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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Sem consenso possível

Recensão de Suicidas, de Henrique Manuel Bento Fialho

|Manuel A. Domingos



Camus, no seu muito celebrado O Mito de Sísifio, afirma: «Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio.» A verdade é que o suicídio permanece uma questão e está longe de ser um problema resolvido. Em algumas culturas, o suicida é um pária; noutras, o suicídio é a única forma honrada de saída (por exemplo: os samurais). O suicídio está longe de ser um tema consensual. Ou melhor: é consensual na medida em que não há consenso possível.

Henrique Manuel Bento Fialho (1974) decidiu compilar, num livro, um grupo de suicidas, desde Alejandra Pizarnik até Yukio Mishima. Suicidas (Deriva, 2013) é composto por cinquenta e um textos, onde predominam temas recorrentes na escrita de Henrique Manuel Bento Fialho (que podem ser vistos como pequenos suicídios): o tédio, o cansaço, o esquecimento, o absurdo, o amor, o desespero, a domesticidade.

Sobre a questão da domesticidade, em Henrique Manuel Bento Fialho, muito se poderia dizer. O tema já tinha sido explorado em Estórias Domésticas (OVNI, 2006). Quando pensamos na ideia de doméstico, pensamos, também, no seu oposto mais natural: selvagem. A palavra doméstico remete-nos para tudo aquilo que é passível de ser controlado, que pertence ao foro privado, que nos transmite alguma segurança, ou conforto. Ora em Henrique Manuel Bento Fialho o doméstico é algo que oprime, que sufoca. O doméstico é, em Suicidas, a forma mais recorrente de suicídio. Insidioso, silencioso, o doméstico é tudo menos acolhedor; tudo menos seguro: «O animal doméstico não se consola migrando do quarto para a sala, da sala para a sozinha, da cozinha para a garagem (…) de um lado para o outro, arrastando o seu desânimo, a sua desesperança, a sua melancolia, a modorra dos dias (…) poder rastejar sobre o soalho afagado e ladrilhado é para ele uma inominável aventura.» (p.16). A ironia é evidente. Ou ainda: «Basicamente, há que concertar os amanhãs, o futuro, vivendo as carteiras vazias do presente. O nosso problema é andarmos como formigas amestradas, domesticadas, para cá e para lá com os olhos postos num mês de férias em Vera Cruz.» (p. 43).



Apesar da domesticidade, Henrique Manuel Bento Fialho não está alheio ao mundo que o rodeia. Muitas das vezes, a domesticidade dá lugar a um sentimento de revolta. Exemplo disso é o texto “Manuel Laranjeira”. Retrato do tempo que corre (e que tende a regular as organizações, os costumes, o consumo, a informação, a educação; não podemos esquecer os mecanismos de sedução [cf. Lipovetsky]), é um texto acutilante e que termina com uma espécie de “aviso à navegação”: «Por isso continua a caminhar com a trela ao pescoço, oferece uma ponta da trela aos admiráveis directores da congregação, adequa-lhes o discurso, abana a caudinha e ladra béu béu enquanto eles te acenarem com um osso, tudo o que resta para ti: uma ínfima e desprezível vaidade. Que a carne há muito foi distribuída.» (p. 72).

Livro denso, Suicidas tem a capacidade de comover, quer pela poesia de algumas passagens, quer pela verdade que em si encerra: «A revolta, como sabes, é um edifício sólido que por vezes cede aos mais eloquentes fenómenos da natureza.» (p. 122).




Henrique Manuel Bento Fialho, Suicidas, Porto: Deriva, 2013, 123 pp.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Antologias

