quinta-feira, 20 de março de 2014
Olhos de ressaca
Olhos de ressaca from Mariana Collares on Vimeo.
|Mariana Collares
— (Juro!) Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada."
Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim.
Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei
extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que
lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto,
com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar
crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles
olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que
eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova.
Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a
vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.
Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos
espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha
crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.
Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do Céu terão marcado esse tempo infinito
e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a
duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do Céu conhecer
a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a
quantidade das delícias que terão gozado no Céu os seus desafetos aumentará as dores aos
condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para
emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me
definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, — para dizer alguma
coisa, — “Eu sou capaz de os pentear, se eu quiser.
(Trecho do romance DOM CASMURRO -Machado de Assis)
"Olhos de Ressaca" / Trecho do romance "Dom Casmurro", de Machado de Assis
Concepção, voz, performance e direção: Mariana Collares
Direção de Arte, edição, imagens & mixagem: Marcello Sahea
Digital video | 3'07"
2013
quarta-feira, 19 de março de 2014
Aurora
Aurora from Mariana Collares on Vimeo.
|Mariana Collares
Eu abracei a aurora de verão.
Nada ainda se movia na fachada dos palácios. A água estava morta. Acampamentos de sombras nao deixavam a trilha do bosque. Eu caminhei, despertando os hálitos vivos e tépidos; e as pedrarias olharam, e as asas levantaram sem um som.
O primeiro acontecimento foi, já num atalho cheio de centelhas frescas e pálidas, uma florque me disse seu nome.
Ri à louca cascata que descia desgrenhada através dos pinheiros. Pelo cimo prateado, reconheci a deusa.
E então, um a um, eu levantei os véus. Na alameda, agitando os braços. Pela planície, onde a denunciei ao galo. Na cidade grande, ela fugia entre os campanários e as cúpulas e, correndo como um mendido sobre o cais de mármore, eu a caçava.
No alto da estrada, perto de um bosque de loureiros, eu a cingi com o seu amontoado de véus, e senti um pouco o seu corpo imenso. A aurora e a criança caíram na orla do bosque. Ao acordar, meio-dia.
(Aurora, poema do livro ILUMINURAS - Arthur Rimbaud)
Fotos: https://www.behance.net/gallery/FotosPhotos-Aurora/11212675
"Aurora" / Arthur Rimbaud
Concepção, voz, performance e direção: Mariana Collares
Direção de Arte, edição, imagens & mixagem: Marcello Sahea
Trilha: loop de Ronnie Rekkerd
Tradução livre: Mariana Collares
Digital video | 3'11"
2013
terça-feira, 18 de março de 2014
Elogio da Loucura
Elogio da Loucura from Mariana Collares on Vimeo.
|Mariana Collares
Digam de mim o que quiserem (pois não ignoro como a Loucura é difamada todos os dias, mesmo pelos que são os mais loucos), sou eu, no entanto, somente eu, por minhas influências divinas, que espalho a alegria sobre os deuses e sobre os homens.
(Fragmento de ELOGIO DA LOUCURA -Erasmo de Rotterdam)
Fotos: https://www.behance.net/gallery/FotosPhotos-Elogio-da-Loucura/11213311
"Elogio da Loucura" / Erasmo de Rotterdam
Concepção, voz e performance: Mariana Collares
Direção de Arte: Marcello Sahea
Tradução: Paulo Neves
Digital video | 00'43"
2013
segunda-feira, 17 de março de 2014
Projeto: Eu sou uma outra - Multileituras
|Mariana Collares
Eu faço performances em vídeo.
Um projeto que começou com gravações de podcasts em que eu fazia a leitura de textos vários - autorais ou não -, ganhou movimento a partir de 2013, com a combinação dos vídeos que passei a produzir com o poeta e artista visual Marcello Sahea.
Nesses vídeos eu canto, leio e interpreto fragmentos da literatura mundial, com a intenção de incentivar o leitor a estabelecer uma nova relação com o texto, estimulando a curiosidade e a autodescoberta pela leitura.
Tornar público o registro que faço do convívio com cada uma das mulheres que abrigo acaba tornando possível, também, a capacidade de exercer o meu potencial dialógico com todos os outros que compõem cada um dos meus iguais.
E tento, com minha arte, fazer com que essa prática ocorra sempre de forma poética. Não por acaso, encontrei nos versos de J.A.Rimbaud (‘Je est un autre’) a inspiração para nomear o projeto como: EU SOU UMA OUTRA.
Eu faço performances em vídeo.
Um projeto que começou com gravações de podcasts em que eu fazia a leitura de textos vários - autorais ou não -, ganhou movimento a partir de 2013, com a combinação dos vídeos que passei a produzir com o poeta e artista visual Marcello Sahea.
Nesses vídeos eu canto, leio e interpreto fragmentos da literatura mundial, com a intenção de incentivar o leitor a estabelecer uma nova relação com o texto, estimulando a curiosidade e a autodescoberta pela leitura.
Tornar público o registro que faço do convívio com cada uma das mulheres que abrigo acaba tornando possível, também, a capacidade de exercer o meu potencial dialógico com todos os outros que compõem cada um dos meus iguais.
