quinta-feira, 8 de maio de 2014

A paixão de Sophia

|Luis Coelho

Da Noite de enxofre, da costela de ouro,
do pneuma, da pleura, do Sopro vital,
Quedas-te do triunfo dos homens,
da Imaginação,
da montanha, da coroa, da obra da retorta,
do corpo inconsciente criação,
Fazes da carne a vaidade saturnina,
o palco do teu seio,
a rampa da saudade tempestiva
do vazio da profecia.



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Pater

|Luis Coelho

Repousas no desejo de seres
Dormes no anseio do sonho
Não pretendes vir a ser
E, não obstante, quere-lo,
Queres a insanidade,
a viagem e o plural,
Quedar com o sentido
do sem sentido,
Caminhar para a ti chegares
no momento primeiro,
no tempo do encontro
com a ilusão de um início.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Trindade

|Luis Coelho

Pai,
No teu sono de enxofre
desejas na impossibilidade
o rio do atrito da desventura,
E o filho,
que resvala na partitura da paixão,
na redução dos homens transviados,
na roda serpentina do retorno eternizado,
suplica a renúncia na libertação,
implora a sua própria rebelião,
para que a Verdade nele chame a contenda da dúvida,
para que a neurose, a culpa nele demande sacrifício,
o seu levitar materno, ousadia de Sophia,
a sua desmaterialização na fortuna iniciática,
pela ordem, acção e síntese
do Espírito feito alma alada,
Hermes enrubescido pelas viagens,
nesse equilíbrio mercurial
dos neurónios robustecidos,
do pensamento apaziguado.

O Espírito é a Noite de sonhos evolados
na tragédia finalizada na Origem,
no caminho conseguido de conspirado,
no trilho de perdido em nós tornado.


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Luís Coelho - Biografia

Com cinco livros publicados na área do ensaio filosófico-Espiritual e de análise psicanalítica, o percurso poético do autor foi-se tornando mais certo e coeso, com o cruzamento de múltiplas referências obtidas a partir da sua dedicação às suas particulares obsessões: o Sagrado, a Psicologia da Espiritualidade, o Corpo...

No espaço de um só ano publicou três livros: «O Corpo e o Nada. mini-ensaios teofilosóficos» (Apeiron Edições, 2013), «As Metamorfoses do Espírito. Sobre o mal, a psicologia da Filosofia e o Super-Homem» (Apeiron Edições, 2013), e, mais recentemente, «A Clínica do Sagrado. Medicina e Fisioterapias, Psicanálise e Espiritualidade» (Edições Mahatma, 2014).

sábado, 3 de maio de 2014

A campanha da vida

|Clara Henriques


“Aderiu à campanha dos pontos?”
Grita uma voz, quase máquina, quase nada
Sobre um balcão de um café.
Ninguém lhe liga mas todos lhe respondem:
- Solidão.
Ninguém lhe fez o convite
Mas ela chega e é mundo, é vida, é chão.

De todos os olhares
Que cruzam o meu
Nenhum que saiba ficar
Nenhum que saiba lutar
E é já manhã.

Grito conforme o passo que me assiste
E nada insiste
Na palavra vã.

Sobra a multidão
De um mundo então
E de quem tem de fazer dos dias:
“Já aderiu à campanha dos pontos?”
Para ganhar o pão.


E a resposta é Não.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Poemas de Hugo de Oliveira

|Hugo de Oliveira

Usurpador de sonhos

E nesse sonho partilhado,
Repousamos juntos,
Peito forte, sentido agarrado,
Nessa luta desigual,
Disputamos nosso leito,
E despertos nesse sorriso apartado,
Vagueamos pela razão,
Nessa distância de um beijo que nos separa.
E reiteras teu poder,
Nesse corpo díspar,
Encanto de mil-sóis, nesse cara-a-cara.
São curvas que me fascina,
Imperativa vazão,
Sentimos percorrer sem freio,
Autoritária forma de sentir,
Esse toque jamais esquecido,
Meio forte gasto, ainda me faz sorrir.
Não serei eu nem tu,
Tampouco essa multidão,
Apenas unidos,
Pertenço-te,
Nessa dança trivial,
De corpos fundidos,
Presos e colados por uma mácula divinal,
Que suaviza este enlace,
Esta noite por vezes carnal, outrora anal.
E fugimos no incerto,
Nessa linha que separa a tua face,
Metade mulher, outra animal,
Finges sentir vozes ocultas,
Enquanto brincas no escuro,
Roubando e usurpando sons melancólicos,
Construindo teu reino,
Castelo sem futuro.

