segunda-feira, 12 de maio de 2014
Matheus Mineiro - Biografia
Matheus Mineiro artesão e poeta autor do livro A Cachoeira do Poema Na Fazenda do Seu Astral,2013.
Se encontra radicado na bucólica Serra dos Órgãos .
www.apologiapoetica.blogspot.com.br
domingo, 11 de maio de 2014
Mestre
|Luis Coelho
Seguem-te esquecendo-se,
Desvelam a ilusão,
nutrem-se no teu furúnculo,
Restringem-se
na acção, na cognição,
porque os injectas na sua base,
no seu homúnculo reptiliano,
porque os aprisionas na culpa ditosa,
crias as regras da sua estase,
os apetrechos ocos do seu córtex,
Opera-los, tritura-los, redu-los à sua condição,
Lembras-lhes a sua Humanidade,
porque é tua, a que já foi deles, pobre volição,
Trazes ao mundo a esperança,
quando oca é a vida e vã a temperança.
Seguem-te esquecendo-se,
Desvelam a ilusão,
nutrem-se no teu furúnculo,
Restringem-se
na acção, na cognição,
porque os injectas na sua base,
no seu homúnculo reptiliano,
porque os aprisionas na culpa ditosa,
crias as regras da sua estase,
os apetrechos ocos do seu córtex,
Opera-los, tritura-los, redu-los à sua condição,
Lembras-lhes a sua Humanidade,
porque é tua, a que já foi deles, pobre volição,
Trazes ao mundo a esperança,
quando oca é a vida e vã a temperança.
sábado, 10 de maio de 2014
Mapas
|Luis Coelho
Não me procures na urgência de medidas,
Não vejas em mim a tua distância definida,
Não procures no meu corpo os teus limites sucumbidos,
Não vislumbres no meu olhar a aceitação dos dias preteridos.
Não venho para dar Luz, como os instrumentos de outras Eras,
Não venho estender vias, como fronteiras predestinadas,
Trago em mim os velos e a urgência do mistério,
Trago comigo a Noite e a mística do baptistério,
Trago comigo a sombra e o silêncio das esculturas,
Trarei em mim o secreto e os deuses das alturas,
caindo como anjo mortal do solstício das agruras.
Não sou Razão, como via direccionada,
Não teço soluções nem a voz por muitos desejada,
Venho perturbar, riscar a meta na deturpação
da Verdade que os tempos devoraram ficcionada.
Não me procures na urgência de medidas,
Não vejas em mim a tua distância definida,
Não procures no meu corpo os teus limites sucumbidos,
Não vislumbres no meu olhar a aceitação dos dias preteridos.
Não venho para dar Luz, como os instrumentos de outras Eras,
Não venho estender vias, como fronteiras predestinadas,
Trago em mim os velos e a urgência do mistério,
Trago comigo a Noite e a mística do baptistério,
Trago comigo a sombra e o silêncio das esculturas,
Trarei em mim o secreto e os deuses das alturas,
caindo como anjo mortal do solstício das agruras.
Não sou Razão, como via direccionada,
Não teço soluções nem a voz por muitos desejada,
Venho perturbar, riscar a meta na deturpação
da Verdade que os tempos devoraram ficcionada.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
A Sagrada Família
|Luis Coelho
Pai, ao teu eco túrgido,
à Palavra com que cegas,
Condeno as liberdades,
porque não me concedo,
Não te mato em mim
de te fender nos outros,
Faço-te Lei num gesto grotesco,
no repente do medo,
de vis demónios consentidos.
Expiras em mim os pólos contrafeitos,
Limitas a minha dança à dúvida do regresso,
fazendo-me teu espelho,
no negro perecível do teu ouro,
no reflexo temível do teu núcleo.
Queres-me sombra à custa de me trazeres no teu espectro.
Queres-me luz à custa de querer trair o teu feltro.
E eu só quero ser a Mãe do teu repúdio,
matéria no asco dos teus limites,
desejo, sexo e vanidade
levitando,
mergulhando no centro do teu túmulo.
Mãe Sophia no teu filho de ousadias.
Mãe do retorno perpétuo,
comédia dos trabalhos, a tragédia dos dias,
Eu sou o filho e trago comigo a paixão
das verdades relativas, das mentiras rendidas.
