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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Mesa do Canto - A fechar o café

|Alexandra Malheiro

Aprendi os cafés com o meu Pai. O prazer de sentar num deles pela manhã de fim-de-semana, a ler o jornal e a bebericar qualquer coisa, soltando o olhar de quando em vez pela montra do café feito montra do mundo, o encontro mais ou menos fortuito dos amigos que frequentavam o mesmo local, as conversas mais ou menos animadas sobre os temas de época.

As minhas primeiras manifestações de independência “adulta” deram-se com ele, nos cafés, com alguns oito ou nove anos, quando me sentava sozinha numa mesa mais adiante, com o caderno das artes do JN e pedia uma água com um pneu sob a serenidade do seu sorriso escondido no bigode. Depois descobri os meus próprios cafés e hábitos, passei a ler também o caderno da política e à minha mesa pousavam ocasionalmente outros amigos, os meus, que frequentavam os mesmos lugares de afecto.

Sempre entendi os cafés como lugares de afecto e ligação com o mundo, de lá se vê o mundo todo, deformado pelas melhores lentes que soubermos usar, as que vamos criando em nós, ali se encontram também todas as tribos, a fauna de cada lugar, para discutir o mundo e sobre ele traçar a sua impossível salvação.

Continuo a frequentar cafés, não sempre os mesmos ao longo do tempo, eles, como eu, se diluem, se alteram, uns que fecham outros que para sempre se apagam da minha rota substituindo paisagem e fauna, ela também volúvel ao tempo e a tudo o que nos acontece, até à morte que a muitos vai levando. Continuo, quase sempre, a ler o jornal ou um seu similar e-paper, subtituí a água com pneu pelo cimbalino e, certamente, sobretudo nas manhãs de Sábado ou Domingo, levo dentro de mim o meu Pai para ler comigo as notícias do dia.

Tentei neste espaço de crónica fazer-vos partilhar dos ociosos pensamentos que me assaltam no café, que é o melhor lugar para pensar, muitas vezes vos ofereci a paisagem vista da montra, os livros sobre a mesa, até os amigos em conversa. Não sei se fui tremendamente chata ou se vos deixei no ar um lampejo de sonho ou confusão, algo que vos deixasse a pensar, mas de uma maneira ou de outra foi feliz esta minha passagem pela Revista Literária Sítio – que continuarei a ler – deixando lugar a outros para este espaço mensal. Deixo-vos por razões profissionais e falta de tempo para cumprir esta “servidão” (diria o Pina) mensal, mas estou certa que continuarão aqui a buscar a frescura da literatura, o prazer da viagem que só quem lê consegue compreender.

Bem hajam por me terem lido, por terem estado aí, desse lado. Boas leituras e, sobretudo, boas viagens. A literatura nada mais é senão um dos mais baratos e acessíveis meios de transporte para as mais fantásticas, únicas e fantasiosas viagens que podemos fazer, as da imaginação e dos sentidos.
Fica de “brinde” este velho poema com que aqui fecho a minha participação:


Declaração

Escrevo poemas nos guardanapos dos cafés.
E não é fácil fazê-lo –
pelo menos como eu o faço –
de esferográfica,
o papel tende a rasgar-se,
é preciso prende-lo bem
sob os dedos,
estica-lo
para que se não rompa!

Agora mesmo, que o faço,
penso
como é difícil
e notável
esta arte que possuo –
a de escrever poemas
nos guardanapos dos cafés.

É bem mais fácil apenas frequentá-los
e beber o cimbalino quente
sem pensar nos poemas.
Melhor fora que guardasse
as palavras no bolso,
sem papel nem esferográfica,
antes elas nem me assaltassem
quando tomo o meu café.

Mais valia a montra
e o que vai para além dela!
Ainda por cima
o papel amachuca-se nos bolsos
e depois nem consigo ler,
tudo fica tão ilegível e baço
como a vida para além da montra do café.

Afinal... tudo faz sentido!

In “A urgência das palavras” 
(2008)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Mesa do Canto – A revolução todos os dias

|Alexandra Malheiro

Podia esta crónica ser sobre as coisas nenhumas acerca das quais habitualmente escrevo? Podia. Não me tenho dado mal assim, enchi, há pouco tempo, um livro inteiro, a chegar às 200 páginas, só de crónicas dessas, a falar da cidade, sem a qual sou barco sem rumo, folha sem letras, livro sem conteúdo; sobre os pequenos contextos e descontextos, sobre as pessoas que vejo passar pela montra do meu café ou sobre um ou outro amigo que vem sentar-se à mesa comigo a ouvir-me resmungar do tempo ou aqueles com quem discuto o valor etéreo da literatura em dias de chuva. Houve mesmo quem o comprasse e lesse e ainda me viesse dizer que gostou, mais até do que daquela sombria coisa da poesia que nunca ninguém compreende mesmo.

