sexta-feira, 18 de abril de 2014

Spray

|Mariana Teixeira

segura o frasco entre os dedos
puxa a aba
e Spray
dentro da narina
Spray
esquerda
Spray
direita
respira fundo
repete a dose
Spray
Spray
respira fundo
aos poucos desentope
e a via fica livre
para a poeira
e o cheiro ruim

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Protesto

|Mariana Teixeira

pinturas a dedo
nas maçãs dos rostos
e em partes dos corpos
parcialmente nus

rebelião de cores
que gritam
em silêncio
e marcham
e marcham
e mancham
e enfrentam olhos
que desejam
que as pinturas
percam a guerra
para o suor

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Glicose

|Mariana Teixeira

glicose
em pequenas
e esporádicas
doses
deixadas
sobre a mesa
embrulhadas
em papel vermelho
e fita
de cetim

cada pedaço
doce
declara
o que a boca
não fala
o que o medo
não encara
o que o impulso
dispara

terça-feira, 15 de abril de 2014

Gaveta

|Mariana Teixeira

Da gaveta que tudo cabe
às vezes vaza
um monte de coisas
da alma
da lama
na mala

vaza acaso
vaza atraso
vaza caso
às vezes vaza
tanta coisa
que a gaveta parece rasa

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Mariana Teixeira - Biografia

Foto de Leandro Giannotti


Mariana Teixeira é poeta, escritora e redatora.
Nasceu em mil novecentos e oitenta e quatro, mora em São Paulo e sonha em uma casinha no meio do mato.


É autora do livro de poemas e minicontos “Inversos Paralelos” (Editora JAC, 2013), do blog www.correndocomosdedos.blogspot.com.br e tem poemas publicados na antologia “Hiperconexões: realidade expandida" (Editora Terracota, 2013), a primeira antologia de poemas sobre o pós-humano da literatura brasileira, organizada pelo escritor Luiz Brás. Também é criadora do projeto ‘Gota a gota’, juntamente com a artista plástica Shirley Soares (www.facebook.com/duplagotaagota)

domingo, 6 de abril de 2014

Já não se aguenta tanto inverno!

|Alexandra Malheiro

Chegou a Prima, a Vera. Fidalga, a dita Prima, a Vera, que vinha anunciando-se arreganhando os dentes, quando chegou deveras desatou a chover-nos no pêlo e fria como um diabo fugido do inferno. Não há paciência para tanto inverno, sinceramente. Uma pessoa senta-se no café para escrever a cronicazinha a anunciar flores, nardos bravios, o canto coral dos passarinhos, prestes a evocar um sem número de benfazejas virtudes primaveris e é isto, uma estação que mais parece um apeadeiro ao abandono, esta sensaboria de chuva a bater no vidro e mãos a esfregarem-se em aquecimento, a arrefecerem a chávena mais do que esta as consegue aquecer. É claro que, perante estes desmandos climatéricos, a crónica refreia-se, titubeia, atabalhoa-se, atrapalha-se. Tropeça na própria ideia e vê-se obrigada a desviar na direcção do clima, afastando-se do assunto que na verdade trazia engatilhado para molestar vocências.

Assim a ver a chuva a cair de encontro ao vidro, num cinza escuro de borrasca, até perco a vontade de vos contar ao que vinha. Dá-se o caso que se acabou de dar à estampa um livro da minha autoria, de seu nome “Doença Crónica”. Pela primeira vez publico prosa e, sendo esta prosa um conjunto de crónicas, tão inócuas e insípidas como esta que agora lêdes, onde juntei ao baralho as que neste espaço da Revista Literária Sítio têm vindo a ser publicadas, acho curial da minha parte, face aos leitores que aqui me seguem, dar-vos conta disso. É que bem vistas as coisas, se a Primavera tivesse entrado como soía, abrindo as almas aos delírios do amor e da hormona à solta, nem me atreveria a importunar-vos com semelhantes anúncios ao recato e ao recolhimento, mas com esta invernia a arrastar-se por Abril adentro – águas mil – como promete o provérbio, nunca se sabe se a utilidade que o dito volume não possa vir a ter, seja a aquecer-vos junto à lareira enquanto degustam um mazagran, seja, caso o frio continue, como acendalha para a lareira.

sábado, 5 de abril de 2014

Primavera

| Marco Mackaaij

You have to believe in spring
Bill Evans

Deves acreditar na primavera:
Que os pássaros entoem novo encanto;
Que volte a acordar o viçoso espanto;
Que no vale a esperança reverbere;

Que em ciclos de dor tudo regenere;
Que até no mais gelado desencanto
Volte a fluir a seiva de um amante,
O doce engano de uma flor sincera.

