sexta-feira, 23 de maio de 2014

Fazer o outono de navalha no bolso

|E.M. Valmont

A navalha, fria, faz-se ouvir
mais que as palavras gritadas
na boca o sangue que advir
cuspido em postas sustidas

porventura almas mal nutridas
de letras, a fome espertina
o punho do pobre à guilhotina
de um país podre, nas despedidas

a navalha dá grandeza    
à guerra que se quer dizer  
em palavras, parece poder      
de certo apenas incerteza        

de como crescem as crianças
quando o outono deixar cair
as folhas mortas e as vinganças

de como crescem as crianças

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Tento adormecer

|Tomás Gomes

 Tento adormecer. Aguardo inquietamente pela sonolência enquanto me reviro nos lençóis. Desisto, puxo-os para baixo e tento apanhar um pouco de ar fresco. Assumo a minha fraca posição face ao meu cérebro. Cedo à tentação e penso. É notório que ele quer que eu pense. Olho à minha volta. Está escuro. Vejo tanto e tão pouco.
                És a primeira imagem, lembrança que me ocorre, é inevitável. Surge a tua imagem desalinhada. Surge em mim todo um algo igualmente desalinhado que despoleta algo em mim. O amor domina-me. A partir deste momento perdi a qualidade que nos distingue dos animais, deixei de ser racional. Imagino-te ao meu lado. Nua. Tão tu, que mesmo em frente ao espelho dificilmente te reconhecerias perante tanta pureza, tanto sentimento. Constrói-se toda uma imagem mental: os teus olhos na minha direcção, o teu corpo sobre o meu. A tua pele, fria. A tua pele fria. Beijo-te, já perdido em ti. Deixando de tentar perceber o “nós” deixando de tentar perceber tudo. Passo para um mundo à parte. Só deus sabe o quanto amo esse mundo em que tenho vivido tão grande parte da minha vida desde que olhei com olhos de ver esses teus olhos que deviam de condenar quem te olha com olhos de observar. Imagino eu e tu, um só. Imagino tu a saíres de cima de mim, a regressares ao meu lado, a colocares o teu braço sobre o meu peito e a simplesmente adormeceres. Estou apaixonado.
                De repente desapareces. O pânico domina-me. Finalmente apercebo-me de que adormeci, acalmo-me. Deixo-me sonhar, tinha tantas saudades de sonhar. Sonho contigo, e deixo-me levar, apenas levar. Que a minha alma se eleve acima do meu corpo, que abandone esta ataraxia que me domina de forma sublime, que me entristece o corpo, que me entope as veias e fere o coração. Que se eleve acima de tudo, que te leve com ela. Que fiques comigo, não para sempre, mas durante o maior tempo possível em que ambos sejamos felizes.

