Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Mesa do Canto - A fechar o café

|Alexandra Malheiro

Aprendi os cafés com o meu Pai. O prazer de sentar num deles pela manhã de fim-de-semana, a ler o jornal e a bebericar qualquer coisa, soltando o olhar de quando em vez pela montra do café feito montra do mundo, o encontro mais ou menos fortuito dos amigos que frequentavam o mesmo local, as conversas mais ou menos animadas sobre os temas de época.

As minhas primeiras manifestações de independência “adulta” deram-se com ele, nos cafés, com alguns oito ou nove anos, quando me sentava sozinha numa mesa mais adiante, com o caderno das artes do JN e pedia uma água com um pneu sob a serenidade do seu sorriso escondido no bigode. Depois descobri os meus próprios cafés e hábitos, passei a ler também o caderno da política e à minha mesa pousavam ocasionalmente outros amigos, os meus, que frequentavam os mesmos lugares de afecto.

Sempre entendi os cafés como lugares de afecto e ligação com o mundo, de lá se vê o mundo todo, deformado pelas melhores lentes que soubermos usar, as que vamos criando em nós, ali se encontram também todas as tribos, a fauna de cada lugar, para discutir o mundo e sobre ele traçar a sua impossível salvação.

Continuo a frequentar cafés, não sempre os mesmos ao longo do tempo, eles, como eu, se diluem, se alteram, uns que fecham outros que para sempre se apagam da minha rota substituindo paisagem e fauna, ela também volúvel ao tempo e a tudo o que nos acontece, até à morte que a muitos vai levando. Continuo, quase sempre, a ler o jornal ou um seu similar e-paper, subtituí a água com pneu pelo cimbalino e, certamente, sobretudo nas manhãs de Sábado ou Domingo, levo dentro de mim o meu Pai para ler comigo as notícias do dia.

Tentei neste espaço de crónica fazer-vos partilhar dos ociosos pensamentos que me assaltam no café, que é o melhor lugar para pensar, muitas vezes vos ofereci a paisagem vista da montra, os livros sobre a mesa, até os amigos em conversa. Não sei se fui tremendamente chata ou se vos deixei no ar um lampejo de sonho ou confusão, algo que vos deixasse a pensar, mas de uma maneira ou de outra foi feliz esta minha passagem pela Revista Literária Sítio – que continuarei a ler – deixando lugar a outros para este espaço mensal. Deixo-vos por razões profissionais e falta de tempo para cumprir esta “servidão” (diria o Pina) mensal, mas estou certa que continuarão aqui a buscar a frescura da literatura, o prazer da viagem que só quem lê consegue compreender.

Bem hajam por me terem lido, por terem estado aí, desse lado. Boas leituras e, sobretudo, boas viagens. A literatura nada mais é senão um dos mais baratos e acessíveis meios de transporte para as mais fantásticas, únicas e fantasiosas viagens que podemos fazer, as da imaginação e dos sentidos.
Fica de “brinde” este velho poema com que aqui fecho a minha participação:


Declaração

Escrevo poemas nos guardanapos dos cafés.
E não é fácil fazê-lo –
pelo menos como eu o faço –
de esferográfica,
o papel tende a rasgar-se,
é preciso prende-lo bem
sob os dedos,
estica-lo
para que se não rompa!

Agora mesmo, que o faço,
penso
como é difícil
e notável
esta arte que possuo –
a de escrever poemas
nos guardanapos dos cafés.

É bem mais fácil apenas frequentá-los
e beber o cimbalino quente
sem pensar nos poemas.
Melhor fora que guardasse
as palavras no bolso,
sem papel nem esferográfica,
antes elas nem me assaltassem
quando tomo o meu café.

Mais valia a montra
e o que vai para além dela!
Ainda por cima
o papel amachuca-se nos bolsos
e depois nem consigo ler,
tudo fica tão ilegível e baço
como a vida para além da montra do café.

Afinal... tudo faz sentido!

In “A urgência das palavras” 
(2008)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Tento adormecer

|Tomás Gomes

 Tento adormecer. Aguardo inquietamente pela sonolência enquanto me reviro nos lençóis. Desisto, puxo-os para baixo e tento apanhar um pouco de ar fresco. Assumo a minha fraca posição face ao meu cérebro. Cedo à tentação e penso. É notório que ele quer que eu pense. Olho à minha volta. Está escuro. Vejo tanto e tão pouco.
                És a primeira imagem, lembrança que me ocorre, é inevitável. Surge a tua imagem desalinhada. Surge em mim todo um algo igualmente desalinhado que despoleta algo em mim. O amor domina-me. A partir deste momento perdi a qualidade que nos distingue dos animais, deixei de ser racional. Imagino-te ao meu lado. Nua. Tão tu, que mesmo em frente ao espelho dificilmente te reconhecerias perante tanta pureza, tanto sentimento. Constrói-se toda uma imagem mental: os teus olhos na minha direcção, o teu corpo sobre o meu. A tua pele, fria. A tua pele fria. Beijo-te, já perdido em ti. Deixando de tentar perceber o “nós” deixando de tentar perceber tudo. Passo para um mundo à parte. Só deus sabe o quanto amo esse mundo em que tenho vivido tão grande parte da minha vida desde que olhei com olhos de ver esses teus olhos que deviam de condenar quem te olha com olhos de observar. Imagino eu e tu, um só. Imagino tu a saíres de cima de mim, a regressares ao meu lado, a colocares o teu braço sobre o meu peito e a simplesmente adormeceres. Estou apaixonado.
                De repente desapareces. O pânico domina-me. Finalmente apercebo-me de que adormeci, acalmo-me. Deixo-me sonhar, tinha tantas saudades de sonhar. Sonho contigo, e deixo-me levar, apenas levar. Que a minha alma se eleve acima do meu corpo, que abandone esta ataraxia que me domina de forma sublime, que me entristece o corpo, que me entope as veias e fere o coração. Que se eleve acima de tudo, que te leve com ela. Que fiques comigo, não para sempre, mas durante o maior tempo possível em que ambos sejamos felizes.

                Morri.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Onde mora a escuridão

|Liliana Leça

Abri os olhos, pesados e lacrimejosos que ardiam como chamas vivas. Era tudo negro, tão negro que não me permitiu perceber onde estava e se era de noite ou de dia.  Virei a cabeça para um lado e depois para o outro...mais escuridão. Não havia nada para além do nada. Nem um único som, nem uma única imagem...nem um único odor que pudesse reconhecer como meu. O ar preenchia-se de um calor cruél, que invadia a minha pele sem pedir permissão e queimava as minhas costas sem dó nem piedade. Tentei erguer-me rapidamente,mas o meu corpo foi obrigado a não obedecer. Uma força implacável puxou-me para baixo e manteve-me colado àquele solo escaldante. Ergui as mãos bem em frente ao rosto, aliviado por não estarem atadas ou presas a algum sitio.Depois, movimentei os pés que também estavam livres. Não havia razão para não me conseguir mover normalmente. Tentei levantar-me pela segunda vez,mas aquele peso bruto e invisível tornou a empurrar-me para o chão. Era uma força muda e vazia e começava a causar-me arrepios. Naquele exacto momento eu soube que tinha de sair dali. Não havia tempo para questionar os inúmeros "porquês" que me sufocavam a mente. Senti o gosto a perigo através do suor que escorria pelas minhas têmporas e nao gostei do paladar...Ácido e amargo ao mesmo tempo. Soltei um grito que ecoou pelo vazio daquele lugar que eu não sabia onde era...um grito que transbordava medo e desespero. Talvez alguém me ouvisse...Talvez não fosse tão solitário como me assumia ser e alguém desse por minha falta.Talvez...
Gritei sem cessar, mesmo quando já nada existia para além de um som mudo e abafado. As minhas forças tinham decidido abandonar-me e o que restava agora era apenas um corpo inerte e fraco. Um corpo que já não parecia ser o meu, de tão vulnerável e inútil que era. O silêncio ocupou novamente aquele espaço e a única coisa que se ouvia eram as batidas desenfreadas do meu peito. As batidas da minha própria cobardia. Mas repentinamente, ao longe, surgiu outro som. Eram passos... passos vagarosos que se arrastavam até mim num ritmo tortuoso e agonizante. Foram ficando cada vez mais perto e eu aguardava-os impaciente, sem ter como fugir. Até que finalmente pararam e abriu-se uma porta. Atrás dela, havia uma luz ténue que iluminava um vulto de homem que se manteve nas sombras. Um calafrio percorreu-me a espinha, quando a sua voz áspera me saudou:

____ Caro Arthur!Sabia que um dia virias até mim!

____ Que...quem...Quem és tu?O que me fizeste?__ perguntei, petrificado.

O homem soltou uma gargalhada estridente que me gelou os ossos.

