| Maria João
Deixo a cabeça no quarto do hospital e o corpo que desce no elevador ouve com desapego conversas banais, repara na tinta lascada dos rodapés, conta as ricas menos perfeitas das passadeiras. Nós, os mortais, quando confrontados com essa mesma natureza, sentimo-nos absortos, como que a pairar no tempo e no espaço. Olha-se a loucura das preocupações diárias como infinitamente ridícula. É-se sem estar. Descolamo-nos de nós próprios e de quem não vive a mesma situação. O quotidiano perde sentido.
A metáfora banal que me ocorre é a de uma ida crítica a um vulgar restaurante chinês. De repente parece-me aberrante a conjugação da delicada loiça de motivos sínicos com os garfos e facas brutos e industrializados. A incongruência entre o fino recorte ondulado das toalhas vermelhas e a protecção plastificada e já baça que as cobre. A contradição entre o orientalismo da designação dos pratos e carta de sobremesas onde habitam vienettas e copos de gelado de baunilha e chocolate. E, sobretudo, ecoa em mim uma profunda estranheza ao constatar a naturalidade com que todos se alimentam destes paradoxos. Sinto-me a única a detectar arestas num planeta que juram ser esférico.
Não arrisco escrever sobre o que não vivi em primeira mão: perder quase totalmente a audição em 72 horas. Observei-o. Vi-o a acontecer à pessoa que me é mais próxima. A comunicação, ao contrário do que se possa pensar, não deixa de existir. Transforma-se. O automatismo de pegar no telemóvel, o acto de falar perde terreno em relação à escrita. Vê-se a falta que o outro sente da gargalhada, do som da água a cair do chuveiro. Apercebo-me até que ponto vai o poder da audição: sem ela não se nota sequer a presença do outro que se aproxima de nós. Desiste-se de socializar. Esgota-se, muito rápido, a paciência de pedir que se repita pela quinta vez o que se acabou de não ouvir. A espontaneidade é protelada, arrastada até se esvair. Cede-se ao isolamento. E são imensas as saudades da música.
Quando o diagnóstico está realizado – surdez súbita –, o tratamento fixado – doses industriais de corticoides – e nada mais resta do que a espera (precisamente um mês, para que se registem melhorias face a uma situação que pode não ser reversível), a passagem de um médico pela cama do hospital torna-se mais rara. Sente-se a impotência. A nossa e a deles. As batas brancas medem as palavras. Refugiam-se na objectividade, no distanciamento de um vocabulário próprio. Aguardam-se resultados de baterias de exames que, quando chegam, apontam para a mais frustrantes das conclusões: causa idiopática, desconhecida. As decisões médicas assemelham-se a uma cabra cega polida e pragmática, que combina a citação dos mais recentes papers da especialidade com uma fórmula de algibeira e vão de escada: “como não prejudica, tenta-se”. Arrisca-se; nada se exclui. Contudo, para quem assiste deste lado, as opções diminuem a passos largos e a incapacidade de prever desfechos e prazos abana a mais forte das crenças no potencial da ciência. Solicitam-se segundas e terceiras opiniões e obtêm-se as mesmas respostas. Para uma universitária como eu, a ausência de soluções é dilacerante. A insuficiência do conhecimento humano e as consequências radicais que daí advêm são revoltantes. A paciência sem resignação parece atributo de santo. Aprende-se, tão-só, a fingir a serenidade. A contrariar o impulso de todos os dias aguardar e indagar alterações.
O quarto fica situado no fundo do corredor. Nunca pensei que um extenso eixo espacial pudesse ser tão útil. Ao longo deste percurso tudo é asséptico. Nem mesmo as reproduções baratas de obras da colecção do Centro de Arte Moderna furam a tonalidade impessoal, artificial, esverdeada, que infecta tudo na sua eficácia racionalista. Pelo meio, uma minúscula sala de espera, o único lugar onde existe uma televisão. Uma divisão deprimente, de intimidade e familiaridade forçadas pela pequenez de metros quadrados, filas de cadeiras pegadas e ordenamento exposto, sem recato. Todo o trajecto permite uma preparação, uma mentalização. Prega-se um sorriso no rosto. Os olhos desumidificam-se a ferros. Ensaiam-se três frases de ânimo e revolve-se a cabeça em busca de quatro assuntos de conversa lida nos lábios. Girafas, zebras, chimpanzés. Tudo é permissível menos o elefante branco na sala.