E que ninguém te diga, com pesar,
Que já nada é como era dantes,
Porque o que foi é mero sonho eterno.

E que ninguém te minta, a consolar.
As estações mudam sempre, como dantes,
Haverá mais dor no próximo inverno.


Marco Mackaaij nasceu nos Países Baixos em 1970. Vive em Portugal desde 1995, com um breve intervalo de 2 anos na Inglaterra. É professor de matemática na Universidade do Algarve e nos tempos livres escreve poesia e micro-ficção em português. Até agora nunca tinha publicado nada sem fórmulas matemáticas.  

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Distância

|Linda Catarina

Sinto-te longe, distante, alheio..
Fora de si, fora de mim e
dentro de um mundo rodeado de sombras,
encerrado em mágoas e lástimas.

Você me veio e desarmou todo receio,
transformou solidão em esperança,
turbulência em harmonia
e eu sorri de novo, de verdade, de frente.

Cada diferença nos instigava
toda semelhança causava alegria
e a dor de um
encontrou seu espelho no ser do outro.

Do interesse nasceu a cumplicidade,
o medo encontrou afeto e zelo,
a indiferença cedeu lugar à paciência,
e superamos a noção de tempo
quando nos vimos maiores que os anos.

Optamos pelo sublime
pela imperfeição que nos completa
pelo amor simples que arrebata
na mesma medida que nos liberta.

E agora você se vai, se esvai, se desfaz.
Leva consigo meu peito aflito, contrito
e deixa aqui o desespero
de não conseguir ser melhor.

Não recolha seus abraços,
não me prive dos seus beijos,
não me lance esse olhar rijo, essa mão fria
não tenho arma para rebater seu silêncio.

Se cometo os mesmos erros e
minhas falas fartas contradizem as atitudes
eu me rendo e desvaneço
revelando o pavor de perder tudo!

E nessa relação de perda e danos,
de ganhos e desenganos
vamos nos ferindo e nos libertando,
nos impingindo a lógica do absurdo:
que na união dos corpos
nos perdemos um do outro
e na voracidade das palavras
preferimos nos manter mudos!




Linda Catarina Gualda possui Graduação em Letras Português/Inglês/Alemão, Mestrado na área de Literatura Comparada e Doutorado na área de Literatura e Cinema pela UNESP/Assis/SP – Brasil. 
Desde 2009 é articulista convidada da Revista Cinema Caipira (Rio Claro/SP) e foi articulista do Jornal Aquarius (Rio Claro/SP) e do Jornal Folha de Limeira (Limeira/SP), além de publicar artigos acerca de cinema em muitos outros Jornais, periódicos e revistas brasileiras (Jornal Fatec, Revista Matizes, Estação Literária, Línguas & Letras, Soletras, Raído, Signótica, etc). 
Atualmente é professora associada de Língua Inglesa na FATEC- Itapetininga/SP - Brasil, além de ministrar cursos na área de Literatura e Cinema, Literatura Brasileira e Inglesa e Cultura. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Toda esperança é lícita, meu bem!

|Cláudia Assis



O sol já tinha dado o ar da sua graça há demasiado tempo, presságio de um belo amanhecer primaveril para além daquelas paredes. O Agente Lisboeta sabia disso por que, ainda deitado na sua cama, apreciava os raios de sol a invadir os aposentos pelas frestas da janela do seu quarto. Teria passado aquela noite em claro, mesmo depois da exaustão de tantas vezes entregar-se à sua Moema. As dores no joelho o fazia lembrar que o ferimento causado na última incursão ainda se fazia presente.

Acometido pela insônia, viu-se obrigado a passar as horas velando o sono da sua adorada princesa tupiniquim, que dormia profundamente ao seu lado. Tê-la ali tão perto, protegida das agruras do mundo e ao alcance dos seus braços, enchia-lhe o seu peito de satisfação. Sorria enquanto fazia festas nos negros cabelos de Moema, que ao sentir o toque do seu amado, moveu-se lentamente, embora permanecendo no mundo dos sonhos. Mas ter novamente a “menina que cheira à flor de pitanga” consigo o fez relembrar dos motivos pelos quais teria recentemente realizado a sua travessia transatlântica – Moema teria fugido por se sentir forçada a escolher entre o amor que nutria pelo lisboeta e compromisso que com a sua gente.

