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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Para lá do bem e da Cura. - Parte II

Sobre A Cura, de Pedro Eiras

|Tiago Sousa Garcia

Há alguns plot twists que vou optar por manter secretos mas, mesmo que os revelasse, não trairia em nada o prazer da leitura. Os óbvios: a identidade do paciente, o desfecho, a identidade do narrador. O primeiro pode ser desfeito com o simples folhear das páginas; os outros dois vão-se tornando progressivamente mais claros ao longo da narrativa e, quando chegam, não são exatamente uma surpresa. Mas também não teriam que ser. Mais uma vez, A Cura não é um policial, não caminha para uma revelação final que explicará tudo; A Cura, como a cura da psicanálise, é um processo, e é nesse processo que se esconde o prazer da leitura. A narração, percebemos mais tarde, não nos quer esconder nada, até nos poderia revelar nas primeiras páginas o desfecho – e fá-lo, se estivermos atentos – sem qualquer prejuízo. O narrador faz com um leitor o que um analista faz com um analisando: aponta os caminhos, mas deixa que seja o próprio a percorrê-los sozinho.
É muito difícil falar de um livro que é todo ele interditos: um narrador quase sem nome, um mensageiro X., um paciente Z., uma companheira que, apesar de ser dos poucos personagens com nome, é talvez das mais obscuras, um professor com nome de compositor alemão que é como um pai, ou como um Deus, ou como um Deus Pai, apesar do quase ateísmo de quase todos os envolvidos. A sequência de consultas opõe – e sublinho opõe – o narrador e Z., mas todos os outros personagens vão sendo convocados pelo depoimento. Há ainda mais um, talvez o maior de todos, que se posiciona acima do narrador, olhando-o, sobranceiro: Freud. Cada consulta é encimada com uma epígrafe de Freud, desde A Interpretação dos Sonhos, de 1900 até Moisés e o Monoteísmo, de 1938 – daí a breve história da psicanálise no título. Há duas excepções a esta regra: prólogo e epílogo, o primeiro com Freud, mas anterior ao texto seminal de 1900, o segundo com o Eclesiastes, a única epígrafe que não é retirada da obra do fundador da psicanálise e, também por isso, talvez a mais importante. Mas esta não é a primeira vez que o Eclesiastes surge na narrativa. Desde as primeiras páginas que o analista nos confessa uma relação estranha e próxima com o Eclesiastes. Mais estranha ainda porque o narrador declara não ser religioso, nem na sua juventude, apesar de ter sido educado na fé católica.
As relações deste narrador são, aliás, todas estranhas e estranhamente próximas. A relação com a companheira é quase simbiótica a princípio e quase parasítica no fim; a relação com o professor Wagner, o mestre e modelo, é dependente iniciou-se com uma mentira menos que mentira; a relação com Z., o paciente das consultas, essa, é ainda mais complexa.
A relação do analista com Freud é, apesar de tudo, a mais clara. Freud é Deus, as suas obras são a palavra sagrada. O analista defende Freud contra tudo e contra todos, batalha para o recuperar num mundo que quer desacreditar a sua teoria, enraivece-se com a mera referência ao anti-cristo Jung. E, todavia, apesar de tudo o que disse até agora, não sei se posso considerar A Cura como um romance acerca da psicanálise.
A psicanálise está presente em tudo, é certo. É o método e o caminho do narrador. Mas reduzir o romance à psicanálise seria, claro está, redutor. Se a psicanálise é o foco de tanta atenção, é-o apenas porque este mundo nos é dado a conhecer através dos olhos de um personagem que vê tudo pela psicanálise, que não consegue deixar de enquadrar o que o rodeia num quadro de egos, ids e superegos, Édipos e Laios, Hamlets, conscientes e inconscientes. A Cura mostra-nos como a psicanálise é muito mais que uma ciência ou teoria absurda – dependendo de que lado da barricada nos decidimos colocar. A psicanálise, para este narrador, é o óculo que lhe permite ver e entender o mundo, como a religião para um crente.
Os paralelos entre a psicanálise e a religião multiplicam-se com uma claridade impressionante para todos menos para o próprio narrador. Este paradoxo de uma ciência quase religião é, talvez, o conflito central deste livro. Também nesse campo A Cura marca pontos: não é apenas um romance mas uma tese; mas não é um romance de tese, isto é, quando o livro termina percebemos que não fomos expostos a argumentos a favor ou contra a psicanálise ou a religião; entenderemos o desfecho de maneiras opostas, de acordo com a nossa própria posição. Mais, se esta não for clara, reconheceremos a nossa posição no confronto, nessa altura. Vou ser mais claro: A Cura não nos descreve apenas nem a análise de Z., nem a auto-análise do narrador; o romance leva o leitor a descobrir algumas coisas sobre si próprio, como se o analisando fosse o próprio leitor e o analista o romance.
Mas há mais. Talvez por defeito profissional, ao longo destas páginas fui percebendo também – ou antes, o livro levou-me a perceber – como a psicanálise e a crítica literária são, tantas vezes, similares. A interpretação de um sonho ou a interpretação de um romance são, frequentemente, o mesmo processo com objectos distintos. O analista procura o que o sonho não diz, o crítico procura o que o livro não diz; o analista constrói pontes entre o sonho e o real, o crítico constrói pontes entre o romance e o real; o analista afirma que todos os seus diagnósticos estão no analisando, e que mais não fez que as trazer ao consciente, o crítico jura a pés juntos que as suas conclusões estão no texto, e que ele não fez mais que as trazer à luz. Podia continuar.