Mas hoje, quando vos escrevo, é Abril. Quando escrevo Abril abrem-se cravos rubros, da cor do sangue que não se derramou e solta-se o vigor da revolução. A que nos havia de salvar da indignidade de não ter voz, da mordaça, da polícia política que avançava casas adentro, esgarçando famílias, torturando, matando, humilhando. Adeus pensamento único, adeus imobilidade de classes, adeus cabeça baixa, chapéu na mão, dorso curvado à ignomínia. Adeus guerra sem sentido.

Quarenta anos passaram da genial revolução sem sangue e olhámos os filhos ressabiados do 25 de Abril que entretanto, por via dele, se alçaram ao poder, entretidos a desfazer aquilo por quem tantos padeceram, muitos lutaram e até morreram.

Alguns avisam e gritam que é preciso uma nova revolução, uma manchada do sangue a que esta nos poupou. Não creio. A revolução está em nós, a democracia, com defeitos e virtudes, é ainda um direito nosso, portanto façamos a revolução nas urnas, nos deveres cívicos que urgem cumprir, ao invés das conversas balofas de café e quando somos chamados a decidir trocamos a obrigação pela praia ou por um encolher de ombros seguido de “não quero saber, são todos iguais, eles querem é poleiro”. Foi o 25 de Abril que, num gesto mágico, nos trouxe a democracia, o direito à escolha, compete-nos a nós não deitar a perder esse direito que é também o dever de fazer (ou merecer) a revolução todos os dias.

domingo, 6 de abril de 2014

Já não se aguenta tanto inverno!

|Alexandra Malheiro

Chegou a Prima, a Vera. Fidalga, a dita Prima, a Vera, que vinha anunciando-se arreganhando os dentes, quando chegou deveras desatou a chover-nos no pêlo e fria como um diabo fugido do inferno. Não há paciência para tanto inverno, sinceramente. Uma pessoa senta-se no café para escrever a cronicazinha a anunciar flores, nardos bravios, o canto coral dos passarinhos, prestes a evocar um sem número de benfazejas virtudes primaveris e é isto, uma estação que mais parece um apeadeiro ao abandono, esta sensaboria de chuva a bater no vidro e mãos a esfregarem-se em aquecimento, a arrefecerem a chávena mais do que esta as consegue aquecer. É claro que, perante estes desmandos climatéricos, a crónica refreia-se, titubeia, atabalhoa-se, atrapalha-se. Tropeça na própria ideia e vê-se obrigada a desviar na direcção do clima, afastando-se do assunto que na verdade trazia engatilhado para molestar vocências.

Assim a ver a chuva a cair de encontro ao vidro, num cinza escuro de borrasca, até perco a vontade de vos contar ao que vinha. Dá-se o caso que se acabou de dar à estampa um livro da minha autoria, de seu nome “Doença Crónica”. Pela primeira vez publico prosa e, sendo esta prosa um conjunto de crónicas, tão inócuas e insípidas como esta que agora lêdes, onde juntei ao baralho as que neste espaço da Revista Literária Sítio têm vindo a ser publicadas, acho curial da minha parte, face aos leitores que aqui me seguem, dar-vos conta disso. É que bem vistas as coisas, se a Primavera tivesse entrado como soía, abrindo as almas aos delírios do amor e da hormona à solta, nem me atreveria a importunar-vos com semelhantes anúncios ao recato e ao recolhimento, mas com esta invernia a arrastar-se por Abril adentro – águas mil – como promete o provérbio, nunca se sabe se a utilidade que o dito volume não possa vir a ter, seja a aquecer-vos junto à lareira enquanto degustam um mazagran, seja, caso o frio continue, como acendalha para a lareira.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Mesa do Canto – O fadinho da saudade

|Alexandra Malheiro

Quando me propus escrever estas crónicas dei-lhes o título genérico de “Mesa do Canto” por ser no café que as escrevo. É bem certo que a mesa que nele ocupo não é sempre a do canto mas dou-lhe preferência quando está desocupada. Dali, de uma esquina privilegiada, junto à montra, tenho o melhor sossego e a melhor visão para o que vai dentro e fora do café.

Agrada-me a ideia do café como pequena montra do mundo, creio que entre quatro paredes não seria capaz de alinhavar mais do que algumas ideias dispersas, prefiro ficar por ali a reter pedaços de mundo que, acredito, ficam depois aprisionados dentro de mim.