____ Podes chamar-me o que quiseres, mas normalmente chamam-me Diabo! Agora segue-me...vem conhecer a tua nova casa!

terça-feira, 20 de maio de 2014

Humanos e só isso

|Ana Pereira

Em virtude de algumas sensações que me conseguem abarcar e fazer-me sentir estupidamente completa e incompleta ao mesmo tempo, escrevo estas palavras, fruto de um subconsciente enredado a que chamo coracérebro (perdoem-me a aglutinação inexistente, mas achei que precisava de lhe chamar alguma coisa que, pelo menos para mim, tenha alguma lógica).

Sofro de uma fraca capacidade de transpor emotivamente aquilo que sinto, tem sido um grande entrave à minha realização pessoal. Gosto de pensar que de certa forma por escrevinhar aqui ou ali me consigo expressar melhor, não que seja qualquer tipo de Fernando Pessoa e longe de mim ser um Luís Vaz de Camões, quero ser a Ana, uma pessoa, um ser que se interpõe através de uma narrativa construída a partir de uma filosofia própria e um vocabulário um tanto (ou realmente nunca) adequado.

É muito mais fácil escrever sobre sentimentos do que sobre nós mesmos, ou assim deveria ser segundo a ordem natural das coisas (ordem essa que alguém estabeleceu, mas como eu sou um bocadinho rebelde, vou fazer-me de esquecida e apaga-la da minha memória, por favor, não me censurem agora), eu gosto de ser diferente, não aquele diferente chato que passado um x tempo começa a ser igual a tudo e mais alguma coisa porque sejamos sinceros, há sempre aquele fulano irritante que teima em roubar um pouco de nós, mais que não seja aquele stalker que recolhe os cabelos que ficam presos nos parafusos das cadeiras. Não, não pensem que me divirto a perseguir pessoas, nada disso, antes pelo contrário, sinto-me perseguida por uma carrada de gente igual, feita em série, fabricada numa sociedade pútrida que mais não faz do que infestar a nossa vida com pessoas vazias e irritantes, estupidamente irritantes. Sabem o que acho? Seria muito bom termos algum tipo de “homencida” (aqueles sprays que se compra para afastar mosquitos, mas numa versão anti estes seres) que nos permitisse chutá-los- oh sim, chutá-los parece-me uma boa ideia.

Oh, eu não odeio a Humanidade, calma com isso que também sou Humana, carne, osso e alma- ah sim, alma é isso que faz falta a muito boa gente- mas sabem o que me deixa a fervilhar por dentro? Bem, já sei o que pensaram seus marotos, mas não, nada tem a ver com isso. O que me faz sentir a fervilhar e cada vez mais refeita e contrafeita é a capacidade de me fazer letras, de despejar o meu coração numa infinita combinação de letras, palavras e verbos, é engraçado sabem? Mas melhor ainda é ter-me apercebido que de entre tanta gente há sempre uma ou outra pessoa que pára e lê, mas com olhos de ler, aquela operação exaustiva que nos faz esmiuçar cada bocadinho da narrativa, certamente sabem do que falo…sinto-me extremamente orgulhosa por ter encontrado neste mundo tão grande, pessoas que me fazem apagar e reescrever a minha vida, construindo-me e refazendo-me a cada parágrafo. Obrigada por existirem e se destacarem neste antro de macaquinhos de teste, vocês fazem de mim mais Humana e só isso.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Mesa do Canto – A revolução todos os dias

|Alexandra Malheiro

Podia esta crónica ser sobre as coisas nenhumas acerca das quais habitualmente escrevo? Podia. Não me tenho dado mal assim, enchi, há pouco tempo, um livro inteiro, a chegar às 200 páginas, só de crónicas dessas, a falar da cidade, sem a qual sou barco sem rumo, folha sem letras, livro sem conteúdo; sobre os pequenos contextos e descontextos, sobre as pessoas que vejo passar pela montra do meu café ou sobre um ou outro amigo que vem sentar-se à mesa comigo a ouvir-me resmungar do tempo ou aqueles com quem discuto o valor etéreo da literatura em dias de chuva. Houve mesmo quem o comprasse e lesse e ainda me viesse dizer que gostou, mais até do que daquela sombria coisa da poesia que nunca ninguém compreende mesmo.

Mas hoje, quando vos escrevo, é Abril. Quando escrevo Abril abrem-se cravos rubros, da cor do sangue que não se derramou e solta-se o vigor da revolução. A que nos havia de salvar da indignidade de não ter voz, da mordaça, da polícia política que avançava casas adentro, esgarçando famílias, torturando, matando, humilhando. Adeus pensamento único, adeus imobilidade de classes, adeus cabeça baixa, chapéu na mão, dorso curvado à ignomínia. Adeus guerra sem sentido.

Quarenta anos passaram da genial revolução sem sangue e olhámos os filhos ressabiados do 25 de Abril que entretanto, por via dele, se alçaram ao poder, entretidos a desfazer aquilo por quem tantos padeceram, muitos lutaram e até morreram.

Alguns avisam e gritam que é preciso uma nova revolução, uma manchada do sangue a que esta nos poupou. Não creio. A revolução está em nós, a democracia, com defeitos e virtudes, é ainda um direito nosso, portanto façamos a revolução nas urnas, nos deveres cívicos que urgem cumprir, ao invés das conversas balofas de café e quando somos chamados a decidir trocamos a obrigação pela praia ou por um encolher de ombros seguido de “não quero saber, são todos iguais, eles querem é poleiro”. Foi o 25 de Abril que, num gesto mágico, nos trouxe a democracia, o direito à escolha, compete-nos a nós não deitar a perder esse direito que é também o dever de fazer (ou merecer) a revolução todos os dias.

domingo, 6 de abril de 2014

Já não se aguenta tanto inverno!

|Alexandra Malheiro

Chegou a Prima, a Vera. Fidalga, a dita Prima, a Vera, que vinha anunciando-se arreganhando os dentes, quando chegou deveras desatou a chover-nos no pêlo e fria como um diabo fugido do inferno. Não há paciência para tanto inverno, sinceramente. Uma pessoa senta-se no café para escrever a cronicazinha a anunciar flores, nardos bravios, o canto coral dos passarinhos, prestes a evocar um sem número de benfazejas virtudes primaveris e é isto, uma estação que mais parece um apeadeiro ao abandono, esta sensaboria de chuva a bater no vidro e mãos a esfregarem-se em aquecimento, a arrefecerem a chávena mais do que esta as consegue aquecer. É claro que, perante estes desmandos climatéricos, a crónica refreia-se, titubeia, atabalhoa-se, atrapalha-se. Tropeça na própria ideia e vê-se obrigada a desviar na direcção do clima, afastando-se do assunto que na verdade trazia engatilhado para molestar vocências.

