Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Mesa do Canto - A fechar o café

|Alexandra Malheiro

Aprendi os cafés com o meu Pai. O prazer de sentar num deles pela manhã de fim-de-semana, a ler o jornal e a bebericar qualquer coisa, soltando o olhar de quando em vez pela montra do café feito montra do mundo, o encontro mais ou menos fortuito dos amigos que frequentavam o mesmo local, as conversas mais ou menos animadas sobre os temas de época.

As minhas primeiras manifestações de independência “adulta” deram-se com ele, nos cafés, com alguns oito ou nove anos, quando me sentava sozinha numa mesa mais adiante, com o caderno das artes do JN e pedia uma água com um pneu sob a serenidade do seu sorriso escondido no bigode. Depois descobri os meus próprios cafés e hábitos, passei a ler também o caderno da política e à minha mesa pousavam ocasionalmente outros amigos, os meus, que frequentavam os mesmos lugares de afecto.

Sempre entendi os cafés como lugares de afecto e ligação com o mundo, de lá se vê o mundo todo, deformado pelas melhores lentes que soubermos usar, as que vamos criando em nós, ali se encontram também todas as tribos, a fauna de cada lugar, para discutir o mundo e sobre ele traçar a sua impossível salvação.

Continuo a frequentar cafés, não sempre os mesmos ao longo do tempo, eles, como eu, se diluem, se alteram, uns que fecham outros que para sempre se apagam da minha rota substituindo paisagem e fauna, ela também volúvel ao tempo e a tudo o que nos acontece, até à morte que a muitos vai levando. Continuo, quase sempre, a ler o jornal ou um seu similar e-paper, subtituí a água com pneu pelo cimbalino e, certamente, sobretudo nas manhãs de Sábado ou Domingo, levo dentro de mim o meu Pai para ler comigo as notícias do dia.

Tentei neste espaço de crónica fazer-vos partilhar dos ociosos pensamentos que me assaltam no café, que é o melhor lugar para pensar, muitas vezes vos ofereci a paisagem vista da montra, os livros sobre a mesa, até os amigos em conversa. Não sei se fui tremendamente chata ou se vos deixei no ar um lampejo de sonho ou confusão, algo que vos deixasse a pensar, mas de uma maneira ou de outra foi feliz esta minha passagem pela Revista Literária Sítio – que continuarei a ler – deixando lugar a outros para este espaço mensal. Deixo-vos por razões profissionais e falta de tempo para cumprir esta “servidão” (diria o Pina) mensal, mas estou certa que continuarão aqui a buscar a frescura da literatura, o prazer da viagem que só quem lê consegue compreender.

Bem hajam por me terem lido, por terem estado aí, desse lado. Boas leituras e, sobretudo, boas viagens. A literatura nada mais é senão um dos mais baratos e acessíveis meios de transporte para as mais fantásticas, únicas e fantasiosas viagens que podemos fazer, as da imaginação e dos sentidos.
Fica de “brinde” este velho poema com que aqui fecho a minha participação:


Declaração

Escrevo poemas nos guardanapos dos cafés.
E não é fácil fazê-lo –
pelo menos como eu o faço –
de esferográfica,
o papel tende a rasgar-se,
é preciso prende-lo bem
sob os dedos,
estica-lo
para que se não rompa!

Agora mesmo, que o faço,
penso
como é difícil
e notável
esta arte que possuo –
a de escrever poemas
nos guardanapos dos cafés.

É bem mais fácil apenas frequentá-los
e beber o cimbalino quente
sem pensar nos poemas.
Melhor fora que guardasse
as palavras no bolso,
sem papel nem esferográfica,
antes elas nem me assaltassem
quando tomo o meu café.

Mais valia a montra
e o que vai para além dela!
Ainda por cima
o papel amachuca-se nos bolsos
e depois nem consigo ler,
tudo fica tão ilegível e baço
como a vida para além da montra do café.

Afinal... tudo faz sentido!

In “A urgência das palavras” 
(2008)

sábado, 24 de maio de 2014

Senta-te à Beira-Rio

|Carina Portugal

Senta-te à beira-rio.
Atenta o barco que ali vai
Corrente a baixo, que se esvai
Entre os cabelos do estio.

Entrança seus rumos.
Sê guia do destino, feiticeira,
Sê aquela que é ao olhar sereia,
E ao escutar sussurros.