Calhou de hoje me deslocar a um café onde parei há muitos anos, lugar de outros afectos, outras vidas. O regresso ao café de antanho é como o regresso a uma vida anterior. O espaço não sofreu grande alteração e nele permanecem alguns personagens que reconheço iguais, apenas com uns quilos a mais, ou a menos, menos cabelo ou de outra cor, uns mais brancos outros mais loiros e outros mesmo exactissimamente iguais porque o tempo parece deixá-los incólumes. O empregado ainda me reconhece as feições e os vícios, quase intactos. Porém no café há um vazio, como uma mesa persistentemente desocupada onde jazem todos os que partiram, aqueles que sei que não voltam, pela distância, ela morte ou pelo desafecto e todos quantos, não sabendo eu deles, duvido que tornem a um lugar do passado. É agora que o frio me apanha.
Tenho tanto medo da saudade como quem crê em fantasmas e os receia. Por isso evito estes perdidos lugares de afectos antigos antes mesmo de, por artes do diabo, me transformar eu mesma num fadinho pleno de miséria e saudade portuguesinha.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Os intrépidos portugueses que gostam de apanhar com água nas trombas

|Alexandra Malheiro

A tempestade Hércules que nos tem assolado em todas as suas quatro (e quantas mais, meu Deus, quantas mais?) investidas, se parece não ter servido para mais nada senão destruir património à beira-mar plantado e nossa paciência – pelo menos para quem como eu tem um limite muito finito para tempo cinzento e chuva persistente agravada com vento forte; teve um, chamemos-lhe mérito – ainda que a contragosto – de nos mostrar quão intrépidos, temerários e ousados são os tugas. Numa época em que achávamos já que “o melhor povo do mundo” era de facto um povo mortiço, sem ânimo, sem genica, acobardado no medo de perder o emprego, de se manifestar de outro modo que não nas redes sociais e na mesa do café, um povo, enfim, sem espinha dorsal, sem estamina, uns amorfos. Pois se nos roubam no ordenado, nos impostos, nos feriados, nos dias de férias, na segurança no emprego, se nos atiram precaridade, nos empurram fronteira afora, nos prometerem mais e melhor austeridade, nos saqueiam persistentemente vendendo a preço da uva mijona tudo o que no país haja que seja digno de desejo, tudo privatizado desde a energia aos correios, dos aeroportos às linhas aéreas, tudo, tudo, tudo, mesmo o que nos cai no colo – como a colecção Miró – e que bem podia ser aproveitado para ganhos futuros como mais-valia cultural e aposta no turismo de cultura nacional e estrangeiro – é desbaratado a troco de uns míseros cobres que parecem ter o destino comezinho de um dito que aprendi com a minha Avó acerca daqueles a quem o dinheiro parece arder nas mãos – “é como manteiga em focinho de cão”, some-se! Tudo isto e o povo continuar a digladiar-se, sim, sobre quem demorou mais tempo a saír do balneário.

Pois bem, não nos deixemos enganar, o Tuga é um herói dos tempos modernos, basta pô-lo borda de água, e sim somos um país de marinheiros, e é vê-los felizes junto à berma, prestes a apanhar com uma onda de dez metros bem no meio da focinheira. O próprio MacNamara, especialista em ondas de 30 metros (devidamente equipado, treinado, com prancha e fato e motas de água em torno, como deve um profissional de ondas gigantes actuar) partilhou incrédulo a impassividade dos Tugas no farol rodeados de onda tsunâmica por todos os lados como se não fosse nada com eles. E não era. Eu própria observei num telejornal a reportagem – não vou chamar jornalística porque o pasmo envolve-me de cada vez que percebo as coisas que são “notícia” (e prometo que não falo sequer das que não são…) – de um moço algarvio, lançado nas ondas com a sua prancha que se viu transportado por mais de um quilómetro que o pôs na praia vizinha àquela onde tinha começado a surfar (em plena tempestade Hércules, pois então, o medo há-de ser coisa que não lhe assiste), confessando este que nem sabia bem o que lhe tinha acontecido. Foi notícia, graças ao Senhor, se tivesse morrido por, incauto, se ter lançado ao mar em dia de tempestade para treinar o surf, seria notícia na mesma, para a estação era igual e para o público também. O vigor só diferiria se dúvida houvesse se a atitude temerária e parva fosse fruto da sua invenção e dos amigos ou se a mesma fosse de sua invenção e dos amigos mas a tivessem baptizado de praxe. Aí sim o festim seria completo com mais de um mês de assombradas teorias da perseguição, mistérios dignos de um Shelock e horas a fio de airplay televisivo. Soubessem os pescadores que se fazem ao mar por necessidade e que por azar ficam nas ondas, o que deviam fazer para fama e gáudio e, estou certa, este povo intrépido que gosta de apanhar com as ondas no focinho teria uma muito maior quantidade de heróis e mártires, dignos quiçá de embelezar o panteão. Já que estamos numa de transladar à dúzia que há-de ser mais barato e a troika aprovará com um sorriso terno.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Mesa do Canto – Tchim! Tchim!

|Alexandra Malheiro

Às vezes gostava de não ser tão sensível ao tempo atmosférico, gostava que a chuva não importunasse o que escrevo aqui como se as suas grossas gotas desatassem a empapar-me o papel onde a caneta desliza, gostava de me abstrair, como consigo, embora só às vezes, abstrair-me do ruído do café, mergulhando no meu silêncio interior, esquecendo o som das chávenas sobre os pires, o remoer mastigativo das côdeas de torradas, o sorver das beberagens, nisso há dias em que sou boa, mas nisto da chuva lá fora a entrar-me pela crónica dentro não consigo evitar.