Embora já lá fossem alguns dias desde o reencontro daqueles dois, a verdade é que ainda não tinham encarado de frente aquela dura realidade. “Qual será a sua decisão, afinal? Estará minha adora Moema disposta a renegar o seu povo só para viver comigo, seja lá onde isso for? Ou este reencontro nada mais é que um simples adiamento de uma inevitável despedida?”, refletiu o Agente. E, neste preciso instante, teve medo! Nem mesmo as mais duras missões, ossos do ofício de espião, o teria feito experimentar tal pavor.

Apreciar o despertar de Moema sempre proporcionou ao lisboeta uma alegria peculiar. Era quase sempre a mesma sucessão de acontecimentos. Mas ainda assim, ele conseguia ver um verso novo na poesia que era corpo dela: ela acordava, esfregava os olhos como fazem as crianças ainda sonolentas, espreguiçava-se toda e depois aninhava-se outra vez debaixo das cobertas. Só depois o encarava com um sorriso no olhar, o qual dispensava ao Agente Lisboeta qualquer palavra – o “bom dia, meu bem!” estava ali, implícito. Só que, naquela manhã, havia alguma dureza no ar. Moema percebera imediatamente que o seu “menino” tinha o coração inquieto e a cabeça repleta de dúvidas. Havia decisões a tomar, escolhas por fazer. Ela era capaz de lê-lo como ninguém mais neste mundo – das coisas que mais o assustava era a capacidade que Moema tinha de o ler até nas entrelinhas.

Moema, então, afagou a barba farta que o seu adorado Agente decidira cultivar ultimamente – barba esta que Moema não sabia, mas era parte do disfarce para a sua próxima missão – e, enquanto o acariciava, disse:

– “Estava sonhando contigo. Com a gente, para ser mais exata. Estávamos lá na minha cachoeira. AQUELA onde te amei pela primeira das tantas vezes que ainda hei de te amar. Você se lembra?”. E sorriu docemente.

Ainda que embevecido com aquela deliciosa visão, o Agente Lisboeta tomado por uma inquietante agonia, disparou à "queima-roupa", certeiro como uma flecha, a dúvida que lhe roubara o sono naquela noite:

– “Moema, minha adorada Moema, estar nos teus braços outra vez é a mais sublime forma de passar por essa vida, mas...”, titubeou. Aquela pausa dramática no discurso do lisboeta poderia ser facilmente lida na aflição imposta ao olhar de Moema.

– “Mas o quê?!”, interrompeu a princesa vinda dos trópicos, que num rápido movimento pôs-se sentada diante do Agente, deixando seu corpo nu à mostra, desconcentrado-o solenemente.

– “Mas... Preciso saber se vens para ficar nos meus braços, no meu mundo,em definitivo. Tenho medo que isto tudo, de tão bom que é, não dure o quanto gostaríamos. Tenho esperança que sim. Mas é inegável o medo que me consome”, confidenciou o “menino de olhar doce”.

Mesmo triste por saber que aquela dúvida traidora dormitava no olhar do seu amado, Moema o abraçou. Apertado. Amava-o perdidamente. E, então, sussurrou-lhe ao pé do ouvido:


– “Toda esperança é lícita, meu bem!”, calando-o como usualmente fazia: com o seu melhor beijo.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Manchetes

|Clara Henriques

Não te conforto o desejo amarrado
Nem te dou as páginas humedecidas
Não sei vincar as golas ao recado
Às portas do teu quarto sempre despidas.

Não te quero em rasgos minguantes
Compassos que atropelam a ordem do dia
Nem te sei nas horas rasantes
Na pele que a tua mão sem querer dizia.

