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quinta-feira, 24 de abril de 2014

A mulher com voz

|Maíra Matthes

Eu me sentindo

− a mulher com voz −

ao mesmo tempo

uma dor de cabeça

que eu penso se não vai nascer

minha filha da minha

cabeça

e as dores, dores do parto todas todas na minha cabeça

mas minha filha não nasce e as dores aumentam na cabeça toda se espalhando tanto que mal consigo terminar saber como eu comecei e ainda tem que ter um fim essa fras

Deus (eu penso Zeus) quer me castigar −

eu penso

mas não,

Deus não pode ser logicamente concebido num mundo que Pandora dá luz à Atenas

então,

a dor de cabeça existe num mundo sem Deus

escondida no invisível, indiscernível nas coisas que os seres sem dor de cabeça podem ver.

ela se espalha e gruda sinistra em tudo

 –  permanece lá –

minha maternidade


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Buraco com pus

|Maíra Matthes

cá estou sentada sobre essa escadaria –

meu cabelo é liso/há vento/meu cabelo voa

enquanto o mundo parece estar dizendo:

“Oh! Como preciso escoar a carne que está se aglomerando no meu rosto”

e é como se eu soubesse de cor uma frase (qualquer) de uma tragédia (qualquer) e a declamasse num tom

infinitamente melancólico

e também é como

se eu preferisse pensar que as folhas e ventos que passam no meu cabelo agora são frutos de alguma vontade,

como se alguém mandasse – de presente –

“folhas e ventos”

para Rua General Glicério, dia 5 de Maio, Sedex

essas folhas [olhe para elas!] estão prometendo tampar o buraco com pus que existe (e ninguém sabe) entre cada fio de cabelo – aqueles que voam no vento agora como se fossem estrelas de cinema.



domingo, 20 de abril de 2014

Mar aberto

|Mariana Teixeira

Visto de cima era um mar

Ondulações em sequência
no fim, a onda mais alta
quebrando
e voltando
para o ciclo
sem fim

Do andar de cima
fazia do telhado vizinho
paisagem
e movimento
para dias estáticos

sábado, 19 de abril de 2014

Imersão

|Mariana Teixeira

se distraído
te empurram
do alto

você mergulha
sem jeito
no ar
duro

a gravidade,
um convite susto
te acorda
te faz bater asas
e o mergulho
no vento
é sua nova casa


sexta-feira, 18 de abril de 2014

Spray

|Mariana Teixeira

segura o frasco entre os dedos
puxa a aba
e Spray
dentro da narina
Spray
esquerda
Spray
direita
respira fundo
repete a dose
Spray
Spray
respira fundo
aos poucos desentope
e a via fica livre
para a poeira
e o cheiro ruim

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Protesto

|Mariana Teixeira

pinturas a dedo
nas maçãs dos rostos
e em partes dos corpos
parcialmente nus

rebelião de cores
que gritam
em silêncio
e marcham
e marcham
e mancham
e enfrentam olhos
que desejam
que as pinturas
percam a guerra
para o suor

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Glicose

|Mariana Teixeira

glicose
em pequenas
e esporádicas
doses
deixadas
sobre a mesa
embrulhadas
em papel vermelho
e fita
de cetim

cada pedaço
doce
declara
o que a boca
não fala
o que o medo
não encara
o que o impulso
dispara

terça-feira, 15 de abril de 2014

Gaveta

|Mariana Teixeira

Da gaveta que tudo cabe
às vezes vaza
um monte de coisas
da alma
da lama
na mala

vaza acaso
vaza atraso
vaza caso
às vezes vaza
tanta coisa
que a gaveta parece rasa

sábado, 5 de abril de 2014

Primavera

| Marco Mackaaij

You have to believe in spring
Bill Evans

Deves acreditar na primavera:
Que os pássaros entoem novo encanto;
Que volte a acordar o viçoso espanto;
Que no vale a esperança reverbere;

Que em ciclos de dor tudo regenere;
Que até no mais gelado desencanto
Volte a fluir a seiva de um amante,
O doce engano de uma flor sincera.