Oiço os meus próprios passos, como se o chão possuísse cola. Gostaria de ter mais 500 metros pela frente. Mas a porta está já ali. Entro. A linguagem corporal ganha um peso renovado e, por isso mesmo, tem de ser controlada com especial cuidado por quem quer apoiar e ser uma presença positiva. Tudo no meu corpo procura desesperadamente sorrir. Ao lado, acumulam-se «casos», que cortinas separam visualmente e que a surdez aparta por completo. Dá-se o que se tem e o que não se tem até o horário de visita se prolongar para além do aceitável. De novo o elevador. Uma parte de mim sai, a outra fica.
O mundo para durante duas semanas. No entanto, por via de um comportamento por certo explicável pela psiquiatria, retorno, lentamente, a níveis de funcionalidade que me levam a regressar ao trabalho, a voltar a encher a despensa de compras e a ir mesmo até a um jantar de aniversário. Não me sinto completa na realização de qualquer uma destas tarefas. Mas exaurida e consumida, anseio, não sem culpa, por alguma, ainda que falsa, normalidade.
Esta é uma crónica sem um final feliz, numa época em que se deseja consumir literatura de aconchego. Mais grave do que isso, ao centrar-se numa experiência pessoal tornou menos prováveis as pontes racionais e emocionais com o leitor. Julgo, porém, que de um episódio particular e raro como este se podem extrair leituras de aplicação global. Assim acontece porque todos temos, independentemente das variáveis, algo em comum. Vivemos, a larga maioria dos dias, descentrados do que realmente (nos) importa e alheados da nossa fragilidade. Tratar-se-á, possivelmente, de um mecanismo de sobrevivência. Uma consciência integral da precariedade humana acarretaria um peso insuportável que redundaria na celebração presentificadora do quotidiano ou numa existência teleológica penitente. O caminho estará algures no meio, entre a alienação saudável que nos permite elaborar planos e o suficiente relativismo que nos concede a sabedoria de conferir o peso certo a cada aparente drama da nossa vida.
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria João. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria João. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 5 de março de 2014
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Sem notas de rodapé – Sobre o vício
|Maria João
Escrevo-vos em abstinência. Entenda-se: estado de privação de um vício prejudicial a vários níveis. Esta crónica é destinada a viciados e não viciados. Para os primeiros, na expectativa de que se reconheçam e tirem daí as consequências que quiserem. Dirigida aos segundos, na tentativa de que nos compreendam.
Seja qual for a forma que assuma, o vício constitui um espaço – diria um dos raríssimos espaços – de individualidade suprema. Naquele acto está-se consigo próprio apenas. É algo onde mais ninguém entra nem reclama posse. Como um outro eu, a adição possui uma inteligência emocional autónoma. Conhece-nos e sabe exactamente o que precisamos em cada altura. Amplifica as boas sensações. Analgesia os momentos mais solitários. Nela encontramos sempre o que se procuramos. Sem perguntas. Nunca nos obriga a traçar a fronteira entre o certo e o errado. Não nos confronta com o intervalo entre o que somos e o que queremos ser. Alimenta, simplesmente, a necessidade de evasão. É, ao mesmo tempo, um mecanismo de fuga e de suporte da realidade. Anestesia-nos. Como escape que representa, previne o desvio radical. Garante mais uma dezena de voltas submissas, arrastando o peão no tabuleiro da quotidianidade. E perante o cansaço da mesmidade diária, o vício sente-se como um direito. Conquistado, merecido, legítimo.
O que mais me intriga e frustra no vício é o sistema teórico que construímos para o sustentar. Longe de ser um estado transitório de loucura, uma avaria no fusível da sensatez ou um distúrbio mental que nos torna inimputáveis aos olhos da lei, o vício convive com a nossa racionalidade. Temos plena consciência dos seus efeitos adversos. Não somos nem nos sentimos «nós» quando em privação. A dependência é palpável, corrói ainda que possa ser disfarçada. Sabemos as causas e verificamos a degeneração. Odiamos o eu viciado, sentado no canto oposto do ringue. Convencemo-nos a iniciar o combate. Marcamos uma data. Repetimos este procedimento até perder conta das vezes, embrulhados numa guerrilha travada interna e diariamente. Fracassamos. Quebramos promessas com auto-desilusão, mas sem arrependimento. Proferidas por nós, são nossas por descumprir. Existe algo de profundamente satisfatório em cometer um erro. Ponderadas as contribuições positivas que, dia-a-dia, lutamos por alcançar, torna-se tentador e libertador o acto de nos prejudicarmos a nós próprios. Uma dor que se suporta porque somos os seus únicos receptores.
