|João Camilo
I
Que
pretende a poesia? Criar personagens interessantes, em particular e para
começar o do próprio poeta, um indivíduo que “escreve poemas”, que através da
escrita reivindica um lugar na galeria de “figuras” da nossa sociedade? Assim
se sai do anonimato, é certo. Mas talvez se escreva poesia para reconstruir a
experiência? Isto é: para fixar o que já se perdeu ou nunca chegou a ser; para
pensar, divagar, contestar; para interrogar, protestar, explicar; para investigar,
construir, destruir; para corrigir, reinventar - e assim por diante, a porta
das hipóteses fica aberta.
Agindo
assim contribui-se para a existência de um universo humano com sentido, o
sentido que séculos de cultura e civilização foi elaborando. Ao escrever um
poema situamo-nos e situamos os outros nesse universo cheio de sentido. Para o
aperfeiçoar negando-o ou criticando-o, para nos interrogarmos sobre as razões
da sua existência e sobre a sua coerência, para o confirmar e provar que o seu
sentido tem sentido, um sentido que se pode discutir, sobre o qual se pode
discorrer.