Estas são apenas algumas das razões que me levaram a escolher A Cura para publicação, mas havia mais, muito mais. No entanto, o motivo primeiro e maior é muito simples: o livro é bom, muito bom. Sim, eu sei, o crítico não deve fazer juízos de valor. Porém, quando li este livro pela primeira vez, não o fiz como crítico. Li-o como representante de uma entidade que mais não faz que criar juízos de valor acerca do mundo literário: este é bom, este não é, aquele deve ser publicado, aquele não deve; e, mais do que cruel, para mim a oportunidade de olhar para um livro e procurar uma resposta simples sempre foi muito libertadora. Os editores são, talvez, a mais determinante das portas do cânone: se um livro não é publicado, não existe. Por isso espero que me perdoem o orgulho imenso que tenho em ter ajudado este livro a existir.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Para lá do bem e da Cura. - Parte I

Sobre A Cura, de Pedro Eiras

|Tiago Sousa Garcia

Pensei em começar com uma piada. Ahem: quantos psicanalistas é que são precisos para mudar uma lâmpada? Dois, um para mudar a lâmpada, o outro para segurar no pénis, quer dizer, na escada!  Acertaram, A Cura é um livro sobre corridas de cavalos.
Freud teria certamente muita coisa a dizer acerca do motivo pelo qual eu tentei começar por fazer rir. A verdade é que não estou aqui para falar de psicanálise – nem saberia como fazê-lo. Estou aqui para falar de um livro fantástico que tive o prazer de ajudar a trazer a público.
Fantástico. Sabe bem poder usar adjectivos nestas coisas. Há algum tempo atrás, quando estava ali no lugar onde está a Andreia, tentava nunca usava estas palavras. Estava a representar uma editora e sabia que ninguém no público queria ouvir um vendedor. Hoje posso usar todos os adjectivos que me apeteça: fantástico, brilhante, inquietante. A Cura é tudo isto. Mas já lá vamos.
Antes de falar um bocadinho sobre o livro, queria partilhar o modo como o livro chegou até aqui. Conheci o Pedro Eiras há já alguns anos, não muitos, não poucos. Foi meu professor na Faculdade de Letras em diferentes disciplinas, três, penso eu. Por algum acaso, não sei bem como – sinceramente não me lembro muito bem – ficamos amigos. Os anos passaram, contra todas as probabilidades comecei a trabalhar exactamente naquilo que desejava: uma editora; pagavam-me para, entre outras coisas, ler e sugerir o que podia ou devia ser publicado. A certa altura, fui tomar café com o Pedro. Já não estávamos juntos há muito tempo, lembro-me que, nesse fim de tarde, falámos durante horas. Já há algum tempo que pensava em desafiá-lo para publicar alguma coisa connosco. Quando nos encontramos nesse dia, tinha também isso na cabeça mas, por algum motivo, não o disse. Talvez por pudor, somos amigos, mas a nossa relação começou com um desequilíbrio de poder, ele o mestre, eu o discípulo. Na cabeça do Pedro, percebi depois, algo de semelhante se devia estar a passar. Felizmente para todos, ele foi menos amedrontado que eu. Quando nos despedíamos, estendeu-me um manuscrito, pediu-me que o lesse. Era um romance, este romance. Li-o avidamente e, alguns dias depois, sabia que o queria publicar. Meses passaram, aqui estamos.
Este não é o primeiro livro do Pedro Eiras, nem sequer o primeiro romance. Muito longe disso. Um rápido escrutínio da última página do livro é suficiente para que se perceba a dimensão gigantesca da sua obra. Romance, ensaio, conto, teatro, poesia. A certa altura, já o cumprimentava a perguntar quando é que saía mais um livro. Mas a dimensão não é nada, a prolixidade é irrelevante. Relevante é a qualidade inegável e o talento do Pedro Eiras em cada um dos seus livros. É um ensaísta corajoso, um dramaturgo que gosta de torturar os seus personagens, um romancista que se delicia com as grandes questões que coloca aos seus diminutos protagonistas.