*

Maldito tempo

Maldito tempo, monótono e ausente,
Perdido num beijo, por vezes carnal, outrora ardente,
De amanhecer cáustico, noite presente,
Preenchido por virgens num sufoco gritante.
E as perdidas, deveras esguelhadas,
Tatuam em fogo, corpo demente,
E da brisa de orgia crescente,
São membros teus, pernas escumalhas.
Sou prazer desse sexo misterioso,
Noite voluptuoso, seios chocantes,
Parceiras ciosas, do beijo que procuras,
Neste tempo que me absorve,
Chupa, faz-te prisioneira de toques orais,
E sente dor, bem profunda que me consome,
Para crescer em ti, pedaços divinos,
Nesta pura sentinela do novo luar.
Sim, é o tempo que nos permite procriar,
Quais fantasias, quais animais,
São corpos difusos, olhares cristalinos.

*

Calafrio

Nesse frio, pele de mulher que se debruça,
Que lasciva estonteante nos meus braços, certos seios,
Que me arrebate, beija e deslumbra,
Versos soltos, poesia estranha, amor feio, por fim.
Esse ser, pedaço melancólico,
Que finge sentir e lambuzar os meus doces receios,
A quem me entreguei nessa cruel ventura,
A quem jorrou, fácil, papel clandestino.
Sim, essa mulher que a cada amor grita,
A verdade gemida de quem ama,
Preso nas marcas rasgadas, mordido assim.
Esse ser traduz-se num universo sem fim,
Animal sem freio, deturpado no meu rosto,
Que no suave balançar de gestos coordenadas,
Seduz-me nesse bramido estridente,
Nesse corpo, saciado em mim.

*

Hugo de Oliveira
Nasceu a 27 de Março de 1988, numa pacata aldeia no concelho de Felgueiras, porém a vontade de respirar confusão de uma vida cosmopolita levou-o, atualmente, para a agitada cidade de Lisboa.

No tocante à sua formação académica e literária é licenciado em Relações Internacionais (Universidade do Minho), com especialização em Ciência Política (ISCTE-IUL), diz rever na arte das palavras uma diplomacia abstrata de expressões.

Canhoto assumido analisa de uma outra perspetiva o ângulo literário deste tão nobre dom, a escrita.

Entusiasta das emoções, apreciador nato de artes expressivas, do teatro ao cinema, descreve-se num meio-termo de uma obra inacabada.

Autor dos livros:
"Mulher Chuva" (Chiado Editora - Outubro, 2012);
“Pecado & Luxúria” (Chiado Editora – Setembro, 2013)





quinta-feira, 1 de maio de 2014

Mesa do Canto – A revolução todos os dias

|Alexandra Malheiro

Podia esta crónica ser sobre as coisas nenhumas acerca das quais habitualmente escrevo? Podia. Não me tenho dado mal assim, enchi, há pouco tempo, um livro inteiro, a chegar às 200 páginas, só de crónicas dessas, a falar da cidade, sem a qual sou barco sem rumo, folha sem letras, livro sem conteúdo; sobre os pequenos contextos e descontextos, sobre as pessoas que vejo passar pela montra do meu café ou sobre um ou outro amigo que vem sentar-se à mesa comigo a ouvir-me resmungar do tempo ou aqueles com quem discuto o valor etéreo da literatura em dias de chuva. Houve mesmo quem o comprasse e lesse e ainda me viesse dizer que gostou, mais até do que daquela sombria coisa da poesia que nunca ninguém compreende mesmo.

Mas hoje, quando vos escrevo, é Abril. Quando escrevo Abril abrem-se cravos rubros, da cor do sangue que não se derramou e solta-se o vigor da revolução. A que nos havia de salvar da indignidade de não ter voz, da mordaça, da polícia política que avançava casas adentro, esgarçando famílias, torturando, matando, humilhando. Adeus pensamento único, adeus imobilidade de classes, adeus cabeça baixa, chapéu na mão, dorso curvado à ignomínia. Adeus guerra sem sentido.

Quarenta anos passaram da genial revolução sem sangue e olhámos os filhos ressabiados do 25 de Abril que entretanto, por via dele, se alçaram ao poder, entretidos a desfazer aquilo por quem tantos padeceram, muitos lutaram e até morreram.

Alguns avisam e gritam que é preciso uma nova revolução, uma manchada do sangue a que esta nos poupou. Não creio. A revolução está em nós, a democracia, com defeitos e virtudes, é ainda um direito nosso, portanto façamos a revolução nas urnas, nos deveres cívicos que urgem cumprir, ao invés das conversas balofas de café e quando somos chamados a decidir trocamos a obrigação pela praia ou por um encolher de ombros seguido de “não quero saber, são todos iguais, eles querem é poleiro”. Foi o 25 de Abril que, num gesto mágico, nos trouxe a democracia, o direito à escolha, compete-nos a nós não deitar a perder esse direito que é também o dever de fazer (ou merecer) a revolução todos os dias.