E tento, com minha arte, fazer com que essa prática ocorra sempre de forma poética. Não por acaso, encontrei nos versos de J.A.Rimbaud (‘Je est un autre’) a inspiração para nomear o projeto como: EU SOU UMA OUTRA.
Mariana Collares - Biografia
Mariana Collares (Porto Alegre/RS, Brasil), é escritora e performer interdisciplinar. Publicou Devaneios Literários, Crônicas, em 2010. Publica textos em sites e portais literários no Brasil e exterior. É editora e colunista na Revista Benfazeja Comunidade Literária (digital). Desenvolve o projeto de multileitura EU SOU UMA OUTRA - que reúne performances multimídia, leituras públicas e coluna para podcast (web rádio)-, e realiza ações de intervenção urbana. Atualmente prepara o seu primeiro romance - Manhãs de Abril (ainda sem editora) - com lançamento previsto para este ano.
Blogue da autora: http://www.marianacollares.com/
Link do livro: http://www.bookess.com/read/5947-devaneios-literarios/
sábado, 15 de março de 2014
O peixe além do rio
|Márcia Barbieri
E os frutos estavam todos suspensos sobre minha cabeça, verdes no princípio, não podia me mexer, qualquer movimento romperia a tarde – rotação translação – bagunçaria o solstício. O dia esticava e os figos continuavam podres, fatiados, é como se os pássaros os tivessem estripados antes de devorá-los. Olhei em direção à janela, ela estava fechada, já não sei precisar a quantos anos, imaginei o corpo do meu pai estendido na cama como se fosse uma fruta que ainda amarra a boca, esperando amadurecer. À força. Pensei na solidão branca e calcificada do esqueleto, vendo os músculos se descolarem aos poucos. Pensei na carcaça das baleias brancas. Quando era menor eu acreditava que deveria ter medo dos mortos, achava que eles eram onipresentes e podiam escutar meus passos-ruídos sobre o assoalho de madeira. Quando escurecia ficava com os olhos bem abertos para poder me defender, caso eles aparecessem. Depois fui percebendo que os vivos eram muito mais assustadores e surgiam a qualquer hora e me agarravam com as mãos pegajosas e frias de suor. Lagartos amarelos. Percebi com os anos que o ranger de dentes eram dos seres que estavam em vigília, conhecidos por essas bandas como homo erectus.
− Ela tem razão, parece um planeta.
− Não brinca! Eles são grandes e pouco estéticos, tenho vergonha de olhar no espelho, minha cara está virando uma monstruosidade.
− Deixa de besteiras, já te falei que depois da cirurgia, tudo voltará ao seu devido lugar.
− Às vezes, me sinto completamente entorpecido...
− Você divaga muito, tem uma mente ágil, você percorre lugares desnecessários, sente dores ilusórias, a sua ansiedade é que está te matando, os caroços são apenas manifestações desse seu estado mental perturbado.
− O que adiantaria¿ Uma dose maior de fluoxetina¿
− Quem sabe... O que acho mesmo é que precisa aprender a ser como as moscas.
− Como assim¿ Que vantagens eu teria em ser como as moscas¿ Revirar merda¿ Já faço isso bem demais, não é fácil viver todos os dias, querendo ou não atolamos o pé na merda.
− Não foi bem isso que quis dizer... As moscas chafurdam na merda o tempo inteiro, mas nem por isso se tornam merda, continuam sendo feitas de outra matéria, uma matéria mais nobre, voam sem culpa para outros corpos.
− Tem toda razão, não sou feito da mesma matéria das moscas, até gostaria de ser assim solto, mas sou dado a afetos fáceis, o caos alheio me perturba e desorganiza. Não consigo pousar em outros corpos e sair ileso. Você consegue¿
− Não sei, acho que sou mais frio que você. De qualquer forma estou achando esse papo pesado demais. Quer um cigarro¿ Você está muito tenso hoje.
− Você é o único médico que me recomenda cigarros para acalmar meu humor. Não fumo há três dias, mas acho que estou precisando mesmo de um pouco de fumaça para anestesiar meu cérebro.
− Então, tome logo dois, assim se sentirá anestesiado por mais tempo.
− Passa aí, tenho certeza que me sentirei melhor quando anoitecer. Se é que hoje vai anoitecer...
− Talvez pense assim porque vive numa insônia permanente.
− É difícil adormecer sabendo que existe algo ruindo embaixo da terra.
− Você é mesmo um rapaz complicado, o que se move embaixo da terra que te assusta tanto a ponto de tirar seu sono¿ Roedores gigantes¿
− É obvio que já sou grande o suficiente para acreditar em roedores gigantes. Não é disso que estou falando, eu me refiro a parte geográfica da coisa.
− Geográfica¿
– Você nunca sentiu medo das placas tectônicas¿
− Você está brincando! Você acha mesmo que já perdi o sono pensando no movimento das placas tectônicas¿
− Por que não¿ Você não acha incrível imaginar que enquanto dormimos as placas estão todas lá, se movendo embaixo dos nossos corpos inertes, rindo da nossa inércia¿
− Pra ser bem sincero amigo não acho isso incrível, não ligo a mínima pra essas coisas. A única coisa que me faz perder o sono é o sexo e assim mesmo só durante o ato.