Assim a ver a chuva a cair de encontro ao vidro, num cinza escuro de borrasca, até perco a vontade de vos contar ao que vinha. Dá-se o caso que se acabou de dar à estampa um livro da minha autoria, de seu nome “Doença Crónica”. Pela primeira vez publico prosa e, sendo esta prosa um conjunto de crónicas, tão inócuas e insípidas como esta que agora lêdes, onde juntei ao baralho as que neste espaço da Revista Literária Sítio têm vindo a ser publicadas, acho curial da minha parte, face aos leitores que aqui me seguem, dar-vos conta disso. É que bem vistas as coisas, se a Primavera tivesse entrado como soía, abrindo as almas aos delírios do amor e da hormona à solta, nem me atreveria a importunar-vos com semelhantes anúncios ao recato e ao recolhimento, mas com esta invernia a arrastar-se por Abril adentro – águas mil – como promete o provérbio, nunca se sabe se a utilidade que o dito volume não possa vir a ter, seja a aquecer-vos junto à lareira enquanto degustam um mazagran, seja, caso o frio continue, como acendalha para a lareira.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Toda esperança é lícita, meu bem!

|Cláudia Assis



O sol já tinha dado o ar da sua graça há demasiado tempo, presságio de um belo amanhecer primaveril para além daquelas paredes. O Agente Lisboeta sabia disso por que, ainda deitado na sua cama, apreciava os raios de sol a invadir os aposentos pelas frestas da janela do seu quarto. Teria passado aquela noite em claro, mesmo depois da exaustão de tantas vezes entregar-se à sua Moema. As dores no joelho o fazia lembrar que o ferimento causado na última incursão ainda se fazia presente.

Acometido pela insônia, viu-se obrigado a passar as horas velando o sono da sua adorada princesa tupiniquim, que dormia profundamente ao seu lado. Tê-la ali tão perto, protegida das agruras do mundo e ao alcance dos seus braços, enchia-lhe o seu peito de satisfação. Sorria enquanto fazia festas nos negros cabelos de Moema, que ao sentir o toque do seu amado, moveu-se lentamente, embora permanecendo no mundo dos sonhos. Mas ter novamente a “menina que cheira à flor de pitanga” consigo o fez relembrar dos motivos pelos quais teria recentemente realizado a sua travessia transatlântica – Moema teria fugido por se sentir forçada a escolher entre o amor que nutria pelo lisboeta e compromisso que com a sua gente.

Embora já lá fossem alguns dias desde o reencontro daqueles dois, a verdade é que ainda não tinham encarado de frente aquela dura realidade. “Qual será a sua decisão, afinal? Estará minha adora Moema disposta a renegar o seu povo só para viver comigo, seja lá onde isso for? Ou este reencontro nada mais é que um simples adiamento de uma inevitável despedida?”, refletiu o Agente. E, neste preciso instante, teve medo! Nem mesmo as mais duras missões, ossos do ofício de espião, o teria feito experimentar tal pavor.

Apreciar o despertar de Moema sempre proporcionou ao lisboeta uma alegria peculiar. Era quase sempre a mesma sucessão de acontecimentos. Mas ainda assim, ele conseguia ver um verso novo na poesia que era corpo dela: ela acordava, esfregava os olhos como fazem as crianças ainda sonolentas, espreguiçava-se toda e depois aninhava-se outra vez debaixo das cobertas. Só depois o encarava com um sorriso no olhar, o qual dispensava ao Agente Lisboeta qualquer palavra – o “bom dia, meu bem!” estava ali, implícito. Só que, naquela manhã, havia alguma dureza no ar. Moema percebera imediatamente que o seu “menino” tinha o coração inquieto e a cabeça repleta de dúvidas. Havia decisões a tomar, escolhas por fazer. Ela era capaz de lê-lo como ninguém mais neste mundo – das coisas que mais o assustava era a capacidade que Moema tinha de o ler até nas entrelinhas.

Moema, então, afagou a barba farta que o seu adorado Agente decidira cultivar ultimamente – barba esta que Moema não sabia, mas era parte do disfarce para a sua próxima missão – e, enquanto o acariciava, disse:

– “Estava sonhando contigo. Com a gente, para ser mais exata. Estávamos lá na minha cachoeira. AQUELA onde te amei pela primeira das tantas vezes que ainda hei de te amar. Você se lembra?”. E sorriu docemente.

Ainda que embevecido com aquela deliciosa visão, o Agente Lisboeta tomado por uma inquietante agonia, disparou à "queima-roupa", certeiro como uma flecha, a dúvida que lhe roubara o sono naquela noite:

– “Moema, minha adorada Moema, estar nos teus braços outra vez é a mais sublime forma de passar por essa vida, mas...”, titubeou. Aquela pausa dramática no discurso do lisboeta poderia ser facilmente lida na aflição imposta ao olhar de Moema.

– “Mas o quê?!”, interrompeu a princesa vinda dos trópicos, que num rápido movimento pôs-se sentada diante do Agente, deixando seu corpo nu à mostra, desconcentrado-o solenemente.

– “Mas... Preciso saber se vens para ficar nos meus braços, no meu mundo,em definitivo. Tenho medo que isto tudo, de tão bom que é, não dure o quanto gostaríamos. Tenho esperança que sim. Mas é inegável o medo que me consome”, confidenciou o “menino de olhar doce”.

Mesmo triste por saber que aquela dúvida traidora dormitava no olhar do seu amado, Moema o abraçou. Apertado. Amava-o perdidamente. E, então, sussurrou-lhe ao pé do ouvido:


– “Toda esperança é lícita, meu bem!”, calando-o como usualmente fazia: com o seu melhor beijo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Projeto: Eu sou uma outra - Multileituras

|Mariana Collares

Eu faço performances em vídeo.

Um projeto que começou com gravações de podcasts em que eu fazia a leitura de textos vários - autorais ou não -, ganhou movimento a partir de 2013, com a combinação dos vídeos que passei a produzir com o poeta e artista visual Marcello Sahea.

Nesses vídeos eu canto, leio e interpreto fragmentos da literatura mundial, com a intenção de incentivar o leitor a estabelecer uma nova relação com o texto, estimulando a curiosidade e a autodescoberta pela leitura.

Tornar público o registro que faço do convívio com cada uma das mulheres que abrigo acaba tornando possível, também, a capacidade de exercer o meu potencial dialógico com todos os outros que compõem cada um dos meus iguais.

E tento, com minha arte, fazer com que essa prática ocorra sempre de forma poética. Não por acaso, encontrei nos versos de J.A.Rimbaud (‘Je est un autre’) a inspiração para nomear o projeto como: EU SOU UMA OUTRA.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Sem notas de rodapé – Nós, homens, sabemos hoje que somos mortais

| Maria João

Deixo a cabeça no quarto do hospital e o corpo que desce no elevador ouve com desapego conversas banais, repara na tinta lascada dos rodapés, conta as ricas menos perfeitas das passadeiras. Nós, os mortais, quando confrontados com essa mesma natureza, sentimo-nos absortos, como que a pairar no tempo e no espaço. Olha-se a loucura das preocupações diárias como infinitamente ridícula. É-se sem estar. Descolamo-nos de nós próprios e de quem não vive a mesma situação. O quotidiano perde sentido.

A metáfora banal que me ocorre é a de uma ida crítica a um vulgar restaurante chinês. De repente parece-me aberrante a conjugação da delicada loiça de motivos sínicos com os garfos e facas brutos e industrializados. A incongruência entre o fino recorte ondulado das toalhas vermelhas e a protecção plastificada e já baça que as cobre. A contradição entre o orientalismo da designação dos pratos e carta de sobremesas onde habitam vienettas e copos de gelado de baunilha e chocolate. E, sobretudo, ecoa em mim uma profunda estranheza ao constatar a naturalidade com que todos se alimentam destes paradoxos. Sinto-me a única a detectar arestas num planeta que juram ser esférico.

Não arrisco escrever sobre o que não vivi em primeira mão: perder quase totalmente a audição em 72 horas. Observei-o. Vi-o a acontecer à pessoa que me é mais próxima. A comunicação, ao contrário do que se possa pensar, não deixa de existir. Transforma-se. O automatismo de pegar no telemóvel, o acto de falar perde terreno em relação à escrita. Vê-se a falta que o outro sente da gargalhada, do som da água a cair do chuveiro. Apercebo-me até que ponto vai o poder da audição: sem ela não se nota sequer a presença do outro que se aproxima de nós. Desiste-se de socializar. Esgota-se, muito rápido, a paciência de pedir que se repita pela quinta vez o que se acabou de não ouvir. A espontaneidade é protelada, arrastada até se esvair. Cede-se ao isolamento. E são imensas as saudades da música.