Não quero ser manhã e escurecer
No teu beijo traído entre o caos
Não quero a redenção para encher
Mil e uma manchetes nos jornais.

terça-feira, 1 de abril de 2014

o ópio

|Christiana Nóvoa



só a flor exata

me sacia o olfato

e a falta

desse cheiro

é tão macia

como um travesseiro

que me mata

por asfixia





Christiana Helena Nóvoa Soares Carneiro nasceu em 28 de dezembro de 1968 no Rio de Janeiro. 
Formou-se em Artes Cênicas (Faculdade da Cidade/RJ) e em Psicologia (PUC-Rio), com especializações em Arte-Educação e Arte-Terapia. Em 2004 começou a publicar seus textos na internet e, desde 2005, mantém o blog Nóvoa em Folha.

domingo, 23 de março de 2014

FRIDAS - Autorretratos

|Mariana Collares

Eu faço autorretratos.
E mais do que uma premência em 'avaliar meu grau de passagem' (Ana Hatherly dixit), talvez os faça, antes de tudo, como um movimento pela reafirmação da minha múltipla intimidade. Trata-se de uma postura moral que me conduz no sentido do entendimento do outro através da minha própria aceitação.


Mais em: https://www.behance.net/gallery/Fridas-AutorretratosSelf-portraits/11221609

"Fridas"
(autorretratos)
Acervo pessoal da autora
Canon PowerShot & iPhone
2011-2014

sábado, 22 de março de 2014

Luxo


Luxo from Mariana Collares on Vimeo.

|Marcelo Sahea & Mariana Collares

Performance-relâmpago (site specific) realizada em parceria de Mariana Collares e Marcello Sahea na cidade de Tramandaí/RS (Brasil), com foco na sustentabilidade e educação ambiental. Material utilizado: lixo encontrado na praia.

"Luxo"
Performance-relâmpago de Marcello Sahea & Mariana Collares
Direção: Mariana Collares
Edição: Marcello Sahea
Trilha Sonora: Barulhista
Digital video | 3'00

sexta-feira, 21 de março de 2014

Olhos sobre tela


Olhos sobre tela from Mariana Collares on Vimeo.

|Mariana Collares

Sozinho, na sala de estar, janela aberta, olha para “velhice -tal é o nome que os outros lhe dão-”e
pensa que poderia ser o tempo de sua felicidade quando um animal morre, ou quase morre, restam
o homem e sua alma ele se vê em meio às formas luminosas e vagas que ainda não são a escuridão
olha para a cidade de buenos aires, que vê da janela, e que antes se espalhava em subúrbios e a
enxerga agora estreitada na Recoleta, no Rerito, nas vagas ruas do once e nas casas velhas que
ainda chama O Sul.

Baixa os olhos sobre a folha branca e pensa sempre em sua vida foram demasiadas as coisas.
Demócrito de Abdera arracou os próprios olhos para pensar - hoje vê o o tempo arrancando-lhe os
olhos. A tela escurece lentamente, porém sem dor, e vê-se fluir por um manso declive que se
assemelha à eternidade. Seus amigos não têm mais rosto e as mulheres continuam sendo o que
foram há muitos anos. As esquinas podem ser outras, já não sabe, não há mais letras nas páginas
dos livros.

Tudo isso deveria atemorizá-lo mas o acalenta como um deleite, ou um retorno. Das gerações dos
livros que há na terra sabe ter lido apenas uns poucos aqueles que continua lendo na memória
lendo e reescrevendo com os olhos que já não têm. De todos os lugares convergem os caminhos que
lhe trouxeram ao seu secreto centro. Este mesmo em que se encontra hoje na sala de estar em
frente à janela e o vento. E tudo aquilo que ecoa como passos e homens, e mulheres, e agonias e
ressurreições, foram os dias e as noites, foram entressonhos e sonhos e cada mínimo instante do
ontem e todas as memórias do mundo, a espada do dinamarquês, a lua do persa, e os silêncios dos
mortos, todos os amores, todas as palavras. Emerson e a neve e tantas outras coisas - agora
poderá esquecê-las.

Vê-se em seu centro imóvel, na sala de estar. A janela, o vento, as árvores fora. O copo d’água. A
mesa de centro. O livro aberto no fim. O lápis solto sobre a folha. A folha que é a sua álgebra e sua
chave. O seu espelho.

“Breve eu saberei quem sou”.

(OLHOS SOBRE TELA - Mariana Collares (texto baseado no poema Elogio da sombra, de Jorge Luis Borges)

"Olhos sobre tela" / Mariana Collares
Video-performance baseada no poema "Elogio da Sombra", de Jorge Luis Borges.
Texto, performance e leitura: Mariana Collares
Direção de Arte: Marcello Sahea
Música: Colo-paradeiro, de Barulhista
Digital video | 3'48"
2013

quinta-feira, 20 de março de 2014

Olhos de ressaca


Olhos de ressaca from Mariana Collares on Vimeo.

|Mariana Collares

— (Juro!) Deixe ver os olhos, Capitu.