− Tem toda razão, é besteira minha, sou um lunático.
− Eu sei e isso me diverte bastante.
− Meu cigarro está acabando, está quase queimando a ponta dos dedos e continuo pior do que antes, acho que preciso de um médico mais otimista.
− Tem razão, ando ácido esses dias, é o mal da velhice, meu garoto.
− Então espero não envelhecer.
− Infelizmente não é uma opção.
− Pode me dar mais um cigarro¿ Assim posso me distrair até em casa. Já vou, não quero que perca mais seu tempo comigo, deve ter um monte de clientes te esperando e eu aqui te empatando.
− Larga de besteira, não atendo mais ninguém esse horário, meu expediente já acabou, você sabe que não faço a linha do bom samaritano. Fica tranquilo.
Fui embora com um peso nos ombros. Acendi o cigarro e fui observando o desenho que a fumaça fazia no ar. Nas ruas todos os rostos se pareciam, embora em nenhum deles eu me reconhecesse. Era mais uma vez o velho macaco em frente ao espelho. Conversar com Paulo não me aliviava muito, ele era uma grande figura, mas nossos corpos eram feitos de uma combinação totalmente diversa de átomos, o que nos tornava praticamente seres de outra espécie. Perto dele eu me sentia um símio. Um símio que estava há milhões de anos na Terra, entretanto ainda trazia a mão dura e inábil, uma mão que ainda não sabia utilizar os instrumentos civilizatórios, os dedos longos e pouco articulados, nunca fui bom em pinçar objetos pequenos. Eu ainda produzia fogo lascando pedras. Utilizava vasos de cerâmica. Ainda me escondia em cavernas úmidas e fazia pinturas rupestres das minhas caças. Procurava adivinhar o futuro lendo as vísceras dos porcos. Sacrificava animais para amenizar a fúria dos deuses. Era inútil conversar sobre as coisas que me incomodavam, ninguém poderia levar a sério um homem que se assemelhava a um peixe, mexia a boca como um peixe desesperado, tirado há pouco da água. Ninguém poderia entender o coração oco de um ventríloquo. Os bonecos de cores variadas distraiam a anemia das paredes. Artérias e veias se confundiam na vastidão do meu corpo. Lembro da minha perna sendo rompida por canos e todos pedindo que me acalmasse, era apenas uma ponte de safena, milhões de homens já tinham se beneficiado com esse método aparentemente invasivo. Eu estava acostumado às suturas, às trepanações, a membros que não pertenciam a meu corpo. Um ventríloquo. Tinha a impressão que às vezes a minha alma ficava presa naqueles bonecos. Outras vezes me sentia numa sessão vutu, como se todos os meus movimentos fossem controlados por uma mão invisível atrás do palco ou um homem vestido de preto para não ser visto pela plateia.
− Sabe como eu vejo a vida¿
− Como poderia saber se a cada dia você é outro¿ Tenho a impressão que te traio com esse outro que por vezes se apossa do seu corpo.
− É como se a vida fosse uma daquelas goiabas grandes, você pega a faca, corta e dentro ela está bonita e vermelha, então você prepara seus dentes e perfura a polpa, mas na segunda mordida, você vê uma larva branca tentando escapar em meio ao desenho das sementes. E a fruta está tão irresistível que o impulso é devorá-la com larva e tudo. Você para e pensa: “Que importância tem essa larva branca e raquítica¿”
− E o que acontece¿ Você devora a goiaba ou o bicho anêmico vence¿
− Isso é o que eu ainda não sei. Em determinados momentos acredito que venceríamos a larva, em outros acho que a larva riria de nossa cara.
− Não posso escolher por você, mas quando eu era criança, eu nunca pensava, simplesmente engolia aquele bicho branco fingindo não enxergá-lo. Hoje ainda faria o mesmo.
− A infância é maravilhosa por isso, o impulso pela vida sempre ganha.
− Falando assim até parece que você é muito velho...
− E não¿
− Não!
− É que você está fazendo como a maioria, medindo minha vida por anos, assim realmente eu fico parecendo um garotinho.
− E como eu deveria fazer¿
− Deveria calcular levando em conta as experiências que tive.
− Talvez, mas assim é muito difícil ser precisa.
− Não quero que seja precisa, só que entenda que sou bem mais velho do que aparento e quero que me respeite por isso.
− Você sabe que eu te respeito e admiro.
− Eu vejo além da sua cara, e isso não é bom. Eu queria boiar na superfície, como a maioria das pessoas.
− Eu não estaria aqui se você boiasse como a maioria, você sabe, o que me prendeu foi ver em você um escafandrista.
− Não sei... Será que sou mesmo um escafandrista ou apenas um louco que colocou pedras no bolso antes do mergulho¿
− Um escafandrista, com toda certeza. Você me trouxe novamente à superfície, eu ainda vejo o fundo, mas de um lugar seguro.
− Eu gosto de sentir o quanto confia em mim.