Pai, ao teu eco túrgido,
à Palavra com que cegas,
Condeno as liberdades,
porque não me concedo,
Não te mato em mim
de te fender nos outros,
Faço-te Lei num gesto grotesco,
no repente do medo,
de vis demónios consentidos.
Expiras em mim os pólos contrafeitos,
Limitas a minha dança à dúvida do regresso,
fazendo-me teu espelho,
no negro perecível do teu ouro,
no reflexo temível do teu núcleo.
Queres-me sombra à custa de me trazeres no teu espectro.
Queres-me luz à custa de querer trair o teu feltro.
E eu só quero ser a Mãe do teu repúdio,
matéria no asco dos teus limites,
desejo, sexo e vanidade
levitando,
mergulhando no centro do teu túmulo.
Mãe Sophia no teu filho de ousadias.
Mãe do retorno perpétuo,
comédia dos trabalhos, a tragédia dos dias,
Eu sou o filho e trago comigo a paixão
das verdades relativas, das mentiras rendidas.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
A paixão de Sophia
|Luis Coelho
Da Noite de enxofre, da costela de ouro,
do pneuma, da pleura, do Sopro vital,
Quedas-te do triunfo dos homens,
da Imaginação,
da montanha, da coroa, da obra da retorta,
do corpo inconsciente criação,
Fazes da carne a vaidade saturnina,
o palco do teu seio,
a rampa da saudade tempestiva
do vazio da profecia.
Da Noite de enxofre, da costela de ouro,
do pneuma, da pleura, do Sopro vital,
Quedas-te do triunfo dos homens,
da Imaginação,
da montanha, da coroa, da obra da retorta,
do corpo inconsciente criação,
Fazes da carne a vaidade saturnina,
o palco do teu seio,
a rampa da saudade tempestiva
do vazio da profecia.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Pater
|Luis Coelho
Repousas no desejo de seres
Dormes no anseio do sonho
Não pretendes vir a ser
E, não obstante, quere-lo,
Queres a insanidade,
a viagem e o plural,
Quedar com o sentido
do sem sentido,
Caminhar para a ti chegares
no momento primeiro,
no tempo do encontro
com a ilusão de um início.
Repousas no desejo de seres
Dormes no anseio do sonho
Não pretendes vir a ser
E, não obstante, quere-lo,
Queres a insanidade,
a viagem e o plural,
Quedar com o sentido
do sem sentido,
Caminhar para a ti chegares
no momento primeiro,
no tempo do encontro
com a ilusão de um início.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Trindade
|Luis Coelho
Pai,
No teu sono de enxofre
desejas na impossibilidade
o rio do atrito da desventura,
E o filho,
que resvala na partitura da paixão,
na redução dos homens transviados,
na roda serpentina do retorno eternizado,
suplica a renúncia na libertação,
implora a sua própria rebelião,
para que a Verdade nele chame a contenda da dúvida,
para que a neurose, a culpa nele demande sacrifício,
o seu levitar materno, ousadia de Sophia,
a sua desmaterialização na fortuna iniciática,
pela ordem, acção e síntese
do Espírito feito alma alada,
Hermes enrubescido pelas viagens,
nesse equilíbrio mercurial
dos neurónios robustecidos,
do pensamento apaziguado.
O Espírito é a Noite de sonhos evolados
na tragédia finalizada na Origem,
no caminho conseguido de conspirado,
no trilho de perdido em nós tornado.
Pai,
No teu sono de enxofre
desejas na impossibilidade
o rio do atrito da desventura,
E o filho,
que resvala na partitura da paixão,
na redução dos homens transviados,
na roda serpentina do retorno eternizado,
suplica a renúncia na libertação,
implora a sua própria rebelião,
para que a Verdade nele chame a contenda da dúvida,
para que a neurose, a culpa nele demande sacrifício,
o seu levitar materno, ousadia de Sophia,
a sua desmaterialização na fortuna iniciática,
pela ordem, acção e síntese
do Espírito feito alma alada,
Hermes enrubescido pelas viagens,
nesse equilíbrio mercurial
dos neurónios robustecidos,
do pensamento apaziguado.
