domingo, 6 de abril de 2014

Já não se aguenta tanto inverno!

|Alexandra Malheiro

Chegou a Prima, a Vera. Fidalga, a dita Prima, a Vera, que vinha anunciando-se arreganhando os dentes, quando chegou deveras desatou a chover-nos no pêlo e fria como um diabo fugido do inferno. Não há paciência para tanto inverno, sinceramente. Uma pessoa senta-se no café para escrever a cronicazinha a anunciar flores, nardos bravios, o canto coral dos passarinhos, prestes a evocar um sem número de benfazejas virtudes primaveris e é isto, uma estação que mais parece um apeadeiro ao abandono, esta sensaboria de chuva a bater no vidro e mãos a esfregarem-se em aquecimento, a arrefecerem a chávena mais do que esta as consegue aquecer. É claro que, perante estes desmandos climatéricos, a crónica refreia-se, titubeia, atabalhoa-se, atrapalha-se. Tropeça na própria ideia e vê-se obrigada a desviar na direcção do clima, afastando-se do assunto que na verdade trazia engatilhado para molestar vocências.

Assim a ver a chuva a cair de encontro ao vidro, num cinza escuro de borrasca, até perco a vontade de vos contar ao que vinha. Dá-se o caso que se acabou de dar à estampa um livro da minha autoria, de seu nome “Doença Crónica”. Pela primeira vez publico prosa e, sendo esta prosa um conjunto de crónicas, tão inócuas e insípidas como esta que agora lêdes, onde juntei ao baralho as que neste espaço da Revista Literária Sítio têm vindo a ser publicadas, acho curial da minha parte, face aos leitores que aqui me seguem, dar-vos conta disso. É que bem vistas as coisas, se a Primavera tivesse entrado como soía, abrindo as almas aos delírios do amor e da hormona à solta, nem me atreveria a importunar-vos com semelhantes anúncios ao recato e ao recolhimento, mas com esta invernia a arrastar-se por Abril adentro – águas mil – como promete o provérbio, nunca se sabe se a utilidade que o dito volume não possa vir a ter, seja a aquecer-vos junto à lareira enquanto degustam um mazagran, seja, caso o frio continue, como acendalha para a lareira.

sábado, 5 de abril de 2014

Primavera

| Marco Mackaaij

You have to believe in spring
Bill Evans

Deves acreditar na primavera:
Que os pássaros entoem novo encanto;
Que volte a acordar o viçoso espanto;
Que no vale a esperança reverbere;

Que em ciclos de dor tudo regenere;
Que até no mais gelado desencanto
Volte a fluir a seiva de um amante,
O doce engano de uma flor sincera.

E que ninguém te diga, com pesar,
Que já nada é como era dantes,
Porque o que foi é mero sonho eterno.

E que ninguém te minta, a consolar.
As estações mudam sempre, como dantes,
Haverá mais dor no próximo inverno.


Marco Mackaaij nasceu nos Países Baixos em 1970. Vive em Portugal desde 1995, com um breve intervalo de 2 anos na Inglaterra. É professor de matemática na Universidade do Algarve e nos tempos livres escreve poesia e micro-ficção em português. Até agora nunca tinha publicado nada sem fórmulas matemáticas.  

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Distância

|Linda Catarina

Sinto-te longe, distante, alheio..
Fora de si, fora de mim e
dentro de um mundo rodeado de sombras,
encerrado em mágoas e lástimas.

Você me veio e desarmou todo receio,
transformou solidão em esperança,
turbulência em harmonia
e eu sorri de novo, de verdade, de frente.

Cada diferença nos instigava
toda semelhança causava alegria
e a dor de um
encontrou seu espelho no ser do outro.

Do interesse nasceu a cumplicidade,
o medo encontrou afeto e zelo,
a indiferença cedeu lugar à paciência,
e superamos a noção de tempo
quando nos vimos maiores que os anos.

Optamos pelo sublime
pela imperfeição que nos completa
pelo amor simples que arrebata
na mesma medida que nos liberta.