E que ninguém te diga, com pesar,
Que já nada é como era dantes,
Porque o que foi é mero sonho eterno.

E que ninguém te minta, a consolar.
As estações mudam sempre, como dantes,
Haverá mais dor no próximo inverno.


Marco Mackaaij nasceu nos Países Baixos em 1970. Vive em Portugal desde 1995, com um breve intervalo de 2 anos na Inglaterra. É professor de matemática na Universidade do Algarve e nos tempos livres escreve poesia e micro-ficção em português. Até agora nunca tinha publicado nada sem fórmulas matemáticas.  

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Distância

|Linda Catarina

Sinto-te longe, distante, alheio..
Fora de si, fora de mim e
dentro de um mundo rodeado de sombras,
encerrado em mágoas e lástimas.

Você me veio e desarmou todo receio,
transformou solidão em esperança,
turbulência em harmonia
e eu sorri de novo, de verdade, de frente.

Cada diferença nos instigava
toda semelhança causava alegria
e a dor de um
encontrou seu espelho no ser do outro.

Do interesse nasceu a cumplicidade,
o medo encontrou afeto e zelo,
a indiferença cedeu lugar à paciência,
e superamos a noção de tempo
quando nos vimos maiores que os anos.

Optamos pelo sublime
pela imperfeição que nos completa
pelo amor simples que arrebata
na mesma medida que nos liberta.

E agora você se vai, se esvai, se desfaz.
Leva consigo meu peito aflito, contrito
e deixa aqui o desespero
de não conseguir ser melhor.

Não recolha seus abraços,
não me prive dos seus beijos,
não me lance esse olhar rijo, essa mão fria
não tenho arma para rebater seu silêncio.

Se cometo os mesmos erros e
minhas falas fartas contradizem as atitudes
eu me rendo e desvaneço
revelando o pavor de perder tudo!

E nessa relação de perda e danos,
de ganhos e desenganos
vamos nos ferindo e nos libertando,
nos impingindo a lógica do absurdo:
que na união dos corpos
nos perdemos um do outro
e na voracidade das palavras
preferimos nos manter mudos!




Linda Catarina Gualda possui Graduação em Letras Português/Inglês/Alemão, Mestrado na área de Literatura Comparada e Doutorado na área de Literatura e Cinema pela UNESP/Assis/SP – Brasil. 
Desde 2009 é articulista convidada da Revista Cinema Caipira (Rio Claro/SP) e foi articulista do Jornal Aquarius (Rio Claro/SP) e do Jornal Folha de Limeira (Limeira/SP), além de publicar artigos acerca de cinema em muitos outros Jornais, periódicos e revistas brasileiras (Jornal Fatec, Revista Matizes, Estação Literária, Línguas & Letras, Soletras, Raído, Signótica, etc). 
Atualmente é professora associada de Língua Inglesa na FATEC- Itapetininga/SP - Brasil, além de ministrar cursos na área de Literatura e Cinema, Literatura Brasileira e Inglesa e Cultura. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Manchetes

|Clara Henriques

Não te conforto o desejo amarrado
Nem te dou as páginas humedecidas
Não sei vincar as golas ao recado
Às portas do teu quarto sempre despidas.

Não te quero em rasgos minguantes
Compassos que atropelam a ordem do dia
Nem te sei nas horas rasantes
Na pele que a tua mão sem querer dizia.

Não quero ser manhã e escurecer
No teu beijo traído entre o caos
Não quero a redenção para encher
Mil e uma manchetes nos jornais.

