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sábado, 26 de outubro de 2013

Terceira invocação

|Helena Carvalho

À terceira invocação,
monstros de tempo acordados tarde
casas de bafio lento, altares convexos
dentes afiados fora da proporção das estátuas.
Fugimos antes de nós. Galgámos
terra, pó e pedra rasgando
em sulcos os corações armados

e as velhas fronteiras bélicas.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Canto redondo

|Helena Carvalho

Se o dardo se arrojar à água e me tingir os dedos
serei grito convexo e canto.

A pele pressente tarde os murmúrios da sibila
esquecida do primeiro abalo da manhã no corpo,
ferida umbilical nos pontos cardeais.
Dá-se à luz prótese pelo avesso
vestida dos lampejos vespertinos
e de retratos da memória suspensa no cicio das aves.

Queria fazer-me toda voz
um canto redondo que convocasse tudo à sua presença,
a nota impossível em tom cristal
que ressoasse a vibração última dos dardos.

Um grito convexo inverte o tom e acerta o alvo.

Canto que sarasse este abismo que tenho em cada mão
por onde todas as imagens se escapam e
se reconciliam talvez com o seu ideal.





quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A terceira voz

|Helena Carvalho

É no centro espectral da disseminação nocturna –
nas margens letais de puro branco onde ensaiamos
o fechar dos círculos –
que a diferença se faz timbre e a voz começa.

Chega-nos devagar
como um embalo que se oferece à garganta
e alastra-se com rapidez aquosa do palato
ao goto afundando raízes velhas
em incisões violentas.

Fundimo-nos com esta terceira voz
prima-vox-ex-nihilo         prodígio
de uma prótese compulsiva
e acertamos o tom por meio da distorção
e da afonia.

E na esperança de rebater o alvo
deslizamos continuamente entre o dizer e o eco
inscientes da multiplicação
porque quando a voz começa somos
sempre dois.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A Blanchot

|Helena Carvalho

Procuro-te essa noite avistada quando as horas
se comprimem numa espiral compulsiva
e as imagens vivas são já as sombras do meio-dia.
Ouve-se nela o canto impossível de Orfeu
quase prodígio              quase eco cavo
a modulação da afonia como voz ferida
tornada prece.

Será aí a fonte atópica das formas
do pensamento porvir de uma paciência infinita,
o murmúrio esférico de um neutro lá onde 
toda a presença se refaz em rasto como sinal
e desaparição.

Lá onde a língua é um jogo de loucura que nos cresce por dentro
um pomar de espuma na boca
e boca é já fruto maduro
e fruto é já cereja
e cereja é fogo preso
e fogo é rito iniciático e sangue
é catarse e conversão.

Nasce aí o olhar felino
e as palavras todas, essas musas de prostíbulo.
Um dia hei-de acertar numa e oferecer-ta assim
ferida de morte.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Canto primeiro

|Helena Carvalho

Nada começa antes do canto
que nasce outro sob a pele e dentro dos caules
húmidos e intocados,
nem o choro redondo dos pássaros
nem esta voz estrangeira que me lacera
a garganta em gomos e diz antes de mim a volúpia
e a saudade.

Canto de primeira pedra
lançada ao lume primeiro vate
dos pulsos cerzidos na substância feérica
dos ventres prematuramente acesos e
nas doze rotações dos astros.
Tremor felino do corpo e dos frutos
maturados em cada estação de fogo
na sua participação cósmica quase lunar.

Canto absoluto
nascido não da voz mas dos tímpanos
matinalmente ligados ao ressoar anónimo dos búzios
e à contínua vibração dos graves.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Helena Carvalho

Helena Carvalho nasceu na Nazaré, em 1982. Licenciou-se e fez mestrado em Filosofia (UC, 2005; UL, 2013), tendo sido, durante alguns anos, professora do ensino secundário.


Em 2009, foi seleccionada para a Mostra Jovens Criadores (CPAI/IPJ), publicando um conjunto de poemas na colectânea Jovens Escritores 2009. Em 2012, recebeu o Prémio Revelação de Poesia APE/Babel com a obra Geometrias do Desejo (no prelo) e publicou, com a ilustradora Mariana Rio, o livro O Quebra-Cabeças (Edições Eterogémeas). Tem participado em revistas literárias e antologias.