Quando o diagnóstico está realizado – surdez súbita –, o tratamento fixado – doses industriais de corticoides – e nada mais resta do que a espera (precisamente um mês, para que se registem melhorias face a uma situação que pode não ser reversível), a passagem de um médico pela cama do hospital torna-se mais rara. Sente-se a impotência. A nossa e a deles. As batas brancas medem as palavras. Refugiam-se na objectividade, no distanciamento de um vocabulário próprio. Aguardam-se resultados de baterias de exames que, quando chegam, apontam para a mais frustrantes das conclusões: causa idiopática, desconhecida. As decisões médicas assemelham-se a uma cabra cega polida e pragmática, que combina a citação dos mais recentes papers da especialidade com uma fórmula de algibeira e vão de escada: “como não prejudica, tenta-se”. Arrisca-se; nada se exclui. Contudo, para quem assiste deste lado, as opções diminuem a passos largos e a incapacidade de prever desfechos e prazos abana a mais forte das crenças no potencial da ciência. Solicitam-se segundas e terceiras opiniões e obtêm-se as mesmas respostas. Para uma universitária como eu, a ausência de soluções é dilacerante. A insuficiência do conhecimento humano e as consequências radicais que daí advêm são revoltantes. A paciência sem resignação parece atributo de santo. Aprende-se, tão-só, a fingir a serenidade. A contrariar o impulso de todos os dias aguardar e indagar alterações.

O quarto fica situado no fundo do corredor. Nunca pensei que um extenso eixo espacial pudesse ser tão útil. Ao longo deste percurso tudo é asséptico. Nem mesmo as reproduções baratas de obras da colecção do Centro de Arte Moderna furam a tonalidade impessoal, artificial, esverdeada, que infecta tudo na sua eficácia racionalista. Pelo meio, uma minúscula sala de espera, o único lugar onde existe uma televisão. Uma divisão deprimente, de intimidade e familiaridade forçadas pela pequenez de metros quadrados, filas de cadeiras pegadas e ordenamento exposto, sem recato. Todo o trajecto permite uma preparação, uma mentalização. Prega-se um sorriso no rosto. Os olhos desumidificam-se a ferros. Ensaiam-se três frases de ânimo e revolve-se a cabeça em busca de quatro assuntos de conversa lida nos lábios. Girafas, zebras, chimpanzés. Tudo é permissível menos o elefante branco na sala.

Oiço os meus próprios passos, como se o chão possuísse cola. Gostaria de ter mais 500 metros pela frente. Mas a porta está já ali. Entro. A linguagem corporal ganha um peso renovado e, por isso mesmo, tem de ser controlada com especial cuidado por quem quer apoiar e ser uma presença positiva. Tudo no meu corpo procura desesperadamente sorrir. Ao lado, acumulam-se «casos», que cortinas separam visualmente e que a surdez aparta por completo. Dá-se o que se tem e o que não se tem até o horário de visita se prolongar para além do aceitável. De novo o elevador. Uma parte de mim sai, a outra fica.

O mundo para durante duas semanas. No entanto, por via de um comportamento por certo explicável pela psiquiatria, retorno, lentamente, a níveis de funcionalidade que me levam a regressar ao trabalho, a voltar a encher a despensa de compras e a ir mesmo até a um jantar de aniversário. Não me sinto completa na realização de qualquer uma destas tarefas. Mas exaurida e consumida, anseio, não sem culpa, por alguma, ainda que falsa, normalidade.

Esta é uma crónica sem um final feliz, numa época em que se deseja consumir literatura de aconchego. Mais grave do que isso, ao centrar-se numa experiência pessoal tornou menos prováveis as pontes racionais e emocionais com o leitor. Julgo, porém, que de um episódio particular e raro como este se podem extrair leituras de aplicação global. Assim acontece porque todos temos, independentemente das variáveis, algo em comum. Vivemos, a larga maioria dos dias, descentrados do que realmente (nos) importa e alheados da nossa fragilidade. Tratar-se-á, possivelmente, de um mecanismo de sobrevivência. Uma consciência integral da precariedade humana acarretaria um peso insuportável que redundaria na celebração presentificadora do quotidiano ou numa existência teleológica penitente. O caminho estará algures no meio, entre a alienação saudável que nos permite elaborar planos e o suficiente relativismo que nos concede a sabedoria de conferir o peso certo a cada aparente drama da nossa vida.





segunda-feira, 3 de março de 2014

Mesa do Canto – O fadinho da saudade

|Alexandra Malheiro

Quando me propus escrever estas crónicas dei-lhes o título genérico de “Mesa do Canto” por ser no café que as escrevo. É bem certo que a mesa que nele ocupo não é sempre a do canto mas dou-lhe preferência quando está desocupada. Dali, de uma esquina privilegiada, junto à montra, tenho o melhor sossego e a melhor visão para o que vai dentro e fora do café.

Agrada-me a ideia do café como pequena montra do mundo, creio que entre quatro paredes não seria capaz de alinhavar mais do que algumas ideias dispersas, prefiro ficar por ali a reter pedaços de mundo que, acredito, ficam depois aprisionados dentro de mim.

Calhou de hoje me deslocar a um café onde parei há muitos anos, lugar de outros afectos, outras vidas. O regresso ao café de antanho é como o regresso a uma vida anterior. O espaço não sofreu grande alteração e nele permanecem alguns personagens que reconheço iguais, apenas com uns quilos a mais, ou a menos, menos cabelo ou de outra cor, uns mais brancos outros mais loiros e outros mesmo exactissimamente iguais porque o tempo parece deixá-los incólumes. O empregado ainda me reconhece as feições e os vícios, quase intactos. Porém no café há um vazio, como uma mesa persistentemente desocupada onde jazem todos os que partiram, aqueles que sei que não voltam, pela distância, ela morte ou pelo desafecto e todos quantos, não sabendo eu deles, duvido que tornem a um lugar do passado. É agora que o frio me apanha.
Tenho tanto medo da saudade como quem crê em fantasmas e os receia. Por isso evito estes perdidos lugares de afectos antigos antes mesmo de, por artes do diabo, me transformar eu mesma num fadinho pleno de miséria e saudade portuguesinha.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Carnaval de Torres Vedras - As Origens de uma Tradição Antiga

|Carlos Guardado da Silva

Já no século XIII, nomeadamente no reinado de D. Afonso III, se festejava o Entrudo em Portugal, do latim introitus, "entrada", referindo-se ao período de três dias que precedia a entrada na Quaresma. Tratava-se de uma festa popular resultante de comportamentos espontâneos onde se lançavam pelas ruas baldes de água, ovos, laranjas, farelos entre outros produtos.



No século XVI, atesta-se também a utilização do termo Carnaval, evocando as festas romanas então recuperadas pelo Cristianismo, que começavam no dia de Reis (Epifania) e terminavam na quarta-feira de cinzas, vésperas da Quaresma. A sua origem parece advir do latim medieval carnelevāre, véspera de quarta-feira de cinzas, dia em que se inicia(va) "a abstenção da carne". Uma alusão ao dia em que, anualmente, o sacerdote colocava as cinzas resultantes da queima das palmas bentas do ano anterior sobre a cabeça dos fiéis... idênticas às cinzas que resultariam da queima do Entrudo, o Carnaval personificado, num rito purificador de retorno à ordem social e religiosa quotidiana. As mesmas cinzas a que seria votado, mais tarde, o rei do Carnaval, aquele que melhor encarna o espírito carnavalesco.

Neste período, de inversão das regras do mundo, a máscara, a mesma máscara usada no teatro grego, era um elemento obrigatório, símbolo da transformação de quem a usava em outra pessoa, de personna, termo latino para máscara. Com o mesmo sentido se estendeu aos restantes disfarces, de que são exemplo as matrafonas, testemunhos da inversão da ordem social e de quebra do interdito, sobretudo religioso.