terça-feira, 1 de abril de 2014

o ópio

|Christiana Nóvoa



só a flor exata

me sacia o olfato

e a falta

desse cheiro

é tão macia

como um travesseiro

que me mata

por asfixia





Christiana Helena Nóvoa Soares Carneiro nasceu em 28 de dezembro de 1968 no Rio de Janeiro. 
Formou-se em Artes Cênicas (Faculdade da Cidade/RJ) e em Psicologia (PUC-Rio), com especializações em Arte-Educação e Arte-Terapia. Em 2004 começou a publicar seus textos na internet e, desde 2005, mantém o blog Nóvoa em Folha.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Todas as perdas

|Gilda Nunes Barata

Todas as perdas
São grandes sinos
Que ressoam
A inércia do coração.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Este dom

|Gilda Nunes Barata

Este dom
de ser ferro
E de queimar a sede
na corrente do musgo.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Claras as cicatrizes

| Gilda Nunes Barata

Claras as cicatrizes
Débil a liberdade acesa.
Continuaria a queimar o branco
Até vê-lo aceso.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Primavera ficava-te bem

|Gilda Nunes Barata

A Primavera ficava-te bem:
Trazias o sangue embalado

E nenhum espaço para o fôlego

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Mal puro

|Luís Coelho

A neurose do eterno retorno
É como as dores de crescimento
O recuo gera a expansão
Como a evolução da involução
E este é o menor mal!

O Mal puro não é a involução
Ou o recuo temporário
Daqueles que são constantes
A vida é neurose permanente
Desequilíbrio pungente
Entre pólos cabalísticos

O Mal puro não é o Inferno revisitado
Quando se permite o regresso órfico
E o salto quântico iluminado
Nem sequer é o pecado
Como o erro de ver a Luz onde ela é escassa
Ou o eterno no frugal impermanente

As más escolhas são condição do crescer
Os pecados e os males farão recrudescer
Esse destino de sermos Deuses ou Civilização
O Mal puro é mais profundo
Porque é eterno ruminar
No mundo dos demónios encarcerados
O Mal puro é bem mais fundo
Porque é eterna involução
De um eterno retorno
Em que o retorno é mor que evolução
O Mal puro é regressão
É andar para trás e não voltar
É esta a Psicose da mente bárbara
Ou o Inferno da condenação
São estas as trevas verdadeiras
De uma Idade que não é Média
Mas o Anticristo de sombras derradeiras.

O Mal puro é alienação
Porque a Luz se perde para sempre
Sujeito e Objecto já não se vêem
Nem juntos e nem sequer separados
Pois que o mundo dos Demónios
Não é como o Arché das Leis primárias
Ou mesmo o Bom selvagem pacificado
É o terrível de um caos amordaçado
Por isso não é o génio que desconstrói
Porque este selvagem só destrói
Para que o Caos que fica
Seja somente a causa falsamente incausada.



Visite o blogue do autor em www.reeducacaopostural.blogspot.com

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Folha de papel encontrada na Enfermaria B

| Filipe Cachide

(…)
Dirijo-me, portanto, a sonhadores,
A quem o mundo hoje pertence por direito –
Que andem nas nuvens, poetas ou nefelibatas,
Para quem o mundo não é feito de estradas
Que não as linhas traçadas por pombos
Ou pelas livres andorinhas.

Escancarem portas à magia da palavra
Real, nobilíssima, ufana de amor –
E qual será mais verdadeira do que a poética,
Dos vossos corações em sombra já espremida?
Coroai-vos de lirismos e passeai-vos pela
Métrica do prazer de sentir.

Façam de vossos corações as vossas almas,
Que a solução da Existência existiu sempre
Inscrita em vós – e num momento
A epifania vos abale na poesia em que ressurge:
Deixem os comícios, e deixem as políticas
Que vos distraem de andar nas nuvens!

Retesem vossa argúcia, lustrem vossa ironia.
Um povo como vós é necessário que hoje
Subsista nas entrelinhas da realidade
Prosaica. Lancem poemas e cravem-nos
Em estacas nas muralhas da cidade.
E que todos leiam os versos...!




Filipe Cachide nasceu em Aveiro em 1991. Interessou-se desde cedo pela leitura e, por extensão, acabou por ingressar na escrita, que cultiva nos seus tempos livres, tendo mantido um blogue durante dois anos. Concluiu os estudos preparatórios em 2009 e encontra-se de momento a terminar o curso de Medicina na Universidade de Coimbra.