O Espírito é a Noite de sonhos evolados
na tragédia finalizada na Origem,
no caminho conseguido de conspirado,
no trilho de perdido em nós tornado.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Luís Coelho - Biografia
Com cinco livros publicados na área do ensaio filosófico-Espiritual e de análise psicanalítica, o percurso poético do autor foi-se tornando mais certo e coeso, com o cruzamento de múltiplas referências obtidas a partir da sua dedicação às suas particulares obsessões: o Sagrado, a Psicologia da Espiritualidade, o Corpo...
No espaço de um só ano publicou três livros: «O Corpo e o Nada. mini-ensaios teofilosóficos» (Apeiron Edições, 2013), «As Metamorfoses do Espírito. Sobre o mal, a psicologia da Filosofia e o Super-Homem» (Apeiron Edições, 2013), e, mais recentemente, «A Clínica do Sagrado. Medicina e Fisioterapias, Psicanálise e Espiritualidade» (Edições Mahatma, 2014).
No espaço de um só ano publicou três livros: «O Corpo e o Nada. mini-ensaios teofilosóficos» (Apeiron Edições, 2013), «As Metamorfoses do Espírito. Sobre o mal, a psicologia da Filosofia e o Super-Homem» (Apeiron Edições, 2013), e, mais recentemente, «A Clínica do Sagrado. Medicina e Fisioterapias, Psicanálise e Espiritualidade» (Edições Mahatma, 2014).
sábado, 3 de maio de 2014
A campanha da vida
|Clara Henriques
“Aderiu à campanha dos pontos?”
Grita uma voz, quase máquina,
quase nada
Sobre um balcão de um café.
Ninguém lhe liga mas todos lhe
respondem:
- Solidão.
Ninguém lhe fez o convite
Mas ela chega e é mundo, é vida,
é chão.
De todos os olhares
Que cruzam o meu
Nenhum que saiba ficar
Nenhum que saiba lutar
E é já manhã.
Grito conforme o passo que me
assiste
E nada insiste
Na palavra vã.
Sobra a multidão
De um mundo então
E de quem tem de fazer dos dias:
“Já aderiu à campanha dos pontos?”
Para ganhar o pão.
E a resposta é Não.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Poemas de Hugo de Oliveira
|Hugo de Oliveira
Usurpador de sonhos
E nesse sonho partilhado,
Repousamos juntos,
Peito forte, sentido agarrado,
Nessa luta desigual,
Disputamos nosso leito,
E despertos nesse sorriso apartado,
Vagueamos pela razão,
Nessa distância de um beijo que nos separa.
E reiteras teu poder,
Nesse corpo díspar,
Encanto de mil-sóis, nesse cara-a-cara.
São curvas que me fascina,
Imperativa vazão,
Sentimos percorrer sem freio,
Autoritária forma de sentir,
Esse toque jamais esquecido,
Meio forte gasto, ainda me faz sorrir.
Não serei eu nem tu,
Tampouco essa multidão,
Apenas unidos,
Pertenço-te,
Nessa dança trivial,
De corpos fundidos,
Presos e colados por uma mácula divinal,
Que suaviza este enlace,
Esta noite por vezes carnal, outrora anal.
E fugimos no incerto,
Nessa linha que separa a tua face,
Metade mulher, outra animal,
Finges sentir vozes ocultas,
Enquanto brincas no escuro,
Roubando e usurpando sons melancólicos,
Construindo teu reino,
Castelo sem futuro.
*
Maldito tempo
Maldito tempo, monótono e ausente,
Perdido num beijo, por vezes carnal, outrora ardente,
De amanhecer cáustico, noite presente,
Preenchido por virgens num sufoco gritante.
E as perdidas, deveras esguelhadas,
Tatuam em fogo, corpo demente,
E da brisa de orgia crescente,
São membros teus, pernas escumalhas.
Sou prazer desse sexo misterioso,
Noite voluptuoso, seios chocantes,
Parceiras ciosas, do beijo que procuras,
Neste tempo que me absorve,
Chupa, faz-te prisioneira de toques orais,
E sente dor, bem profunda que me consome,
Para crescer em ti, pedaços divinos,
Nesta pura sentinela do novo luar.