Nestas ocasiões gostaríamos de ser dementes ou alienados. No entanto, todos os regressos à estaca zero ocorrem sob a luz da mais perfeita lucidez. Acarretam, por isso, doses consideráveis de censura e de repúdio pela parcela do cérebro que foge ao nosso controlo. E é neste culminar da evidência de fragilidades próprias que, porque humanos falíveis que todos somos, abraçamos de novo a adição temporariamente ausente.
É incrível o vazio que um vício dominado deixa nas nossas vidas. Talvez mesmo só proporcional, por estranho que pareça, ao quão ocos nos sentimos imediatamente após o seu consumo. É um substituto sem substituição possível. Quando gasto, resta aguardar o reencontro, no qual se deposita a esperança de que ele apague, desligue, interrompa. Seja o que for. Diferente, por certo, para cada um.
Não prometo que amanhã não caia. Conto cada dia como uma vitória, mas não agendo festejos nem prevejo remissões totais. Desconfio de mim própria. Sou polícia de mim mesma.
Escrevo-vos em abstinência. Entenda-se: estado de privação de um vício prejudicial a vários níveis. Esta crónica é destinada a viciados e não viciados. Para os primeiros, na expectativa de que se reconheçam e tirem daí as consequências que quiserem. Dirigida aos segundos, na tentativa de que nos compreendam.
Seja qual for a forma que assuma, o vício constitui um espaço – diria um dos raríssimos espaços – de individualidade suprema. Naquele acto está-se consigo próprio apenas. É algo onde mais ninguém entra nem reclama posse. Como um outro eu, a adição possui uma inteligência emocional autónoma. Conhece-nos e sabe exactamente o que precisamos em cada altura. Amplifica as boas sensações. Analgesia os momentos mais solitários. Nela encontramos sempre o que se procuramos. Sem perguntas. Nunca nos obriga a traçar a fronteira entre o certo e o errado. Não nos confronta com o intervalo entre o que somos e o que queremos ser. Alimenta, simplesmente, a necessidade de evasão. É, ao mesmo tempo, um mecanismo de fuga e de suporte da realidade. Anestesia-nos. Como escape que representa, previne o desvio radical. Garante mais uma dezena de voltas submissas, arrastando o peão no tabuleiro da quotidianidade. E perante o cansaço da mesmidade diária, o vício sente-se como um direito. Conquistado, merecido, legítimo.
O que mais me intriga e frustra no vício é o sistema teórico que construímos para o sustentar. Longe de ser um estado transitório de loucura, uma avaria no fusível da sensatez ou um distúrbio mental que nos torna inimputáveis aos olhos da lei, o vício convive com a nossa racionalidade. Temos plena consciência dos seus efeitos adversos. Não somos nem nos sentimos «nós» quando em privação. A dependência é palpável, corrói ainda que possa ser disfarçada. Sabemos as causas e verificamos a degeneração. Odiamos o eu viciado, sentado no canto oposto do ringue. Convencemo-nos a iniciar o combate. Marcamos uma data. Repetimos este procedimento até perder conta das vezes, embrulhados numa guerrilha travada interna e diariamente. Fracassamos. Quebramos promessas com auto-desilusão, mas sem arrependimento. Proferidas por nós, são nossas por descumprir. Existe algo de profundamente satisfatório em cometer um erro. Ponderadas as contribuições positivas que, dia-a-dia, lutamos por alcançar, torna-se tentador e libertador o acto de nos prejudicarmos a nós próprios. Uma dor que se suporta porque somos os seus únicos receptores.
Nestas ocasiões gostaríamos de ser dementes ou alienados. No entanto, todos os regressos à estaca zero ocorrem sob a luz da mais perfeita lucidez. Acarretam, por isso, doses consideráveis de censura e de repúdio pela parcela do cérebro que foge ao nosso controlo. E é neste culminar da evidência de fragilidades próprias que, porque humanos falíveis que todos somos, abraçamos de novo a adição temporariamente ausente.
É incrível o vazio que um vício dominado deixa nas nossas vidas. Talvez mesmo só proporcional, por estranho que pareça, ao quão ocos nos sentimos imediatamente após o seu consumo. É um substituto sem substituição possível. Quando gasto, resta aguardar o reencontro, no qual se deposita a esperança de que ele apague, desligue, interrompa. Seja o que for. Diferente, por certo, para cada um.
