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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mundos

|Ana Correia

Há mundos dentro do mundo. Existe um mundo, vários mundos, dentro de cada um de nós.
Desceu as escadas e caminhava, devagar e com ar enfadado, para o banco. Senta-se enquanto espera pelo metropolitano, comendo um gelado que não parece saborear. Tem um olhar apagado, o olhar de quem não vive o mundo, um olhar de não estar no mundo.
Procura algo no bolso do casaco. Tira a carteira, abre-a, passa os dedos por cada divisão até encontrar o que procurava. Um pequeno papel, dobrado, amaçado, onde começa a rabiscar. Talvez seja um compromisso, uma conta para pagar, talvez a data de uma consulta?
Ouve-se a aproximação do metropolitano, o som mecânico e violento que nos desperta para a consistência de um dia-a-dia urbano. As portas abrem, entra no metro e dirigindo-se a um lugar vazio continua a escrevinhar.
Uma voz monocórdica anuncia a estação seguinte. Sentado, junto da janela que apenas deixa ver o negrume do túnel, o corpo ligeiramente encostado a esta, o seu olhar mantêm-se apagado. É como que uma ausência de estar. É uma janela que não deixa ver para além da barreira frágil do vidro.
Há criaturas que emanam energia, que nos fazem levantar o olhar daquilo que estejamos a fazer, que nos desprendem daquilo em que estamos a pensar.
Encostado à janela, de olhar apagado, a sua presença não faz ninguém retirar os olhos do que estão a fazer. Alguém se senta à sua frente. Levanta a cabeça, olhando sem ver e continuando a fazer a caneta deslizar sob o pequeno papel. Talvez queira apenas passar tempo, talvez esteja só a fazer pequenos desenhos ou rabiscos.
Chegamos à próxima estação. Nada se alterou. O ar enfadonho, o olhar apagado mantêm-se. Cheguei ao meu destino, saio nesta paragem. Ele olha para mim mas não me vê, mordisca o lábio, sem que se aperceba faz trejeitos com a boca. Eu afasto-me, ouço cada vez mais longe o som artificial do metropolitano que se afasta.
Há mundos dentro de mundos. Sai da estação, e voltei ao meu.


Ana Correia escreve no blogue Freak Perfume

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O pássaro morto

|Ana Correia

Está um pássaro morto no asfalto. Um Melro, macho, a julgar pela penugem negra. Uma fêmea aproxima-se, confirma o óbito. Parece confusa. Aproxima-se um automóvel, cego, cegando com a luz dos seus faróis. A fêmea levanta voo afastando-se da carcaça daquele que era seu companheiro há duas Primaveras.
Os automóveis continuam a passar. No fim do dia, apenas uma mancha escura no asfalto testemunha a existência de menos um Melro no mundo. Ninguém irá notar, ninguém saberá que há menos um Melro no mundo.
Mesmo que o seu corpo não se desintegrasse, mesmo que os pneus dos automóveis não estropiassem o seu pequeno corpo, poucos são os que parecem ver os cadáveres que se amontoam na berma da estrada. E um Melro, bom, é apenas um pássaro.
No Ninho, feito pelos dois, a fêmea continua a alimentar as suas crias e sente que há menos um Melro no mundo.



Ana Correia escreve no blogue Freak Perfume