Recensão à antologia de poesia Mixtape

|Manuel A. Domingos



Algumas antologias poéticas têm o nobre propósito de divulgar os poetas que nelas vêm contidos. Outras têm um propósito meramente académico. Outras, ainda, um propósito pedagógico. E existem aquelas que têm o propósito de estabelecer uma espécie de cânone. Há antologias poéticas que respeitam um tema. Lembro-me, por exemplo, de A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX (Assírio & Alvim, 2009), com selecção e prefácio de Manuel de Freitas. Estas são, porventura, as mais difíceis de organizar e as mais difíceis de defender, pois, como bem refere Manuel de Freitas: «é desde logo garantido que ela não obterá nem o consenso dos contemporâneos nem o favor da «eternidade» (…) [e] dir-se-ia que as antologias têm a incómoda particularidade de envelhecer ainda mais depressa» (p. 9). Por seu lado, Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro, na Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (Livraria Morais Editora, 1961), referem que «organizar Antologias reveste-se de particular delicadeza» (p. XIII), o que desde logo parece ser a característica mais óbvia, principalmente porque devemos ter sempre em conta o carácter subjectivo das mesmas, que deriva, em boa parte, do gosto pessoal de quem antologia.
A editora do lado esquerdo decidiu arriscar uma antologia de nome Mixtape (do lado esquerdo, 2013). Não existe qualquer referência aos organizadores da antologia, mas parte-se do pressuposto que a mesma é da responsabilidade de Maria Sousa e Nuno Abrantes (editores). O tema comum, ou melhor, o tema englobante, é a música. Na epígrafe podemos ler: «É difícil fazer uma boa cassete de compilação» (Nick Hornby). O mesmo pode ser dito sobre fazer uma boa antologia.
Não deve ter sido tarefa fácil, seleccionar e reunir vinte nomes no mesmo livro[1] — apesar de o tema ter sido respeitado por todos —, quando esta selecção tem nela vozes poéticas tão díspares. Este facto leva a um outro: os poemas são desiguais, o que provoca uma antologia desconcertante em desequilíbrio (risco este que os antologiadores previram seguramente), isto é, uma feliz antologia provocatória. Algumas falhas na revisão final também podem contribuir para algum ruído de fundo, o que, ao contrário de hoje por questões saudosistas, eram então sublinhados a vermelho por todos aqueles que gravavam cassetes ou faziam mixtapes.
No entanto, é de louvar a aposta duma editora numa antologia, que a caminho do quinto título em poucos meses, divulga a poesia que é feita neste nosso país. Tudo isto sabendo, a priori, o risco que correm.

AA.VV., Mixtape, posfácio de Francisco Amaral, Coimbra: do lado esquerdo, 2013, 77 páginas.




[1] Ana Caeiro, André Tomé, Bruno Béu, Bruno Sousa Villar, Carlos Veríssimo, Daniel Francoy, Hugo Milhanas Machado, Inês Fonseca Santos, Ismar Tirelli Neto, Joana Jacinto, Luís Filipe Cristóvão, Margarida Ferra, Maria Sousa, Marília Garcia, Miguel Pires Cabral, Pedro S. Martins, Pedro Santo Tirso, Raquel Nobre Guerra, Ricardo Marques, Tatiana Faia

domingo, 14 de abril de 2013

O tipo e a noite

Recensão de os peixes melancólicos de Carlos Veríssimo

|Manuel A. Domingos




Nos últimos três anos tem havido o ressurgir do gosto pela tipografia com caracteres móveis. Exemplo disso são os projectos editoriais Oficina do Cego, Pianola e 50kg. Todos nós gostamos de sentir, no papel, a pressão das letras. Os objectos que nos chegam são preciosos: é o tempo de alguém que temos nas mãos, o seu amor à arte. No entanto, é preciso algum cuidado. Muitas vezes são mais apreciados os objectos do que o seu conteúdo, isto é, o texto. E na maioria dos casos, tirando algumas excepções (como é o caso), ainda é o texto que faz o livro.

domingo, 17 de março de 2013

A aposta

Recensão do livro O Fardo do Homem Branco de Madalena de Castro Campos

|Luís Filipe Cristóvão

O que se conhecia de Madalena de Castro Campos, que tem vindo a publicar no blogue les cahiers de la mariée, já dava o tom daquilo que se encontra n’ O Fardo do Homem Branco, o seu primeiro livro, publicado pela açoriana Companhia das Ilhas. Uma poesia fortemente cínica, no modo como a partir de uma personagem feminina vai desconstruindo o marialvismo ainda latente na cultura portuguesa. A utilização, no título, da referência a Rudyard Kipling, acaba por dar um tom pesadamente irónico ao que encontramos dentro deste pequeno volume.