− E a cirurgia, conseguiu marcar¿
− Consegui sim, mas você sabe o que penso dessas cirurgias.
− De novo!
− Não quero bancar o chato, mas eu não agüento mais ficar me cortando e esperando outro nódulo aparecer.
− Mas o que o Paulo falou¿
− O de sempre, a cirurgia será um sucesso, nem vai parecer que você tirou nódulos do rosto, vamos torcer para que eles desapareçam de vez.
− Então, qual é o problema¿ Ele não disse que dará tudo certo¿
− Sim, disse, mas você se lembra quantas vezes ele falou isso¿ Em todas as cirurgias ele diz que a probabilidade de reaparecer os cistos é mínima, no entanto, eles sempre reaparecem, eu quero ser mais paciente, mas está difícil.....
− Não podemos fazer nada até a cirurgia. Você tem que se acalmar, não foi você mesmo quem disse que esses cistos são de fundo emocional¿
− Por isso mesmo acho improvável que eles desapareçam, é como se minha alma quisesse tomar forma, deixar de ser abstração, matéria gasosa e se transformar em algo concreto, ainda que sem nome, quisesse se apropriar do meu sangue.
− Você sabe que não me incomodo com seus nódulos, eles me parecem um mundo paralelo, planetas girando em órbita, girando em torno de você.
− Me consumindo, essa é a verdade...
− Você sabia que amanhã acontece o perigeu¿
− Como poderia me esquecer¿ Não durmo há uma semana, imaginando as placas tectônicas se movimentando embaixo do meu corpo...
− Será uma noite linda! Li no jornal que não haverá nenhuma catástrofe. Não deveria se preocupar tanto com os movimentos da Terra.
− Não me lembro dos jornais terem falado das tsunamis antes de elas ocorrerem... e depois como posso dormir tranqüilo sabendo que a Lua está mais próxima da Terra¿
− Só os ignorantes têm o sono profundo.
− Às vezes, você consegue ser muito mau!
− Não é maldade, eu juro! Eu adoraria fazer parte dessa massa amorfa e homogênea, você nem imagina o quanto eu gostaria...
− Esquece isso, vamos pra cama e eu te faço ser um pouco dessa massa amorfa e homogênea... seremos uma coisa só, um monstro de duas cabeças e vários membros... hermafrodita...
A lua vagava solitária na cartografia dilacerada do meu corpo, minhas tripas doíam e eu não sabia o que fazer. Paulo já tinha me explicados milhões de vezes que eu tinha tendências a doenças psicossomáticas. No começo me assustei com a extensão do nome, mas ele me garantiu que não era nada sério, era como se meu corpo formasse pequenos nódulos para poupar minha mente. Tinha operado oito vezes, mas os nódulos ainda apareciam nos lugares mais inusitados. O penúltimo apareceu dentro da orelha, enorme e vermelho. Anuncia gostava, dizia que era igualzinho um planeta perdido no sistema solar e não era nem preciso de um telescópio.
E os frutos estavam todos suspensos sobre minha cabeça, verdes no princípio, não podia me mexer, qualquer movimento romperia a tarde – rotação translação – bagunçaria o solstício. O dia esticava e os figos continuavam podres, fatiados, é como se os pássaros os tivessem estripados antes de devorá-los. Olhei em direção à janela, ela estava fechada, já não sei precisar a quantos anos, imaginei o corpo do meu pai estendido na cama como se fosse uma fruta que ainda amarra a boca, esperando amadurecer. À força. Pensei na solidão branca e calcificada do esqueleto, vendo os músculos se descolarem aos poucos. Pensei na carcaça das baleias brancas. Quando era menor eu acreditava que deveria ter medo dos mortos, achava que eles eram onipresentes e podiam escutar meus passos-ruídos sobre o assoalho de madeira. Quando escurecia ficava com os olhos bem abertos para poder me defender, caso eles aparecessem. Depois fui percebendo que os vivos eram muito mais assustadores e surgiam a qualquer hora e me agarravam com as mãos pegajosas e frias de suor. Lagartos amarelos. Percebi com os anos que o ranger de dentes eram dos seres que estavam em vigília, conhecidos por essas bandas como homo erectus.
− Ela tem razão, parece um planeta.
− Não brinca! Eles são grandes e pouco estéticos, tenho vergonha de olhar no espelho, minha cara está virando uma monstruosidade.
− Deixa de besteiras, já te falei que depois da cirurgia, tudo voltará ao seu devido lugar.
− Às vezes, me sinto completamente entorpecido...
− Você divaga muito, tem uma mente ágil, você percorre lugares desnecessários, sente dores ilusórias, a sua ansiedade é que está te matando, os caroços são apenas manifestações desse seu estado mental perturbado.
− O que adiantaria¿ Uma dose maior de fluoxetina¿
− Quem sabe... O que acho mesmo é que precisa aprender a ser como as moscas.
− Como assim¿ Que vantagens eu teria em ser como as moscas¿ Revirar merda¿ Já faço isso bem demais, não é fácil viver todos os dias, querendo ou não atolamos o pé na merda.
