quarta-feira, 23 de abril de 2014

Buraco com pus

|Maíra Matthes

cá estou sentada sobre essa escadaria –

meu cabelo é liso/há vento/meu cabelo voa

enquanto o mundo parece estar dizendo:

“Oh! Como preciso escoar a carne que está se aglomerando no meu rosto”

e é como se eu soubesse de cor uma frase (qualquer) de uma tragédia (qualquer) e a declamasse num tom

infinitamente melancólico

e também é como

se eu preferisse pensar que as folhas e ventos que passam no meu cabelo agora são frutos de alguma vontade,

como se alguém mandasse – de presente –

“folhas e ventos”

para Rua General Glicério, dia 5 de Maio, Sedex

essas folhas [olhe para elas!] estão prometendo tampar o buraco com pus que existe (e ninguém sabe) entre cada fio de cabelo – aqueles que voam no vento agora como se fossem estrelas de cinema.



terça-feira, 22 de abril de 2014

Resumo e objetivos da estória

|Maíra Matthes

Essa estória é sobre a superfície escura do mar e o reflexo branco que oscila sobre essa mesma superfície. Como eles são uma e mesma coisa, essa estória é sobre a superfície do mar que é, ora escura, ora reflexo branco. Essa estória é sobre a simplicidade. É sobre algo como: um jarro sobre a mesa. Ela visa retratar a impressão de plenitude e vazio que podem tomar conta de alguém se, por ventura, este alguém se deparar com o mar, numa noite, provavelmente sozinho. A pretensão dessa estória é fazer o leitor se sentir literalmente sozinho, rodeado pela noite e diante superfícies escuras com reflexos brancos. É fazer com que o leitor consiga ver na imagem do mar a imagem de:

um jarro sobre a mesa.

O leitor vai sentir TUDO. Inicialmente o narrador divagará (por aproximadamente uma página e meia) sobre a natureza do PLENO. O narrador parte do pressuposto de que a visão das superfícies escuras com reflexos brancos remete à ideia de plenitude e pretenderá convencer o leitor disso evocando lembranças sobre superfícies, solidão e jarros. Em seguida o narrador afirmará que TUDO não é TUDO senão englobar dentro de si o VAZIO. O PLENO pode não ser o VAZIO, mas o TUDO para ser TUDO precisa ter TUDO MESMO dentro de si, e isso inclui o VAZIO. Então, aproximadamente mais uma página e meia será desenvolvida sobre a natureza do VAZIO.

Mas eis que, de repente (na estória) começa a chover. E os pingos não são poéticos, eles são a antipoética batendo nas costas do leitor. A chuva funcionará como quebra narrativa e terá a função de trazer a “experiência do cotidiano” para o interior do texto. O objetivo desse corte é fazer o leitor se sentir “começando a ficar molhado do lado de pessoas alegres que conversam entre si sem ao menos desconfiar que aquele mar diante de si poderia ser comparado a um jarro sobre a mesa.” [extrato p.4]. Caso o pacto ficcional esteja funcionando, o leitor, nesse momento, se sentirá tremendamente ofendido. Percebam: ele terá sido lançado dos altos píncaros da especulação sobre o PLENO e o VAZIO para a vulgar condição de se sentir “começando a ficar molhado.” Ele terá, então, vontade de cair em alto mar e poderá comparar essa imagem com a de quebrar o vaso que estava em cima da mesa.  E a estória vai acabar assim, com a palavra “desespero” estranhamente flutuando no meio da última frase.


Ps. É importante ressaltar que o término ideal da estória é fora-textual, isto é, a estória apenas terminaria verdadeiramente se e somente se o leitor tentasse suicídio por afogamento ou lesões corporais graves oriundas de profundos cortes de vidros tipo ‘vidros de jarro’. Caso isso não ocorra, não se pode dizer com toda certeza que a estória teve um fim.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Maíra Matthes - Biografia



Mineira, ex-bailarina da Cia. de Dança Paula Nestorov e mestre em Filosofia pela PUC-RJ. Premiada no 6º Concurso Literário de Suzano com o conto “Bárbaras Nuvens” e no Prêmio OFF FLIP com o conto “A Solidariedade dos Abalados.” Professora de Filosofia na UERJ e no CAp UFRJ. Escreve no blog: http://opesodasbolhas.blogspot.com.br/

domingo, 20 de abril de 2014

Mar aberto

|Mariana Teixeira

Visto de cima era um mar

Ondulações em sequência
no fim, a onda mais alta
quebrando
e voltando
para o ciclo
sem fim

Do andar de cima
fazia do telhado vizinho
paisagem
e movimento
para dias estáticos

sábado, 19 de abril de 2014

Imersão

|Mariana Teixeira

se distraído
te empurram
do alto

você mergulha
sem jeito
no ar
duro

a gravidade,
um convite susto
te acorda
te faz bater asas
e o mergulho
no vento
é sua nova casa


sexta-feira, 18 de abril de 2014

Spray

|Mariana Teixeira

segura o frasco entre os dedos
puxa a aba
e Spray
dentro da narina
Spray
esquerda
Spray
direita
respira fundo
repete a dose
Spray
Spray
respira fundo
aos poucos desentope
e a via fica livre
para a poeira
e o cheiro ruim

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Protesto

|Mariana Teixeira

pinturas a dedo
nas maçãs dos rostos
e em partes dos corpos
parcialmente nus

rebelião de cores
que gritam
em silêncio
e marcham
e marcham
e mancham
e enfrentam olhos
que desejam
que as pinturas
percam a guerra
para o suor