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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Constantina “A Esmagadora”

|Kateb Yacine

A rocha, a enorme rocha três vezes desventrada pela torrente infatigável que se enterrava em batimentos sonoros, escavando obstinadamente o triplo inferno com a sua força perdida, fora do leito sempre desfeito, sem longevidade suficiente para chegar ao seu sepulcro de blocos derrubados: cemitério destruído onde a torrente nunca viera entregar a alma, reanimada muito mais acima em cascatas inextinguíveis, afundadas em funil, as únicas visíveis das duas pontes lançadas sobre o Kudia, da ravina onde o uede não passava de um ruído de queda repercutido na sucessão de abismos, ruído de águas que nenhuma caldeira ou bacia continha, sussurro surdo sem fim, sem origem, cobrindo o estrondo furioso da máquina cuja velocidade decrescia contudo, atravessando restos de verdura, pradarias ainda interditas ao gado, irradiadas sob a ligeira crosta de gelo, florestas de figueiras nuas e disformes, de alfarrobeiras, de cepas em desuso, de laranjais rectilíneos, destacamentos de romanzeiras, de acácias, de nogueiras, ravinas de nespereiras e de carvalhos até à proximidade do caos brumoso e maciço (...)

Nedjma (Tricontinental Editora, 1987)


Kateb Yacine (Yacine de nome e Kateb de apelido) foi um romancista, poeta e dramaturgo argelino nascido na cidade de Constantina, na Argélia, no dia 2 de Agosto de 1929. A sua obra tem vindo a ser divulgada, em português, num blogue dirigido por António Quadros Ferro e com a colaboração recente de Melissa Scanhola. 

domingo, 3 de março de 2013

Até ao osso


Recensão do livro Alto. de António Quadros Ferro

|Manuel A. Domingos



Falar de novas vozes e de nova-poesia e de novíssimos é chão que já deu uvas. Em primeiro lugar, e recorrendo a uma frase feita, já nada é novo, pois tudo foi inventado. Em segundo lugar, tivemos, nos últimos anos, estreias literárias em que o autor já não era novo (em idade), nem a sua poesia nova (em relação ao cânone): lembro, por exemplo, os nomes de Nuno Dempster e Soledade Santos. Mais dúbio é falar actualmente, e situando-nos apenas no meio literário, em geração. O que caracteriza afinal uma geração? O ano de nascimento? A década? O ano da estreia literária? As afinidades com este ou aquele grupo (que os movimentos há muito se perderam no tempo)? A questão é que, na realidade, não existe uma geração; existe, antes, a malta. É costume ouvir dizer “a malta da Averno” (e por acréscimo “a malta da Telhados de Vidro”), a “malta da Língua Morta” (e por acréscimo “a malta da Criatura”), a “malta da Deriva”, a “malta da Artefacto”, a “malta da Golpe D’Asa”, a “malta da 4águas”, a “malta da Sítio”, a malta para aqui e a malta para ali. Depois, há os outros.