− Não foi bem isso que quis dizer... As moscas chafurdam na merda o tempo inteiro, mas nem por isso se tornam merda, continuam sendo feitas de outra matéria, uma matéria mais nobre, voam sem culpa para outros corpos.
− Tem toda razão, não sou feito da mesma matéria das moscas, até gostaria de ser assim solto, mas sou dado a afetos fáceis, o caos alheio me perturba e desorganiza. Não consigo pousar em outros corpos e sair ileso. Você consegue¿
− Não sei, acho que sou mais frio que você. De qualquer forma estou achando esse papo pesado demais. Quer um cigarro¿ Você está muito tenso hoje.
− Você é o único médico que me recomenda cigarros para acalmar meu humor. Não fumo há três dias, mas acho que estou precisando mesmo de um pouco de fumaça para anestesiar meu cérebro.
− Então, tome logo dois, assim se sentirá anestesiado por mais tempo.
− Passa aí, tenho certeza que me sentirei melhor quando anoitecer. Se é que hoje vai anoitecer...
− Talvez pense assim porque vive numa insônia permanente.
− É difícil adormecer sabendo que existe algo ruindo embaixo da terra.
− Você é mesmo um rapaz complicado, o que se move embaixo da terra que te assusta tanto a ponto de tirar seu sono¿ Roedores gigantes¿
− É obvio que já sou grande o suficiente para acreditar em roedores gigantes. Não é disso que estou falando, eu me refiro a parte geográfica da coisa.
− Geográfica¿
– Você nunca sentiu medo das placas tectônicas¿
− Você está brincando! Você acha mesmo que já perdi o sono pensando no movimento das placas tectônicas¿
− Por que não¿ Você não acha incrível imaginar que enquanto dormimos as placas estão todas lá, se movendo embaixo dos nossos corpos inertes, rindo da nossa inércia¿
− Pra ser bem sincero amigo não acho isso incrível, não ligo a mínima pra essas coisas. A única coisa que me faz perder o sono é o sexo e assim mesmo só durante o ato.
− Tem toda razão, é besteira minha, sou um lunático.
− Eu sei e isso me diverte bastante.
− Meu cigarro está acabando, está quase queimando a ponta dos dedos e continuo pior do que antes, acho que preciso de um médico mais otimista.
− Tem razão, ando ácido esses dias, é o mal da velhice, meu garoto.
− Então espero não envelhecer.
− Infelizmente não é uma opção.
− Pode me dar mais um cigarro¿ Assim posso me distrair até em casa. Já vou, não quero que perca mais seu tempo comigo, deve ter um monte de clientes te esperando e eu aqui te empatando.
− Larga de besteira, não atendo mais ninguém esse horário, meu expediente já acabou, você sabe que não faço a linha do bom samaritano. Fica tranquilo.
Fui embora com um peso nos ombros. Acendi o cigarro e fui observando o desenho que a fumaça fazia no ar. Nas ruas todos os rostos se pareciam, embora em nenhum deles eu me reconhecesse. Era mais uma vez o velho macaco em frente ao espelho. Conversar com Paulo não me aliviava muito, ele era uma grande figura, mas nossos corpos eram feitos de uma combinação totalmente diversa de átomos, o que nos tornava praticamente seres de outra espécie. Perto dele eu me sentia um símio. Um símio que estava há milhões de anos na Terra, entretanto ainda trazia a mão dura e inábil, uma mão que ainda não sabia utilizar os instrumentos civilizatórios, os dedos longos e pouco articulados, nunca fui bom em pinçar objetos pequenos. Eu ainda produzia fogo lascando pedras. Utilizava vasos de cerâmica. Ainda me escondia em cavernas úmidas e fazia pinturas rupestres das minhas caças. Procurava adivinhar o futuro lendo as vísceras dos porcos. Sacrificava animais para amenizar a fúria dos deuses. Era inútil conversar sobre as coisas que me incomodavam, ninguém poderia levar a sério um homem que se assemelhava a um peixe, mexia a boca como um peixe desesperado, tirado há pouco da água. Ninguém poderia entender o coração oco de um ventríloquo. Os bonecos de cores variadas distraiam a anemia das paredes. Artérias e veias se confundiam na vastidão do meu corpo. Lembro da minha perna sendo rompida por canos e todos pedindo que me acalmasse, era apenas uma ponte de safena, milhões de homens já tinham se beneficiado com esse método aparentemente invasivo. Eu estava acostumado às suturas, às trepanações, a membros que não pertenciam a meu corpo. Um ventríloquo. Tinha a impressão que às vezes a minha alma ficava presa naqueles bonecos. Outras vezes me sentia numa sessão vutu, como se todos os meus movimentos fossem controlados por uma mão invisível atrás do palco ou um homem vestido de preto para não ser visto pela plateia.
− Sabe como eu vejo a vida¿
− Como poderia saber se a cada dia você é outro¿ Tenho a impressão que te traio com esse outro que por vezes se apossa do seu corpo.