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada."
Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim.
Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei
extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que
lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto,
com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar
crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles
olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que
eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova.
Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a
vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.

Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos
espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha
crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.

Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do Céu terão marcado esse tempo infinito
e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a
duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do Céu conhecer
a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a
quantidade das delícias que terão gozado no Céu os seus desafetos aumentará as dores aos
condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para
emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me
definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, — para dizer alguma
coisa, — “Eu sou capaz de os pentear, se eu quiser.

(Trecho do romance DOM CASMURRO -Machado de Assis)

"Olhos de Ressaca" / Trecho do romance "Dom Casmurro", de Machado de Assis
Concepção, voz, performance e direção: Mariana Collares
Direção de Arte, edição, imagens & mixagem: Marcello Sahea
Digital video | 3'07"
2013

quarta-feira, 19 de março de 2014

Aurora


Aurora from Mariana Collares on Vimeo.

|Mariana Collares

Eu abracei a aurora de verão.

Nada ainda se movia na fachada dos palácios. A água estava morta. Acampamentos de sombras nao deixavam a trilha do bosque. Eu caminhei, despertando os hálitos vivos e tépidos; e as pedrarias olharam, e as asas levantaram sem um som.

O primeiro acontecimento foi, já num atalho cheio de centelhas frescas e pálidas, uma florque me disse seu nome.

Ri à louca cascata que descia desgrenhada através dos pinheiros. Pelo cimo prateado, reconheci a deusa.

E então, um a um, eu levantei os véus. Na alameda, agitando os braços. Pela planície, onde a denunciei ao galo. Na cidade grande, ela fugia entre os campanários e as cúpulas e, correndo como um mendido sobre o cais de mármore, eu a caçava.

No alto da estrada, perto de um bosque de loureiros, eu a cingi com o seu amontoado de véus, e senti um pouco o seu corpo imenso. A aurora e a criança caíram na orla do bosque. Ao acordar, meio-dia.

(Aurora, poema do livro ILUMINURAS - Arthur Rimbaud)

Fotos: https://www.behance.net/gallery/FotosPhotos-Aurora/11212675

"Aurora" / Arthur Rimbaud
Concepção, voz, performance e direção: Mariana Collares
Direção de Arte, edição, imagens & mixagem: Marcello Sahea
Trilha: loop de Ronnie Rekkerd
Tradução livre: Mariana Collares
Digital video | 3'11"
2013

terça-feira, 18 de março de 2014

Elogio da Loucura


Elogio da Loucura from Mariana Collares on Vimeo.

|Mariana Collares

Digam de mim o que quiserem (pois não ignoro como a Loucura é difamada todos os dias, mesmo pelos que são os mais loucos), sou eu, no entanto, somente eu, por minhas influências divinas, que espalho a alegria sobre os deuses e sobre os homens.

(Fragmento de ELOGIO DA LOUCURA -Erasmo de Rotterdam)

Fotos: https://www.behance.net/gallery/FotosPhotos-Elogio-da-Loucura/11213311

"Elogio da Loucura" / Erasmo de Rotterdam
Concepção, voz e performance: Mariana Collares
Direção de Arte: Marcello Sahea
Tradução: Paulo Neves
Digital video | 00'43"
2013


segunda-feira, 17 de março de 2014

Projeto: Eu sou uma outra - Multileituras

|Mariana Collares

Eu faço performances em vídeo.

Um projeto que começou com gravações de podcasts em que eu fazia a leitura de textos vários - autorais ou não -, ganhou movimento a partir de 2013, com a combinação dos vídeos que passei a produzir com o poeta e artista visual Marcello Sahea.

Nesses vídeos eu canto, leio e interpreto fragmentos da literatura mundial, com a intenção de incentivar o leitor a estabelecer uma nova relação com o texto, estimulando a curiosidade e a autodescoberta pela leitura.

Tornar público o registro que faço do convívio com cada uma das mulheres que abrigo acaba tornando possível, também, a capacidade de exercer o meu potencial dialógico com todos os outros que compõem cada um dos meus iguais.

