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sábado, 9 de novembro de 2013

Maldade

|Letícia Féres

um dia
noel rosa
desabafou comigo: 
não me queixo
do meu queixo.
e nem podia.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Hélder, Lotufo, Féres

|Letícia Féres

livro é múmia.
grávida é mala de coração.

livro carrega palavra/
múmia é mala enfaixada

/um feixe de palavras no coração
faz o poeta romântico/

/múmia é estátua/palavra sepultada/

grávida não carrega múmia no coração


no meio do pomar branco
o coração-arquipélago é maçã
vermelho no pomar

é maçã o coração
e as três linhas de pomar branco
soltas no espaço como coração-estrela

o coração faz-se espiral
verde no pomar bordado

no meio do vermelho do verde coração branco
é maçã o coração o verde o vermelho o pomar








todo movimento como cinema
na fábrica de fazer livros

porque me disseram assim: este livro é impossível.

o que é um livro e um não livro?

o que é um autor e um não autor?

o que são pessoas dos livros, os profissionais dos livros?

os livros cabem em pessoas
as pessoas cabem em um livro
um fernando é uma pessoa
um fernando pessoa é um livro

minha máquina de lavar
embora adorável
não é um livro

minha vida é um livro aberto
do qual arranquei algumas páginas

minha mãe não é um livro
meu pai não é um livro
eu não sou um livro
mas bem que poderíamos ser

isto não é um livro
um lápis
um cachimbo
também não são livros
mas bem que poderiam ser

um livro de um episódio:
MÃE, MULHER E AMANTE

a senhora me perdoe,
senhorita,
mas acabas de escrever
cinco páginas no suplemento da minha vida.

um livro é um episódio na vida de uma pessoa
uma pessoa é um episódio na vida de um livro

ah como é confusa a vida
as pessoas

os livros

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Novas diretrizes para a construção do livro

|Letícia Féres

I.

o fato de o livro não conter palavras, mas somente alguns pequenos milhões de borboletas que necessitam da inspiração - e expiração - do leitor para voar pode não ter alguma relação com a pintura de frida kahlo, as borboletas da infância ou com as pequenas alegrias que rondam a vida. pode ser apenas uma forma de dizer: “relaxe! a vida é bela. vamos dançar uma polca?”, mas também é provável - é somente provável, não estou aqui para te dar certezas! - que tenha alguma relação com as proposições acima.

II.

o livro é feito a partir de um código de direito reencadernado de modo que nunca seja possível saber se um dia pertenceu a um advogado, a um juiz ou a caryl chesmann - o que, neste caso, faria com que o valor do livro aumentasse significativamente. e não é isso exatamente o que queremos, não é verdade?

III.

o modo como o miolo do livro foi cortado faz com que ele se assemelhe a um daqueles livros com fundo falso, usados em filmes de suspense e nos poemas de joan brossa. mas você não precisa ser personagem desses filmes para lê-lo. tampouco é preciso fazer mágicas como o catalão. apenas é necessário que você tenha bons pulmões. o motivo já lhe será revelado. reze, confie e espere.

IV.


se o fôlego tem fugido nas últimas semanas, é recomendável que você inicie um programa de condicionamento físico. será lastimável que sua leitura seja prejudicada por uma pequena falha de respiração. pessoas com enfisema pulmonar não estão aptas a ler o livro. fumantes farão uma leitura mais lenta. observe: não é necessário que você possua mãos. a existência de nariz e pulmões saudáveis, e de um amigo que posicione o livro sobre um lugar confortável, já é o bastante.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Apontamentos sobre os livros

|Letícia Féres

este livro foi feito porque um dia, há milênios, alguém teve a ideia de fazer um livro. parou por horas e, sem mais com o que gastar o tempo, juntou páginas escritas, costurou-as, pôs um título na capa e chamou aquilo de livro.

mas também houve quem, com um pedaço de linho, limpasse o rosto de jesus e, observando a bela figura do mestre gravada como um borrão no pedaço de tecido, não tivesse a coragem de denominar aquilo livro.

isso equivale a dizer que livros nem sempre são o que parecem ser.

livros são cópias de livros que copiaram outros livros que seguiram o modelo de outros livros. cópia entendida como um modelo seguido por milênios adentro, perpetuado na espécie humana à maneira de um ritual. ou cópia como erro, pusilanimidade.

um livro é sempre aquilo que estamos cansados de ver/fazer. é sempre o cansaço de um outro livro, a citação de outro livro, um metalivro.

conhecemos demais os livros e, no entanto, jamais tocaremos suas entranhas.

um livro nunca é como o outro. e, assim como as pessoas, seu suporte invariavelmente é a matéria viva.

livros de plástico, como as flores, não morrem.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

das três portas

|Letícia Féres

das três portas que há à sua frente, você olhará somente pelo buraco da fechadura da segunda, posto que as outras duas não possuem nenhum orifício – para respiração ou regalo da alma.

você verá

brancos destroços de um esqueleto, onde se lerá uma triste história de amor na ainda viva tinta vermelha.
tiras da saia de uma donzela peluda. restos de uma amor que viu o circo pegar fogo.
uma caixa de fósforos vazia, com os dizeres: cuidadofrágil.
um chapéu de napoleão, mofado. lembrança das bodas de certa avó.
caixinhas de música, em que se pode ler, em seu verso: by Pandora.
uma lagarta listrada desbotada: um fóssil.


[não necessariamente nessa ordem]

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Uma homenagem

|Letícia Féres

eu não lavo pratos,
mas a adélia,
prado.

Letícia Féres



Letícia Féres (1979) é brasileira. Em 2013 autopublicou os ebooks de poesia Da estranheza das coisas, Meus piores poemas – vol. I e o infantil A cortina, o tapete, a menina. Participou do grupo poesia hoje e do coletivo não macule minha faca.