Não prometo que amanhã não caia. Conto cada dia como uma vitória, mas não agendo festejos nem prevejo remissões totais. Desconfio de mim própria. Sou polícia de mim mesma.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Sem notas de rodapé – Fim de um ano, começo de outro
|Maria João
O fim de um ano e o começo de outro é para mim sempre um momento de balanço. Talvez por feitio, por ser exigente demais comigo e com o mundo, tendo a percepcionar sempre um saldo negativo. Egoísmo, falta de perspectiva, ingratidão. Sublinho a vermelho o que me falta e dou por garantida a longa lista de factores e o curto rol de pessoas que me proporcionam felicidade. Esta é, aliás, uma palavra que raramente pronuncio. Reconheço-a à posteriori, revejo-a naquela situação, invariavelmente passada, pintada com as cores eufemísticas da memória selectiva. Por norma, obcecada com objectivos e cortes de fitas em prazos calculados, grito mentalmente as cinco ou seis determinações que imponho a mim mesma para os próximos 365 dias, enquanto à boa maneira de uma céptica que não quer correr riscos, como as detestáveis doze passas em cima de uma cadeira.
Quis ser diferente nesta passagem de ano. Senti ridícula a Maria João das metas e métodos. Resolução inédita: não ter resoluções. Não pedir a publicação de um livro, uma posição estável no quadro da universidade ou a descoberta de uma pessoa significativa. Sobretudo isto. Resistir à tentação deprimente de pedir felicidade. De gastar, confesso, todas as doze, insuportáveis mas preciosas, passas com este último desejo. Ao invés, sentir-me privilegiada pela noite com amigos queridos. Perante o início de um novo intervalo de tempo que a Terra demora para completar uma volta em torno do Sol, ter a humildade de aceitar que estou a caminho, que ainda estou a caminho. Não vou chegar. Saber que não vou chegar. Perceber que viver é isso mesmo: pôr um pé à frente do outro; conseguir identificar o que de bom nos traz o percurso; lidar o melhor possível com o inesperado e aproveitar a viagem. John Lennon disse-o bem melhor do que eu: “life is what happens to you while you're busy making other plans”. Neste sentido, arriscaria afirmar que a felicidade é o conjunto de momentos que deixamos de reconhecer enquanto permanecemos obcecados pela sua busca. Os meus votos para vós não são, por isso, um “feliz 2014”, mas, sim, os de uma caminhada consciente de si própria, atenta e grata pela sua própria imprevisibilidade.
O fim de um ano e o começo de outro é para mim sempre um momento de balanço. Talvez por feitio, por ser exigente demais comigo e com o mundo, tendo a percepcionar sempre um saldo negativo. Egoísmo, falta de perspectiva, ingratidão. Sublinho a vermelho o que me falta e dou por garantida a longa lista de factores e o curto rol de pessoas que me proporcionam felicidade. Esta é, aliás, uma palavra que raramente pronuncio. Reconheço-a à posteriori, revejo-a naquela situação, invariavelmente passada, pintada com as cores eufemísticas da memória selectiva. Por norma, obcecada com objectivos e cortes de fitas em prazos calculados, grito mentalmente as cinco ou seis determinações que imponho a mim mesma para os próximos 365 dias, enquanto à boa maneira de uma céptica que não quer correr riscos, como as detestáveis doze passas em cima de uma cadeira.
Quis ser diferente nesta passagem de ano. Senti ridícula a Maria João das metas e métodos. Resolução inédita: não ter resoluções. Não pedir a publicação de um livro, uma posição estável no quadro da universidade ou a descoberta de uma pessoa significativa. Sobretudo isto. Resistir à tentação deprimente de pedir felicidade. De gastar, confesso, todas as doze, insuportáveis mas preciosas, passas com este último desejo. Ao invés, sentir-me privilegiada pela noite com amigos queridos. Perante o início de um novo intervalo de tempo que a Terra demora para completar uma volta em torno do Sol, ter a humildade de aceitar que estou a caminho, que ainda estou a caminho. Não vou chegar. Saber que não vou chegar. Perceber que viver é isso mesmo: pôr um pé à frente do outro; conseguir identificar o que de bom nos traz o percurso; lidar o melhor possível com o inesperado e aproveitar a viagem. John Lennon disse-o bem melhor do que eu: “life is what happens to you while you're busy making other plans”. Neste sentido, arriscaria afirmar que a felicidade é o conjunto de momentos que deixamos de reconhecer enquanto permanecemos obcecados pela sua busca. Os meus votos para vós não são, por isso, um “feliz 2014”, mas, sim, os de uma caminhada consciente de si própria, atenta e grata pela sua própria imprevisibilidade.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Sem notas de rodapé - Os homens arrumados em três gavetas
|Maria João
Há cerca de um mês tive oportunidade de conhecer a teoria proposta em 2004 pelo psicólogo americano Barry Schwartz, na obra The Paradox of Choice: Why More Is Less. O autor defende que a garantia da liberdade de escolha associada à multiplicação de opções, sustentada (não só, mas também) pelas plataformas comerciais, transformam o homem contemporâneo, paradoxalmente, num ser mais infeliz. A razão é simples: o universo a partir do qual se elege um ser ou um objecto tornou-se de tal modo vasto que o processo de selecção provoca ansiedade e exaustão, em resultado do aumento assinalável da possibilidade de errar. A hipótese de Barry Schwartz faz de imediato sentido quando nos recordamos do tempo que despendemos a percorrer um longo corredor do Jumbo que albergue todos os tipos de géis de banho ou desodorizantes disponíveis. Por instantes, não vos parece sedutora a ideia de uma prateleira com apenas três variedades de elixires bucais?
