu nem para chorar me olhas, Manuel, como te posso dizer.

Luzia, quando é de noite, tenho medo que o dia volte, tenho medo de voltar a ter tudo outra vez, voltar a repetir tudo outra vez, Luzia, quando é de noite, eu deito-me envergonhado, quando é de noite, espero que tu adormeças e choro devagarinho para não me ouvires, quando é de noite, Luzia, se tu soubesses, eu tenho 46 anos e só oiço a voz do meu pai aos berros, os homens não choram, Luzia, eu tenho 46 anos e espero que tu adormeças para chorar devagarinho.

Manuel, quando estou na cama é ainda pior, pensar na alegria que tivemos quando compramos esta cama, a cama dos nossos sonhos, a cama que foi do nosso amor, e agora, Manuel, a cada noite que passa, Manuel, ficamos cada vez mais longe, Manuel, e eu fecho os olhos com tanta força, com tanta pressa de adormecer para não me lembrar que estou ali, Manuel, como te posso dizer, depois parece-me que te oiço a chorar, Manuel, para que há uma criança na cama deitada, a chorar no teu lugar, e eu fecho os olhos com mais força, e ainda com mais força, para já não estar ali quando conseguir finalmente adormecer.

Luzia, se tu soubesses, trago-te para passear neste fim-de-semana, trago-te a passear para veres o mar, para sentires a brisa quando a janela do carro aberta, trago-te para a rua para ver se limpo a cabeça, para ver se me esqueço, deixo os putos lá em casa para eles gritarem à vontade e trago-te para veres o mar, sabes, é bonito vermos o mar juntos, sabes, eu gosto de vir ver o mar, ver os outros carros com gente nova, sabes, e vê-los aos beijos, agarrados, e vê-los aos beijos, agarrados, sabes, Luzia, e acho que quando te trago a ver o mar, sou um puto outra vez, sabes, eu trago-te a ver o mar, acendo um cigarro, e fico a ver a malta nova nos outros carros aos beijos, sabes, nos outros carros a fazer o que eu queria fazer, sabes, se eu não tivesse 46 anos a mais, e parece que fico com a cabeça lavada, sabes, trago-te a passar neste fim-de-semana.

Manuel, tu sempre calado e o mesmo passeio de domingo à tarde, o mesmo relato de futebol, o mesmo trajecto, o mesmo vento, o mesmo mar, como te posso dizer, eu leio uma revista, e deixo-me ficar, pelo menos é rua, pelo menos é um ar, apesar do mesmo ar de todos os domingos, como te posso dizer, eu tenho 41 anos, a idade das actrizes, e tu trazes-me para junto ao mar para olhares para os outros carros, para olhares para a malta nova aos beijos, e acendes um cigarro, eu sei que isso te dá prazer, Manuel, mas eu tenho 41 anos, como te posso dizer, tenho a idade das actrizes, e apesar do vento, e apesar do ar, e apesar do mar, eu tenho 41 anos, Manuel, e já não te consigo aguentar.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Para o mal do bem comum

|Luís Filipe Cristóvão


   Bob senta-se na mesma mesa em que, há mais de quarenta anos, se senta todos os dias para escrever. A mesma velha mesa que comprou numa feira de artigos em segunda mão que se realizava à porta do mercado num domingo de cada mês. Naqueles domingos em que se era novo e não se pensava em mais nada do que na grande vida que se teria para sempre, ao lado da nossa mulher linda e cheirosa, entre os nossos livros que não deixariam de crescer em todos os armários e recantos lá de casa. Naquela mesa já se fez de tudo. Desde livros de poesia que nunca ninguém teve vontade de publicar até romances premiados pelos melhores críticos estrangeiros. Desde bebedeiras monumentais até um filho. Tudo.

   Bob senta-se à mesa e abre o jornal. Tem sessenta e dois anos e uma enorme vontade de deixar de escrever. No entanto, em cada página de jornal, encontra mais uma frase que lhe apetece roubar. Não uma frase qualquer. Mas coisas cheias de novidades, coisas cheias de pujança, coisas que ele sabe que já não consegue retirar de si mesmo. Mesmo que insista em fazer-se um jovem para todas as meninas que vai conhecendo aqui e ali. Mesmo que mande boquinhas foleiras à sua jovem editora quando ela lhe telefona. Mesmo que faça charme de sala para as amigas dos filhos. O problema é que a vida não vem nas saias das meninas. Nunca veio. Coloca a rodar um cd que roubou do quarto do filho mais novo e ouve o refrão. "she's not so special so look what you have done".