De tudo isto bebeu o carnaval torriense, hoje como ontem desenvolvido na rua, com os seus cortejos, com as batalhas das flores em vez das laranjadas, por vezes violentas. Um tempo de excessos também na comida, através de alimentos gordos e flatulentos que libertariam gases pestilentos e sonoros, substituídos modernamente pelas bombas de mau cheiro.

A República domesticaria estes costumes espontâneos numa festa de rua organizada, dado o seu caráter profano. Assim se entende a popularidade do primeiro grande Carnaval de rua organizado em Torres Vedras, pela mão dos republicanos, que substituíram a procissão das cinzas pelo enterro do Entrudo, logo em 1912. Emergia uma nova festa cívica, porque invertia a ordem vigente, por extensão a ordem anticlerical. Como muitas outras, o carnaval afirmou-se, na primeira República, como uma festa de substituição, também ela de cariz republicano, democrática, substituindo, em parte, uma festa religiosa, pelo que não tardaria que, a partir de 1923, o carnaval passasse a ser uma cerimónia de rua, com organização continuada.


Publicado originalmente em janeiro de 2012 in Revista Torres Vedras nº06



domingo, 9 de fevereiro de 2014

Os intrépidos portugueses que gostam de apanhar com água nas trombas

|Alexandra Malheiro

A tempestade Hércules que nos tem assolado em todas as suas quatro (e quantas mais, meu Deus, quantas mais?) investidas, se parece não ter servido para mais nada senão destruir património à beira-mar plantado e nossa paciência – pelo menos para quem como eu tem um limite muito finito para tempo cinzento e chuva persistente agravada com vento forte; teve um, chamemos-lhe mérito – ainda que a contragosto – de nos mostrar quão intrépidos, temerários e ousados são os tugas. Numa época em que achávamos já que “o melhor povo do mundo” era de facto um povo mortiço, sem ânimo, sem genica, acobardado no medo de perder o emprego, de se manifestar de outro modo que não nas redes sociais e na mesa do café, um povo, enfim, sem espinha dorsal, sem estamina, uns amorfos. Pois se nos roubam no ordenado, nos impostos, nos feriados, nos dias de férias, na segurança no emprego, se nos atiram precaridade, nos empurram fronteira afora, nos prometerem mais e melhor austeridade, nos saqueiam persistentemente vendendo a preço da uva mijona tudo o que no país haja que seja digno de desejo, tudo privatizado desde a energia aos correios, dos aeroportos às linhas aéreas, tudo, tudo, tudo, mesmo o que nos cai no colo – como a colecção Miró – e que bem podia ser aproveitado para ganhos futuros como mais-valia cultural e aposta no turismo de cultura nacional e estrangeiro – é desbaratado a troco de uns míseros cobres que parecem ter o destino comezinho de um dito que aprendi com a minha Avó acerca daqueles a quem o dinheiro parece arder nas mãos – “é como manteiga em focinho de cão”, some-se! Tudo isto e o povo continuar a digladiar-se, sim, sobre quem demorou mais tempo a saír do balneário.

Pois bem, não nos deixemos enganar, o Tuga é um herói dos tempos modernos, basta pô-lo borda de água, e sim somos um país de marinheiros, e é vê-los felizes junto à berma, prestes a apanhar com uma onda de dez metros bem no meio da focinheira. O próprio MacNamara, especialista em ondas de 30 metros (devidamente equipado, treinado, com prancha e fato e motas de água em torno, como deve um profissional de ondas gigantes actuar) partilhou incrédulo a impassividade dos Tugas no farol rodeados de onda tsunâmica por todos os lados como se não fosse nada com eles. E não era. Eu própria observei num telejornal a reportagem – não vou chamar jornalística porque o pasmo envolve-me de cada vez que percebo as coisas que são “notícia” (e prometo que não falo sequer das que não são…) – de um moço algarvio, lançado nas ondas com a sua prancha que se viu transportado por mais de um quilómetro que o pôs na praia vizinha àquela onde tinha começado a surfar (em plena tempestade Hércules, pois então, o medo há-de ser coisa que não lhe assiste), confessando este que nem sabia bem o que lhe tinha acontecido. Foi notícia, graças ao Senhor, se tivesse morrido por, incauto, se ter lançado ao mar em dia de tempestade para treinar o surf, seria notícia na mesma, para a estação era igual e para o público também. O vigor só diferiria se dúvida houvesse se a atitude temerária e parva fosse fruto da sua invenção e dos amigos ou se a mesma fosse de sua invenção e dos amigos mas a tivessem baptizado de praxe. Aí sim o festim seria completo com mais de um mês de assombradas teorias da perseguição, mistérios dignos de um Shelock e horas a fio de airplay televisivo. Soubessem os pescadores que se fazem ao mar por necessidade e que por azar ficam nas ondas, o que deviam fazer para fama e gáudio e, estou certa, este povo intrépido que gosta de apanhar com as ondas no focinho teria uma muito maior quantidade de heróis e mártires, dignos quiçá de embelezar o panteão. Já que estamos numa de transladar à dúzia que há-de ser mais barato e a troika aprovará com um sorriso terno.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sem notas de rodapé – Sobre o vício

|Maria João

Escrevo-vos em abstinência. Entenda-se: estado de privação de um vício prejudicial a vários níveis. Esta crónica é destinada a viciados e não viciados. Para os primeiros, na expectativa de que se reconheçam e tirem daí as consequências que quiserem. Dirigida aos segundos, na tentativa de que nos compreendam.

Seja qual for a forma que assuma, o vício constitui um espaço – diria um dos raríssimos espaços – de individualidade suprema. Naquele acto está-se consigo próprio apenas. É algo onde mais ninguém entra nem reclama posse. Como um outro eu, a adição possui uma inteligência emocional autónoma. Conhece-nos e sabe exactamente o que precisamos em cada altura. Amplifica as boas sensações. Analgesia os momentos mais solitários. Nela encontramos sempre o que se procuramos. Sem perguntas. Nunca nos obriga a traçar a fronteira entre o certo e o errado. Não nos confronta com o intervalo entre o que somos e o que queremos ser. Alimenta, simplesmente, a necessidade de evasão. É, ao mesmo tempo, um mecanismo de fuga e de suporte da realidade. Anestesia-nos. Como escape que representa, previne o desvio radical. Garante mais uma dezena de voltas submissas, arrastando o peão no tabuleiro da quotidianidade. E perante o cansaço da mesmidade diária, o vício sente-se como um direito. Conquistado, merecido, legítimo.

O que mais me intriga e frustra no vício é o sistema teórico que construímos para o sustentar. Longe de ser um estado transitório de loucura, uma avaria no fusível da sensatez ou um distúrbio mental que nos torna inimputáveis aos olhos da lei, o vício convive com a nossa racionalidade. Temos plena consciência dos seus efeitos adversos. Não somos nem nos sentimos «nós» quando em privação. A dependência é palpável, corrói ainda que possa ser disfarçada. Sabemos as causas e verificamos a degeneração. Odiamos o eu viciado, sentado no canto oposto do ringue. Convencemo-nos a iniciar o combate. Marcamos uma data. Repetimos este procedimento até perder conta das vezes, embrulhados numa guerrilha travada interna e diariamente. Fracassamos. Quebramos promessas com auto-desilusão, mas sem arrependimento. Proferidas por nós, são nossas por descumprir. Existe algo de profundamente satisfatório em cometer um erro. Ponderadas as contribuições positivas que, dia-a-dia, lutamos por alcançar, torna-se tentador e libertador o acto de nos prejudicarmos a nós próprios. Uma dor que se suporta porque somos os seus únicos receptores.