− É como se a vida fosse uma daquelas goiabas grandes, você pega a faca, corta e dentro ela está bonita e vermelha, então você prepara seus dentes e perfura a polpa, mas na segunda mordida, você vê uma larva branca tentando escapar em meio ao desenho das sementes. E a fruta está tão irresistível que o impulso é devorá-la com larva e tudo. Você para e pensa: “Que importância tem essa larva branca e raquítica¿”
− E o que acontece¿ Você devora a goiaba ou o bicho anêmico vence¿
− Isso é o que eu ainda não sei. Em determinados momentos acredito que venceríamos a larva, em outros acho que a larva riria de nossa cara.
− Não posso escolher por você, mas quando eu era criança, eu nunca pensava, simplesmente engolia aquele bicho branco fingindo não enxergá-lo. Hoje ainda faria o mesmo.
− A infância é maravilhosa por isso, o impulso pela vida sempre ganha.
− Falando assim até parece que você é muito velho...
− E não¿
− Não!
− É que você está fazendo como a maioria, medindo minha vida por anos, assim realmente eu fico parecendo um garotinho.
− E como eu deveria fazer¿
− Deveria calcular levando em conta as experiências que tive.
− Talvez, mas assim é muito difícil ser precisa.
− Não quero que seja precisa, só que entenda que sou bem mais velho do que aparento e quero que me respeite por isso.
− Você sabe que eu te respeito e admiro.
− Eu vejo além da sua cara, e isso não é bom. Eu queria boiar na superfície, como a maioria das pessoas.
− Eu não estaria aqui se você boiasse como a maioria, você sabe, o que me prendeu foi ver em você um escafandrista.
− Não sei... Será que sou mesmo um escafandrista ou apenas um louco que colocou pedras no bolso antes do mergulho¿
− Um escafandrista, com toda certeza. Você me trouxe novamente à superfície, eu ainda vejo o fundo, mas de um lugar seguro.
− Eu gosto de sentir o quanto confia em mim.
− E a cirurgia, conseguiu marcar¿
− Consegui sim, mas você sabe o que penso dessas cirurgias.
− De novo!
− Não quero bancar o chato, mas eu não agüento mais ficar me cortando e esperando outro nódulo aparecer.
− Mas o que o Paulo falou¿
− O de sempre, a cirurgia será um sucesso, nem vai parecer que você tirou nódulos do rosto, vamos torcer para que eles desapareçam de vez.
− Então, qual é o problema¿ Ele não disse que dará tudo certo¿
− Sim, disse, mas você se lembra quantas vezes ele falou isso¿ Em todas as cirurgias ele diz que a probabilidade de reaparecer os cistos é mínima, no entanto, eles sempre reaparecem, eu quero ser mais paciente, mas está difícil.....
− Não podemos fazer nada até a cirurgia. Você tem que se acalmar, não foi você mesmo quem disse que esses cistos são de fundo emocional¿
− Por isso mesmo acho improvável que eles desapareçam, é como se minha alma quisesse tomar forma, deixar de ser abstração, matéria gasosa e se transformar em algo concreto, ainda que sem nome, quisesse se apropriar do meu sangue.
− Você sabe que não me incomodo com seus nódulos, eles me parecem um mundo paralelo, planetas girando em órbita, girando em torno de você.
− Me consumindo, essa é a verdade...
− Você sabia que amanhã acontece o perigeu¿
− Como poderia me esquecer¿ Não durmo há uma semana, imaginando as placas tectônicas se movimentando embaixo do meu corpo...
− Será uma noite linda! Li no jornal que não haverá nenhuma catástrofe. Não deveria se preocupar tanto com os movimentos da Terra.
− Não me lembro dos jornais terem falado das tsunamis antes de elas ocorrerem... e depois como posso dormir tranqüilo sabendo que a Lua está mais próxima da Terra¿
− Só os ignorantes têm o sono profundo.
− Às vezes, você consegue ser muito mau!
− Não é maldade, eu juro! Eu adoraria fazer parte dessa massa amorfa e homogênea, você nem imagina o quanto eu gostaria...
− Esquece isso, vamos pra cama e eu te faço ser um pouco dessa massa amorfa e homogênea... seremos uma coisa só, um monstro de duas cabeças e vários membros... hermafrodita...
A lua vagava solitária na cartografia dilacerada do meu corpo, minhas tripas doíam e eu não sabia o que fazer. Paulo já tinha me explicados milhões de vezes que eu tinha tendências a doenças psicossomáticas. No começo me assustei com a extensão do nome, mas ele me garantiu que não era nada sério, era como se meu corpo formasse pequenos nódulos para poupar minha mente. Tinha operado oito vezes, mas os nódulos ainda apareciam nos lugares mais inusitados. O penúltimo apareceu dentro da orelha, enorme e vermelho. Anuncia gostava, dizia que era igualzinho um planeta perdido no sistema solar e não era nem preciso de um telescópio.
sexta-feira, 14 de março de 2014
O jardim branco
|Márcia Barbieri
Olho para o céu e vejo Deus transformado em um pássaro negro de origami e ele devora a carne verde que se forma em volta da minha carcaça e ele vai espalhando no músculo da rocha a minha combinação incerta de átomos.