Pragmática como sou, decidi tentar simplificar a vida a metade da humanidade, rotulando a outra metade – os homens – em três categorias. Um trio de gavetas, em que os possamos arrumar e retirar de acordo com as nossas preferências, sabendo, previamente, a composição, a posologia e as contra-indicações de cada espécie. Trata-se, é claro, de um exercício de aberrante redução e definição de um campo complexo, com múltiplas variáveis. Embora consciente do seu carácter falível e artificial, não resisti a pô-lo em prática.
Suficiente experiência pessoal e abundantes conversas com ambos os sexos (uma amostra inválida para se extrair uma lei geral, bem sei), evidenciam a existência de três gavetas. A primeira, acessível assim que nos abeiramos da cómoda, ao nível da cintura, abre-se com a maior das facilidades. Lá encontram-se os “cordeirinhos”. Estes homens, geralmente com uma auto-estima em alerta vermelho, dão tudo o que conseguem à mulher com quem estão. Inclusivamente, as «calças». Dependem delas para planear o dia seguinte, são pisados e não ripostam. Ideais para pessoas que se satisfazem com a manipulação, o controlo e o apagamento dos outros, tornam-se, porém, desinteressantes para quem gosta de uma relação equilibrada, com partilha de decisões e um cultivo saudável de agendas pessoais e interesses próprios. Os “cordeirinhos” possuem, com frequência, consciência da assimetria dos contactos que cultivam. Podem, até mesmo, mascarar-se, numa fase inicial, de lobos maus. No entanto, mais cedo ou mais tarde, assumem a única postura que julgam garantir um final feliz: a da auto-anulação. Esta gaveta permanece eternamente vazia ou ocupada.
Sabiam que, quando temos três cartas viradas ao contrário, a maioria das pessoas inclina-se para virar a do meio? De facto, o sucesso da gaveta intermédia deve ser reconhecido. Habitam-na os “bodes”. Trata-se do espécime masculino da cabra, popularmente conhecido por outro vocábulo. A sua associação iconográfica à figura do diabo é estabelecida com firmeza na Idade Média. Não por acaso. Os “bodes” detêm um poder de sedução e conquista de almas comprovado há séculos. Descobriram e praticam até à exaustão o Santo Graal da captação do interesse de uma mulher: o coice, conhecido, na gíria, como o acto de “dar para trás”. Seguras ou instáveis, mais ou menos instruídas ou favorecidas pela mãe natureza, todas lhe vão comer à mão. Até ele deixar de estender, sem aparente motivo compreensível, a sua pata dianteira. Ou até a mulher recuperar amor-próprio suficiente para o mandar pastar. As estatísticas indicam, porém, a clara prevalência do primeiro desfecho. Deduz-se, com facilidade, que nesta gaveta, jamais repleta, se acha sempre alguma coisa, um pouco de tudo e de nada. Multiusos, não pertence a ninguém. Tudo o que couber pode potencialmente ser lá colocado e, regra geral, esquecido.
Por fim, na gaveta mais abaixo, aquela cujo acesso exige algum esforço (pelo menos o de dobrar as costas e, portanto, mudar a nossa linha do horizonte), residem os “cordeiros místicos”. Constituem o exemplar mais raro e difícil de descrever. Ironicamente, uma vez na sua presença, reconhecemo-los de imediato. Balanceiam, com naturalidade, o dar e o receber, a autonomia e a entrega sem reservas, a determinação de quem sabe o quer e o olhar compreensivo perante o mundo. Não receiam ser exigentes consigo e com os outros. Sabem o valor de um abraço. Defendem uma paridade construída dia-a-dia. Fazem desabrochar o que de melhor há na sua parceira.