   Como é que numa conversa de café, numa simples conversa de café, pensa Bob, se pode, às vezes, fazer renascer ou enterrar um homem, um homem inteiro com toda a sua vida? Como? Bob folheia o jornal e come amendoins de um pacote esquecido de outras noites. Onde antes estiveram papéis soltos e mata-borrão, hoje brilha um computador. Ali, dentro daquela caixa, uma vida inteira. Uma vida inteira de mentiras. Bob pensa em deixar de escrever mas, aos sessenta e dois anos, já não há muito mais que se possa fazer. Mesmo que tenha que acontecer alguma coisa na nossa vida, só aquilo que se conhece bem é que devia acontecer. Mesmo que não se aguente mais, ainda há a mesma mesa de sempre, onde se podem ter os mesmos pensamentos de sempre, fazer as mesmas coisas de sempre. Como uma paragem automática, disparando a cada sobressalto. Para o mal do bem comum.

sábado, 30 de março de 2013

Subimos.Setembro.A sombra da casa comprida.

|Petr Borkovec


     Subimos. Setembro. A sombra da casa comprida.
     Por todo o lado pó, o zumbido do rádio.
     O sol na armação cromada da cama.
     Alcançaste os teus cigarros.
A escadaria sonha ainda debaixo de nós,
as cortinas mexem-se devagar, como se escorressem.
A pia vazia era uma explosão de prata
e os segundos sempre fluidos e voando
para além do calor, do seu toque.  O tempo inactivo,
tudo afastado do seu propósito –
o sol na paralisada armação da cama,
o cabide, a imagem na parede.
Eu vi o fumo fresco do teu cigarro,
os livros empilhados atrás de nós,
e a coberta com peixes e aves e flores
todos caindo e deslizando para o chão
onde arrefeciam numa geometria azul.
Pó no guarda-roupa, pó na ária.
Pela janela, uma colorida vista que morre.
Lá fora, nenhum plano se aninhava nas sombras,
e a toalha, ociosamente deitada na cadeira,
tinha a mesma história que nós. 


(Tradução: Luís Filipe Cristóvão)

quinta-feira, 28 de março de 2013

A luz do dia desvanecia-se. Chovia torrencialmente.

|Petr Borkovec


A luz do dia desvanecia-se. Chovia torrencialmente.
O inferno vai brilhando pela calçada, aqui e ali.

Como nos desenhos de Lada, com ternura e inocência,
os diabos certificam-se da disposição dos seus tesouros.

Sobre os candeeiros, já tarde, regressam a casa três pássaros.
Sobre a apática, triste e interminável posição

da cidade nocturna, das janelas de todas as livrarias,
dos bares cada vez mais inclinados e iluminados,

da fonte onde o menino de mármore
conforta uma carpa numa cesta de mármore

(o nariz do pai, os olhos que a mãe lhe deu…
as moedas tilintando alegremente no fundo da água),

por cima da chuva agora fraca, dos diabos com os seus segredos.
Nós ficámos por ali e acendemos um cigarro.

Não se passa nada, meu amor. Tu tremes como uma pluma.
Abraça-me. Vamos passear. Esta noite dormimos juntos.


(Tradução: Luís Filipe Cristóvão)

quarta-feira, 27 de março de 2013

Comboio Suburbano, 0:05

|Petr Borkovec


Fórmica azul-celeste, cilindros florescentes.
Os céus abrem, dilúvios de luz: pai
com filha adulta, peles ao pescoço, eu, com o cheiro
das roupas suadas,  alguns lugares atrás de uns soldados.

O apito. As lâmpadas queimam. Depois o escuro. As janelas
seguram as nossas caras desoladas e pálidas. Os soldados
jogam às cartas no colo. A mulher, fechada,
escarros de jaspe branco nas orelhas balançando.

Pai e filha não conseguem cair no sono
Enquanto relembram aquele jovem coração que sangra e arde
Na mão do bêbado da pequena loja do cais de embarque.

Ela é esbelta e alta. O programa do Cimbelino
escorrega limpo do seu colo em direcção ao bêbado.
De branco, ela inclina-se, como o faria para um beijo.