Toca o Sol ao pôr.
Emprestado toma-lhe então
Luz, aconchego e coração,
Que seu cerne é flama e ardor.

Lança-os ao vento,
Áureo nómada, mensageiro.
Envia-o ao teu marinheiro
Que ao céu reserva-se atento.

Sob o seu toque e beijo será viva
A recordação deixada ao largo,
A doce donzela que de encargo
Vela o regresso à despedida.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Fazer o outono de navalha no bolso

|E.M. Valmont

A navalha, fria, faz-se ouvir
mais que as palavras gritadas
na boca o sangue que advir
cuspido em postas sustidas

porventura almas mal nutridas
de letras, a fome espertina
o punho do pobre à guilhotina
de um país podre, nas despedidas

a navalha dá grandeza    
à guerra que se quer dizer  
em palavras, parece poder      
de certo apenas incerteza        

de como crescem as crianças
quando o outono deixar cair
as folhas mortas e as vinganças

de como crescem as crianças

sábado, 17 de maio de 2014

Beira Rio

|Matheus Mineiro


arrastei ate a beira desse poema  a carcaça
de uma  capivara que ate então vivia
roendo a beira da palavra rio
                          talvez
escavando seu sistema digestivo
eu colha  esse  rio
                      e ele me ensine a fluir
 tal-qualmente uma corrente.
digo escorrer
observando a noção de nascente
                                até as
primeiras pedras
                 e quedas e diques e esgotos.
me ensina arespirar com  as guelras dos  lambaris
 e decolar com  as asas das garças.
uma amiga índia chorou tanto uma vez que
de seus olhos saíram o Rio Passa Quatro, corredeiras e  mananciais.
eu poderia por um dia ser água turva,
estilo rio negro
e ser nadado por um boto rosa.
ou ser água da praia da cajaíba aguardando os espinhos do baiacu.
tenho amigos que parecem fontes de água mineral quando conversamos.
dispensar o cérebro qualquer dia desses
só para ter uma bacia hidrográfica dentro do peito.
ser rio e ser choro.
saber da esquisitice da água
que é embriagar  a  sede.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Porca selvagem do mato

|Matheus Mineiro

quando convive ou
 quando
escreve
tudo parece ferramenta cirúrgica que  bifurca  pele
quando convive ou quando escreve
cada sílaba é
 lâmina de  um canivete
que corta  a barriga de uma porca selvagem do mato
para jorrar um caldo 
muito
mas muito pastoso
até  que o  poema entre no mundo como um homem
 soltando grunhidos.
soltando grunhidos.
soltando grunhidos.
fazendo carícias na garganta do grito
se depara com o abatedouro diário
dentro do  pensamento.
 quando a lamina passeia pela  garganta da  porca selvagem do mato
percebes  que  o  mundo é aquela  irritação nas suas  amígdalas .
fazendo carícias na garganta do grito
A rotina da cidade é entalhe feito por instrumento cortante.
nos faz apalpar a lâmina de um serrote soletrando o verbo insistir.

junto a esse incomodo que é sentir o tédio cutucando meus rins.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Fertilizando

|Matheus Mineiro

mesmo completando 25 anos daqui a uma semana
deitado nesse  assoalho da modernização
entre o papo das estrelas com o  teto
acordo todo dia
como se fosse uma sílaba de um embrião
desenvolvendo-se dentro da palavra feto.
me seguro com as duas mãos bem firmes
no meu cordão umbilical ,cabo de guerra,        
acoplado na região abdominal do meu astral
ligado diretamente na placenta do planeta terra.
Estalos elétricos rompem do cérebro
nutrindo-o de instigas .
dias e meses e anos e juros se passam,como um javali do mato
calcando do abstrato ao concreto.
enquanto me querem ver  cadáver
acordo todo dia em estado de feto.ciente que é a partir de arranhões que se abre  a amplidão,
na infantilidade da unha já existe a disposição de garras.
enquanto me querem ver  cadáver
acordo todo dia em estado de feto.
ensopado de sonhos ,objeto antes distraído agora feito um animal desperto
acordo todo dia em estado eufórico de feto
ensopado de afeto e daquele liquido pastoso branco do pós parto.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Estilete