Logo hoje que achei que ia ser uma crónica boa, a primeira do ano, a cheirar a fresco, o meu melhor latão a brilhar, pulidinho, a crónica dos desejos futuros, das premonições anuais, das resoluções irrevogáveis (irrevogáveis?), embora talvez com um nadinha de odor a fósforo queimado, uma perninha a dançar para a melancolia do ano findante, a querer fazer resenhas, os topes mais e menos dos livros, das músicas, dos amores, dos amantes, dos desejos concretizados e os que também não.

Enfim, não fora o chover estupidamente lá fora, que é o mesmo que o chover-me dentro que nisto da chuva a bater contra o vidro da montra do café é coisa contra a qual não me sei defender; não fora, dizia eu, a chuva a ensarilhar-se no papel da crónica, a ensopar tudo, a mudar-me a tinta em borrões azulados, ilegíveis, medonhos; não fora tudo isso e a crónica seria a mais perfeita, a mais bonitinha, a crónica-bébé do Ano a sorrir nos braços da mamã, diria quase um poema, mas… hélas! A crónica, que tinha tudo para ser perfeita, tropeçou no vento, dobrou as varas ao guarda-chuva (sou do Porto, sim, muito obrigada), escorregou numa poça de água e acabou assim, uma folha amassada na beira da estrada. Se por azar a estiverem a ler é porque não chegou a desfazer-se em papas e alguma alminha a salvou da morte certa no bueiro! (Ah! Como eu queria terminar todas as crónicas assim com um ponto de exclamação erecto e feliz, parece uma “flute”, já brindava com ele – ao espanto! Tchim, tchim!)

sábado, 7 de dezembro de 2013

Mesa do Canto – “Faz frio no Inverno”

|Alexandra Malheiro

Sobre o frio de Dezembro e dos princípios do Inverno seria redundante falar. Pois se estamos em Dezembro e o seu gelo nos entra nos pormenores da roupa, colando-se-nos na pele, se o respiramos como um gume que nos fere até à traqueia, para quê falar sobre isso? Para quê falar sobre o óbvio, perder tempo com o mundano, quando há tanta matéria intelectual a debater?  Como o valor petiscativo das luzes que Natal que subsistem na minha cidade, as que se vêm, ainda que mal, da montra do meu café, em tempo de crise e míngua, lembrando vagamente que o Natal é tempo de comércio? Ou sobre o crescente tamanho das filas dos pobres que pela noite buscam alimento nas carrinhas dos que têm, também eles, cada vez menos?

Se eu não estivesse sentada, na mesa do meu café, mexendo o açúcar no fundo da chávena, confortável na minha pasmaceira, de volta do papel e da crónica e das coisas muito intelectuais sobre as quais escrever, talvez me perdesse nos olhos da mulher que pede à porta do café. Tem o olhar vazio, um pouco assustado, como se se tivesse desencontrado com o seu lugar no mundo e a mão estendida à caridade fosse a mão que, perdida, pedisse ajuda – “conduzam-me a casa, ou para dentro de mim”, porém tem duas mãos esta mulher, sujas e engelhadas e à memória chega-me um delicioso poema do Pina “o braço que falta ao mendigo é o que o sustenta” e eu penso que talvez o Pina seja também um braço, ou uma perna que nos falte por este tempo de Invernia sem que, porém, nos sustente e antes nos deixe mais ao desamparo deste frio.

 Se a tarde não estivesse tão fria talvez ainda me animassem os cânticos felizes dos estudantes trajados que volteiam na baixa, somando apoios aos seus cânticos esganiçados e desafinados, antes mesmo de arrumarem na mala o diploma e partirem de comboio ou avião para um lugar onde emprego seja uma existência real e sinónimo de pão na mesa no fim do mês.

Se eu não estivesse parada no frio, gelada, a pensar que não sei sobre o que escrever, talvez não me assolasse a lembrança da minha ultima vez no aeroporto e sobre os olhares, os abraços e as lágrimas que se acumulavam nas partidas e chegadas, iguaizinhos aos que via nos idos de setenta e oitenta, a mesma angústia da partida, um frio diferente por dentro, a mesma ânsia da chegada já com a sombra de novo regresso, tudo como deve ser, somos pobres, temos de padecer, de ter fome, de sofrer e baixar a cerviz como está escrito nos livros da escola do tempo da outra senhora.