Infelizmente, esta gaveta apresenta-se, na maior parte dos casos, cheia, comprometida já com qualquer utilização. Poucas vezes bem arrumada, é certo. Os “cordeiros místicos” são traídos pela sua esperança num encaixe perfeito. Insistem em tentar. Nesta gaveta alojam-se objectos grandes ou pequenos demais. Uma gaveta que, quando semi-ocupada, se sente vazia. Uma gaveta que, contendo algo volumoso e conscientemente desajustado, permanece sempre entreaberta, esperando, em segredo e no limiar mínimo da fé, o dia em que uma única peça a complete.
Todos os exercícios de interpretação da realidade desafiam-nos a reflectir até que ponto a nossa contextualidade afecta a validade da grelha conceptual adoptada. Preciso, precisamos todos, de desconstruir as nossas cómodas ou, pelo menos, de reconhecer que não existem gavetas estanques. Um “bode” pode ser um homem que se fartou de ser “cordeirinho”. É possível um “cordeiro místico” ressuscitar de um passado como “bode” ou “cordeirinho”. As experiências moldam-nos e cada pessoa desperta em nós reacções diferentes, por vezes mesmo antagónicas.
Os três substantivos são categorias puras, teóricas, extremadas, impermeáveis. A realidade, essa, é feita de contaminações. Homens – e, acrescente-se, mulheres – já se aproximaram, diria eu, em alguma situação da sua vida, de uma das tipologias referidas. Ainda assim, ao ler a crónica deste mês, o mais provável será sentir que não coincide com nenhuma na perfeição. Catalogar, classificar, etiquetar é a ferramenta mais velha para tentar lidar com o que nos cerca. Falha? Constantemente. E, porém, todos a aplicamos no nosso quotidiano, com maior ou menor consciência. No limite, trata-se de um mecanismo de sobrevivência: depois de atacado pelo primeiro tigre, o homem activa um pré-conceito assim que vê um segundo tigre, mesmo que infinitamente diverso. Talvez a vida na Suécia seja diferente. Na minha, suspeito que na nossa, nem o IKEA consegue oferecer soluções de arrumação convincentes.
Há cerca de um mês tive oportunidade de conhecer a teoria proposta em 2004 pelo psicólogo americano Barry Schwartz, na obra The Paradox of Choice: Why More Is Less. O autor defende que a garantia da liberdade de escolha associada à multiplicação de opções, sustentada (não só, mas também) pelas plataformas comerciais, transformam o homem contemporâneo, paradoxalmente, num ser mais infeliz. A razão é simples: o universo a partir do qual se elege um ser ou um objecto tornou-se de tal modo vasto que o processo de selecção provoca ansiedade e exaustão, em resultado do aumento assinalável da possibilidade de errar. A hipótese de Barry Schwartz faz de imediato sentido quando nos recordamos do tempo que despendemos a percorrer um longo corredor do Jumbo que albergue todos os tipos de géis de banho ou desodorizantes disponíveis. Por instantes, não vos parece sedutora a ideia de uma prateleira com apenas três variedades de elixires bucais?
Pragmática como sou, decidi tentar simplificar a vida a metade da humanidade, rotulando a outra metade – os homens – em três categorias. Um trio de gavetas, em que os possamos arrumar e retirar de acordo com as nossas preferências, sabendo, previamente, a composição, a posologia e as contra-indicações de cada espécie. Trata-se, é claro, de um exercício de aberrante redução e definição de um campo complexo, com múltiplas variáveis. Embora consciente do seu carácter falível e artificial, não resisti a pô-lo em prática.
Suficiente experiência pessoal e abundantes conversas com ambos os sexos (uma amostra inválida para se extrair uma lei geral, bem sei), evidenciam a existência de três gavetas. A primeira, acessível assim que nos abeiramos da cómoda, ao nível da cintura, abre-se com a maior das facilidades. Lá encontram-se os “cordeirinhos”. Estes homens, geralmente com uma auto-estima em alerta vermelho, dão tudo o que conseguem à mulher com quem estão. Inclusivamente, as «calças». Dependem delas para planear o dia seguinte, são pisados e não ripostam. Ideais para pessoas que se satisfazem com a manipulação, o controlo e o apagamento dos outros, tornam-se, porém, desinteressantes para quem gosta de uma relação equilibrada, com partilha de decisões e um cultivo saudável de agendas pessoais e interesses próprios. Os “cordeirinhos” possuem, com frequência, consciência da assimetria dos contactos que cultivam. Podem, até mesmo, mascarar-se, numa fase inicial, de lobos maus. No entanto, mais cedo ou mais tarde, assumem a única postura que julgam garantir um final feliz: a da auto-anulação. Esta gaveta permanece eternamente vazia ou ocupada.