E tento, com minha arte, fazer com que essa prática ocorra sempre de forma poética. Não por acaso, encontrei nos versos de J.A.Rimbaud (‘Je est un autre’) a inspiração para nomear o projeto como: EU SOU UMA OUTRA.

Mariana Collares - Biografia



Mariana Collares (Porto Alegre/RS, Brasil), é escritora e performer interdisciplinar. Publicou Devaneios Literários, Crônicas, em 2010. Publica textos em sites e portais literários no Brasil e exterior. É editora e colunista na Revista Benfazeja Comunidade Literária (digital). Desenvolve o projeto de multileitura EU SOU UMA OUTRA - que reúne performances multimídia, leituras públicas e coluna para podcast (web rádio)-, e realiza ações de intervenção urbana. Atualmente prepara o seu primeiro romance - Manhãs de Abril (ainda sem editora) - com lançamento previsto para este ano.

Blogue da autora: http://www.marianacollares.com/

Link do livro: http://www.bookess.com/read/5947-devaneios-literarios/

sábado, 15 de março de 2014

O peixe além do rio

|Márcia Barbieri

E os frutos estavam todos suspensos sobre minha cabeça, verdes no princípio, não podia me mexer, qualquer movimento romperia a tarde – rotação translação – bagunçaria o solstício. O dia esticava e os figos continuavam podres, fatiados, é como se os pássaros os tivessem estripados antes de devorá-los. Olhei em direção à janela, ela estava fechada, já não sei precisar a quantos anos, imaginei o corpo do meu pai estendido na cama como se fosse uma fruta que ainda amarra a boca, esperando amadurecer. À força. Pensei na solidão branca e calcificada do esqueleto, vendo os músculos se descolarem aos poucos. Pensei na carcaça das baleias brancas. Quando era menor eu acreditava que deveria ter medo dos mortos, achava que eles eram onipresentes e podiam escutar meus passos-ruídos sobre o assoalho de madeira. Quando escurecia ficava com os olhos bem abertos para poder me defender, caso eles aparecessem. Depois fui percebendo que os vivos eram muito mais assustadores e surgiam a qualquer hora e me agarravam com as mãos pegajosas e frias de suor. Lagartos amarelos. Percebi com os anos que o ranger de dentes eram dos seres que estavam em vigília, conhecidos por essas bandas como homo erectus.
− Ela tem razão, parece um planeta.
− Não brinca! Eles são grandes e pouco estéticos, tenho vergonha de olhar no espelho, minha cara está virando uma monstruosidade.
− Deixa de besteiras, já te falei que depois da cirurgia, tudo voltará ao seu devido lugar.
− Às vezes, me sinto completamente entorpecido...
− Você divaga muito, tem uma mente ágil, você percorre lugares desnecessários, sente dores ilusórias, a sua ansiedade é que está te matando, os caroços são apenas manifestações desse seu estado mental perturbado.
− O que adiantaria¿ Uma dose maior de fluoxetina¿
− Quem sabe... O que acho mesmo é que precisa aprender a ser como as moscas.
− Como assim¿ Que vantagens eu teria em ser como as moscas¿ Revirar merda¿ Já faço isso bem demais, não é fácil viver todos os dias, querendo ou não atolamos o pé na merda.
− Não foi bem isso que quis dizer... As moscas chafurdam na merda o tempo inteiro, mas nem por isso se tornam merda, continuam sendo feitas de outra matéria, uma matéria mais nobre, voam sem culpa para outros corpos.
− Tem toda razão, não sou feito da mesma matéria das moscas, até gostaria de ser assim solto, mas sou dado a afetos fáceis, o caos alheio me perturba e desorganiza. Não consigo pousar em outros corpos e sair ileso. Você consegue¿
− Não sei, acho que sou mais frio que você. De qualquer forma estou achando esse papo pesado demais. Quer um cigarro¿ Você está muito tenso hoje.
− Você é o único médico que me recomenda cigarros para acalmar meu humor. Não fumo há três dias, mas acho que estou precisando mesmo de um pouco de fumaça para anestesiar meu cérebro.
− Então, tome logo dois, assim se sentirá anestesiado por mais tempo.
− Passa aí, tenho certeza que me sentirei melhor quando anoitecer. Se é que hoje vai anoitecer...
− Talvez pense assim porque vive numa insônia permanente.