Ah mas tudo isto perde o brilho quando eu me sento no meu sofá, dali na têvê, aprendo que o país, este mesmo rectângulo esquartejado e vendido a retalho a preço de saldo, saiu da recessão técnica, enquanto os CTT mudam de mãos, não sei o que é mas deve ser bom atendendo à alegria dos mensageiros. Na Florida umas quantas baleias encalharam na costa e na Indonésia, um vulcão, de seu nome Sinabung, resolveu eclodir. Não me ocorre nenhum outro pensamento senão um ainda bem que foi na Indonésia porque quando acontece na Islândia não se consegue dizer!

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mesa do Canto: Todos os lugares onde te amei

|Alexandra Malheiro

Agrada-me começar assim a crónica, com um título piroso e lamechas, ainda que o corpo da crónica possa não confirmar a investida no território afectivo é sempre uma bela forma de deixar o leitor a pensar que me vou permitir a contemplações de ordem amorosa e deleitá-los com o rigoroso detalhe da minha vida íntima. A própria referência, neste mesmo parágrafo, ao "corpo da crónica" já é, só por si, uma vaga alusão ao erotismo que cada um de nós transporta interiormente.

A verdade verdadinha é que tinha planeado levar esta crónica pelas ruas do Outono, a pisar o restolho e a sentir os primeiros bancos de gélido nevoeiro, começaria assim, sei-o bem - "Entrou-me hoje, pela primeira vez neste ano, o Outono pela boca, à boleia de uma castanha assada comprada na baixa." Seguiria depois pela industriosa tarefa de explicar as razões pelas quais percebemos que pertencemos a um lugar e não a outro qualquer, o reconhecimento implícito das ruas, das suas esquinas, pelos odores, pela textura, até chegar ao imo daquilo com que se faz um poema. Trataria depois de explicar que é sempre isso que procuro em tudo, o poema, a coisa inata que há dentro das pessoas e das coisas e por onde passo farejo o poema até o encontrar, ou não, que às vezes o poema é coisa que não se encontra.

Levaria assim a crónica pelo território da busca, e eventual encontro, com o poema que, quando ocorre, tem sabor idêntico a uma vitória na guerra dos dias, espécie de orgasmo que nos resgata do cinzento a que a vida e as suas circunstâncias nos condena a maior parte do tempo. É por isto, e não por qualquer outra razão, que gosto de oferecer poemas aos amigos - aqui um pormenor de semântica, oferecer não é dedicar. Dedicar implica uma razão subjacente, pode nem sequer se conhecer o sujeito a quem se dedica mas sabemos que algo no sujeito espoletou a arma, nos apertou o gatilho do poema, mostrou a estrada e a luz de por onde levar as palavras e isso é toda uma outra conversa sobre guias e referenciais. Já a oferta do poema é uma coisa livre, não referenciada. Dá-se o poema a quem se apetece, sem pedir licença. Quando se escreve um poema, ou quando se atinge - ainda usando uma metáfora orgástica - ele deixa de ser nosso ou inteiramente nosso e se se partilha já não nos pertence senão numa vaga ilusão de posse de autor, coisa semelhante ao amor que se tem sem de facto se possuir.

Por isso às vezes ofereço poemas, quase sempre recém-nascidos, aos meus amigos, para que não fiquem só comigo e procurem com os outros outra luz, e para que outros possam também iluminar-se neles. Não sei se gostam, se lhes agrada que os importune, quase sempre por telefone, em geral por sms, raras vezes por voz - pranto-lhes o poema no gravador, e mais raramente ainda em directo ao ouvido arriscando interromper-lhes os importantes feitos da vida real, tão cheia de curvas e contracurvas, tão avessa à etereadade dos poemas, nem sempre bons, como são os meus.

Aprecie o estimado leitor a sorte que tem em não fazer parte da minha lista de afectos ou, melhor digo, de telefones, para onde debito poemas a horas ingratas. Se, porém, o leitor acaso é meu amigo e já foi contemplado com um desmando "literário" sem aparente razão que não a minha intermitente loucura, peço-lhe o necessário desconto pelas razões antes expostas em abono da partilha de poemas e entusiasmos. Sou assim mas não represento verdadeiro perigo social ou outro.

Entretanto é sexta-feira, pretendo jantar fora e resolvo marcar mesa, não vá dar-se o caso de o restaurante lotar, telefono para reservar mesa e hora, que sim senhor, dizem-me do outro lado, questionando-me se pretendia apenas jantar ou se tinha igual interesse em marcar consulta de astrologia. Fiquei surpresa, desconhecia a fusão sugerida de jantar com bruxos e entendidos no futuro dos outros. Digo que não, pretendo apenas comer, embora me assalte o pensamento que preferia que ao invés de um futuro inventado me inventassem um poema, ainda que fosse de comer como os da Natália.