domingo, 3 de março de 2013

Até ao osso


Recensão do livro Alto. de António Quadros Ferro

|Manuel A. Domingos



Falar de novas vozes e de nova-poesia e de novíssimos é chão que já deu uvas. Em primeiro lugar, e recorrendo a uma frase feita, já nada é novo, pois tudo foi inventado. Em segundo lugar, tivemos, nos últimos anos, estreias literárias em que o autor já não era novo (em idade), nem a sua poesia nova (em relação ao cânone): lembro, por exemplo, os nomes de Nuno Dempster e Soledade Santos. Mais dúbio é falar actualmente, e situando-nos apenas no meio literário, em geração. O que caracteriza afinal uma geração? O ano de nascimento? A década? O ano da estreia literária? As afinidades com este ou aquele grupo (que os movimentos há muito se perderam no tempo)? A questão é que, na realidade, não existe uma geração; existe, antes, a malta. É costume ouvir dizer “a malta da Averno” (e por acréscimo “a malta da Telhados de Vidro”), a “malta da Língua Morta” (e por acréscimo “a malta da Criatura”), a “malta da Deriva”, a “malta da Artefacto”, a “malta da Golpe D’Asa”, a “malta da 4águas”, a “malta da Sítio”, a malta para aqui e a malta para ali. Depois, há os outros.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Poetisas como poetisas


Recensão do livro Mulher Ilustrada de Maria Sousa.

|Manuel A. Domingos



Quando se caracteriza determinada forma de poesia com o adjectivo de feminina, isto é, poesia feminina, muitos são aqueles que saltam nas suas cadeiras. A poesia não tem género. É como os anjos, dizem. No entanto, a realidade é muito diferente: existem poetas e poetisas; quer se queira ou não, isso reflecte-se na poesia que escrevem. É claro que há poetas que escrevem como poetisas e poetisas que escrevem como poetas. Há, ainda, poetas que escrevem como poetas. E poetisas que escrevem como poetisas. Maria Sousa (1969) pertence a este último grupo.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O coice da Baikal


Recensão do livro Maria dos Canos Serrados de Ricardo Adolfo

|Luís Filipe Cristóvão


Ricardo Adolfo já havia mostrado não ter par na literatura que é publicada em Portugal. Primeiro que tudo, habita um território demasiado perigoso, onde a maioria dos editores não costuma demonstrar coragem para entrar. Depois, porque a literatura suburbana que nós conhecíamos, não se escrevia assim.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A pornografia do sistema

Recensão do livro Odes de João Bentes

|Miguel Godinho


Melhor que ninguém, os poetas bélicos sempre souberam munir-se das palavras certas para combater a nossa constante sujeição à vidinha de todos os dias. E porque a poesia é arma da verdade e a verdade é arma da poesia, eis que João Bentes – poeta bélico por natureza – finalmente decide avançar para a publicação de «Odes», o seu primeiro livro de poesia (pese embora a grande maioria dos textos que o compõem tenham sido escritos entre 2008 e 2011), tentando assim marcar a sua posição, dizendo que ele próprio está, antes de mais, descontente com o mundo e, por isso mesmo, sempre esteve e sempre estará na frente de batalha, na vanguarda da insubmissão. E cuidado porque a sua poesia vem equipada de um rigor, de uma sinceridade que nos toma de assalto; uma autenticidade que nos atinge de tão pura, revelada brutalmente da primeira à última palavra do livro, como se ali não se assistisse a outra coisa que não a uma investida musculada contra a pornografia do sistema vigorante, contra o comodismo de toda a gente, contra a hipocrisia do mundo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A marca de João Luís Barreto Guimarães


Recensão do livro você está aqui 

|Luís Filipe Cristóvão

Depois de em 2011 ter publicado a sua Poesia Reunida, João Luís Barreto Guimarães volta aos originais com a publicação de você está aqui, numa edição da Quetzal.  

Um dos poemas que pode ser visto como peça central deste volume traz o título “Bicicleta para o infinito”. Escolhido para destaque na abertura do livro, o poema aparece, na sua forma completa, no final do volume. Neste poema, pressente-se a ideia de que a viagem é um lugar imóvel

pedalo
pedalo
não saio do mesmo sítio.

que se faz na escrita

pedalo atrás do manuscrito

através da observação dos outros

gosto de os ver errar atrás de logros distintos