                Morri.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Onde mora a escuridão

|Liliana Leça

Abri os olhos, pesados e lacrimejosos que ardiam como chamas vivas. Era tudo negro, tão negro que não me permitiu perceber onde estava e se era de noite ou de dia.  Virei a cabeça para um lado e depois para o outro...mais escuridão. Não havia nada para além do nada. Nem um único som, nem uma única imagem...nem um único odor que pudesse reconhecer como meu. O ar preenchia-se de um calor cruél, que invadia a minha pele sem pedir permissão e queimava as minhas costas sem dó nem piedade. Tentei erguer-me rapidamente,mas o meu corpo foi obrigado a não obedecer. Uma força implacável puxou-me para baixo e manteve-me colado àquele solo escaldante. Ergui as mãos bem em frente ao rosto, aliviado por não estarem atadas ou presas a algum sitio.Depois, movimentei os pés que também estavam livres. Não havia razão para não me conseguir mover normalmente. Tentei levantar-me pela segunda vez,mas aquele peso bruto e invisível tornou a empurrar-me para o chão. Era uma força muda e vazia e começava a causar-me arrepios. Naquele exacto momento eu soube que tinha de sair dali. Não havia tempo para questionar os inúmeros "porquês" que me sufocavam a mente. Senti o gosto a perigo através do suor que escorria pelas minhas têmporas e nao gostei do paladar...Ácido e amargo ao mesmo tempo. Soltei um grito que ecoou pelo vazio daquele lugar que eu não sabia onde era...um grito que transbordava medo e desespero. Talvez alguém me ouvisse...Talvez não fosse tão solitário como me assumia ser e alguém desse por minha falta.Talvez...
Gritei sem cessar, mesmo quando já nada existia para além de um som mudo e abafado. As minhas forças tinham decidido abandonar-me e o que restava agora era apenas um corpo inerte e fraco. Um corpo que já não parecia ser o meu, de tão vulnerável e inútil que era. O silêncio ocupou novamente aquele espaço e a única coisa que se ouvia eram as batidas desenfreadas do meu peito. As batidas da minha própria cobardia. Mas repentinamente, ao longe, surgiu outro som. Eram passos... passos vagarosos que se arrastavam até mim num ritmo tortuoso e agonizante. Foram ficando cada vez mais perto e eu aguardava-os impaciente, sem ter como fugir. Até que finalmente pararam e abriu-se uma porta. Atrás dela, havia uma luz ténue que iluminava um vulto de homem que se manteve nas sombras. Um calafrio percorreu-me a espinha, quando a sua voz áspera me saudou:

____ Caro Arthur!Sabia que um dia virias até mim!

____ Que...quem...Quem és tu?O que me fizeste?__ perguntei, petrificado.

O homem soltou uma gargalhada estridente que me gelou os ossos.

____ Podes chamar-me o que quiseres, mas normalmente chamam-me Diabo! Agora segue-me...vem conhecer a tua nova casa!

terça-feira, 20 de maio de 2014

Humanos e só isso

|Ana Pereira

Em virtude de algumas sensações que me conseguem abarcar e fazer-me sentir estupidamente completa e incompleta ao mesmo tempo, escrevo estas palavras, fruto de um subconsciente enredado a que chamo coracérebro (perdoem-me a aglutinação inexistente, mas achei que precisava de lhe chamar alguma coisa que, pelo menos para mim, tenha alguma lógica).

Sofro de uma fraca capacidade de transpor emotivamente aquilo que sinto, tem sido um grande entrave à minha realização pessoal. Gosto de pensar que de certa forma por escrevinhar aqui ou ali me consigo expressar melhor, não que seja qualquer tipo de Fernando Pessoa e longe de mim ser um Luís Vaz de Camões, quero ser a Ana, uma pessoa, um ser que se interpõe através de uma narrativa construída a partir de uma filosofia própria e um vocabulário um tanto (ou realmente nunca) adequado.

É muito mais fácil escrever sobre sentimentos do que sobre nós mesmos, ou assim deveria ser segundo a ordem natural das coisas (ordem essa que alguém estabeleceu, mas como eu sou um bocadinho rebelde, vou fazer-me de esquecida e apaga-la da minha memória, por favor, não me censurem agora), eu gosto de ser diferente, não aquele diferente chato que passado um x tempo começa a ser igual a tudo e mais alguma coisa porque sejamos sinceros, há sempre aquele fulano irritante que teima em roubar um pouco de nós, mais que não seja aquele stalker que recolhe os cabelos que ficam presos nos parafusos das cadeiras. Não, não pensem que me divirto a perseguir pessoas, nada disso, antes pelo contrário, sinto-me perseguida por uma carrada de gente igual, feita em série, fabricada numa sociedade pútrida que mais não faz do que infestar a nossa vida com pessoas vazias e irritantes, estupidamente irritantes. Sabem o que acho? Seria muito bom termos algum tipo de “homencida” (aqueles sprays que se compra para afastar mosquitos, mas numa versão anti estes seres) que nos permitisse chutá-los- oh sim, chutá-los parece-me uma boa ideia.