No final desta crónica o atento leitor meneia a cabeça recriminatoriamente sem descobrir nela, após tanto palavreado, nenhuma real ligação entre o seu título e tudo o que nela se assunta. Mais lhe valia ler Lobo Antunes pensa, e bem acrescento eu, o estimado leitor. Mas eis que num vislumbre de juízo me apronto a deslindar o novelo. É que todos os poemas partilhados em qualquer esquina mal iluminada do tempo foram  todos os lugares onde te amei.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mesa do Canto – Agora a língua

|Alexandra Malheiro

E agora? Como dizer “Amo-te” num dia de Inverno? Os dias de Inverno são lugares vazios, toscos, cheios de frio e de um musgo verde a lembrar passados humedecidos de ternuras que já não sabemos compreender. E agora? Que vento nos dirá o caminho de ora avante, nos ensinará os passos que havemos de dar, ainda que incertos, ainda que assustados, pela invernia, pelo vento norte, ainda ofuscados pelos fogachos que o verão nos deixou. E agora? Que luz havemos de encontrar, quem nos há-de achar neste deserto cíclico tão doente, tão humedecido por um húmus planctónico, quase quente?

Nenhum amor se deita fora, dizes, mas eu que faço com este nos braços, anestesiado pela distância que o tempo abriu em nós, uma cratera de ausências imperdoáveis, ruídos que abafam os sons da ternura como se estes nunca tivessem existido?

Às vezes ataca-me a saudade e o frio, tudo junto, como um dia de Inverno, mesmo quando ainda é Verão, como hoje, ou é Outono, que sempre há-de seguir-se o Outono a qualquer Verão, ou talvez mesmo Primavera que teimosa vem depois do Inverno a reclamar o Verão, mortificada pelo Sol. Às vezes ataca-me a saudade e o frio, tudo junto, como se a saudade um clima mais próprio dos países frios, dos que tiritam desconsolados sob a luz de nenhum sol, só a sua penosa ausência transformada em saudade numa língua onde a palavra – a saudade  - sequer existe, coisa mais triste esta de tentar dizer saudade sem ter um termo para o fazer, sem ter esta palavrinha para aquecer dentro da boca de encontro à língua. “A minha Pátria é a minha língua” – essa também vazia, que pátrias serão essas em cujas línguas não há “saudade”? Só dentro dos olhos, nas mãos vazias, a saudade sem nome navegará pelo corpo dos que sentem a ausência.

Às vezes ataca-me a saudade e o frio, tudo junto e embora me entristeça e me cubra de musgo por dentro, enquanto divago pelas ruas, pelos lugares agora sem nome, vazios de tudo o que me falta e me tenha de cobrir, tremendo-me o corpo da gélida lembrança desta existência insolitamente desirmanada, sem sentido e solitária, apesar de tudo isto e em me lembrando do que hão-de sentir os que em saudade não têm nem como dizê-lo, pareço menos triste por sentir em português. “Saudado-te”, digo, e já tudo me parece menos infeliz.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Mesa do Canto – Das estranhas coisas que me interessam

|Alexandra Malheiro

Na confortável posição em que me encontro, mesa de canto, montra do mundo, que é afinal a montra do meu café, conforme mexo o açúcar no fundo da chávena, pergunto-me que coisas são as que me interessam e que, depois, hei-de verter em prosa ou em verso ou aqui pela crónica a fingir de literatura.

Percebo que do mundo me interessa pouco a crise, os maneirismos afectados do Portas a sacudir-se, ele do governo e o seu desgoverno do capote, interessa-me pouco o ruído fatigado da televisão, o futebólico gemido pseudo-heróico, erguendo cidades de felizes vencedores do nada.

Sento-me no meu café e rápido percebo que é ali que o mundo pára e se estabelece com novas tabelas e balizas, é ali que o meu novo mundo se ancora e me preenche, na verdade o mundo bem podia ser apenas aquilo que vai para lá da montra do meu café.

Interessam-me os pedintes, tão diversos, o cão o seu mendigo que por ele pede, por afecto, o de guitarra triste que canta com voz roufenha uma música à qual expeliu já toda a melodia, a velha arrastando-se ao calor, vestida de andrajos próprios para o Inverno há muito ultrapassado, interessa-me o quarteto de mórmones apertados por igual nas suas gravatas, amassando a bíblia cansada no sovaco. Interessa-me a rapariga muito branca e muito magra com uma saia subnutrida interrompida ao mais alto nível das coxas, deixando antever um tugúrio – talvez tão pálido? – como a pele que a ele conduz.

Interessa-me o rapaz do braço tatuado, desenhado de monstros e infernos – quem sabe os seus? – até à altura do punho. Interessa-me o homem velho, bem vestido e penteado, que há anos conheço fiel ao mesmo café, e que traz agora uma bengala, encastoada a prata, nem tanto para se apoiar nela mas para a usar arrastando-a, como os cegos, o seu sonar sondando o caminho adiante – como seremos nós na sua idade? Serei ainda, como ele, fiel ao mesmo café? Segurarei a chávena com trémulas mãos e aos olhos baços que lágrimas me acorrerão?