Sim, é o tempo que nos permite procriar,
Quais fantasias, quais animais,
São corpos difusos, olhares cristalinos.
*
Calafrio
Nesse frio, pele de mulher que se debruça,
Que lasciva estonteante nos meus braços, certos seios,
Que me arrebate, beija e deslumbra,
Versos soltos, poesia estranha, amor feio, por fim.
Esse ser, pedaço melancólico,
Que finge sentir e lambuzar os meus doces receios,
A quem me entreguei nessa cruel ventura,
A quem jorrou, fácil, papel clandestino.
Sim, essa mulher que a cada amor grita,
A verdade gemida de quem ama,
Preso nas marcas rasgadas, mordido assim.
Esse ser traduz-se num universo sem fim,
Animal sem freio, deturpado no meu rosto,
Que no suave balançar de gestos coordenadas,
Seduz-me nesse bramido estridente,
Nesse corpo, saciado em mim.
Usurpador de sonhos
E nesse sonho partilhado,
Repousamos juntos,
Peito forte, sentido agarrado,
Nessa luta desigual,
Disputamos nosso leito,
E despertos nesse sorriso apartado,
Vagueamos pela razão,
Nessa distância de um beijo que nos separa.
E reiteras teu poder,
Nesse corpo díspar,
Encanto de mil-sóis, nesse cara-a-cara.
São curvas que me fascina,
Imperativa vazão,
Sentimos percorrer sem freio,
Autoritária forma de sentir,
Esse toque jamais esquecido,
Meio forte gasto, ainda me faz sorrir.
Não serei eu nem tu,
Tampouco essa multidão,
Apenas unidos,
Pertenço-te,
Nessa dança trivial,
De corpos fundidos,
Presos e colados por uma mácula divinal,
Que suaviza este enlace,
Esta noite por vezes carnal, outrora anal.
E fugimos no incerto,
Nessa linha que separa a tua face,
Metade mulher, outra animal,
Finges sentir vozes ocultas,
Enquanto brincas no escuro,
Roubando e usurpando sons melancólicos,
Construindo teu reino,
Castelo sem futuro.
*
Maldito tempo
Maldito tempo, monótono e ausente,
Perdido num beijo, por vezes carnal, outrora ardente,
De amanhecer cáustico, noite presente,
Preenchido por virgens num sufoco gritante.
E as perdidas, deveras esguelhadas,
Tatuam em fogo, corpo demente,
E da brisa de orgia crescente,
São membros teus, pernas escumalhas.
Sou prazer desse sexo misterioso,
Noite voluptuoso, seios chocantes,
Parceiras ciosas, do beijo que procuras,
Neste tempo que me absorve,
Chupa, faz-te prisioneira de toques orais,
E sente dor, bem profunda que me consome,
Para crescer em ti, pedaços divinos,
Nesta pura sentinela do novo luar.
Sim, é o tempo que nos permite procriar,
Quais fantasias, quais animais,
São corpos difusos, olhares cristalinos.
*
Calafrio
Nesse frio, pele de mulher que se debruça,
Que lasciva estonteante nos meus braços, certos seios,
Que me arrebate, beija e deslumbra,
Versos soltos, poesia estranha, amor feio, por fim.
Esse ser, pedaço melancólico,
Que finge sentir e lambuzar os meus doces receios,
A quem me entreguei nessa cruel ventura,
A quem jorrou, fácil, papel clandestino.
Sim, essa mulher que a cada amor grita,
A verdade gemida de quem ama,
Preso nas marcas rasgadas, mordido assim.
Esse ser traduz-se num universo sem fim,
Animal sem freio, deturpado no meu rosto,
Que no suave balançar de gestos coordenadas,
Seduz-me nesse bramido estridente,
Nesse corpo, saciado em mim.
*
Hugo de Oliveira
Nasceu a 27 de Março de 1988, numa pacata aldeia no concelho de Felgueiras, porém a vontade de respirar confusão de uma vida cosmopolita levou-o, atualmente, para a agitada cidade de Lisboa.
