quinta-feira, 13 de março de 2014

Gênese

|Márcia Barbieri

Ela estava há milênios ajoelhada naquele cubículo e expunha com certa vaidade uma fratura no fêmur esquerdo. Brincava com uma Matrioshka. Tirava e recolocava as várias bonecas russas, enfiava o dedo no miolo, encontrava a menor de todas, rasgava com uma faca, duvidando da sua entranha oca, do seu corpo sem órgãos, como se através dessa manobra pudesse resolver sua demência ou seus problemas de ancestralidade.

Olhando-a assim, acreditei que ela jamais morreria, estava enganado, ela era uma barata branca e logo seria esmagada. Não foi fácil ver seu corpo estendido na pedra. Aqueles seres estranhos, vermelhos e mascarados (sempre considerei a máscara uma repetição desnecessária), falando línguas estrangeiras, dançando e urrando, imitando o som gutural dos animais. Ofereceram-me um cálice de sangue, eu deveria celebrar a morte, sacralizar o útero que foi meu abrigo, minha origem. A caverna era escura, úmida. Havia na parede da rocha, atrás do seu corpo, o desenho de uma vulva aberta e gigante, em volta caçadores com seus membros em ereção, em outra gravura um antílope estava montado em uma mulher nua e grávida, aos seus pés demiurgos ejaculavam.

Colocaram em minhas mãos um instrumento pontiagudo, fizeram gestos que indicavam que eu deveria retirar as vísceras do cadáver e fazer uma trepanação. Hesitei, mas concordei, a matéria era uma abstração e nunca foi sólida, era uma rachadura, uma trinca no tempo-espaço.

Sei que existe um animal rastejante que circula em sentido anti-horário pelo meu útero (sou um homem castigado com um útero) se espreguiça nas minhas trompas, se enrosca nas paredes do meu intestino, como um cão de rua que não morde, mas fareja, mas fede. Trêmulo começo a estripar aquele corpo-origem. Partenogênese. Ovo cósmico.

O ritual de sepultamento continua e eu sigo fazendo a trepanação. Lamento porque nunca me senti parte desse mundo, porque quando cheguei o mundo já estava instituído. É como se eu fosse uma orelha implantada no organismo de um sapo. É como se eu tivesse despencado em um país estrangeiro e por todos esses anos continuei um exilado no meu corpo-máquina. Preciso ser civilizado, sou homem e preciso entender o sorriso fingido dos hipócritas, a boca banguela, desnuda dos desalmados. A humanidade se alimenta parindo ovos chocos. Preciso ser homem, trabalhar, acasalar, conversar, entender de política, entender a rosa dos ventos, fingir felicidade, matar os porcos que aparecem nas noites sujas, quando tenho as vértebras trincadas e pinos na mandíbula.

Nasci no corpo-simulacro de um homem evoluído. No entanto, minha alma tem uma corcunda feia e incurável, minha alma é de um egiptopiteco, um primata franzino de seis quilos.

Então, diga, como não ser arrebatado se não tenho olhos nas costas? Ando atento pela casa e em todas as portas multiplicam ferrolhos enferrujados. Como posso sorrir se sou um amontoado de átomos, os quais poderiam tanto estar em mim como numa cadeira de vime. Ela me falou que eu era fraco e por isso estava em eterna diáspora. Eu catava piolhos de um macaco de pelúcia. Só não era mais ridículo porque eu nascera inteiro, sem amputações. Era nesse ponto que ela se enganava Eu era a própria amputação, a própria rachadura na coluna de Deus. O meu quarto-mundo era uma incubadora e eu estava fadado a viver cem anos e continuar prematuro.

Um enxu de moscas andam tontas e circunspectas em torno do meu mamilo. Não sinto cócegas, não as expulso, acompanho sua coreografia macabra nas redondezas do seu peito. A angústia não é muito diversa de um amontoado de larvas de inseto. Barroca.

Coagulo a noite. Navalho a face profícua de Deus. Continuo a trepanação. Depois de um tempo eu era só o exoesqueleto de uma cigarra, vazio, solitário, oco.