E agora você se vai, se esvai, se desfaz.
Leva consigo meu peito aflito, contrito
e deixa aqui o desespero
de não conseguir ser melhor.

Não recolha seus abraços,
não me prive dos seus beijos,
não me lance esse olhar rijo, essa mão fria
não tenho arma para rebater seu silêncio.

Se cometo os mesmos erros e
minhas falas fartas contradizem as atitudes
eu me rendo e desvaneço
revelando o pavor de perder tudo!

E nessa relação de perda e danos,
de ganhos e desenganos
vamos nos ferindo e nos libertando,
nos impingindo a lógica do absurdo:
que na união dos corpos
nos perdemos um do outro
e na voracidade das palavras
preferimos nos manter mudos!




Linda Catarina Gualda possui Graduação em Letras Português/Inglês/Alemão, Mestrado na área de Literatura Comparada e Doutorado na área de Literatura e Cinema pela UNESP/Assis/SP – Brasil. 
Desde 2009 é articulista convidada da Revista Cinema Caipira (Rio Claro/SP) e foi articulista do Jornal Aquarius (Rio Claro/SP) e do Jornal Folha de Limeira (Limeira/SP), além de publicar artigos acerca de cinema em muitos outros Jornais, periódicos e revistas brasileiras (Jornal Fatec, Revista Matizes, Estação Literária, Línguas & Letras, Soletras, Raído, Signótica, etc). 
Atualmente é professora associada de Língua Inglesa na FATEC- Itapetininga/SP - Brasil, além de ministrar cursos na área de Literatura e Cinema, Literatura Brasileira e Inglesa e Cultura. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Toda esperança é lícita, meu bem!

|Cláudia Assis



O sol já tinha dado o ar da sua graça há demasiado tempo, presságio de um belo amanhecer primaveril para além daquelas paredes. O Agente Lisboeta sabia disso por que, ainda deitado na sua cama, apreciava os raios de sol a invadir os aposentos pelas frestas da janela do seu quarto. Teria passado aquela noite em claro, mesmo depois da exaustão de tantas vezes entregar-se à sua Moema. As dores no joelho o fazia lembrar que o ferimento causado na última incursão ainda se fazia presente.

Acometido pela insônia, viu-se obrigado a passar as horas velando o sono da sua adorada princesa tupiniquim, que dormia profundamente ao seu lado. Tê-la ali tão perto, protegida das agruras do mundo e ao alcance dos seus braços, enchia-lhe o seu peito de satisfação. Sorria enquanto fazia festas nos negros cabelos de Moema, que ao sentir o toque do seu amado, moveu-se lentamente, embora permanecendo no mundo dos sonhos. Mas ter novamente a “menina que cheira à flor de pitanga” consigo o fez relembrar dos motivos pelos quais teria recentemente realizado a sua travessia transatlântica – Moema teria fugido por se sentir forçada a escolher entre o amor que nutria pelo lisboeta e compromisso que com a sua gente.

Embora já lá fossem alguns dias desde o reencontro daqueles dois, a verdade é que ainda não tinham encarado de frente aquela dura realidade. “Qual será a sua decisão, afinal? Estará minha adora Moema disposta a renegar o seu povo só para viver comigo, seja lá onde isso for? Ou este reencontro nada mais é que um simples adiamento de uma inevitável despedida?”, refletiu o Agente. E, neste preciso instante, teve medo! Nem mesmo as mais duras missões, ossos do ofício de espião, o teria feito experimentar tal pavor.

Apreciar o despertar de Moema sempre proporcionou ao lisboeta uma alegria peculiar. Era quase sempre a mesma sucessão de acontecimentos. Mas ainda assim, ele conseguia ver um verso novo na poesia que era corpo dela: ela acordava, esfregava os olhos como fazem as crianças ainda sonolentas, espreguiçava-se toda e depois aninhava-se outra vez debaixo das cobertas. Só depois o encarava com um sorriso no olhar, o qual dispensava ao Agente Lisboeta qualquer palavra – o “bom dia, meu bem!” estava ali, implícito. Só que, naquela manhã, havia alguma dureza no ar. Moema percebera imediatamente que o seu “menino” tinha o coração inquieto e a cabeça repleta de dúvidas. Havia decisões a tomar, escolhas por fazer. Ela era capaz de lê-lo como ninguém mais neste mundo – das coisas que mais o assustava era a capacidade que Moema tinha de o ler até nas entrelinhas.