No tocante à sua formação académica e literária é licenciado em Relações Internacionais (Universidade do Minho), com especialização em Ciência Política (ISCTE-IUL), diz rever na arte das palavras uma diplomacia abstrata de expressões.
Canhoto assumido analisa de uma outra perspetiva o ângulo literário deste tão nobre dom, a escrita.
Entusiasta das emoções, apreciador nato de artes expressivas, do teatro ao cinema, descreve-se num meio-termo de uma obra inacabada.
Autor dos livros:
"Mulher Chuva" (Chiado Editora - Outubro, 2012);
“Pecado & Luxúria” (Chiado Editora – Setembro, 2013)
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Mesa do Canto – A revolução todos os dias
|Alexandra Malheiro
Podia esta crónica ser sobre as coisas nenhumas acerca das quais habitualmente escrevo? Podia. Não me tenho dado mal assim, enchi, há pouco tempo, um livro inteiro, a chegar às 200 páginas, só de crónicas dessas, a falar da cidade, sem a qual sou barco sem rumo, folha sem letras, livro sem conteúdo; sobre os pequenos contextos e descontextos, sobre as pessoas que vejo passar pela montra do meu café ou sobre um ou outro amigo que vem sentar-se à mesa comigo a ouvir-me resmungar do tempo ou aqueles com quem discuto o valor etéreo da literatura em dias de chuva. Houve mesmo quem o comprasse e lesse e ainda me viesse dizer que gostou, mais até do que daquela sombria coisa da poesia que nunca ninguém compreende mesmo.
Mas hoje, quando vos escrevo, é Abril. Quando escrevo Abril abrem-se cravos rubros, da cor do sangue que não se derramou e solta-se o vigor da revolução. A que nos havia de salvar da indignidade de não ter voz, da mordaça, da polícia política que avançava casas adentro, esgarçando famílias, torturando, matando, humilhando. Adeus pensamento único, adeus imobilidade de classes, adeus cabeça baixa, chapéu na mão, dorso curvado à ignomínia. Adeus guerra sem sentido.
Quarenta anos passaram da genial revolução sem sangue e olhámos os filhos ressabiados do 25 de Abril que entretanto, por via dele, se alçaram ao poder, entretidos a desfazer aquilo por quem tantos padeceram, muitos lutaram e até morreram.
Alguns avisam e gritam que é preciso uma nova revolução, uma manchada do sangue a que esta nos poupou. Não creio. A revolução está em nós, a democracia, com defeitos e virtudes, é ainda um direito nosso, portanto façamos a revolução nas urnas, nos deveres cívicos que urgem cumprir, ao invés das conversas balofas de café e quando somos chamados a decidir trocamos a obrigação pela praia ou por um encolher de ombros seguido de “não quero saber, são todos iguais, eles querem é poleiro”. Foi o 25 de Abril que, num gesto mágico, nos trouxe a democracia, o direito à escolha, compete-nos a nós não deitar a perder esse direito que é também o dever de fazer (ou merecer) a revolução todos os dias.
Podia esta crónica ser sobre as coisas nenhumas acerca das quais habitualmente escrevo? Podia. Não me tenho dado mal assim, enchi, há pouco tempo, um livro inteiro, a chegar às 200 páginas, só de crónicas dessas, a falar da cidade, sem a qual sou barco sem rumo, folha sem letras, livro sem conteúdo; sobre os pequenos contextos e descontextos, sobre as pessoas que vejo passar pela montra do meu café ou sobre um ou outro amigo que vem sentar-se à mesa comigo a ouvir-me resmungar do tempo ou aqueles com quem discuto o valor etéreo da literatura em dias de chuva. Houve mesmo quem o comprasse e lesse e ainda me viesse dizer que gostou, mais até do que daquela sombria coisa da poesia que nunca ninguém compreende mesmo.
Mas hoje, quando vos escrevo, é Abril. Quando escrevo Abril abrem-se cravos rubros, da cor do sangue que não se derramou e solta-se o vigor da revolução. A que nos havia de salvar da indignidade de não ter voz, da mordaça, da polícia política que avançava casas adentro, esgarçando famílias, torturando, matando, humilhando. Adeus pensamento único, adeus imobilidade de classes, adeus cabeça baixa, chapéu na mão, dorso curvado à ignomínia. Adeus guerra sem sentido.