Volto ao jardim branco em frente ao salão de festas, um acorde ainda ressoa longe no meu ouvido esquerdo. Disfarço minha ânsia de gritar. Ele continuava lá sentado no banco, como se eu estivesse ali o tempo todo mirando seu perfil. Ele me falava sobre a sua misoginia, sobre o quanto repugnava as mulheres, no entanto, elas nem eram capazes de retribuir tal aversão, eram tolas demais para experimentar o ódio. Como ele podia respeitar alguém que não sabia nutrir ódio pela humanidade¿ Como ele podia respeitar alguém que se curvava ao menor tremor¿ Considerava que o buraco no meio de suas pernas era a prova mais evidente e atroz de sua fraqueza. Nunca conseguira encontrar uma mulher que sustentasse a palavra até o fim, sua língua é mais ágil que seu cérebro. Diferente dos homens, que podiam ser calhordas, mas jamais voltavam atrás em seus acordos. Olhe bem para mim, diga se eu não estou certo quanto as minhas colocações¿
Divaguei um pouco enquanto ele pronunciava suas blasfêmias, o que bem poderia ser o que ele chamava de um defeito tipicamente feminino. Ajeitei o cabelo que escapava por baixo do chapéu. Apalpei meu externo, à procura inútil dos meus seios, eles são ridiculamente pequenos e escorregam facilmente...
Não sei se a culpa era dos pelos grossos que cobriam todo o meu dorso ou do meu chapéu coco um tanto masculino. O fato é que ele não parecia reparar que eu era de uma espécie inferior a sua.
Estendi meus dedos em volta do pescoço como se procurasse um pomo de adão ou desapertasse uma gravata borboleta que não existia. Ele reparava em meus movimentos e pigarreava de alegria, afinal, éramos tão parecidos que ele podia se deitar na minha cama e não tocar no meu sexo, porque meu órgão era grande, pesado e imponente como o dele e como dos touros que não foram castrados. Eu não era como as outras que tinham as genitálias escondidas na abstração e nas gretas do corpo, meu clitóris despencava das minhas ancas como um sino enferrujado prestes a cair.
A mulher é cheia de pretensões e na sua cabeça germinam apenas futilidades, diz conhecer o abismo dos homens, enquanto sua alma não passa de um porão cheio de quinquilharias. Como poderia adivinhar a ranhura na face do macho? No entanto, qualquer pedra desse jardim pode dissertar mais sobre a evolução humana do que esse ser rastejante originário da vértebra fraturada de um cão sarnento. Eu não tocaria na vagina de uma mulher nem que me pagassem, todas elas são dentadas.
Consegue sentir a música? Inteira, eu digo, sem distinguir os instrumentos de sopro ou a agonia das cordas¿ Sem imaginar a orquestra, o maestro ou a intriga entre os artistas que fingem cantar em uníssono como se fossem um só corpo, uma só voz, um só anseio¿ Uma mulher não conseguiria, ela ficaria horas analisando sobre a importância das notas utilizadas, o compasso, o ritmo, a harmonia, porque para ela é mais importante a origem do que o produto final. Remói os miomas do seu útero e não é capaz de reconhecer a cria que rasga sua vulva.
Ele continuava discorrendo como um maníaco depressivo. Olhei para seu rosto animalesco, para a curvatura das suas costas, um pouco disfarçada pelo terno escuro, para os seus débeis e longos dedos. Recordei da primeira vez que o vi sem roupa através da fechadura, não conseguia entender como eu podia amar um homem como aquele, um primata, eu me perguntava se ele participara daquela tal evolução que transformou os macacos em homo erectus, a sua coluna vertebral era tão envergada que eu poderia também ver a sua semelhança com um cachorro, nunca com outro homem ou com um ser divino, feito de matéria porosa e perfeita.
Embora ele não percebesse, ele também não passava de um símio, que por um erro conceitual do Ser ganhou o nome de homem.
Toquei de novo o avesso da minha cartografia. A mulher era um corpo oco até que Deus a sodomizou, ejaculou o sêmem da desgraça na sua cloaca. Então, ela deu o primeiro suspiro, descobriu que o mundo era semelhante a um pântano, deixou de ser objeto vazio para se tornar um simulacro e simultaneamente um criadouro de homem.
Quando vi o quanto era ridícula minha forma, pensei em partir. Contudo, ao olhar ao meu redor, eu percebi que estava só, não havia ninguém além de mim no jardim branco, não havia nenhuma festa no saguão, nem danças e o som de jazz que escutava não passava do coaxar dos loucos do outro lado do muro das lamentações e tampouco o jardim branco existia. Um escaravelho rolava um esterco de um lado para o outro imitando os movimentos de translação e rotação. Eu estava suspenso por uma espécie invisível de corda, o balé das marionetas, eu poderia despencar a qualquer momento e experimentei o medo pela primeira vez. Dei uma cutucada embaixo das minhas costelas, não senti nada, minha carne se tornou gelatinosa e transparente. Definitivamente eu estava no não-lugar e meu nome era Deus.
“O homem é a semente da degradação”
Olho para o céu e vejo Deus transformado em um pássaro negro de origami e ele devora a carne verde que se forma em volta da minha carcaça e ele vai espalhando no músculo da rocha a minha combinação incerta de átomos.