Nestas ocasiões gostaríamos de ser dementes ou alienados. No entanto, todos os regressos à estaca zero ocorrem sob a luz da mais perfeita lucidez. Acarretam, por isso, doses consideráveis de censura e de repúdio pela parcela do cérebro que foge ao nosso controlo. E é neste culminar da evidência de fragilidades próprias que, porque humanos falíveis que todos somos, abraçamos de novo a adição temporariamente ausente.

É incrível o vazio que um vício dominado deixa nas nossas vidas. Talvez mesmo só proporcional, por estranho que pareça, ao quão ocos nos sentimos imediatamente após o seu consumo. É um substituto sem substituição possível. Quando gasto, resta aguardar o reencontro, no qual se deposita a esperança de que ele apague, desligue, interrompa. Seja o que for. Diferente, por certo, para cada um.

Não prometo que amanhã não caia. Conto cada dia como uma vitória, mas não agendo festejos nem prevejo remissões totais. Desconfio de mim própria. Sou polícia de mim mesma.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Mesa do Canto – Tchim! Tchim!

|Alexandra Malheiro

Às vezes gostava de não ser tão sensível ao tempo atmosférico, gostava que a chuva não importunasse o que escrevo aqui como se as suas grossas gotas desatassem a empapar-me o papel onde a caneta desliza, gostava de me abstrair, como consigo, embora só às vezes, abstrair-me do ruído do café, mergulhando no meu silêncio interior, esquecendo o som das chávenas sobre os pires, o remoer mastigativo das côdeas de torradas, o sorver das beberagens, nisso há dias em que sou boa, mas nisto da chuva lá fora a entrar-me pela crónica dentro não consigo evitar.

Logo hoje que achei que ia ser uma crónica boa, a primeira do ano, a cheirar a fresco, o meu melhor latão a brilhar, pulidinho, a crónica dos desejos futuros, das premonições anuais, das resoluções irrevogáveis (irrevogáveis?), embora talvez com um nadinha de odor a fósforo queimado, uma perninha a dançar para a melancolia do ano findante, a querer fazer resenhas, os topes mais e menos dos livros, das músicas, dos amores, dos amantes, dos desejos concretizados e os que também não.

Enfim, não fora o chover estupidamente lá fora, que é o mesmo que o chover-me dentro que nisto da chuva a bater contra o vidro da montra do café é coisa contra a qual não me sei defender; não fora, dizia eu, a chuva a ensarilhar-se no papel da crónica, a ensopar tudo, a mudar-me a tinta em borrões azulados, ilegíveis, medonhos; não fora tudo isso e a crónica seria a mais perfeita, a mais bonitinha, a crónica-bébé do Ano a sorrir nos braços da mamã, diria quase um poema, mas… hélas! A crónica, que tinha tudo para ser perfeita, tropeçou no vento, dobrou as varas ao guarda-chuva (sou do Porto, sim, muito obrigada), escorregou numa poça de água e acabou assim, uma folha amassada na beira da estrada. Se por azar a estiverem a ler é porque não chegou a desfazer-se em papas e alguma alminha a salvou da morte certa no bueiro! (Ah! Como eu queria terminar todas as crónicas assim com um ponto de exclamação erecto e feliz, parece uma “flute”, já brindava com ele – ao espanto! Tchim, tchim!)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Sem notas de rodapé – Fim de um ano, começo de outro

|Maria João

O fim de um ano e o começo de outro é para mim sempre um momento de balanço. Talvez por feitio, por ser exigente demais comigo e com o mundo, tendo a percepcionar sempre um saldo negativo. Egoísmo, falta de perspectiva, ingratidão. Sublinho a vermelho o que me falta e dou por garantida a longa lista de factores e o curto rol de pessoas que me proporcionam felicidade. Esta é, aliás, uma palavra que raramente pronuncio. Reconheço-a à posteriori, revejo-a naquela situação, invariavelmente passada, pintada com as cores eufemísticas da memória selectiva. Por norma, obcecada com objectivos e cortes de fitas em prazos calculados, grito mentalmente as cinco ou seis determinações que imponho a mim mesma para os próximos 365 dias, enquanto à boa maneira de uma céptica que não quer correr riscos, como as detestáveis doze passas em cima de uma cadeira.

Quis ser diferente nesta passagem de ano. Senti ridícula a Maria João das metas e métodos. Resolução inédita: não ter resoluções. Não pedir a publicação de um livro, uma posição estável no quadro da universidade ou a descoberta de uma pessoa significativa. Sobretudo isto. Resistir à tentação deprimente de pedir felicidade. De gastar, confesso, todas as doze, insuportáveis mas preciosas, passas com este último desejo. Ao invés, sentir-me privilegiada pela noite com amigos queridos. Perante o início de um novo intervalo de tempo que a Terra demora para completar uma volta em torno do Sol, ter a humildade de aceitar que estou a caminho, que ainda estou a caminho. Não vou chegar. Saber que não vou chegar. Perceber que viver é isso mesmo: pôr um pé à frente do outro; conseguir identificar o que de bom nos traz o percurso; lidar o melhor possível com o inesperado e aproveitar a viagem. John Lennon disse-o bem melhor do que eu: “life is what happens to you while you're busy making other plans”. Neste sentido, arriscaria afirmar que a felicidade é o conjunto de momentos que deixamos de reconhecer enquanto permanecemos obcecados pela sua busca. Os meus votos para vós não são, por isso, um “feliz 2014”, mas, sim, os de uma caminhada consciente de si própria, atenta e grata pela sua própria imprevisibilidade.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Mesa do Canto – “Faz frio no Inverno”

|Alexandra Malheiro

Sobre o frio de Dezembro e dos princípios do Inverno seria redundante falar. Pois se estamos em Dezembro e o seu gelo nos entra nos pormenores da roupa, colando-se-nos na pele, se o respiramos como um gume que nos fere até à traqueia, para quê falar sobre isso? Para quê falar sobre o óbvio, perder tempo com o mundano, quando há tanta matéria intelectual a debater?  Como o valor petiscativo das luzes que Natal que subsistem na minha cidade, as que se vêm, ainda que mal, da montra do meu café, em tempo de crise e míngua, lembrando vagamente que o Natal é tempo de comércio? Ou sobre o crescente tamanho das filas dos pobres que pela noite buscam alimento nas carrinhas dos que têm, também eles, cada vez menos?

Se eu não estivesse sentada, na mesa do meu café, mexendo o açúcar no fundo da chávena, confortável na minha pasmaceira, de volta do papel e da crónica e das coisas muito intelectuais sobre as quais escrever, talvez me perdesse nos olhos da mulher que pede à porta do café. Tem o olhar vazio, um pouco assustado, como se se tivesse desencontrado com o seu lugar no mundo e a mão estendida à caridade fosse a mão que, perdida, pedisse ajuda – “conduzam-me a casa, ou para dentro de mim”, porém tem duas mãos esta mulher, sujas e engelhadas e à memória chega-me um delicioso poema do Pina “o braço que falta ao mendigo é o que o sustenta” e eu penso que talvez o Pina seja também um braço, ou uma perna que nos falte por este tempo de Invernia sem que, porém, nos sustente e antes nos deixe mais ao desamparo deste frio.

 Se a tarde não estivesse tão fria talvez ainda me animassem os cânticos felizes dos estudantes trajados que volteiam na baixa, somando apoios aos seus cânticos esganiçados e desafinados, antes mesmo de arrumarem na mala o diploma e partirem de comboio ou avião para um lugar onde emprego seja uma existência real e sinónimo de pão na mesa no fim do mês.

Se eu não estivesse parada no frio, gelada, a pensar que não sei sobre o que escrever, talvez não me assolasse a lembrança da minha ultima vez no aeroporto e sobre os olhares, os abraços e as lágrimas que se acumulavam nas partidas e chegadas, iguaizinhos aos que via nos idos de setenta e oitenta, a mesma angústia da partida, um frio diferente por dentro, a mesma ânsia da chegada já com a sombra de novo regresso, tudo como deve ser, somos pobres, temos de padecer, de ter fome, de sofrer e baixar a cerviz como está escrito nos livros da escola do tempo da outra senhora.