Quarenta anos passaram da genial revolução sem sangue e olhámos os filhos ressabiados do 25 de Abril que entretanto, por via dele, se alçaram ao poder, entretidos a desfazer aquilo por quem tantos padeceram, muitos lutaram e até morreram.
Alguns avisam e gritam que é preciso uma nova revolução, uma manchada do sangue a que esta nos poupou. Não creio. A revolução está em nós, a democracia, com defeitos e virtudes, é ainda um direito nosso, portanto façamos a revolução nas urnas, nos deveres cívicos que urgem cumprir, ao invés das conversas balofas de café e quando somos chamados a decidir trocamos a obrigação pela praia ou por um encolher de ombros seguido de “não quero saber, são todos iguais, eles querem é poleiro”. Foi o 25 de Abril que, num gesto mágico, nos trouxe a democracia, o direito à escolha, compete-nos a nós não deitar a perder esse direito que é também o dever de fazer (ou merecer) a revolução todos os dias.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Caça-Fantasma
|Maíra Matthes
Come back and
haunt me
outra vez
ser convencida
pela palavra
‘último’
e
seus ecos
parar ali
onde no limite ela significa
‘túmulo e
cimento’
ficar ali
imóvel
onde eu
digo:
‘barro’
e você
entende
‘rosas amarelas sobre a lápide cinza’
como se
tivéssemos derradeiramente tocado o
limite do significado de
‘falta de ar’
como quem
tenta pronunciar
‘enfim a
última vez’
‘o túmulo-vez’
‘o cimento-vez’
‘o barro-vez’
que você me
toca no ombro com esses seus dedos arrgh
frios
*
Rio de Janeiro. Primeiro
de novembro de 2013
Nada mais vermelho em minha pele;
Eu sou você com os cabelos castanhos claros;
Eu sou você enrolada em lençóis brancos;
Eu sou você com os dedos frios;
Etc.
*
a ‘Ultima-Cimento-Barro-Lápide-Vez’
que nossos ácidos ficam inertes e as
cinzas nem tentam derreter o ar
outra vez
agora
de vez
a
‘Ultima-Cimento-Barro-Lápide-Vez’
sábado, 26 de abril de 2014
E então nós éramos duas
|Maíra Matthes
então,
ninfas
então
E então nós éramos nós duas
e nós éramos assim:
Saia & Short
e moças soltas sem pai
o dela: sumido para ninguém nunca mais ver quando foi
(DE VERDADE) comprar cigarros numa esquina que o desapareceu.
o meu: vivo vivinho – “o mesquinho” – fazendo contas com a boca
sempre aberta se alimentando de álcool e mel.
e éramos,
então,
ninfas
queimando a argila de uma no úmido da outra.
e correndo do escuro-escuro que estava no quase
de engolir a gente, de matar a gente toda.
Short corria com rodas rápidas − fugia com cor preta
pintada no céu – ela ia pintando assim que ia passando.
Saia fugia arrastava os móveis com seus órgãos moles
suas mãos imensas e o coração tentáculo comendo nada.
éramos
então
juntas na fuga do escuro-escuro que nos
espreitava – estrategeava nosso fracasso
mas
estávamos correndo e assim também acontecia
tropeções em calcinhas e dragões que ficavam no corredor.
Short matava 3.500.50, 55 dragões por dia.
Saia jogava as calcinhas fora – saía abria o corredor
para a janela – para o aberto-reto, o fundo abstrato-branco que ela
conseguia (só ali!) respirar.
mas Short se cansou e
“contumaz,”
entrou num cômodo que não tinha janela
e não tinha branco e
não tinha abstrato e
então Short
tirou martelos e foices do seu bolso gigante e
destruiu a parede do quarto com krátos e
bíe.
a parede caiu
Short saiu
fez um corredor no meio dos tijolos todos no
chão
cor laranja
cor não entendia qual era a cor
Saia então – do branco distante (só ali vivia!) olhou
estarrecida todos os pedaços que foram uma vez parede
e
chorou.
Short cortou tudo que precisava cortar nem chorou nem
entendeu partiu correndo levando apenas um presente de Saia (em baixo dos braços) –
o xerox colorido da Vênus de Botticelli.