Volto ao jardim branco em frente ao salão de festas, um acorde ainda ressoa longe no meu ouvido esquerdo. Disfarço minha ânsia de gritar. Ele continuava lá sentado no banco, como se eu estivesse ali o tempo todo mirando seu perfil. Ele me falava sobre a sua misoginia, sobre o quanto repugnava as mulheres, no entanto, elas nem eram capazes de retribuir tal aversão, eram tolas demais para experimentar o ódio. Como ele podia respeitar alguém que não sabia nutrir ódio pela humanidade¿ Como ele podia respeitar alguém que se curvava ao menor tremor¿ Considerava que o buraco no meio de suas pernas era a prova mais evidente e atroz de sua fraqueza. Nunca conseguira encontrar uma mulher que sustentasse a palavra até o fim, sua língua é mais ágil que seu cérebro. Diferente dos homens, que podiam ser calhordas, mas jamais voltavam atrás em seus acordos. Olhe bem para mim, diga se eu não estou certo quanto as minhas colocações¿
Divaguei um pouco enquanto ele pronunciava suas blasfêmias, o que bem poderia ser o que ele chamava de um defeito tipicamente feminino. Ajeitei o cabelo que escapava por baixo do chapéu. Apalpei meu externo, à procura inútil dos meus seios, eles são ridiculamente pequenos e escorregam facilmente...
Não sei se a culpa era dos pelos grossos que cobriam todo o meu dorso ou do meu chapéu coco um tanto masculino. O fato é que ele não parecia reparar que eu era de uma espécie inferior a sua.
Estendi meus dedos em volta do pescoço como se procurasse um pomo de adão ou desapertasse uma gravata borboleta que não existia. Ele reparava em meus movimentos e pigarreava de alegria, afinal, éramos tão parecidos que ele podia se deitar na minha cama e não tocar no meu sexo, porque meu órgão era grande, pesado e imponente como o dele e como dos touros que não foram castrados. Eu não era como as outras que tinham as genitálias escondidas na abstração e nas gretas do corpo, meu clitóris despencava das minhas ancas como um sino enferrujado prestes a cair.
A mulher é cheia de pretensões e na sua cabeça germinam apenas futilidades, diz conhecer o abismo dos homens, enquanto sua alma não passa de um porão cheio de quinquilharias. Como poderia adivinhar a ranhura na face do macho? No entanto, qualquer pedra desse jardim pode dissertar mais sobre a evolução humana do que esse ser rastejante originário da vértebra fraturada de um cão sarnento. Eu não tocaria na vagina de uma mulher nem que me pagassem, todas elas são dentadas.
Consegue sentir a música? Inteira, eu digo, sem distinguir os instrumentos de sopro ou a agonia das cordas¿ Sem imaginar a orquestra, o maestro ou a intriga entre os artistas que fingem cantar em uníssono como se fossem um só corpo, uma só voz, um só anseio¿ Uma mulher não conseguiria, ela ficaria horas analisando sobre a importância das notas utilizadas, o compasso, o ritmo, a harmonia, porque para ela é mais importante a origem do que o produto final. Remói os miomas do seu útero e não é capaz de reconhecer a cria que rasga sua vulva.
Ele continuava discorrendo como um maníaco depressivo. Olhei para seu rosto animalesco, para a curvatura das suas costas, um pouco disfarçada pelo terno escuro, para os seus débeis e longos dedos. Recordei da primeira vez que o vi sem roupa através da fechadura, não conseguia entender como eu podia amar um homem como aquele, um primata, eu me perguntava se ele participara daquela tal evolução que transformou os macacos em homo erectus, a sua coluna vertebral era tão envergada que eu poderia também ver a sua semelhança com um cachorro, nunca com outro homem ou com um ser divino, feito de matéria porosa e perfeita.
Embora ele não percebesse, ele também não passava de um símio, que por um erro conceitual do Ser ganhou o nome de homem.
Toquei de novo o avesso da minha cartografia. A mulher era um corpo oco até que Deus a sodomizou, ejaculou o sêmem da desgraça na sua cloaca. Então, ela deu o primeiro suspiro, descobriu que o mundo era semelhante a um pântano, deixou de ser objeto vazio para se tornar um simulacro e simultaneamente um criadouro de homem.
Quando vi o quanto era ridícula minha forma, pensei em partir. Contudo, ao olhar ao meu redor, eu percebi que estava só, não havia ninguém além de mim no jardim branco, não havia nenhuma festa no saguão, nem danças e o som de jazz que escutava não passava do coaxar dos loucos do outro lado do muro das lamentações e tampouco o jardim branco existia. Um escaravelho rolava um esterco de um lado para o outro imitando os movimentos de translação e rotação. Eu estava suspenso por uma espécie invisível de corda, o balé das marionetas, eu poderia despencar a qualquer momento e experimentei o medo pela primeira vez. Dei uma cutucada embaixo das minhas costelas, não senti nada, minha carne se tornou gelatinosa e transparente. Definitivamente eu estava no não-lugar e meu nome era Deus.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