|Matheus Mineiro


a silaba tônica da palavra  rotina
estilete que  raspa qualquer  língua.
delicadamente no seu estiletar 
arranca uma pelanca do peito
e abre um fiorde que se estende ate o crânio,
saco do mamanguá
delicadamente aberto neste estiletar.
 de-li-ca-da-mente
qual estilete 
este 
que massageia a palavra cidade e
navalha tudo que nossas ânsias contem de casca,
de polpa,de  pele.
qual estilete 
este 
da silaba tônica da palavra rotina
 que perfura a rubra barriga da tarde
e vazam estrelas e estrelas e mais estrelas 
                           no preto pontilhado do piso  do céu
e cada cidadão em sua orbita
 vira de costas para o sol e se anoitece .
mesmo a  meia noite  pessoas agem
como um sol de meio dia que arde.
besunta os cacos de vidro
 com a saliva
quando soletra a palavra descanso.
rasga a letra M do mundo 
e espirra  uma  menstruação nuclear ,
carmesim,
que sera entornada dentro
de um  hermafrodita ;
num  útero de ovários que funcionam quão ogivas;
primeiro detona e
 depois surgem os cacos de luz.
os dias passam como um estilete ,
uma incisão cirúrgica sem sedativo
por nossas vidas.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Pequeno dossiê sobre a imensa problemática na rotina de um médio cid-adão

|Matheus Mineiro

boiar pela orbita da calçada
como se fosse  apenas mais um cometa
que  não cometa  trans
                                tornos em torno de si
sendo apenas mais um cometa
numa rua ,declive pulular,desse uni
                                                 verso
                                                 pop
                                                 ular.
I I
que destranca  a  porta da solitária palavra casa,
estende uma lua cheia  e outra lua minguante
 no varal estrelado da noite
e com o intuito de amanhã bem cedo
 vestir  a camiseta  azul do amanhecer
pendura  seu sol em algum cabide.
sendo  mais um dia escorrendo sobre seu corpo
sendo  mais um vento escorrendo sobre seu agreste.
vorazmente o calendário  range seus 12 dentes em 365 contrações
e este corpo agreste agradece os esforços  dos  corpos celestes
que impreterivelmente amanhecem e anoitecem
como  as pessoas que im-pre-te-ri-vel-
                                      - mente amanhecem e anoitecem.
mesmo com um chip implantado no fêmur das suas condutas.
I I I
sonha matar a sede na língua  da palavra montanha
para retornar  fluindo e jorrando pelas trilhas do dia a dia
abraçado pelos dois braços da  letra V que o conecta  ao verbo viver
nessa humanidade que é um Adão digital ,Adão negro de fuligem
perplexo e nu  diante das palavras;
com a mesma perplexidade da brisa quando é apresentada a um  tufão
vê sua costela menstruando e tenta endireitá-la ,mas costela é osso torto.
acorda  todo gênese diante dos apocalipses de todas as manhãs.
um esperma  a espera  da globalização.
dessa  gaiola  azul aqui ninguém corre.
Sendo que no dia do velório ao invés de choro
ocorrerá um chá de bebê eufórico e ao invés de flores e cova serás arremessado
dentro de uma bolsa fetal .

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Poesia

|Matheus Mineiro

Vulcão expele 5 milhões de pétalas
mas borrifo de gás metano e lava fica por conta dos corações e dos neurônios;
músculos e sentimentos constritores
enroscando do peito à cabeça
como uma píton de metros e metros.
deixar as pessoas tontas e distraídas
para assim sugar da sua corrente sanguina
toda tenacidade,
mas a motivação vem pra desentupir veias,arrebentar varizes,
colocar o ossos da coluna no lugar.
ser 15 elefantas africanas no cio dentro de um pequeno pote azul , que este o mundo.
mesmo sobre um col-chão de clarofilito
cada braço da rua,
calçadas,me benzem.
sonho com um olho e fico atento usando o outro.
repito a mesma posição
pélvica e transversal
em que me encontrava
dentro da bolsa fetal
de minha mãe.
no entanto sinto torcicolo,
inflação, imposições,regras
chumbo no pescoço de qualquer um.

repúdio aos horizontes estancados dentro de um monóculo.

domingo, 11 de maio de 2014

Mestre

|Luis Coelho

Seguem-te esquecendo-se,
Desvelam a ilusão,
nutrem-se no teu furúnculo,
Restringem-se
na acção, na cognição,
porque os injectas na sua base,
no seu homúnculo reptiliano,
porque os aprisionas na culpa ditosa,
crias as regras da sua estase,
os apetrechos ocos do seu córtex,