Interessa-me o homem extravagante, todo vestido de branco, de redundante e efeminada bolsa ao ombro, cantarolando bem alto uma canção que o par de auscultadores, também eles brancos, lhe debitam aos ouvidos.

Interessa-me o casal, pouco mais que adolescentes, ela de olhos rasos de água, vermelhos de abismo e ele procurando secá-los no seu abraço demorado – que misérias os devastariam àquela idade?

Interessa-me a madame e o seu lulu, com lacinhos grená nos caracóis e o homem das calças vermelhas, vagamente semelhando um artista ou um cowboy, nem sei bem.

E, é bem claro, interessa-me o silêncio que se põe na tua boca, o desejo precipitado nas pontas dos teus dedos e interessa-me ainda mais o castanho arredio dos teus olhos.

Enfim, acento e concluo, que tudo o que a mim me desperta é quanto ao mundo nada interessa.

domingo, 2 de junho de 2013

Mesa do Canto – As falsas questões

|Alexandra Malheiro

(dedicada ao Rui Magiolli)

“É uma falsa questão” dizes-me, ter ou não ter tema para uma crónica é uma falsa questão. Pois se estás sentado comigo no café- ainda que talvez não estejas e seja apenas eu a imaginar-te, se dialogas comigo, invectivando-me até a largar o que leio para te ouvir dissertar sobre uma coisa qualquer.

Observo a Granta, ainda fresquinha, acabada de comprar, ainda por ler, sobre o tampo em mármore da mesa – fala do EU, está lá escrito, dá-lhe título até – as diferentes visões do eu e quantos “eus” haverá dentro de cada “eu” que connosco transportamos. Dir-me-ás de novo que é uma falsa questão e que quando estou contigo, e apesar do teu tão elaborado “eu”, não será apenas contigo que estou, pois serás tu, com o teu “eu” pessoal mais o “eu” que eu te inventei, como aquela velha história que todos os psiquiatras citam de que quando um casal está na cama são sempre quatro e não dois – os dois que de facto existem e outros dois que cada um deles inventa dentro de si sobre o outro. Aí interrompo-te, primeiro porque me enfada essa conversa, ainda que possa ser verdade, sobre a dupla visão – do que somos e da forma como os outros nos vêm, e depois porque a falsa questão és tu quem a levanta, senão repara: ainda que eu te possa imaginar alguma coisa que não és, não são dois “eu” de ti que de facto existem, será apenas um “eu” o teu “eu” real e um “tu” o que eu invento.

Conforme desenrolo este novelo de ideias algo perturbadas pela febre e pelas leituras que, na verdade, ainda não fiz, sinto que me falta a voz, perco-a progressivamente, sei que dentro de menos de uma hora não serei capaz de falar, afonia completa. Talvez isso não seja importante ali no café, nem amanhã. Que sei eu, que importa se não me ouvirem? Apenas me importa se te lembrares de me ligar amanhã e eu não conseguir falar-te, ficarias a ouvir apenas um cicio telefónico, acharias tratar-se de um artefacto, uma ilusão ou uma interferência, ignorar-me-ias não me ouvindo. Também aqui o teu e o meu “eu” ou o meu “eu” e o “tu” que de mim inventas não se cruzariam, perder-se-iam na linha e isso sim seria grave.

Apago o cigarro e com ele esta ilusão daninha – Que diabo,  por que havias de me telefonar? Esse seria o “tu” que eu ainda imagino, um “tu” que não existe em ti, no teu “eu”. Aos anos que não nos cruzamos na linha, esta febre deve estar a perturbar-me mais do que o esperado! Talvez acenda um novo cigarro para pensar sobre isto. Mergulho as mãos nos bolsos à procura de um mas não está fácil. Na verdade eu não fumo, nunca  fumei.

domingo, 5 de maio de 2013

Mesa do Canto – Uma memória de cafés

|Alexandra Malheiro


Escrevo-vos, hoje, do Café Imperial, não o do Porto, de 1936, com a águia em bronze gigante, de Henrique Moreira, encimando a porta giratória, com profusão de espelhos e prateados e um longo balcão ao fundo e o vitral Art Déco de Leon, até porque esse velho Imperial tem hoje, sobreposta à sua pujante arquitectura, a decoração pastilhada do MacDonalds em que se transformou há vários anos, com isso descaracterizando por completo o café que antes fora. Este de onde vos escrevo é, também ele, Art Déco com colunas de inspiração oriental e motivos animais, com altos-relevos e espelhos largos e encontra-se em Praga sendo um dos vários cafés praguenses a não perder. Escreveu Garrett que o viajante experimentado e culto chegando a um café, em qualquer lugar que visitasse, facilmente reconheceria onde se encontrava pelos seus usos, costumes, pelo aspecto e pela fauna que nele achasse. Fiz, pois, como Garrett e, em chegando a Praga para umas curtas férias, tratei de assentar arraiais num dos seus cafés para dele fazer a minha mesa do canto. Acomodo a meu lado “Imagens de Praga”, uma espécie de livro de viagem em bom, do irlandês John Banville, recentemente editado pela ASA. Nada como um livro e um café para nos contextualizarmos com o lugar que visitamos. A “ideia de europa” de Steiner desenha-se através do mapa das cafetarias. E eu dou por mim, uma vez mais, a resvalar para a memória pessoal dos meus cafés.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Primavera

|Alexandra Malheiro


Falo-te do tempo e da viagem,
da oxidação dos dias
e da fuligem no rosto que o tempo nos deposita.