Moema, então, afagou a barba farta que o seu adorado Agente decidira cultivar ultimamente – barba esta que Moema não sabia, mas era parte do disfarce para a sua próxima missão – e, enquanto o acariciava, disse:

– “Estava sonhando contigo. Com a gente, para ser mais exata. Estávamos lá na minha cachoeira. AQUELA onde te amei pela primeira das tantas vezes que ainda hei de te amar. Você se lembra?”. E sorriu docemente.

Ainda que embevecido com aquela deliciosa visão, o Agente Lisboeta tomado por uma inquietante agonia, disparou à "queima-roupa", certeiro como uma flecha, a dúvida que lhe roubara o sono naquela noite:

– “Moema, minha adorada Moema, estar nos teus braços outra vez é a mais sublime forma de passar por essa vida, mas...”, titubeou. Aquela pausa dramática no discurso do lisboeta poderia ser facilmente lida na aflição imposta ao olhar de Moema.

– “Mas o quê?!”, interrompeu a princesa vinda dos trópicos, que num rápido movimento pôs-se sentada diante do Agente, deixando seu corpo nu à mostra, desconcentrado-o solenemente.

– “Mas... Preciso saber se vens para ficar nos meus braços, no meu mundo,em definitivo. Tenho medo que isto tudo, de tão bom que é, não dure o quanto gostaríamos. Tenho esperança que sim. Mas é inegável o medo que me consome”, confidenciou o “menino de olhar doce”.

Mesmo triste por saber que aquela dúvida traidora dormitava no olhar do seu amado, Moema o abraçou. Apertado. Amava-o perdidamente. E, então, sussurrou-lhe ao pé do ouvido:


– “Toda esperança é lícita, meu bem!”, calando-o como usualmente fazia: com o seu melhor beijo.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Manchetes

|Clara Henriques

Não te conforto o desejo amarrado
Nem te dou as páginas humedecidas
Não sei vincar as golas ao recado
Às portas do teu quarto sempre despidas.

Não te quero em rasgos minguantes
Compassos que atropelam a ordem do dia
Nem te sei nas horas rasantes
Na pele que a tua mão sem querer dizia.

Não quero ser manhã e escurecer
No teu beijo traído entre o caos
Não quero a redenção para encher
Mil e uma manchetes nos jornais.

terça-feira, 1 de abril de 2014

o ópio

|Christiana Nóvoa



só a flor exata

me sacia o olfato

e a falta

desse cheiro

é tão macia

como um travesseiro

que me mata

por asfixia





Christiana Helena Nóvoa Soares Carneiro nasceu em 28 de dezembro de 1968 no Rio de Janeiro. 
Formou-se em Artes Cênicas (Faculdade da Cidade/RJ) e em Psicologia (PUC-Rio), com especializações em Arte-Educação e Arte-Terapia. Em 2004 começou a publicar seus textos na internet e, desde 2005, mantém o blog Nóvoa em Folha.

domingo, 23 de março de 2014

FRIDAS - Autorretratos

|Mariana Collares

Eu faço autorretratos.
E mais do que uma premência em 'avaliar meu grau de passagem' (Ana Hatherly dixit), talvez os faça, antes de tudo, como um movimento pela reafirmação da minha múltipla intimidade. Trata-se de uma postura moral que me conduz no sentido do entendimento do outro através da minha própria aceitação.


Mais em: https://www.behance.net/gallery/Fridas-AutorretratosSelf-portraits/11221609

"Fridas"
(autorretratos)
Acervo pessoal da autora
Canon PowerShot & iPhone
2011-2014