|Ricardo Flaitt
Foram doze lavouras de coretos,
Trinta pés-de-laranja quemescorreram dosolhos,
Seis paineiras que sedesprenderam da pele,
Vinte e cinco minérios que se desvencilharam dasunhas,
Quatorze lagartos que correram prouvidos,
Sessenta e seis sinos cultivados em maritacas.
E pensar que a vida contém brevidades...
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sábado, 18 de janeiro de 2014
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Sabor Interior
| Pedro Marques
Paulista ainda traga, cospe e passa o pé? Orgulho da caminhonete, tara por shopping e “modernidade” fizeram São Paulo exportar seu quinhão a Minas, Goiás. Tempo de antibiótico, plástico, pastor, analista dizendo o que é a vida ao homem. Não fosse fundo o poço, não sobrava areia para nossa identidade. É notável quando um escritor paulista dá no peito: sou do interior, sô!
Ricardo Flaitt (1976-) masca o interior que largou Cornélio Pires por causa da Capital. Cidades com mais cinquenta mil viventes perderam a batalha. Em vez de ensinar dignidade à metrópole, tomaram lições de desumanidade. Mococa, berço do poeta, virou mini-capital de problemas. E o interior é maior que cinemas, palcos, crimes e carros aos milhares. Pra que duzentos eventos por noite, se o sonho digere dois, três? É outro o tempo do poema caudaloso, terreno em que este poeta se destaca dos viciados em pílulas e sacadelas.
É cicatriz na cara e vida na caçamba. Naturalmente 3D. Ricardo tem paladar poético, o sentido mais afeito ao “experimentar”. Provar pela boca é guardar conteúdo dentro, saber do bom e do ruim no ato. Esta poesia tem o ritmo da gustação, papilas afiando olhos, narizes, ouvidos, dedos. Todos os sentidos a partir da língua: “Junto um punhado de terra na mão / Aperto profundo até extrair as sementes”.
Sabor, sentido que desbotou. Viramos uns devoradores sem apreciar nada. O antropófago do século XVI conhecia mais o que mordia do que nós, que convertemos comer e beber em consumir. Caboclo tem mãos e pés de lixa, pele de sol, pelo deitado no sereno. Mas tem língua de esmeril, conhece saboreando, polindo o que diz e mastiga até virar algo seu, interior, memória perene. “E assim, o mundo todo seliquefazia no mais profundemim.”
O poeta sabe o sabor que fala, vê, cheira, ouve, toca, amarga. Pedra, marimbondo, rua, cigarra, moça, fruta caem na língua que esmerilha cinco sentidos do corpo, diversos sentidos da palavra. O Domesticador de Silêncios (2013) doma o mundo pelo paladar, cujo ruído surdo é a mastigação da força nova sobre as sabidas coisas. Difícil comer e falar, lance de mau educado ou bom poeta. E a deglutição monta acordes saborosos, naturais, herméticos: “quimiciriguelas”, “dendagente” ou “prélasdiquiririnchaço”.
A febre de cores lembra Murilo Mendes, no passado, e Ricardo Lima, no presente: “Cosia botões com cascas de laranjeiras em terno de andorinhas”. As touceiras de sons ecoam Manoel de Barros (ontem), Antonio Geraldo (hoje): “E era réptil ritmo que doverso em min'medra”. É que nenhum poeta inventa a vela, faz ventar (“a insanidade do vento”) do seu jeito as vozes que vem de antes, do longe. Domesticar silêncios, nesse sentido, é também pilotar a tradição que, na calada, tormenta a noite do caboclo.
Pedro Marques é professor de Literatura Brasileira da UNIFESP e doutor em Teoria e História Literária pela UNICAMP.
Paulista ainda traga, cospe e passa o pé? Orgulho da caminhonete, tara por shopping e “modernidade” fizeram São Paulo exportar seu quinhão a Minas, Goiás. Tempo de antibiótico, plástico, pastor, analista dizendo o que é a vida ao homem. Não fosse fundo o poço, não sobrava areia para nossa identidade. É notável quando um escritor paulista dá no peito: sou do interior, sô!
Ricardo Flaitt (1976-) masca o interior que largou Cornélio Pires por causa da Capital. Cidades com mais cinquenta mil viventes perderam a batalha. Em vez de ensinar dignidade à metrópole, tomaram lições de desumanidade. Mococa, berço do poeta, virou mini-capital de problemas. E o interior é maior que cinemas, palcos, crimes e carros aos milhares. Pra que duzentos eventos por noite, se o sonho digere dois, três? É outro o tempo do poema caudaloso, terreno em que este poeta se destaca dos viciados em pílulas e sacadelas.