Opera-los, tritura-los, redu-los à sua condição,
Lembras-lhes a sua Humanidade,
porque é tua, a que já foi deles, pobre volição,
Trazes ao mundo a esperança,
quando oca é a vida e vã a temperança.

sábado, 10 de maio de 2014

Mapas

|Luis Coelho

Não me procures na urgência de medidas,
Não vejas em mim a tua distância definida,
Não procures no meu corpo os teus limites sucumbidos,
Não vislumbres no meu olhar a aceitação dos dias preteridos.
Não venho para dar Luz, como os instrumentos de outras Eras,
Não venho estender vias, como fronteiras predestinadas,
Trago em mim os velos e a urgência do mistério,
Trago comigo a Noite e a mística do baptistério,
Trago comigo a sombra e o silêncio das esculturas,
Trarei em mim o secreto e os deuses das alturas,
caindo como anjo mortal do solstício das agruras.

Não sou Razão, como via direccionada,
Não teço soluções nem a voz por muitos desejada,
Venho perturbar, riscar a meta na deturpação
da Verdade que os tempos devoraram ficcionada.


sexta-feira, 9 de maio de 2014

A Sagrada Família

|Luis Coelho

Pai, ao teu eco túrgido,
à Palavra com que cegas,
Condeno as liberdades,
porque não me concedo,
Não te mato em mim
de te fender nos outros,
Faço-te Lei num gesto grotesco,
no repente do medo,
de vis demónios consentidos.

Expiras em mim os pólos contrafeitos,
Limitas a minha dança à dúvida do regresso,
fazendo-me teu espelho,
no negro perecível do teu ouro,
no reflexo temível do teu núcleo.

Queres-me sombra à custa de me trazeres no teu espectro.
Queres-me luz à custa de querer trair o teu feltro.

E eu só quero ser a Mãe do teu repúdio,
matéria no asco dos teus limites,
desejo, sexo e vanidade
levitando,
mergulhando no centro do teu túmulo.

Mãe Sophia no teu filho de ousadias.
Mãe do retorno perpétuo,
comédia dos trabalhos, a tragédia dos dias,
Eu sou o filho e trago comigo a paixão
das verdades relativas, das mentiras rendidas.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

A paixão de Sophia

|Luis Coelho

Da Noite de enxofre, da costela de ouro,
do pneuma, da pleura, do Sopro vital,
Quedas-te do triunfo dos homens,
da Imaginação,
da montanha, da coroa, da obra da retorta,
do corpo inconsciente criação,
Fazes da carne a vaidade saturnina,
o palco do teu seio,
a rampa da saudade tempestiva
do vazio da profecia.



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Pater

|Luis Coelho

Repousas no desejo de seres
Dormes no anseio do sonho
Não pretendes vir a ser
E, não obstante, quere-lo,
Queres a insanidade,
a viagem e o plural,
Quedar com o sentido
do sem sentido,
Caminhar para a ti chegares
no momento primeiro,
no tempo do encontro
com a ilusão de um início.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Trindade

|Luis Coelho

Pai,
No teu sono de enxofre
desejas na impossibilidade
o rio do atrito da desventura,
E o filho,
que resvala na partitura da paixão,
na redução dos homens transviados,
na roda serpentina do retorno eternizado,
suplica a renúncia na libertação,
implora a sua própria rebelião,
para que a Verdade nele chame a contenda da dúvida,
para que a neurose, a culpa nele demande sacrifício,
o seu levitar materno, ousadia de Sophia,
a sua desmaterialização na fortuna iniciática,
pela ordem, acção e síntese
do Espírito feito alma alada,
Hermes enrubescido pelas viagens,
nesse equilíbrio mercurial
dos neurónios robustecidos,
do pensamento apaziguado.

O Espírito é a Noite de sonhos evolados
na tragédia finalizada na Origem,
no caminho conseguido de conspirado,
no trilho de perdido em nós tornado.


sábado, 3 de maio de 2014

A campanha da vida

|Clara Henriques


“Aderiu à campanha dos pontos?”
Grita uma voz, quase máquina, quase nada
Sobre um balcão de um café.
Ninguém lhe liga mas todos lhe respondem:
- Solidão.
Ninguém lhe fez o convite
Mas ela chega e é mundo, é vida, é chão.