Oh, eu não odeio a Humanidade, calma com isso que também sou Humana, carne, osso e alma- ah sim, alma é isso que faz falta a muito boa gente- mas sabem o que me deixa a fervilhar por dentro? Bem, já sei o que pensaram seus marotos, mas não, nada tem a ver com isso. O que me faz sentir a fervilhar e cada vez mais refeita e contrafeita é a capacidade de me fazer letras, de despejar o meu coração numa infinita combinação de letras, palavras e verbos, é engraçado sabem? Mas melhor ainda é ter-me apercebido que de entre tanta gente há sempre uma ou outra pessoa que pára e lê, mas com olhos de ler, aquela operação exaustiva que nos faz esmiuçar cada bocadinho da narrativa, certamente sabem do que falo…sinto-me extremamente orgulhosa por ter encontrado neste mundo tão grande, pessoas que me fazem apagar e reescrever a minha vida, construindo-me e refazendo-me a cada parágrafo. Obrigada por existirem e se destacarem neste antro de macaquinhos de teste, vocês fazem de mim mais Humana e só isso.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Parceria BranMorrighan & Revista Literária Sítio - Eis os escritores talentosos!


Esta semana publicamos os resultados da parceria entre a Revista Literária Sítio e o Blog BranMorrighan.

Entre os vários participantes foram escolhidos os textos em prosa de Ana Pereira, Liliana Leça e Tomás Gomes, e os poemas de Carina Portugal e E.M. Valmont.

Durante toda a semana procederemos à publicação de um texto por dia. Agradecemos a disponibilidade do Blog BranMorrighan para esta ideia e esperamos que entre os autores escolhidos possam estar futuros colaboradores regulares da Revista Literária Sítio!

sábado, 17 de maio de 2014

Beira Rio

|Matheus Mineiro


arrastei ate a beira desse poema  a carcaça
de uma  capivara que ate então vivia
roendo a beira da palavra rio
                          talvez
escavando seu sistema digestivo
eu colha  esse  rio
                      e ele me ensine a fluir
 tal-qualmente uma corrente.
digo escorrer
observando a noção de nascente
                                até as
primeiras pedras
                 e quedas e diques e esgotos.
me ensina arespirar com  as guelras dos  lambaris
 e decolar com  as asas das garças.
uma amiga índia chorou tanto uma vez que
de seus olhos saíram o Rio Passa Quatro, corredeiras e  mananciais.
eu poderia por um dia ser água turva,
estilo rio negro
e ser nadado por um boto rosa.
ou ser água da praia da cajaíba aguardando os espinhos do baiacu.
tenho amigos que parecem fontes de água mineral quando conversamos.
dispensar o cérebro qualquer dia desses
só para ter uma bacia hidrográfica dentro do peito.
ser rio e ser choro.
saber da esquisitice da água
que é embriagar  a  sede.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Porca selvagem do mato

|Matheus Mineiro

quando convive ou
 quando
escreve
tudo parece ferramenta cirúrgica que  bifurca  pele
quando convive ou quando escreve
cada sílaba é
 lâmina de  um canivete
que corta  a barriga de uma porca selvagem do mato
para jorrar um caldo 
muito
mas muito pastoso
até  que o  poema entre no mundo como um homem
 soltando grunhidos.
soltando grunhidos.
soltando grunhidos.
fazendo carícias na garganta do grito
se depara com o abatedouro diário
dentro do  pensamento.
 quando a lamina passeia pela  garganta da  porca selvagem do mato
percebes  que  o  mundo é aquela  irritação nas suas  amígdalas .
fazendo carícias na garganta do grito
A rotina da cidade é entalhe feito por instrumento cortante.
nos faz apalpar a lâmina de um serrote soletrando o verbo insistir.

junto a esse incomodo que é sentir o tédio cutucando meus rins.