− É difícil adormecer sabendo que existe algo ruindo embaixo da terra.
− Você é mesmo um rapaz complicado, o que se move embaixo da terra que te assusta tanto a ponto de tirar seu sono¿ Roedores gigantes¿
− É obvio que já sou grande o suficiente para acreditar em roedores gigantes. Não é disso que estou falando, eu me refiro a parte geográfica da coisa.
− Geográfica¿
– Você nunca sentiu medo das placas tectônicas¿
− Você está brincando! Você acha mesmo que já perdi o sono pensando no movimento das placas tectônicas¿
− Por que não¿ Você não acha incrível imaginar que enquanto dormimos as placas estão todas lá, se movendo embaixo dos nossos corpos inertes, rindo da nossa inércia¿
− Pra ser bem sincero amigo não acho isso incrível, não ligo a mínima pra essas coisas. A única coisa que me faz perder o sono é o sexo e assim mesmo só durante o ato.
− Tem toda razão, é besteira minha, sou um lunático.
− Eu sei e isso me diverte bastante.
− Meu cigarro está acabando, está quase queimando a ponta dos dedos e continuo pior do que antes, acho que preciso de um médico mais otimista.
− Tem razão, ando ácido esses dias, é o mal da velhice, meu garoto.
− Então espero não envelhecer.
− Infelizmente não é uma opção.
− Pode me dar mais um cigarro¿ Assim posso me distrair até em casa. Já vou, não quero que perca mais seu tempo comigo, deve ter um monte de clientes te esperando e eu aqui te empatando.
− Larga de besteira, não atendo mais ninguém esse horário, meu expediente já acabou, você sabe que não faço a linha do bom samaritano. Fica tranquilo.
Fui embora com um peso nos ombros. Acendi o cigarro e fui observando o desenho que a fumaça fazia no ar. Nas ruas todos os rostos se pareciam, embora em nenhum deles eu me reconhecesse. Era mais uma vez o velho macaco em frente ao espelho. Conversar com Paulo não me aliviava muito, ele era uma grande figura, mas nossos corpos eram feitos de uma combinação totalmente diversa de átomos, o que nos tornava praticamente seres de outra espécie. Perto dele eu me sentia um símio. Um símio que estava há milhões de anos na Terra, entretanto ainda trazia a mão dura e inábil, uma mão que ainda não sabia utilizar os instrumentos civilizatórios, os dedos longos e pouco articulados, nunca fui bom em pinçar objetos pequenos. Eu ainda produzia fogo lascando pedras. Utilizava vasos de cerâmica. Ainda me escondia em cavernas úmidas e fazia pinturas rupestres das minhas caças. Procurava adivinhar o futuro lendo as vísceras dos porcos. Sacrificava animais para amenizar a fúria dos deuses. Era inútil conversar sobre as coisas que me incomodavam, ninguém poderia levar a sério um homem que se assemelhava a um peixe, mexia a boca como um peixe desesperado, tirado há pouco da água. Ninguém poderia entender o coração oco de um ventríloquo. Os bonecos de cores variadas distraiam a anemia das paredes. Artérias e veias se confundiam na vastidão do meu corpo. Lembro da minha perna sendo rompida por canos e todos pedindo que me acalmasse, era apenas uma ponte de safena, milhões de homens já tinham se beneficiado com esse método aparentemente invasivo. Eu estava acostumado às suturas, às trepanações, a membros que não pertenciam a meu corpo. Um ventríloquo. Tinha a impressão que às vezes a minha alma ficava presa naqueles bonecos. Outras vezes me sentia numa sessão vutu, como se todos os meus movimentos fossem controlados por uma mão invisível atrás do palco ou um homem vestido de preto para não ser visto pela plateia.
− Sabe como eu vejo a vida¿
− Como poderia saber se a cada dia você é outro¿ Tenho a impressão que te traio com esse outro que por vezes se apossa do seu corpo.
− É como se a vida fosse uma daquelas goiabas grandes, você pega a faca, corta e dentro ela está bonita e vermelha, então você prepara seus dentes e perfura a polpa, mas na segunda mordida, você vê uma larva branca tentando escapar em meio ao desenho das sementes. E a fruta está tão irresistível que o impulso é devorá-la com larva e tudo. Você para e pensa: “Que importância tem essa larva branca e raquítica¿”
− E o que acontece¿ Você devora a goiaba ou o bicho anêmico vence¿