Ah mas tudo isto perde o brilho quando eu me sento no meu sofá, dali na têvê, aprendo que o país, este mesmo rectângulo esquartejado e vendido a retalho a preço de saldo, saiu da recessão técnica, enquanto os CTT mudam de mãos, não sei o que é mas deve ser bom atendendo à alegria dos mensageiros. Na Florida umas quantas baleias encalharam na costa e na Indonésia, um vulcão, de seu nome Sinabung, resolveu eclodir. Não me ocorre nenhum outro pensamento senão um ainda bem que foi na Indonésia porque quando acontece na Islândia não se consegue dizer!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O cansaço precoce de quem tem de continuar

|Clara Henriques

Os dias são também espaços de cansaço e solidão. É muito maior a estrada da rotina do que as curvas de luz que se escrevem no caminho. Talvez por isso Rita cumprisse todos os dias os apertos do 711 que a levavam sempre ao mesmo destino, sempre com as mesmas caras, sempre a acentuar os dias exaustos. De vez em quando saía uma paragem antes da habitual, qual desvio no de sempre que a fazia mais leve e mais distante do emprego a recibos verdes ou dos 10 euros na conta a uma semana do fim do mês. Depois ia, Rossio dentro bebendo das gentes que não via mas que sabia comporem o fim-de-tarde. 29 anos e os pés arrastados, as mãos pálidas à sombra da ilusão.

Naquele dia conseguiu um lugar sentada. O 711 ia menos apertado e Rita deixou-se cair numa cadeira à janela. Chovia. O desenhar das poças erguia-se altivo e nenhuma voz se entendia na certa. Não sabe bem quando reparou no velho que se sentara a seu lado, mas o boné igual ao do Avô fê-la regressar das poças vazias e entrar dentro daquela viagem de uma forma diferente. O velho, personagem longínqua e vinda da ternura, espreitava o nada como quem pede para partir. Rita atreveu-se no seu colo num só trago de doçura. Por parecer o Avô já ido, pelo silêncio feito da confusão, pelas memórias que os dois não tinham. O velho sentiu-lhe o olhar. Enquanto na cabeça de Rita já se desenrolava poesia. Quantos anos teria o velho a desenhar-lhe as mãos ásperas? Quanta vida? Quanta culpa? Quanta miséria engalfinhada no que não se cumpriu? Que história o faria, ainda, ter a coragem de entrar naquele 711, num qualquer inverno de chuva? E que destino? E quanto Amor?

Conversaram uma vida. Trocaram batalhas, ensinaram-se uma e outra geração. E não uma única palavra, não uma única história. O autocarro travou na paragem antes e o velho arrastou-se na bengala até à porta e saiu, envolto numa qualquer missão carregada no que há de mais só. Ela deixou-se ficar, caída naquele lugar à janela que era agora de uma culpa imensa. Ela - quem devia ter tido coragem para sair. E continuar.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Sem notas de rodapé - Os homens arrumados em três gavetas

|Maria João

Há cerca de um mês tive oportunidade de conhecer a teoria proposta em 2004 pelo psicólogo americano Barry Schwartz, na obra The Paradox of Choice: Why More Is Less. O autor defende que a garantia da liberdade de escolha associada à multiplicação de opções, sustentada (não só, mas também) pelas plataformas comerciais, transformam o homem contemporâneo, paradoxalmente, num ser mais infeliz. A razão é simples: o universo a partir do qual se elege um ser ou um objecto tornou-se de tal modo vasto que o processo de selecção provoca ansiedade e exaustão, em resultado do aumento assinalável da possibilidade de errar. A hipótese de Barry Schwartz faz de imediato sentido quando nos recordamos do tempo que despendemos a percorrer um longo corredor do Jumbo que albergue todos os tipos de géis de banho ou desodorizantes disponíveis. Por instantes, não vos parece sedutora a ideia de uma prateleira com apenas três variedades de elixires bucais?

Pragmática como sou, decidi tentar simplificar a vida a metade da humanidade, rotulando a outra metade – os homens – em três categorias. Um trio de gavetas, em que os possamos arrumar e retirar de acordo com as nossas preferências, sabendo, previamente, a composição, a posologia e as contra-indicações de cada espécie. Trata-se, é claro, de um exercício de aberrante redução e definição de um campo complexo, com múltiplas variáveis. Embora consciente do seu carácter falível e artificial, não resisti a pô-lo em prática.
Suficiente experiência pessoal e abundantes conversas com ambos os sexos (uma amostra inválida para se extrair uma lei geral, bem sei), evidenciam a existência de três gavetas. A primeira, acessível assim que nos abeiramos da cómoda, ao nível da cintura, abre-se com a maior das facilidades. Lá encontram-se os “cordeirinhos”. Estes homens, geralmente com uma auto-estima em alerta vermelho, dão tudo o que conseguem à mulher com quem estão. Inclusivamente, as «calças». Dependem delas para planear o dia seguinte, são pisados e não ripostam. Ideais para pessoas que se satisfazem com a manipulação, o controlo e o apagamento dos outros, tornam-se, porém, desinteressantes para quem gosta de uma relação equilibrada, com partilha de decisões e um cultivo saudável de agendas pessoais e interesses próprios. Os “cordeirinhos” possuem, com frequência, consciência da assimetria dos contactos que cultivam. Podem, até mesmo, mascarar-se, numa fase inicial, de lobos maus. No entanto, mais cedo ou mais tarde, assumem a única postura que julgam garantir um final feliz: a da auto-anulação. Esta gaveta permanece eternamente vazia ou ocupada.

Sabiam que, quando temos três cartas viradas ao contrário, a maioria das pessoas inclina-se para virar a do meio? De facto, o sucesso da gaveta intermédia deve ser reconhecido. Habitam-na os “bodes”. Trata-se do espécime masculino da cabra, popularmente conhecido por outro vocábulo. A sua associação iconográfica à figura do diabo é estabelecida com firmeza na Idade Média. Não por acaso. Os “bodes” detêm um poder de sedução e conquista de almas comprovado há séculos. Descobriram e praticam até à exaustão o Santo Graal da captação do interesse de uma mulher: o coice, conhecido, na gíria, como o acto de “dar para trás”. Seguras ou instáveis, mais ou menos instruídas ou favorecidas pela mãe natureza, todas lhe vão comer à mão. Até ele deixar de estender, sem aparente motivo compreensível, a sua pata dianteira. Ou até a mulher recuperar amor-próprio suficiente para o mandar pastar. As estatísticas indicam, porém, a clara prevalência do primeiro desfecho. Deduz-se, com facilidade, que nesta gaveta, jamais repleta, se acha sempre alguma coisa, um pouco de tudo e de nada. Multiusos, não pertence a ninguém. Tudo o que couber pode potencialmente ser lá colocado e, regra geral, esquecido.

Por fim, na gaveta mais abaixo, aquela cujo acesso exige algum esforço (pelo menos o de dobrar as costas e, portanto, mudar a nossa linha do horizonte), residem os “cordeiros místicos”. Constituem o exemplar mais raro e difícil de descrever. Ironicamente, uma vez na sua presença, reconhecemo-los de imediato. Balanceiam, com naturalidade, o dar e o receber, a autonomia e a entrega sem reservas, a determinação de quem sabe o quer e o olhar compreensivo perante o mundo. Não receiam ser exigentes consigo e com os outros. Sabem o valor de um abraço. Defendem uma paridade construída dia-a-dia. Fazem desabrochar o que de melhor há na sua parceira.

Infelizmente, esta gaveta apresenta-se, na maior parte dos casos, cheia, comprometida já com qualquer utilização. Poucas vezes bem arrumada, é certo. Os “cordeiros místicos” são traídos pela sua esperança num encaixe perfeito. Insistem em tentar. Nesta gaveta alojam-se objectos grandes ou pequenos demais. Uma gaveta que, quando semi-ocupada, se sente vazia. Uma gaveta que, contendo algo volumoso e conscientemente desajustado, permanece sempre entreaberta, esperando, em segredo e no limiar mínimo da fé, o dia em que uma única peça a complete.

