|Joana Santiago
I Lucidez
Se parar é morrer, nós nunca parámos
parece que esta cruzada se espalha por pântanos
lugares onde se afundam nas águas serenas
os nossos corações que ardem em chamas
de volta ao nosso espaço, construímos um quarto
com paredes de marfim, enjoamos como barco
acompanhados de vazio e partes divididas
já fomos e voltámos e estamos sempre de partida
ás vezes sonho que caio pelo abismo sem nexo
preencho o espaço de uma folha e proclamo escolha
como uma distração indesejável, perco a inspiração
é que se a cabeça se manifesta, perde-se rumo a casa
arrasto comigo um amanha, estava prometido irmão
agora é teu, aproveita a sombra que deixo
segue as mesmas passadas e no espelho, existe
assume fisicamente a tua forma de deus e acena
sopra a tinta no balão e acusa a lucidez,
se parar é morrer, nós nunca existimos
parece que esta cruzada foi apenas sonhada
e os pântanos de que falava, são buracos de nada
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terça-feira, 30 de abril de 2013
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Uma métrica especial
Entrevista a Luis Henrique Pellanda –
parte 3
|Carolina
Vigna-Marú
Terminamos
a publicação da entrevista a Luis Henrique Pellanda falando da sua música e da
banda Woyzeck (na foto, Pellanda aparece em primeiro plano). Ficamos também a conhecer uma das músicas produzidas pela banda
que conta com Pellanda na voz.
Acho que a música sempre foi algo mais emocional. Já escrevi
bastante música, mas com ela nunca me senti envolvido num trabalho profissional
ou mesmo intelectual. Não estou dizendo que os músicos não trabalham com o
intelecto, por favor. Comigo é que era assim, uma espécie de desafogo alegre,
algo teatral, envolvendo voz e movimento, dança e corpo, algo que exigia minha
presença física num palco e certa desenvoltura de ator, uma máscara, no bom
sentido. Não era eu, era o que eu gostaria de ser naquele momento de
celebração. É um troço prazeroso, mas cansa. Cansa, mas quando você para, faz
falta, e isso é evidente, pois tudo que nos dá prazer, quando acaba, faz falta.
Hoje não trabalho com isso, apenas me divirto com isso, e muito raramente. É
questão de prazer, não envolve agonias produtivas.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
A intervenção divina no roque português
|Luís Filipe Cristóvão
No dia em que é lançado o novo álbum de Samuel Úria, O grande medo do pequeno mundo, a Revista Literária Sítio associa-se a esse acontecimento com a recuperação de uma conferência apresentada no Congresso Poéticas do Rock, no dia 8 de abril de 2009, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
No dia em que é lançado o novo álbum de Samuel Úria, O grande medo do pequeno mundo, a Revista Literária Sítio associa-se a esse acontecimento com a recuperação de uma conferência apresentada no Congresso Poéticas do Rock, no dia 8 de abril de 2009, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
1 – Igrejas Cheias do Domingo
Não é muito
comum encontrar numa faixa de um álbum de roque português o refrão “Igrejas
cheias ao domingo”. Aliás, mais que incomum, durante muitos anos, acharíamos
intolerável que isso acontecesse (acredito que boa parte de vocês continua a
achá-lo intolerável e pergunta-se, talvez com alguma propriedade, porque é que
eu estou aqui, porque é que eu estou a falar disto). Mas, partindo do princípio
filosoficamente indiscutível de que Deus está em todo o lado, não poderíamos
pensar que ele deixaria de imiscuir-se num meio tão dado a endeusamentos como o
roque português. Então, o que torna possível repetir este refrão em concertos
por todo o país? Tiago Guillul. Foi ele o primeiro músico a assumir um
posicionamento religioso no seu roque. Mais do que assumir, alias, parece
claro, desde o primeiro álbum, que tentou aperfeiçoar um projecto de afirmação
do universo Flor Caveira, enquanto
uma produtora musical independente e protestante, nos princípios e na mensagem
(embora sem exclusividade). Logo, mais tarde ou mais cedo, já deveríamos saber
que isto acabaria mesmo por acontecer.
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