De todos os olhares
Que cruzam o meu
Nenhum que saiba ficar
Nenhum que saiba lutar
E é já manhã.

Grito conforme o passo que me assiste
E nada insiste
Na palavra vã.

Sobra a multidão
De um mundo então
E de quem tem de fazer dos dias:
“Já aderiu à campanha dos pontos?”
Para ganhar o pão.


E a resposta é Não.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Poemas de Hugo de Oliveira

|Hugo de Oliveira

Usurpador de sonhos

E nesse sonho partilhado,
Repousamos juntos,
Peito forte, sentido agarrado,
Nessa luta desigual,
Disputamos nosso leito,
E despertos nesse sorriso apartado,
Vagueamos pela razão,
Nessa distância de um beijo que nos separa.
E reiteras teu poder,
Nesse corpo díspar,
Encanto de mil-sóis, nesse cara-a-cara.
São curvas que me fascina,
Imperativa vazão,
Sentimos percorrer sem freio,
Autoritária forma de sentir,
Esse toque jamais esquecido,
Meio forte gasto, ainda me faz sorrir.
Não serei eu nem tu,
Tampouco essa multidão,
Apenas unidos,
Pertenço-te,
Nessa dança trivial,
De corpos fundidos,
Presos e colados por uma mácula divinal,
Que suaviza este enlace,
Esta noite por vezes carnal, outrora anal.
E fugimos no incerto,
Nessa linha que separa a tua face,
Metade mulher, outra animal,
Finges sentir vozes ocultas,
Enquanto brincas no escuro,
Roubando e usurpando sons melancólicos,
Construindo teu reino,
Castelo sem futuro.

*

Maldito tempo

Maldito tempo, monótono e ausente,
Perdido num beijo, por vezes carnal, outrora ardente,
De amanhecer cáustico, noite presente,
Preenchido por virgens num sufoco gritante.
E as perdidas, deveras esguelhadas,
Tatuam em fogo, corpo demente,
E da brisa de orgia crescente,
São membros teus, pernas escumalhas.
Sou prazer desse sexo misterioso,
Noite voluptuoso, seios chocantes,
Parceiras ciosas, do beijo que procuras,
Neste tempo que me absorve,
Chupa, faz-te prisioneira de toques orais,
E sente dor, bem profunda que me consome,
Para crescer em ti, pedaços divinos,
Nesta pura sentinela do novo luar.
Sim, é o tempo que nos permite procriar,
Quais fantasias, quais animais,
São corpos difusos, olhares cristalinos.

*

Calafrio

Nesse frio, pele de mulher que se debruça,
Que lasciva estonteante nos meus braços, certos seios,
Que me arrebate, beija e deslumbra,
Versos soltos, poesia estranha, amor feio, por fim.
Esse ser, pedaço melancólico,
Que finge sentir e lambuzar os meus doces receios,
A quem me entreguei nessa cruel ventura,
A quem jorrou, fácil, papel clandestino.
Sim, essa mulher que a cada amor grita,
A verdade gemida de quem ama,
Preso nas marcas rasgadas, mordido assim.
Esse ser traduz-se num universo sem fim,
Animal sem freio, deturpado no meu rosto,
Que no suave balançar de gestos coordenadas,
Seduz-me nesse bramido estridente,
Nesse corpo, saciado em mim.

*

Hugo de Oliveira
Nasceu a 27 de Março de 1988, numa pacata aldeia no concelho de Felgueiras, porém a vontade de respirar confusão de uma vida cosmopolita levou-o, atualmente, para a agitada cidade de Lisboa.

No tocante à sua formação académica e literária é licenciado em Relações Internacionais (Universidade do Minho), com especialização em Ciência Política (ISCTE-IUL), diz rever na arte das palavras uma diplomacia abstrata de expressões.

Canhoto assumido analisa de uma outra perspetiva o ângulo literário deste tão nobre dom, a escrita.

Entusiasta das emoções, apreciador nato de artes expressivas, do teatro ao cinema, descreve-se num meio-termo de uma obra inacabada.