E então éramos
nós duas
correndo
cada uma para um lado
no fim.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
A explosão do balão vermelho
|Maíra Matthes
morro mais uma vez
como imagino que uma mulher do séc. XIX morreria pois é mais poético morrer como uma mulher do séc. XIX morreria mesmo se você for um homem
ou
porque é melhor morrer como qualquer outra pessoa morreria
e
deve ser bom não morrer sozinho
de verdade
eu digo
como se existisse alguém dentro da sua mente acompanhando sua morte dentro de você e esse alguém
sim
diria coisas que você gostaria de dizer
“o estupro ao solipsismo é o que eu sempre entendi por penetração”
e então
talvez
você se sentisse menos
(i)
insaisissable
(ii)
a virgem velha morrendo sozinha em minas de minério
(iii)
a imagem mental de
(iv)
a coisa em si da
(v)
uma caverna qualquer (que ninguém ainda se deu o trabalho de chamar de caverna)
até o momento em que
psiu!
sua vida
explode num balão vermelho
depois
morro mais uma vez
como imagino que uma mulher do séc. XIX morreria pois é mais poético morrer como uma mulher do séc. XIX morreria mesmo se você for um homem
ou
porque é melhor morrer como qualquer outra pessoa morreria
e
deve ser bom não morrer sozinho
de verdade
eu digo
como se existisse alguém dentro da sua mente acompanhando sua morte dentro de você e esse alguém
sim
diria coisas que você gostaria de dizer
“o estupro ao solipsismo é o que eu sempre entendi por penetração”
e então
talvez
você se sentisse menos
(i)
insaisissable
(ii)
a virgem velha morrendo sozinha em minas de minério
(iii)
a imagem mental de
caverna
(iv)
a coisa em si da
caverna
(v)
uma caverna qualquer (que ninguém ainda se deu o trabalho de chamar de caverna)
até o momento em que
psiu!
sua vida
explode num balão vermelho
quinta-feira, 24 de abril de 2014
A mulher com voz
|Maíra Matthes
a dor de cabeça existe num mundo sem Deus
Eu
me sentindo
−
a mulher com voz −
ao
mesmo tempo
uma
dor de cabeça
que
eu penso se não vai nascer
minha
filha da minha
cabeça
e
as dores, dores do parto todas todas na minha cabeça
mas
minha filha não nasce e as dores aumentam na cabeça toda se espalhando tanto que
mal consigo terminar saber como eu comecei e ainda tem que ter um fim essa fras
Deus
(eu penso Zeus) quer me castigar −
eu
penso
mas
não,
Deus
não pode ser logicamente concebido num mundo que Pandora dá luz à Atenas
então,
a dor de cabeça existe num mundo sem Deus
escondida no invisível, indiscernível nas coisas que os seres sem dor de cabeça
podem ver.
ela
se espalha e gruda sinistra em tudo
–
permanece lá –
minha
maternidade
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Buraco com pus
|Maíra Matthes
cá estou sentada sobre essa escadaria –
meu cabelo é liso/há vento/meu cabelo voa
enquanto o mundo parece estar dizendo:
“Oh! Como preciso escoar a carne que está se
aglomerando no meu rosto”
e é como
se eu soubesse de cor uma
frase (qualquer) de uma tragédia (qualquer) e a declamasse num tom
infinitamente melancólico
e também é como
se eu preferisse pensar que as folhas e ventos que
passam no meu cabelo agora são frutos de alguma vontade,
como se alguém mandasse – de presente –
“folhas e ventos”
para Rua General Glicério, dia 5 de Maio, Sedex
essas folhas [olhe para elas!] estão prometendo
tampar o buraco com pus que existe (e ninguém sabe) entre cada fio de
cabelo – aqueles que voam no vento agora como se fossem estrelas de cinema.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Resumo e objetivos da estória
|Maíra Matthes
Essa estória é sobre a superfície escura do mar
e o reflexo branco que oscila sobre essa mesma superfície. Como eles são uma e
mesma coisa, essa estória é sobre a superfície do mar que é, ora escura, ora
reflexo branco. Essa estória é sobre a simplicidade. É sobre algo como: um jarro sobre a mesa. Ela visa retratar
a impressão de plenitude e vazio que podem tomar conta de alguém se, por
ventura, este alguém se deparar com o mar, numa noite, provavelmente sozinho. A
pretensão dessa estória é fazer o leitor se sentir literalmente sozinho, rodeado
pela noite e diante superfícies escuras com reflexos brancos. É fazer com que o
leitor consiga ver na imagem do mar a imagem de:
um jarro sobre a mesa.