Não havia dúvida do que eu deveria fazer. Abri a vulva da minha mãe e voltei ao seu útero. Invaginação do fora. As esporas, os cascos, os trotes, a noite, o beco deixaram de me incomodar.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Encarnación

|Márcia Barbieri

Encarnación gostava de ficar sentada sob o sol olhando os emaranhados da videira. Ela se esparramava e ocupava a tarde podre. Eu as via de longe, já enamorado, já adivinhando os sacrifícios que ela me custaria. Encarnación, Encarnácion, Encarnación, eu sou fascinada pelo seu nome. Ela ria gostoso, quase gargalhava, desses risos de gente velha “minha filha esse nome traz má sorte, não deseje minha sina, se contente com os monstros que tem pra alimentar”. Não ligava, Anna lhe parecia solitário demais, lembrava as migalhas do tempo, os bagos fermentando as vistas. Nos dias de festa, as moças arreganhavam as saias e esmagavam os cachos com os pés. Foi assim que ela experimentou pela primeira vez o gosto da carne, disfarçado no gosto vermelho da uva.

Anna era descendente de uma tribo distante. Um povo que viveu pacificamente na Terra há milhares de anos. Um povo selvagem que na época de pouca fartura devorava ritualisticamente seus cadáveres. Era o que ela sempre me contava enquanto colocava os meus dedos na boca e chupava com força. Eu não duvidava, não tinha como duvidar, eu tinha visto tudo desde a primeira vez que bati os olhos nela.

A clarividência é meu inferno, muita gente reza todos os dias para ter o meu poder. No entanto, jamais desejaria, nem mesmo ao meu pior inimigo, conseguir enxergar todas as frestas que vejo, cada minúsculo buraco, é como uma lagarta de fogo que percorre infinitamente o mesmo tronco e mesmo sabendo da sua sina é impossível trilhar outro caminho. Eu sei as tramas de todas as minhas histórias e isso não me impede de vivenciá-las.

Quando eu conheci Anna já sabia seu destino, já sabia como seu corpo se entranharia no meu – videira vasta sem espaço, vísceras mortas devastando o asfalto. Foi impossível não me apaixonar por Anna, ela exalava um cheiro de desgraça que me corrompia e me aproximava. Seria capaz de lamber seus pés até que ela adormecesse.

A primeira vez que entrei na sua casa, me assustei. Na parede do seu quarto estava pendurado um cavalo que era só sombra por dentro, os olhos vazados, os músculos exaustos disfarçando o oco, como se tivesse sido devorado por um monstro.

Não foi fácil convencê-la do meu amor, ela tinha um olhar atravessado, não via o que estava a um palmo do seu nariz, mas o que estava diametralmente oposto a ele. Olhando para o chão, só conseguia enxergar as teias de aranha do teto. Eu compreendia perfeitamente, eu também não era a pessoa mais normal do mundo. Um dia ela me confessou que era verdade o que eu tinha visto, ela era descendente de um povo chamado Antípodas.

Antes disso, antes da sua confissão, passei várias noites em claro tentando entender o que aquilo poderia significar. Na cabeça me apareceu Antípodas, comecei me impressionando com a origem da palavra, em seguida fui imaginando os mapas, a cartografia traçando opostos, de um jeito ou de outro a matemática me intrigava. Mas não foi a matemática que me levou a descobrir que na Antiguidade seus parentes tinham os pés opostos. Comecei a compreender porque a primeira vez em que vi Anna ela corria entre as videiras plantando bananeira. Na segunda vez que a encontrei ela tinha um espelho colado no peito, andava rindo, catando as uvas estragadas e colocando na boca, de longe escutava os estalos e o cheiro fermentado da sua língua geográfica.

Embora nunca tenha me enxergado por completo, Anna começou a me enamorar. Ela gargalhava quando escutava minha voz, saía da posição de bananeira e me dava uma lambida no rosto. Não posso dizer que isso me impressionava, pois eu já sabia do que Anna era capaz.

Anna cutucava o chão, comia desesperada as raízes, os tubérculos, as pequenas minhocas. Não satisfeita passou a comer torrões de terra. Ah, meu Deus! Quem me dera fosse apenas isso. Depois passou a comer pequenos cadáveres. Chorava me implorando perdão, dizia que não era culpa sua, era coisa herdada. Primeiro eram corpos mortos de coelhos, gatos, cachorros, cavalos. Até o dia em que experimentou a carne de uma moça. Foi além, devorou a carne macia de um bebê.