− Isso é o que eu ainda não sei. Em determinados momentos acredito que venceríamos a larva, em outros acho que a larva riria de nossa cara.
− Não posso escolher por você, mas quando eu era criança, eu nunca pensava, simplesmente engolia aquele bicho branco fingindo não enxergá-lo. Hoje ainda faria o mesmo.
− A infância é maravilhosa por isso, o impulso pela vida sempre ganha.
− Falando assim até parece que você é muito velho...
− E não¿
− Não!
− É que você está fazendo como a maioria, medindo minha vida por anos, assim realmente eu fico parecendo um garotinho.
− E como eu deveria fazer¿
− Deveria calcular levando em conta as experiências que tive.
− Talvez, mas assim é muito difícil ser precisa.
− Não quero que seja precisa, só que entenda que sou bem mais velho do que aparento e quero que me respeite por isso.
− Você sabe que eu te respeito e admiro.
− Eu vejo além da sua cara, e isso não é bom. Eu queria boiar na superfície, como a maioria das pessoas.
− Eu não estaria aqui se você boiasse como a maioria, você sabe, o que me prendeu foi ver em você um escafandrista.
− Não sei... Será que sou mesmo um escafandrista ou apenas um louco que colocou pedras no bolso antes do mergulho¿
− Um escafandrista, com toda certeza. Você me trouxe novamente à superfície, eu ainda vejo o fundo, mas de um lugar seguro.
− Eu gosto de sentir o quanto confia em mim.
− E a cirurgia, conseguiu marcar¿
− Consegui sim, mas você sabe o que penso dessas cirurgias.
− De novo!
− Não quero bancar o chato, mas eu não agüento mais ficar me cortando e esperando outro nódulo aparecer.
− Mas o que o Paulo falou¿
− O de sempre, a cirurgia será um sucesso, nem vai parecer que você tirou nódulos do rosto, vamos torcer para que eles desapareçam de vez.
− Então, qual é o problema¿ Ele não disse que dará tudo certo¿
− Sim, disse, mas você se lembra quantas vezes ele falou isso¿ Em todas as cirurgias ele diz que a probabilidade de reaparecer os cistos é mínima, no entanto, eles sempre reaparecem, eu quero ser mais paciente, mas está difícil.....
− Não podemos fazer nada até a cirurgia. Você tem que se acalmar, não foi você mesmo quem disse que esses cistos são de fundo emocional¿
− Por isso mesmo acho improvável que eles desapareçam, é como se minha alma quisesse tomar forma, deixar de ser abstração, matéria gasosa e se transformar em algo concreto, ainda que sem nome, quisesse se apropriar do meu sangue.
− Você sabe que não me incomodo com seus nódulos, eles me parecem um mundo paralelo, planetas girando em órbita, girando em torno de você.
− Me consumindo, essa é a verdade...
− Você sabia que amanhã acontece o perigeu¿
− Como poderia me esquecer¿ Não durmo há uma semana, imaginando as placas tectônicas se movimentando embaixo do meu corpo...
− Será uma noite linda! Li no jornal que não haverá nenhuma catástrofe. Não deveria se preocupar tanto com os movimentos da Terra.
− Não me lembro dos jornais terem falado das tsunamis antes de elas ocorrerem... e depois como posso dormir tranqüilo sabendo que a Lua está mais próxima da Terra¿
− Só os ignorantes têm o sono profundo.
− Às vezes, você consegue ser muito mau!
− Não é maldade, eu juro! Eu adoraria fazer parte dessa massa amorfa e homogênea, você nem imagina o quanto eu gostaria...
− Esquece isso, vamos pra cama e eu te faço ser um pouco dessa massa amorfa e homogênea... seremos uma coisa só, um monstro de duas cabeças e vários membros... hermafrodita...
A lua vagava solitária na cartografia dilacerada do meu corpo, minhas tripas doíam e eu não sabia o que fazer. Paulo já tinha me explicados milhões de vezes que eu tinha tendências a doenças psicossomáticas. No começo me assustei com a extensão do nome, mas ele me garantiu que não era nada sério, era como se meu corpo formasse pequenos nódulos para poupar minha mente. Tinha operado oito vezes, mas os nódulos ainda apareciam nos lugares mais inusitados. O penúltimo apareceu dentro da orelha, enorme e vermelho. Anuncia gostava, dizia que era igualzinho um planeta perdido no sistema solar e não era nem preciso de um telescópio.