Ultimamente
tem-me faltado a Primavera,
percebo isso quando
ao olhar-te
nenhum jacarandá se abriu em flor.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Um poeta pelos pulmões


|Alexandra Malheiro

Agora os dias são mais curtos, não sei se pela força do calendário, a aproximação da Invernia, se por nos teres deixado assim, tão desavisadamente, a olhar o vazio, o buraco negro por onde partiram as palavras. Levaste-as contigo, decerto.

Agora que aqui não estás, o que dizer (ou pensar, que sei eu?) sobre a vaga de frio que vem com o Outono, da gramática que nos falta porque nos faltas, dos poemas todos que ainda estão por escrever?

Agora que a cidade sussurra a tua ausência, as bibliotecas choram-te em silêncio, “porque o resto é silêncio (que resto?)”, elas sabem que não voltarás a dar nome às palavras, nem voltarás a abrir-lhes os livros, que nem Milne, nem Borges nem Céline  te trarão de volta dos mortos agora que talvez tenhas achado  “um lugar onde pousar a cabeça”.

sábado, 2 de março de 2013

Mesa do Canto – Sobre chuva miúda e a “memória possível” de Gomes Ferreira


|Alexandra Malheiro

Os dias vão correndo estranhos também no meu café. A chuva miúda teima em pegar-se aos vidros e, com ela, se esvai a nitidez para lá da montra. A mim mói-me por dentro este chuviscar constante.
Leio uma coisa aqui e outra ali, avulsas, sem conseguir traçar entre elas uma credível teia que possa alinhavar-se em crónica, uma que possa partilhar convosco. O Carnaval é um penumbroso tempo de chuva, esquecido de um feriado que nunca o foi bem, os foliões recalcitrantes guardam as fantasias nos guarda-fatos derivado ao mau tempo, enquanto palhaços bem vestidos continuam a perorar no horário nobre da televisão. O Papa renuncia ao seu pontificado enquanto no mesmo dia um fotógrafo capta um raio a atingir a Basílica de São Pedro. Na rua onde o meu café está instalado há vários indigentes mendigando uns trocados, a miséria é a de sempre.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Mesa do Canto – Lições avulsas de literatura


|Alexandra Malheiro 

Escrevo-vos da mesa do canto do meu café. O meu café é na baixa do Porto, tem uma montra larga de onde vejo o sol, ou a sua ausência. Daqui vislumbro a granítica sombra da cidade seguindo com o olhar a  esquina onde o eléctrico curva chiando o seu doce gemido, lembrando-me que é pouco mais que uma memória actualizada para turista ver.

A minha mesa de canto é onde me sento e medito, riscando estas palavritas e ideias que convosco conto ir partilhando. Assim a musa, a pena (que a bem dizer é esferográfica) e a memória me ajudem, dar-vos-ei conta do que vejo e sinto desde a montra do meu café. Contar-vos-ei também dos que aqui passam, entre eles alguns amigos que, sentando-se à minha mesa, partilham cafés, torradas e ideias.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Um ponto no mapa (ou talvez um poema)


Pequeno pseudo-ensaio vagamente descritivo da obra de João Luís Barreto Guimarães. 

|Alexandra Malheiro

Alain, comentando Válery, diz-nos que "todo o pensamento começa por um poema". Lembro-me disto sempre que leio João Luís Barreto Guimarães, ainda que um pouco ao contrário, acreditando que nele os pensamentos acabam tornando-se poemas. Poemas como pensamentos, como um apontamento que tiramos ao andar pela rua, ao observar. Como se estivéssemos a ler um livro e fizéssemos uma anotação na margem, um sublinhado, João Luís faz o mesmo com o que observa, com as mais comezinhas ocorrências quotidianas como o trilho de óleo que o carro deixa na garagem e faz depois prendê-las ao seu próprio pensamento, com frequência uma divagação sobre uma memória poética, alguma coisa que leu, um quadro de viu, uma cena de um filme. Tem sido assim em todos os seus livros, um jogo metonímico e de linguagem que começa nas cenas quotidianas mas que nos leva muitas vezes por uma via erudita, às vezes de menor compreensão para os menos viajados. Quando falo em viagem digo-o, também, de forma lata aproveitando a amplitude da palavra seja a viagem física que fazemos a outros lugares seja a viagem que os livros, a arte, enfim, a cultura nos proporciona.