É cicatriz na cara e vida na caçamba. Naturalmente 3D. Ricardo tem paladar poético, o sentido mais afeito ao “experimentar”. Provar pela boca é guardar conteúdo dentro, saber do bom e do ruim no ato. Esta poesia tem o ritmo da gustação, papilas afiando olhos, narizes, ouvidos, dedos. Todos os sentidos a partir da língua: “Junto um punhado de terra na mão / Aperto profundo até extrair as sementes”.
Sabor, sentido que desbotou. Viramos uns devoradores sem apreciar nada. O antropófago do século XVI conhecia mais o que mordia do que nós, que convertemos comer e beber em consumir. Caboclo tem mãos e pés de lixa, pele de sol, pelo deitado no sereno. Mas tem língua de esmeril, conhece saboreando, polindo o que diz e mastiga até virar algo seu, interior, memória perene. “E assim, o mundo todo seliquefazia no mais profundemim.”
O poeta sabe o sabor que fala, vê, cheira, ouve, toca, amarga. Pedra, marimbondo, rua, cigarra, moça, fruta caem na língua que esmerilha cinco sentidos do corpo, diversos sentidos da palavra. O Domesticador de Silêncios (2013) doma o mundo pelo paladar, cujo ruído surdo é a mastigação da força nova sobre as sabidas coisas. Difícil comer e falar, lance de mau educado ou bom poeta. E a deglutição monta acordes saborosos, naturais, herméticos: “quimiciriguelas”, “dendagente” ou “prélasdiquiririnchaço”.
A febre de cores lembra Murilo Mendes, no passado, e Ricardo Lima, no presente: “Cosia botões com cascas de laranjeiras em terno de andorinhas”. As touceiras de sons ecoam Manoel de Barros (ontem), Antonio Geraldo (hoje): “E era réptil ritmo que doverso em min'medra”. É que nenhum poeta inventa a vela, faz ventar (“a insanidade do vento”) do seu jeito as vozes que vem de antes, do longe. Domesticar silêncios, nesse sentido, é também pilotar a tradição que, na calada, tormenta a noite do caboclo.
Pedro Marques é professor de Literatura Brasileira da UNIFESP e doutor em Teoria e História Literária pela UNICAMP.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
A conversão dos silêncios
|Ricardo Flaitt
Hoje converti dois silêncios numa ária
E assim escutei a única voz quecoa em mim.
Meusolhos, caleidoscópios quebrados,
ganharam mais ângulos
E contornaram a serra de Cajuru galopando cerrações,
E cingiram sentimentos de uma vida inteira,
E construíram coretos em minha pele,
E tangeram áreas,
E corrupiaram em torno da minha existência,
Que vai da Aparecida às margens do Canoas.
Hoje converti dois silêncios numa ária
Mas confesso que poderiam ser rebanhos de sombras
Ou mesmo os louva-a-deus que nunca se ajoelharam.
Em minha santidade em direção ao descompasso,
Eu continuo a pazear silêncios prárias
Que continuam a cantar um sentido proverbo liquifazer-se.
Hoje converti dois silêncios numa ária
E assim escutei a única voz quecoa em mim.
Meusolhos, caleidoscópios quebrados,
ganharam mais ângulos
E contornaram a serra de Cajuru galopando cerrações,
E cingiram sentimentos de uma vida inteira,
E construíram coretos em minha pele,
E tangeram áreas,
E corrupiaram em torno da minha existência,
Que vai da Aparecida às margens do Canoas.
Hoje converti dois silêncios numa ária
Mas confesso que poderiam ser rebanhos de sombras
Ou mesmo os louva-a-deus que nunca se ajoelharam.
Em minha santidade em direção ao descompasso,
Eu continuo a pazear silêncios prárias
Que continuam a cantar um sentido proverbo liquifazer-se.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Invertebramentos da palavra
|Ricardo Flaitt
Soletro minhas palavras invertebradas
E vivo a recontar a coleção de janelas
Que meus olhos herdaram das coisas.
Prossigo entre minérios e vozes de locas.
Estou para o ocaso,
Enumerando as tardes que se derrubam em mim.
Converso com as aleluias e os louva-a-deus,
Buscando uma santidade que não me foi concebida
E que nunca quis.
Assim sigo...