(Tradução: Luís Filipe Cristóvão)

terça-feira, 26 de março de 2013

O que fazemos?

| Petr Borkovec


O que fazemos? Estamos envoltos no espaço,
somos silenciosos, deixamos os mortos sossegados a dormir.
Cortamos árvores, isolamos adubos,
erguemos armadilhas onde ratos morrem à fome.
Ao serão, levamos o jantar para o jardim,
trazemos o silvado para o quarto.
Devolvemo-lo seco à fogueira,
o seu doce fumo atravessando-nos os roupeiros.
No crepúsculo, olhamos lá fora a parede
e falamos de maneira a não acordar os mortos.
Entre os móveis, fazemos amor
com os corpos que não são o oposto de espaço.


(Tradução: Luís Filipe Cristóvão)

segunda-feira, 25 de março de 2013

Cozinha

|Petr Borkovec


Não me toques. Não tentes
compreender. Levanta a caneca
apenas.  Olha-me sobre o chá.
Estou aqui. Da cintura para cima.
Sem paredes. Um ecrã que oferece
ramos, flores, ninhos.
Não olhes para baixo. Sou um centauro.
Esquece. Não tragas convidados.
Onde começam as cadeiras
acaba a mesa. As mãos
submersas na pia. Deixa.
Não toques. Não ouças. Pára.
O aquecimento abranda a matéria.
O sol pára no vidro.
E o olhar explora todo este espaço cego.



(Tradução de Luís Filipe Cristóvão)

domingo, 17 de março de 2013

A aposta

Recensão do livro O Fardo do Homem Branco de Madalena de Castro Campos

|Luís Filipe Cristóvão

O que se conhecia de Madalena de Castro Campos, que tem vindo a publicar no blogue les cahiers de la mariée, já dava o tom daquilo que se encontra n’ O Fardo do Homem Branco, o seu primeiro livro, publicado pela açoriana Companhia das Ilhas. Uma poesia fortemente cínica, no modo como a partir de uma personagem feminina vai desconstruindo o marialvismo ainda latente na cultura portuguesa. A utilização, no título, da referência a Rudyard Kipling, acaba por dar um tom pesadamente irónico ao que encontramos dentro deste pequeno volume.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A intervenção divina no roque português

|Luís Filipe Cristóvão

No dia em que é lançado o novo álbum de Samuel Úria, O grande medo do pequeno mundo, a Revista Literária Sítio associa-se a esse acontecimento com a recuperação de uma conferência apresentada no Congresso Poéticas do Rock, no dia 8 de abril de 2009, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 


1 – Igrejas Cheias do Domingo

Não é muito comum encontrar numa faixa de um álbum de roque português o refrão “Igrejas cheias ao domingo”. Aliás, mais que incomum, durante muitos anos, acharíamos intolerável que isso acontecesse (acredito que boa parte de vocês continua a achá-lo intolerável e pergunta-se, talvez com alguma propriedade, porque é que eu estou aqui, porque é que eu estou a falar disto). Mas, partindo do princípio filosoficamente indiscutível de que Deus está em todo o lado, não poderíamos pensar que ele deixaria de imiscuir-se num meio tão dado a endeusamentos como o roque português. Então, o que torna possível repetir este refrão em concertos por todo o país? Tiago Guillul. Foi ele o primeiro músico a assumir um posicionamento religioso no seu roque. Mais do que assumir, alias, parece claro, desde o primeiro álbum, que tentou aperfeiçoar um projecto de afirmação do universo Flor Caveira, enquanto uma produtora musical independente e protestante, nos princípios e na mensagem (embora sem exclusividade). Logo, mais tarde ou mais cedo, já deveríamos saber que isto acabaria mesmo por acontecer.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Uma clareira no mar


Entrevista a Aurelino Costa

|Luís Filipe Cristóvão


Em semana de Correntes d’Escritas, decidimos procurar uma das figuras emblemáticas deste encontro. Aurelino Costa é um autor da Póvoa de Varzim, que desde o primeiro momento tem feito parte do programa do encontro, funcionando, tantas vezes, como um um representante informal do poder que este evento tem na cidade.

Nascido em 1956, Aurelino Costa é poeta e diseur, sendo que na edição de 2013 voltará a estar nas Correntes para apresentar o seu novo livro, Domingo no Corpo, da Deriva Edições. Procurando encontrar as origens deste encontro e as sensações que ele desperta nas pessoas que mais intimamente o vivem, não será de estranhar, para quem conhece Aurelino, que a entrevista rapidamente se transformou, ela própria, num poema. Como sublinha o autor, a certo passo, “os encontros podem criar uma clareira no mar”.