Todos os exercícios de interpretação da realidade desafiam-nos a reflectir até que ponto a nossa contextualidade afecta a validade da grelha conceptual adoptada. Preciso, precisamos todos, de desconstruir as nossas cómodas ou, pelo menos, de reconhecer que não existem gavetas estanques. Um “bode” pode ser um homem que se fartou de ser “cordeirinho”. É possível um “cordeiro místico” ressuscitar de um passado como “bode” ou “cordeirinho”. As experiências moldam-nos e cada pessoa desperta em nós reacções diferentes, por vezes mesmo antagónicas.

Os três substantivos são categorias puras, teóricas, extremadas, impermeáveis. A realidade, essa, é feita de contaminações. Homens – e, acrescente-se, mulheres – já se aproximaram, diria eu, em alguma situação da sua vida, de uma das tipologias referidas. Ainda assim, ao ler a crónica deste mês, o mais provável será sentir que não coincide com nenhuma na perfeição. Catalogar, classificar, etiquetar é a ferramenta mais velha para tentar lidar com o que nos cerca. Falha? Constantemente. E, porém, todos a aplicamos no nosso quotidiano, com maior ou menor consciência. No limite, trata-se de um mecanismo de sobrevivência: depois de atacado pelo primeiro tigre, o homem activa um pré-conceito assim que vê um segundo tigre, mesmo que infinitamente diverso. Talvez a vida na Suécia seja diferente. Na minha, suspeito que na nossa, nem o IKEA consegue oferecer soluções de arrumação convincentes.

domingo, 3 de novembro de 2013

No horizonte de coisa nenhuma

|Clara Henriques


A falta de memória política é um compasso atroz no desenvolvimento de qualquer nação.

Acompanhar o que se tem escrito e dito sobre José Sócrates nesta última aparição que tem como desculpa um livro sobre tortura, é sentir que de facto há uma transversalidade amnésica que delineia todos os quadrantes da querida portugalidade. Pior do que isso. Há neste linguarejar quotidiano um terrível desprezo pela profundidade. Hoje em dia as manchetes desaguam em debates televisivos que por sua vez vestem os comentários domingueiros dos ex-futuros políticos, também eles actores deste circo. Inventam-se discursos, assumem-se culpados e andamos a viver o presente político tendo José Sócrates como personagem fulcral em todas as frentes. O que não é novo, como sabemos. Sócrates é, de facto, um animal político, uma personagem de amores e ódios e provocador de inquietações desmedidas, mas assumi-lo como único culpado do estado do país actualmente supera a infâmia. Não vou entrar no porquê ou no porque não. Já enfastia o que se tem dito e devia ser um dever cívico assumirmos a tal memória política e sermos obrigados a saber na ponta da língua a história que nos desenha a todos.

Vivemos cada vez mais isolados na absorção do imediato, perdemos a curiosidade pelo fundo do poço, pelos bastidores, pelo que vem de dentro. Somos filhos de uma superficialidade que nos impede de agarrar na informação e fazer qualquer coisa com ela. Bebemos os soudbytes que os jornais reproduzem, somos construção do que os alinhamentos editoriais nos impõe e vamos, lenta e repetidamente, construindo a nossa realidade à luz de qualquer coisa que nem nome tem.

Nos entretantos, um espaço imenso para o que pode ser uma boa assessoria política. Nos entretantos, um espaço imenso para albergar livros-tese, promover a heróis quem já dissemos odiar e reeleger os Cavacos desta vida.
As urnas são o mais cruel reflexo da amnésia política de que somos dotados. E tudo isto daria um excelente espectáculo de entretenimento, não fosse o terrível facto de nos atirar a todos para o horizonte de coisa nenhuma.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sem notas de rodapé: A Maria João apresenta-se

|Maria João

O cursor pisca. É a primeira vez que faço isto. Escrever liberta do formato académico. Escrever sobre mim e o que me rodeia, de forma assumidamente pessoal. Não existe, é certo, conhecimento neutro e totalmente objectivo em nenhuma área do saber. No entanto, é meu dever prevenir-vos de que a crónica “Sem notas de rodapé” adoptará pontos de vista longe de consensuais e evidenciará a minha própria mundividência. Não terá uma vasta bibliografia de suporte, nem suscitará recensões críticas. Tão-pouco pretende constituir mais do que um exercício de partilha. Estou grata pela oportunidade de o realizar neste «Sítio». Não prescreverei soluções, não ditarei verdades. Serei corrosiva em alguns momentos. Céptica nos dias em que, de forma particular, os meus ideais colidirem com a realidade. Racional, honesta e frontal, pela minha forma de ser. Emocional, sempre.

Tratem-me por Maria João, por favor. Inevitavelmente, os pseudónimos revelam bem mais sobre nós do que o conforto do anonimato faria supor. Associo “Maria João” ao tipo de mulher que sou. Centros comerciais corporizam o conceito de pesadelo para mim. Nunca compreendi a lógica de (apenas) ver montras. Custa-me, de igual modo, conceber a hipótese de ir ao wc a pares ou de falar mal de uma amiga que acabou de sair da mesa do café onde estávamos a conversar.

Gosto de dizer o que penso, às vezes de forma desconcertantemente directa. Considero-me bastante feminina, mas nunca usaria sapatos que me impedissem de correr para apanhar o autocarro. Não trocaria um livro por qualquer verniz da Channel. Reconheço a minha obsessão por pontualidade. Não sou melhor nem pior do que qualquer outra pessoa. A arrogância tira-me do sério, em proporção directa com os cidadãos que decidem optar pelo sofá em vez de irem votar.

Ainda que não filiada, situo-me no espectro político da esquerda. Sou uma idealista com os pés na terra. Acredito que é possível contribuir todos os dias para modificar as pessoas e o contexto que nos cerca. Faço-o, em grande parte, através da minha profissão e do modo como a exerço. Sou uma professora universitária apaixonada pela minha área e pelo ensino. A ignorância não me choca (eu sofro dela em doses angustiantes também). Revolta-me, apenas, a falta de vontade de aprender e ser mais, a recusa da complexidade, a apologia do facilitismo. Poucas coisas me dão mais prazer do que desconstruir ideias, transmitir entusiasmo, incentivar o espírito crítico na percepção do mundo, ver os olhos dos alunos a brilhar. Dir-me-ão que tal se deve aos meus 30 anos. As probabilidades jogam, bem sei, em meu desfavor. Lutarei, porém, contra a indiferença. Procurarei resistir à tentação de me fechar na redoma universitária, naquela em que pessoas capazes de analisar o sistema económico feudal durante duas horas não conseguem preencher o seu IRS. Acompanhem-me neste esforço e, peço-vos, massacrem-me ao mínimo sinal de fraqueza.


É justa a vossa reclamação entredentes. Disse-vos ainda muito pouco acerca das temáticas que este espaço de crónica abarcará. Não possuo um índice para vos apresentar. Contudo, posso adiantar que as artes plásticas serão uma companhia frequente. As relações entre homens e mulheres terão uma presença forte (risos…). Reflexões sobre opções e ritmos de vida, rotina e fuga saudável às normas instaladas constarão deste reportório. O resto não se inscreve necessariamente numa categoria nem se arruma numa gaveta. A utopia de um Pingo Doce sem filas de espera possuirá o mesmo tempo de antena que o debate sobre a crença ingénua na capacidade da arquitectura mudar o mundo. Os anúncios que astrólogos insistem em colocar nos nossos limpa-para-brisas configurarão um assunto tão válido quanto uma sonata de Chopin. Tanto poderei discutir Michel Foucault, como uma ida à loja do cidadão (na verdade, o primeiro é muito útil para perceber como funciona a segunda). Desconhecer, por um lado, o que nos espera e tentar a todo custo, por outro, antecipar e controlar cenários é algo inerente ao ser humano. Esta crónica repousará nesse frágil (des)equilíbrio.