Fui visitá-la, como fazia todo entardecer desde que nos amamos pela primeira vez. Havia sangue por todo lado. Ela me olhou triste-feliz-arrependida, confessou que não foi capaz de se controlar. Cutucou o umbigo, primeiro no meio, depois em volta, retirou aquela espécie de novelo-ninho-pintura abstrata que se formava dentro dela. Comeu o próprio feto – meu primeiro filho, o primogênito. Me calei. Ela me olhava faminta. Nunca tive medo, eu sabia que ela se contentava em sugar meu sêmen, ele era um pouco da minha carne. No entanto, não queria deixá-la furiosa, desde criança tive tendência a acumular sobras embaixo da unha, isso me irritava. Agora essas sobras me salvavam a pele do sacrifício. Anna não era ruim, só tinha herdado o vício nefasto de seus antepassados.

Ofereço minhas mãos solícito. Ela agarra e rói minhas unhas com desespero. Ela traz o pequeno espelho de moldura laranja no peito. Lá fora, eu posso enxergar os emaranhados da videira e a tarde quente apodrecendo os bagos.

terça-feira, 11 de março de 2014

O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas

|Márcia Barbieri

Eram coisas minúsculas que me faziam não entender o mundo, como dois interruptores para apagar a mesma luz ou o som vindo da Ásia e saindo de uma caixa negra ou morangos mofarem tão rápido ou o gosto das pitangas serem tão parecidos com os das cerejas ou as flores que terminam em um falo ou a teta alimentar o universo ou um espelho esférico invertendo meu pânico ou dois homens se amando com o desespero que nunca conheci ou o amor ser um criadouro de moscas estéreis zunindo zunindo zunindo dó ré mi fá sol lá si cataclismas no meu cérebro larvas obesas ruindo a carne vespas negras no fundo do quintal ou o tédio enferrujado esburacando a manhã ou buchada ser uma iguaria ou crianças comendo testículos de bois ou um escorpião amarelo atravessando o deserto comendo a própria cria ou a diáspora das nossas mãos durante as masturbações ou bonecas infláveis serem tão perfeitas ou o ódio insano dos homens pelos touros ou a beleza dos chifres espiralados dos antílopes negros ou mulheres clonando-parindo como animais ou a disputa selvagem dos homens pela buceta das fêmeas. O pensamento da aranha tecia absurdos sobre minha tíbia rótula patela minha vizinhança meus membros eram uma máquina de encaixes arruinados e eu era um ser obtuso e ter o crânio de um animal era o menor dos meus problemas. Coma logo a aranha antes que suas ideias se tornem matéria coma logo a aranha antes que ela teça a revolução coma logo a aranha antes que cem luas despenquem de suas patas peguem a faca e cortem o verbo ao meio só sobrará a ação. E nossa cópula fosse a união de mil garras, armistício, campo minado, fratura de invertebrados. Não entendi quando percebi que essas coisas pequenas entre as pernas num ângulo diálogo monólogo obscuro não fosse capaz de provocar asco, não entendi quando percebi que existiam idiossincrasias em todas as genitálias, eram todas tão diferentes uma das outras... Olhei de novo para minha e tive vergonha. De que espécie eu era¿ Por que meus buracos e seus contornos eram tão pavorosos¿ Ela era rosada e grande, uma membrana pesada e com bainhas desproporcionais os pelos cresciam em direções variadas perdidos entre uma ordem e outra. As estrias formavam ramificações difíceis de entender. Desviei o olhar não gostava de encará-la por muito tempo. Eu jamais deixaria que ele me visse, não assim, onde eu não era normal, onde a duração do tempo se distendia nos meus pequenos-lábios, pensei na solidão dos ornitorrincos... na feiúra incompreensível dos peixes abissais... nas dobraduras se desdobrando na minha pele fina. De novo os ornitorrincos e os peixes abissais. Eles como eu não eram daqui e eu pensei: é bem estranho ser estrangeira no próprio corpo é bem estranho ser estrangeira no seu país é bem estranho estar sitiada nas escórias da própria carne é bem estranho conhecer apenas as superfícies das coisas inanimadas.

Olhei para seus olhos castanhos e clamei, você que não me conhece não me deixe nunca sair da minha terra não me deixe pisar em outros solos áridos não quero conhecer outros países não quero conhecer outros dementes não quero lamber a falência de outro corpo não quero sentar na rigidez de outro pau não quero enrolar minha língua em outras línguas não quero ter certeza que a felicidade não existe em parte alguma, quero ter essa esperança rasa de que em alguma parte o ar é rarefeito, as palavras são todas francesas e a lama é branca...