Autor dos livros:
"Mulher Chuva" (Chiado Editora - Outubro, 2012);
“Pecado & Luxúria” (Chiado Editora – Setembro, 2013)





segunda-feira, 28 de abril de 2014

Caça-Fantasma

|Maíra Matthes

outra vez
ser convencida pela palavra
‘último’
e
seus ecos
parar ali onde no limite ela significa
‘túmulo e cimento’
ficar ali
imóvel
onde eu digo:
‘barro’
e você entende
 ‘rosas amarelas sobre a lápide cinza’
como se tivéssemos derradeiramente tocado o limite do significado de
 ‘falta de ar’
como quem tenta pronunciar
‘enfim a última vez’
‘o túmulo-vez’
‘o cimento-vez’
‘o barro-vez’
que você me toca no ombro com esses seus dedos arrgh frios
*
Rio de Janeiro. Primeiro de novembro de 2013
Nada mais vermelho em minha pele;
Eu sou você com os cabelos castanhos claros;
Eu sou você enrolada em lençóis brancos;
Eu sou você com os dedos frios;
Come back and haunt me
Etc.
*
a ‘Ultima-Cimento-Barro-Lápide-Vez’
que nossos ácidos ficam inertes e as
cinzas nem tentam derreter o ar
outra vez
agora
de vez
a

‘Ultima-Cimento-Barro-Lápide-Vez’

sábado, 26 de abril de 2014

E então nós éramos duas

|Maíra Matthes


E então nós éramos nós duas

e nós éramos assim:

Saia & Short

e moças soltas sem pai

o dela: sumido para ninguém nunca mais ver quando foi  (DE VERDADE) comprar cigarros numa esquina que o desapareceu.
o meu:  vivo vivinho – “o mesquinho” – fazendo contas com a boca sempre aberta se alimentando de álcool e mel.  

e éramos,

então, 

ninfas

queimando a argila de uma no úmido da outra.

e correndo do escuro-escuro que estava no quase de engolir a gente, de matar a gente toda.

Short corria com rodas rápidas − fugia com cor preta pintada no céu – ela ia pintando assim que ia passando.

Saia fugia arrastava os móveis com seus órgãos moles suas mãos imensas e o coração tentáculo comendo nada.

éramos 

então

juntas na fuga do escuro-escuro que nos espreitava – estrategeava nosso fracasso

mas

estávamos correndo e assim também acontecia tropeções em calcinhas e dragões que ficavam no corredor.

Short matava 3.500.50, 55 dragões por dia.

Saia jogava as calcinhas fora – saía abria o corredor para a janela – para o aberto-reto, o fundo abstrato-branco que ela conseguia (só ali!) respirar.

mas Short se cansou e

“contumaz,”

entrou num cômodo que não tinha janela

e não tinha branco e

não tinha abstrato e

então Short

tirou martelos e foices do seu bolso gigante e destruiu a parede do quarto com krátos e 
bíe.

a parede caiu

Short saiu

fez um corredor no meio dos tijolos todos no chão

cor laranja

cor não entendia qual era a cor

Saia então – do branco distante (só ali vivia!) olhou estarrecida todos os pedaços que foram uma vez parede

e

chorou.

Short cortou tudo que precisava cortar nem chorou nem entendeu partiu correndo levando apenas um presente de Saia (em baixo dos braços) – 
o xerox colorido da Vênus de Botticelli.

E então éramos

nós duas

correndo

cada uma para um lado

no fim.




sexta-feira, 25 de abril de 2014

A explosão do balão vermelho

|Maíra Matthes


depois

morro mais uma vez

como imagino que uma mulher do séc. XIX morreria pois é mais poético morrer como uma mulher do séc. XIX morreria mesmo se você for um homem

ou

porque é melhor morrer como qualquer outra pessoa morreria

e

deve ser bom não morrer sozinho

de verdade

eu digo

como se existisse alguém dentro da sua mente acompanhando sua morte dentro de você e esse alguém      

sim

diria coisas que você gostaria de dizer

“o estupro ao solipsismo é o que eu sempre entendi por penetração”

e então

talvez

você se sentisse menos

(i)

insaisissable

(ii)

a virgem velha morrendo sozinha em minas de minério

(iii)

a imagem mental de 
caverna

(iv)

a coisa em si da 
caverna

(v)

uma caverna qualquer (que ninguém ainda se deu o trabalho de chamar de           caverna)

até o momento em que

psiu!

sua vida

explode num balão vermelho