Recortando asas de insetos e borboletas
Pra atingir os invertebramentos da palavra,
Pra ficar acumulando sons de telhados,
Pra ficar ouvindo meus silêncios,
Sentado em minha escrivaninha,
Que não se cansa de ouvir a Coronel Diogo:
Extensão perdida daquilo que me pavimenta.
Soletro minhas palavras invertebradas
E vivo a recontar a coleção de janelas
Que meus olhos herdaram das coisas.
Prossigo entre minérios e vozes de locas.
Estou para o ocaso,
Enumerando as tardes que se derrubam em mim.
Converso com as aleluias e os louva-a-deus,
Buscando uma santidade que não me foi concebida
E que nunca quis.
Assim sigo...
Recortando asas de insetos e borboletas
Pra atingir os invertebramentos da palavra,
Pra ficar acumulando sons de telhados,
Pra ficar ouvindo meus silêncios,
Sentado em minha escrivaninha,
Que não se cansa de ouvir a Coronel Diogo:
Extensão perdida daquilo que me pavimenta.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
O ferro de solda ou o metal de conjuminâncias
|Ricardo Flaitt
Quando meninoera, tempo que sol era apenesfera,
Pedi ao pai um ferro de solda pra concertar dicionários.
Em minha fábrica demendas
Catracava vocábulos coestanho, encavalava letras,
Corrupiava conceitos, emendava chuvas nolfato dos passarinhos,
Sons de uma velha cuíca em pedaços de inverno,
Cerzia serenos em cascos de vaga-lumes
E assim o mundo todo seliquefazia no mais profundemim.
A mãe até hoje não entendeu
Quando fundi um caleidoscópio nosolhos
Prenxegar a vida doavesso.
Mas era dessa forma que a vida ganhava sentido
E era assim que minha alma contornava a serra de Cajuru,
Sebanhava no Canoas, cingia o Rio Pardo
E terminava no bairro da Aparecida.
Eu só-tinha-isso: um metal de conjuminâncias
E um punhado de vocábulos
A fundir dicionários cambetas
Que continham todo o mundo dos meus pensamentos,
De minhas sensassâncias, meu sentir:
Mistura de sentimentos com infinitos e distâncias.
Quando meninoera, tempo que sol era apenesfera,
Pedi ao pai um ferro de solda pra concertar dicionários.
Em minha fábrica demendas
Catracava vocábulos coestanho, encavalava letras,
Corrupiava conceitos, emendava chuvas nolfato dos passarinhos,
Sons de uma velha cuíca em pedaços de inverno,
Cerzia serenos em cascos de vaga-lumes
E assim o mundo todo seliquefazia no mais profundemim.
A mãe até hoje não entendeu
Quando fundi um caleidoscópio nosolhos
Prenxegar a vida doavesso.
Mas era dessa forma que a vida ganhava sentido
E era assim que minha alma contornava a serra de Cajuru,
Sebanhava no Canoas, cingia o Rio Pardo
E terminava no bairro da Aparecida.
Eu só-tinha-isso: um metal de conjuminâncias
E um punhado de vocábulos
A fundir dicionários cambetas
Que continham todo o mundo dos meus pensamentos,
De minhas sensassâncias, meu sentir:
Mistura de sentimentos com infinitos e distâncias.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Ricardo Flaitt - Biografia
Ricardo Flaitt é historiador e jornalista. Seus primeiros versos surgiram aos 15 anos sob a influência de Álvares de Azevedo e outros românticos.
Aos 16 passou a publicar seus pequenos tratados românticos em jornais e revistas literárias. Com o desenvolver do tempo literário Flaitt descobriu a máquina do mundo por meio de Gabriel García Márquez, Guimarães Rosa, Pablo Neruda, Manoel de Barros, Octavio Paz, Getulio Cardozo, dentre tantas outras vozes.
No mesmo período começou a participar e a conquistar vários concursos literários no Brasil.
Destaques para o ano de 2000, quando conquistou o Prêmio Literário do Mapa Cultural Paulista, evento promovido pela Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo, com “O Domesticador de Silêncios.
Em 2002, nova conquista no Mapa Cultural Paulista, porém agora na Categoria Composição Musical, ao ver seu poema “Meridianos” ganhar os acordes de Kico Zamarian e a voz de Márcia Tauil.
Em 2006, foi premiado no concurso literário da Universidade Federal de São João del-Rei.
Atualmente mora em São Paulo, e agora está reaprendendo a vida pelos olhos de Lara.
Saiba mais no site oficial: http://ricardoflaitt.com.br/
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