O leitor vai sentir TUDO. Inicialmente o
narrador divagará (por aproximadamente uma página e meia) sobre a natureza do
PLENO. O narrador parte do pressuposto de que a visão das superfícies escuras
com reflexos brancos remete à ideia de plenitude e pretenderá convencer o
leitor disso evocando lembranças sobre superfícies, solidão e jarros. Em seguida
o narrador afirmará que TUDO não é TUDO senão englobar dentro de si o VAZIO. O
PLENO pode não ser o VAZIO, mas o TUDO para ser TUDO precisa ter TUDO MESMO dentro
de si, e isso inclui o VAZIO. Então, aproximadamente mais uma página e meia
será desenvolvida sobre a natureza do VAZIO.
Mas eis que, de repente (na estória) começa a
chover. E os pingos não são poéticos, eles são a antipoética batendo nas costas
do leitor. A chuva funcionará como quebra narrativa e terá a função de trazer a
“experiência do cotidiano” para o interior do texto. O objetivo desse corte é
fazer o leitor se sentir “começando a ficar molhado do lado de pessoas alegres
que conversam entre si sem ao menos desconfiar que aquele mar diante de si poderia
ser comparado a um jarro sobre a mesa.”
[extrato p.4]. Caso o pacto ficcional esteja funcionando, o leitor, nesse
momento, se sentirá tremendamente ofendido. Percebam: ele terá sido lançado dos
altos píncaros da especulação sobre o PLENO e o VAZIO para a vulgar condição de
se sentir “começando a ficar molhado.” Ele terá, então, vontade de cair em alto
mar e poderá comparar essa imagem com a de quebrar o vaso que estava em cima da
mesa. E a estória vai acabar assim, com
a palavra “desespero” estranhamente flutuando no meio da última frase.
Ps. É importante ressaltar que o término ideal
da estória é fora-textual, isto é, a estória apenas terminaria verdadeiramente
se e somente se o leitor tentasse suicídio por afogamento ou lesões corporais graves
oriundas de profundos cortes de vidros tipo ‘vidros de jarro’. Caso isso não
ocorra, não se pode dizer com toda certeza que a estória teve um fim.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Maíra Matthes - Biografia
Mineira, ex-bailarina da Cia. de Dança Paula Nestorov e mestre em Filosofia pela PUC-RJ. Premiada no 6º Concurso Literário de Suzano com o conto “Bárbaras Nuvens” e no Prêmio OFF FLIP com o conto “A Solidariedade dos Abalados.” Professora de Filosofia na UERJ e no CAp UFRJ. Escreve no blog: http://opesodasbolhas. blogspot.com.br/
domingo, 20 de abril de 2014
Mar aberto
|Mariana Teixeira
Visto de cima era um mar
Ondulações em sequência
no fim, a onda mais alta
quebrando
e voltando
para o ciclo
sem fim
Do andar de cima
fazia do telhado vizinho
paisagem
e movimento
para dias estáticos
Visto de cima era um mar
Ondulações em sequência
no fim, a onda mais alta
quebrando
e voltando
para o ciclo
sem fim
Do andar de cima
fazia do telhado vizinho
paisagem
e movimento
para dias estáticos
sábado, 19 de abril de 2014
Imersão
|Mariana Teixeira
se distraído
te empurram
do alto
você mergulha
sem jeito
no ar
duro
a gravidade,
um convite susto
te acorda
te faz bater asas
e o mergulho
no vento
é sua nova casa
se distraído
te empurram
do alto
você mergulha
sem jeito
no ar
duro
a gravidade,
um convite susto
te acorda
te faz bater asas
e o mergulho
no vento
é sua nova casa
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