sexta-feira, 18 de abril de 2014

Spray

|Mariana Teixeira

segura o frasco entre os dedos
puxa a aba
e Spray
dentro da narina
Spray
esquerda
Spray
direita
respira fundo
repete a dose
Spray
Spray
respira fundo
aos poucos desentope
e a via fica livre
para a poeira
e o cheiro ruim

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Protesto

|Mariana Teixeira

pinturas a dedo
nas maçãs dos rostos
e em partes dos corpos
parcialmente nus

rebelião de cores
que gritam
em silêncio
e marcham
e marcham
e mancham
e enfrentam olhos
que desejam
que as pinturas
percam a guerra
para o suor

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Glicose

|Mariana Teixeira

glicose
em pequenas
e esporádicas
doses
deixadas
sobre a mesa
embrulhadas
em papel vermelho
e fita
de cetim

cada pedaço
doce
declara
o que a boca
não fala
o que o medo
não encara
o que o impulso
dispara

terça-feira, 15 de abril de 2014

Gaveta

|Mariana Teixeira

Da gaveta que tudo cabe
às vezes vaza
um monte de coisas
da alma
da lama
na mala

vaza acaso
vaza atraso
vaza caso
às vezes vaza
tanta coisa
que a gaveta parece rasa

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Mariana Teixeira - Biografia

Foto de Leandro Giannotti


Mariana Teixeira é poeta, escritora e redatora.
Nasceu em mil novecentos e oitenta e quatro, mora em São Paulo e sonha em uma casinha no meio do mato.


É autora do livro de poemas e minicontos “Inversos Paralelos” (Editora JAC, 2013), do blog www.correndocomosdedos.blogspot.com.br e tem poemas publicados na antologia “Hiperconexões: realidade expandida" (Editora Terracota, 2013), a primeira antologia de poemas sobre o pós-humano da literatura brasileira, organizada pelo escritor Luiz Brás. Também é criadora do projeto ‘Gota a gota’, juntamente com a artista plástica Shirley Soares (www.facebook.com/duplagotaagota)

domingo, 6 de abril de 2014

Já não se aguenta tanto inverno!

|Alexandra Malheiro

Chegou a Prima, a Vera. Fidalga, a dita Prima, a Vera, que vinha anunciando-se arreganhando os dentes, quando chegou deveras desatou a chover-nos no pêlo e fria como um diabo fugido do inferno. Não há paciência para tanto inverno, sinceramente. Uma pessoa senta-se no café para escrever a cronicazinha a anunciar flores, nardos bravios, o canto coral dos passarinhos, prestes a evocar um sem número de benfazejas virtudes primaveris e é isto, uma estação que mais parece um apeadeiro ao abandono, esta sensaboria de chuva a bater no vidro e mãos a esfregarem-se em aquecimento, a arrefecerem a chávena mais do que esta as consegue aquecer. É claro que, perante estes desmandos climatéricos, a crónica refreia-se, titubeia, atabalhoa-se, atrapalha-se. Tropeça na própria ideia e vê-se obrigada a desviar na direcção do clima, afastando-se do assunto que na verdade trazia engatilhado para molestar vocências.

Assim a ver a chuva a cair de encontro ao vidro, num cinza escuro de borrasca, até perco a vontade de vos contar ao que vinha. Dá-se o caso que se acabou de dar à estampa um livro da minha autoria, de seu nome “Doença Crónica”. Pela primeira vez publico prosa e, sendo esta prosa um conjunto de crónicas, tão inócuas e insípidas como esta que agora lêdes, onde juntei ao baralho as que neste espaço da Revista Literária Sítio têm vindo a ser publicadas, acho curial da minha parte, face aos leitores que aqui me seguem, dar-vos conta disso. É que bem vistas as coisas, se a Primavera tivesse entrado como soía, abrindo as almas aos delírios do amor e da hormona à solta, nem me atreveria a importunar-vos com semelhantes anúncios ao recato e ao recolhimento, mas com esta invernia a arrastar-se por Abril adentro – águas mil – como promete o provérbio, nunca se sabe se a utilidade que o dito volume não possa vir a ter, seja a aquecer-vos junto à lareira enquanto degustam um mazagran, seja, caso o frio continue, como acendalha para a lareira.

sábado, 5 de abril de 2014

Primavera

| Marco Mackaaij

You have to believe in spring
Bill Evans

Deves acreditar na primavera:
Que os pássaros entoem novo encanto;
Que volte a acordar o viçoso espanto;
Que no vale a esperança reverbere;

Que em ciclos de dor tudo regenere;
Que até no mais gelado desencanto
Volte a fluir a seiva de um amante,
O doce engano de uma flor sincera.

E que ninguém te diga, com pesar,
Que já nada é como era dantes,
Porque o que foi é mero sonho eterno.

E que ninguém te minta, a consolar.
As estações mudam sempre, como dantes,
Haverá mais dor no próximo inverno.


Marco Mackaaij nasceu nos Países Baixos em 1970. Vive em Portugal desde 1995, com um breve intervalo de 2 anos na Inglaterra. É professor de matemática na Universidade do Algarve e nos tempos livres escreve poesia e micro-ficção em português. Até agora nunca tinha publicado nada sem fórmulas matemáticas.