Você me olha com um olhar idiotizado, o olhar de todo homem que já passou dos trinta e eu desfaleço. Você podia me fazer parar, agarrar meus pulsos, amarrar minhas mãos nas grades da cama. Você não faz nada, só me olha, um gato paralisando sua presa. Retiro a armadura do eu penduro na parede texturizada grandes rosas secas arabescos que não existem mais a arquitetura falida nostalgia rococó retiro as carrancas retiro as máscaras japonesas enfio o dedo na sujeira do umbigo retiro os caranguejos da minha última morte retiro a penugem do buço agora sou não eu essa cor opaca massa mole matéria quase morta parecendo o abdômen de um inseto ou um incesto de dois irmãos.

Você sussurra no meu ouvido surdo labirinto bigorna eu eu eu eu o eco ensurdecedor de todas as suas ideias olho seu palato em decomposição e você continua agora num grito sufocado eu eu eu e eu coloco a corda frouxa e suicida em torno do seu pescoço vejo a língua enrolada e a baba grossa de um epilético.
Você sopra no meu olho sem cílios eu eu eu e recorda um velho refrão cavalos cavalgam na cartografia do seu dorso–cavalos negros selvagens cavalgam no seu leito– mas isso não é importante–o eu está morto. Sou uma massa amorfa e coalhada e o sol apodrece minhas vértebras e o líquido que me tirou das penúltimas meninges explode na minha garganta há um pêndulo enferrujado entre minha laringe e minha traqueia falar não é tão indolor quanto parece ainda mais nesse lugar suspenso onde cada palavra cai um rifle ainda mais nesse campo de marionetas onde não perdura a consciência íntima do tempo.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Marcia Barbieri - Biografia

Marcia Barbieri é paulista, mestranda em Filosofia (Unifesp) e formada em Letras (Unesp). Tem textos publicados nas principais revistas literárias e participou de algumas antologias. Tem dois livros de contos Anéis de Saturno (2009) e As mãos mirradas de Deus (2011) e um romance Mosaico de rancores (2013), o mesmo será lançado em 2014 na Alemanha pela Clandestino Publikationen.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Sem notas de rodapé – Nós, homens, sabemos hoje que somos mortais

| Maria João

Deixo a cabeça no quarto do hospital e o corpo que desce no elevador ouve com desapego conversas banais, repara na tinta lascada dos rodapés, conta as ricas menos perfeitas das passadeiras. Nós, os mortais, quando confrontados com essa mesma natureza, sentimo-nos absortos, como que a pairar no tempo e no espaço. Olha-se a loucura das preocupações diárias como infinitamente ridícula. É-se sem estar. Descolamo-nos de nós próprios e de quem não vive a mesma situação. O quotidiano perde sentido.

A metáfora banal que me ocorre é a de uma ida crítica a um vulgar restaurante chinês. De repente parece-me aberrante a conjugação da delicada loiça de motivos sínicos com os garfos e facas brutos e industrializados. A incongruência entre o fino recorte ondulado das toalhas vermelhas e a protecção plastificada e já baça que as cobre. A contradição entre o orientalismo da designação dos pratos e carta de sobremesas onde habitam vienettas e copos de gelado de baunilha e chocolate. E, sobretudo, ecoa em mim uma profunda estranheza ao constatar a naturalidade com que todos se alimentam destes paradoxos. Sinto-me a única a detectar arestas num planeta que juram ser esférico.

Não arrisco escrever sobre o que não vivi em primeira mão: perder quase totalmente a audição em 72 horas. Observei-o. Vi-o a acontecer à pessoa que me é mais próxima. A comunicação, ao contrário do que se possa pensar, não deixa de existir. Transforma-se. O automatismo de pegar no telemóvel, o acto de falar perde terreno em relação à escrita. Vê-se a falta que o outro sente da gargalhada, do som da água a cair do chuveiro. Apercebo-me até que ponto vai o poder da audição: sem ela não se nota sequer a presença do outro que se aproxima de nós. Desiste-se de socializar. Esgota-se, muito rápido, a paciência de pedir que se repita pela quinta vez o que se acabou de não ouvir. A espontaneidade é protelada, arrastada até se esvair. Cede-se ao isolamento. E são imensas as saudades da música.