Sabiam que, quando temos três cartas viradas ao contrário, a maioria das pessoas inclina-se para virar a do meio? De facto, o sucesso da gaveta intermédia deve ser reconhecido. Habitam-na os “bodes”. Trata-se do espécime masculino da cabra, popularmente conhecido por outro vocábulo. A sua associação iconográfica à figura do diabo é estabelecida com firmeza na Idade Média. Não por acaso. Os “bodes” detêm um poder de sedução e conquista de almas comprovado há séculos. Descobriram e praticam até à exaustão o Santo Graal da captação do interesse de uma mulher: o coice, conhecido, na gíria, como o acto de “dar para trás”. Seguras ou instáveis, mais ou menos instruídas ou favorecidas pela mãe natureza, todas lhe vão comer à mão. Até ele deixar de estender, sem aparente motivo compreensível, a sua pata dianteira. Ou até a mulher recuperar amor-próprio suficiente para o mandar pastar. As estatísticas indicam, porém, a clara prevalência do primeiro desfecho. Deduz-se, com facilidade, que nesta gaveta, jamais repleta, se acha sempre alguma coisa, um pouco de tudo e de nada. Multiusos, não pertence a ninguém. Tudo o que couber pode potencialmente ser lá colocado e, regra geral, esquecido.
Por fim, na gaveta mais abaixo, aquela cujo acesso exige algum esforço (pelo menos o de dobrar as costas e, portanto, mudar a nossa linha do horizonte), residem os “cordeiros místicos”. Constituem o exemplar mais raro e difícil de descrever. Ironicamente, uma vez na sua presença, reconhecemo-los de imediato. Balanceiam, com naturalidade, o dar e o receber, a autonomia e a entrega sem reservas, a determinação de quem sabe o quer e o olhar compreensivo perante o mundo. Não receiam ser exigentes consigo e com os outros. Sabem o valor de um abraço. Defendem uma paridade construída dia-a-dia. Fazem desabrochar o que de melhor há na sua parceira.
Infelizmente, esta gaveta apresenta-se, na maior parte dos casos, cheia, comprometida já com qualquer utilização. Poucas vezes bem arrumada, é certo. Os “cordeiros místicos” são traídos pela sua esperança num encaixe perfeito. Insistem em tentar. Nesta gaveta alojam-se objectos grandes ou pequenos demais. Uma gaveta que, quando semi-ocupada, se sente vazia. Uma gaveta que, contendo algo volumoso e conscientemente desajustado, permanece sempre entreaberta, esperando, em segredo e no limiar mínimo da fé, o dia em que uma única peça a complete.
Todos os exercícios de interpretação da realidade desafiam-nos a reflectir até que ponto a nossa contextualidade afecta a validade da grelha conceptual adoptada. Preciso, precisamos todos, de desconstruir as nossas cómodas ou, pelo menos, de reconhecer que não existem gavetas estanques. Um “bode” pode ser um homem que se fartou de ser “cordeirinho”. É possível um “cordeiro místico” ressuscitar de um passado como “bode” ou “cordeirinho”. As experiências moldam-nos e cada pessoa desperta em nós reacções diferentes, por vezes mesmo antagónicas.
Os três substantivos são categorias puras, teóricas, extremadas, impermeáveis. A realidade, essa, é feita de contaminações. Homens – e, acrescente-se, mulheres – já se aproximaram, diria eu, em alguma situação da sua vida, de uma das tipologias referidas. Ainda assim, ao ler a crónica deste mês, o mais provável será sentir que não coincide com nenhuma na perfeição. Catalogar, classificar, etiquetar é a ferramenta mais velha para tentar lidar com o que nos cerca. Falha? Constantemente. E, porém, todos a aplicamos no nosso quotidiano, com maior ou menor consciência. No limite, trata-se de um mecanismo de sobrevivência: depois de atacado pelo primeiro tigre, o homem activa um pré-conceito assim que vê um segundo tigre, mesmo que infinitamente diverso. Talvez a vida na Suécia seja diferente. Na minha, suspeito que na nossa, nem o IKEA consegue oferecer soluções de arrumação convincentes.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Sem notas de rodapé: A Maria João apresenta-se
|Maria João
O cursor pisca. É a primeira vez
que faço isto. Escrever liberta do formato académico. Escrever sobre mim e o
que me rodeia, de forma assumidamente pessoal. Não existe, é certo,
conhecimento neutro e totalmente objectivo em nenhuma área do saber. No
entanto, é meu dever prevenir-vos de que a crónica “Sem notas de rodapé” adoptará
pontos de vista longe de consensuais e evidenciará a minha própria
mundividência. Não terá uma vasta bibliografia de suporte, nem suscitará
recensões críticas. Tão-pouco pretende constituir mais do que um exercício de partilha.