Se me perguntarem, não saberei enumerar quais as razões me conduziram à certeza de que tinha que publicar este livro. Há muitos factores em jogo numa decisão, alguns muito prosaicos e muito pouco românticos. Publicar um livro é, apesar de tudo, um negócio e, por muito que assim quisesse, não poderia ignorar a responsabilidade que tinha para com os meus colegas de trabalho. Para nós, o mundo editorial era, acima de tudo, o nosso ganha pão. Por isso também, quando o Pedro me estendeu o manuscrito, temi que fosse tentado a publicá-lo apenas porque éramos amigos, mas ele logo me tranquilizou. Disse-me que, antes de tudo, procurava a minha opinião sincera e que, caso eu não gostasse ou não o pudesse publicar, não era importante. Quando li as primeiras páginas, percebi que todas estas dúvidas eram irrelevantes. Lembro-me de a Paula Almeida me dizer, nos meus primeiros dias na editora, que se descobre se um livro é bom, ou não, muito rapidamente. Admito que a minha inexperiência me impediu de perceber imediatamente o que isso queria dizer. Pensei: sim, um livro mau é fácil de identificar. E é verdade, das centenas de livros que recebia, às vezes não precisava de mais do que uns segundos para perceber se devia continuar a ler ou não. Há casos lendários. O que eu não percebi: um livro bom também se pode identificar em segundos. Foi o que aconteceu com A Cura.
Diz-se que um livro não se julga pela capa – talvez sim, talvez não – mas certamente que muito se pode dizer de um livro pelo título. Este agarrou-me logo pelo título, ou antes, pelos títulos. Uma Sátira ou Algumas Improváveis Consequências do Juramento de Hipócrates ou A Cura ou Breve História da Psicanálise ou Por que Razão Tudo o que Escrevo se Transforma Logo Noutra Coisa Diferente. Era um título generoso e, aquele A Cura, central, era particularmente interessante. Do restante título podia tirar algumas conclusões: Sátira, não levar demasiado a sério; Juramento de Hipócrates, envolve médicos que se vêm obrigados a alguma coisa; Psicanálise, bem, envolve psicanálise; Porque razão tudo o que escrevo, temos um narrador na primeira pessoa que se vê a perder o controlo da sua narrativa, a própria multiplicidade de títulos me dava sinais de uma narrativa imprecisa, cheia de avanços e recuos, de ditos, não ditos, interditos e incertezas. Mas aquele A Cura, central, sintético, dizia muito mas deixava-me a desejar muito mais: este livro era um processo, não um resultado; quem curava, quem era curado? Curado de quê, como, por quem? Um livro mau dar-me-ia todas as respostas, mas este não é um livro mau.
Depois, as primeiras páginas. É uma confissão, uma memória, um caso clínico, mas não um diário. Não há datas, nem sequer capítulos. Há consultas, e toda a narrativa se arranja à volta destes momentos centrais. A consulta, isto é, o processo de cura, é o essencial, tudo o resto é acessório.

Má escolha de palavras: o narrador, descobrimos rapidamente, é um analista freudiano, por isso nada é acessório, tudo tem um significado. Esta é uma das grandes vitórias deste livro: qualquer leitor, mesmo o mais desprevenido, percebe rapidamente que tem de estar atento a tudo, que tudo tem um nível de significância escondido, e fá-lo sem recorrer à simplicidade do policial, que imediatamente convida o leitor a fazer parte do jogo, nem à complexidade do ilegível. Subtilmente, o narrador mostra ao leitor como ler o livro: procurar o não dito, ver todas as palavras como imprescindíveis. Desde as primeiras páginas que percebemos que não há uma palavra a mais, não há excursos, não há inconsequências, tudo o que aparece na página deve ser lido como se fosse o nome do assassino.

(continua)