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sábado, 16 de fevereiro de 2013

Moose

|Flávia Rocha


O vento estático de uma pintura de floresta de pinheiros,
a desolação de um posto de gasolina sob chuva fina,
o gelo negro camuflado no asfalto, a estrada ao longo
de um canyon estupidamente magnífico: floresta, chuva,
gelo, canyon: a minha floresta, chuva, gelo, canyon.
Um alce alto como uma igreja talvez atravesse perto
do meu ônibus na névoa, e tudo parecerá bem.  

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Cruzamento

|Flávia Rocha


São Paulo, 26 de janeiro, 1973


A fome sempre renovada na casa:
biscoito para molhar no café.

A porta dos fundos deixada aberta
pela mão neutra da empregada.

Meu avô na calçada estreita
de uma cidade procurando uma vila.

Meu avô com seu largo guarda-chuva
no dia mais seco do ano.

Meu avô sem um nome
que lhe desse um filho, uma casa.

Depois de dois anos de buscas,
eles finalmente trancaram a porta.

Meu avô atravessa o cruzamento
seguro, na via única do tempo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Uma espécie de artesanato do espírito


Entrevista a Flávia Rocha

|Luís Filipe Cristóvão

Ao convidarmos Flávia Rocha para o destaque desta semana na Revista Literária Sítio, procuramos encontrar não só a autora, mas também a editora da revista Rattapallax, a antologiadora de poesia, a criadora do Curso de Criação Literária na Academia Internacional de Cinema. 

No fundo, fomos pela poesia em busca das ideias de quem vive uma experiência total no campo literário. Esta entrevista demonstra, em toda a medida, a abrangência do trabalho de Flávia Rocha, onde expressões de partilha, comunidade e rede estão bem presentes.  


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quartos habitáveis - III - Na sala de espera

|Flávia Rocha


A claridade derramada
no quarto, como um rasgo—
paisagem de água e pedra

no sol de um dia igual a este,
sem alternativas.Você pressente
o que está para acontecer,

pálida e diagonal. Os objetos
expostos num plano improvisado,
atrás da vidraça— ossos de ave,

pequenos instrumentos fraturados,
úteis –  provisoriamente
esquecidos ali, perto demais—

um deles ao seu alcance
sobre a mesinha, tocando o vértice
de um esboço amarelo, apenas

a metade visível— todo o resto
é preto noturno, enquanto o riacho
de luz transparente

atravessa a iminência parda
da sala de espera.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Quartos habitáveis - II - No espaço de outro

|Flávia Rocha


Metade da sala invertida,
cadeiras viradas sobre gravuras
repetidas, preto no branco—

você caminha por ruas esboçadas
no chão, a sombra exterior
esmagada pelo azul acolchoado

dos objetos— mesas
com algum passado, paredes
com tarefas definidas, restos—

você não está sozinha,
as mãos juntas atrás do corpo
sem rosto, na desordem sem arestas—

repetida, alternando-se
nos espaços da sala, observada
por estranhos, homens e mulheres.

Na profundidade paralela,
dois ensaios em cor, alguém
neste lugar carrega

uma mancha azul no ombro,
à espera, sem desejo.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Quartos habitáveis - I - Restos

|Flávia Rocha

O casaco displicente e preto
à porta, caveira de boi
no quarto— você veste

alguma outra cor, menos óbvia,
e deixa os objetos delatores
em casa, sob a pia— no momento

em que lava o rosto e o verde
dos seus olhos absorve o brilho
sombrio de uma lâmpada,

você acorda, sem a perspectiva
exata— a mão ainda dormente
em concha sobre o travesseiro

no chão recebe brisas distantes,
sem assepsias. Estampas
sobre a mesinha de madeira

obscura— a nudez fixa
no espelho irreal, reflexo único.
Caveira de boi à porta—

ágil, decidida, você procura
por alguém que dorme.




Flávia Rocha

Flávia Rocha (São Paulo, 1974), poeta, tradutora e jornalista, é autora de dois livros de poemas, o bilíngue "A Casa Azul ao Meio-dia/ The Blue House Around Noon" (Travessa dos Editores, 2005) e “Quartos Habitáveis” (Confraria do Vento, 2011). Tem mestrado (M.F.A.) em Criação Literária/Poesia pela Columbia University e é editora-chefe da revista literária americana Rattapallax (www.rattapallax.com), que está para lançar em fevereiro sua primeira versão em APP. Editou antologias de poesia brasileira para as revistas Rattapallax (EUA), Poetry Wales (País de Gales) e Papertiger (Austrália), entre outras. É uma das fundadoras da Academia Internacional de Cinema (www.aicinema.com.br), em São Paulo, onde implantou um curso de Criação Literária.