Estou grata pela oportunidade de o realizar neste «Sítio». Não prescreverei
soluções, não ditarei verdades. Serei corrosiva em alguns momentos. Céptica nos
dias em que, de forma particular, os meus ideais colidirem com a realidade. Racional,
honesta e frontal, pela minha forma de ser. Emocional, sempre.
Tratem-me por Maria João, por
favor. Inevitavelmente, os pseudónimos revelam bem mais sobre nós do que o
conforto do anonimato faria supor. Associo “Maria João” ao tipo de mulher que
sou. Centros comerciais corporizam o conceito de pesadelo para mim. Nunca compreendi
a lógica de (apenas) ver montras. Custa-me, de igual modo, conceber a hipótese
de ir ao wc a pares ou de falar mal de uma amiga que acabou de sair da mesa do
café onde estávamos a conversar.
Gosto de dizer o que penso, às
vezes de forma desconcertantemente directa. Considero-me bastante feminina, mas
nunca usaria sapatos que me impedissem de correr para apanhar o autocarro. Não
trocaria um livro por qualquer verniz da Channel. Reconheço a minha obsessão
por pontualidade. Não sou melhor nem pior do que qualquer outra pessoa. A
arrogância tira-me do sério, em proporção directa com os cidadãos que decidem
optar pelo sofá em vez de irem votar.
Ainda que não filiada, situo-me
no espectro político da esquerda. Sou uma idealista com os pés na terra.
Acredito que é possível contribuir todos os dias para modificar as pessoas e o
contexto que nos cerca. Faço-o, em grande parte, através da minha profissão e
do modo como a exerço. Sou uma professora universitária apaixonada pela minha
área e pelo ensino. A ignorância não me choca (eu sofro dela em doses
angustiantes também). Revolta-me, apenas, a falta de vontade de aprender e ser
mais, a recusa da complexidade, a apologia do facilitismo. Poucas coisas me dão
mais prazer do que desconstruir ideias, transmitir entusiasmo, incentivar o
espírito crítico na percepção do mundo, ver os olhos dos alunos a brilhar.
Dir-me-ão que tal se deve aos meus 30 anos. As probabilidades jogam, bem sei,
em meu desfavor. Lutarei, porém, contra a indiferença. Procurarei resistir à
tentação de me fechar na redoma universitária, naquela em que pessoas capazes
de analisar o sistema económico feudal durante duas horas não conseguem
preencher o seu IRS. Acompanhem-me neste esforço e, peço-vos, massacrem-me ao
mínimo sinal de fraqueza.
É justa a vossa reclamação
entredentes. Disse-vos ainda muito pouco acerca das temáticas que este espaço
de crónica abarcará. Não possuo um índice para vos apresentar. Contudo, posso
adiantar que as artes plásticas serão uma companhia frequente. As relações
entre homens e mulheres terão uma presença forte (risos…). Reflexões sobre opções
e ritmos de vida, rotina e fuga saudável às normas instaladas constarão deste
reportório. O resto não se inscreve necessariamente numa categoria nem se
arruma numa gaveta. A utopia de um Pingo Doce sem filas de espera possuirá o
mesmo tempo de antena que o debate sobre a crença ingénua na capacidade da
arquitectura mudar o mundo. Os anúncios que astrólogos insistem em colocar nos
nossos limpa-para-brisas configurarão um assunto tão válido quanto uma sonata
de Chopin. Tanto poderei discutir Michel Foucault, como uma ida à loja do
cidadão (na verdade, o primeiro é muito útil para perceber como funciona a
segunda). Desconhecer, por um lado, o que nos espera e tentar a todo custo, por
outro, antecipar e controlar cenários é algo inerente ao ser humano. Esta
crónica repousará nesse frágil (des)equilíbrio.
Subscrever:
Mensagens (Atom)