Quando o diagnóstico está realizado – surdez súbita –, o tratamento fixado – doses industriais de corticoides – e nada mais resta do que a espera (precisamente um mês, para que se registem melhorias face a uma situação que pode não ser reversível), a passagem de um médico pela cama do hospital torna-se mais rara. Sente-se a impotência. A nossa e a deles. As batas brancas medem as palavras. Refugiam-se na objectividade, no distanciamento de um vocabulário próprio. Aguardam-se resultados de baterias de exames que, quando chegam, apontam para a mais frustrantes das conclusões: causa idiopática, desconhecida. As decisões médicas assemelham-se a uma cabra cega polida e pragmática, que combina a citação dos mais recentes papers da especialidade com uma fórmula de algibeira e vão de escada: “como não prejudica, tenta-se”. Arrisca-se; nada se exclui. Contudo, para quem assiste deste lado, as opções diminuem a passos largos e a incapacidade de prever desfechos e prazos abana a mais forte das crenças no potencial da ciência. Solicitam-se segundas e terceiras opiniões e obtêm-se as mesmas respostas. Para uma universitária como eu, a ausência de soluções é dilacerante. A insuficiência do conhecimento humano e as consequências radicais que daí advêm são revoltantes. A paciência sem resignação parece atributo de santo. Aprende-se, tão-só, a fingir a serenidade. A contrariar o impulso de todos os dias aguardar e indagar alterações.

O quarto fica situado no fundo do corredor. Nunca pensei que um extenso eixo espacial pudesse ser tão útil. Ao longo deste percurso tudo é asséptico. Nem mesmo as reproduções baratas de obras da colecção do Centro de Arte Moderna furam a tonalidade impessoal, artificial, esverdeada, que infecta tudo na sua eficácia racionalista. Pelo meio, uma minúscula sala de espera, o único lugar onde existe uma televisão. Uma divisão deprimente, de intimidade e familiaridade forçadas pela pequenez de metros quadrados, filas de cadeiras pegadas e ordenamento exposto, sem recato. Todo o trajecto permite uma preparação, uma mentalização. Prega-se um sorriso no rosto. Os olhos desumidificam-se a ferros. Ensaiam-se três frases de ânimo e revolve-se a cabeça em busca de quatro assuntos de conversa lida nos lábios. Girafas, zebras, chimpanzés. Tudo é permissível menos o elefante branco na sala.

Oiço os meus próprios passos, como se o chão possuísse cola. Gostaria de ter mais 500 metros pela frente. Mas a porta está já ali. Entro. A linguagem corporal ganha um peso renovado e, por isso mesmo, tem de ser controlada com especial cuidado por quem quer apoiar e ser uma presença positiva. Tudo no meu corpo procura desesperadamente sorrir. Ao lado, acumulam-se «casos», que cortinas separam visualmente e que a surdez aparta por completo. Dá-se o que se tem e o que não se tem até o horário de visita se prolongar para além do aceitável. De novo o elevador. Uma parte de mim sai, a outra fica.

O mundo para durante duas semanas. No entanto, por via de um comportamento por certo explicável pela psiquiatria, retorno, lentamente, a níveis de funcionalidade que me levam a regressar ao trabalho, a voltar a encher a despensa de compras e a ir mesmo até a um jantar de aniversário. Não me sinto completa na realização de qualquer uma destas tarefas. Mas exaurida e consumida, anseio, não sem culpa, por alguma, ainda que falsa, normalidade.

Esta é uma crónica sem um final feliz, numa época em que se deseja consumir literatura de aconchego. Mais grave do que isso, ao centrar-se numa experiência pessoal tornou menos prováveis as pontes racionais e emocionais com o leitor. Julgo, porém, que de um episódio particular e raro como este se podem extrair leituras de aplicação global. Assim acontece porque todos temos, independentemente das variáveis, algo em comum. Vivemos, a larga maioria dos dias, descentrados do que realmente (nos) importa e alheados da nossa fragilidade. Tratar-se-á, possivelmente, de um mecanismo de sobrevivência. Uma consciência integral da precariedade humana acarretaria um peso insuportável que redundaria na celebração presentificadora do quotidiano ou numa existência teleológica penitente. O caminho estará algures no meio, entre a alienação saudável que nos permite elaborar planos e o suficiente relativismo que nos concede a sabedoria de conferir o peso certo a cada aparente drama da nossa vida.





terça-feira, 4 de março de 2014

Editorial: O silêncio e o jogo

|Luís Filipe Cristóvão



No meio de toda esta confusão, no mundo, no país, na rua, ocorreu-me que o editorial desta mês poderia ser, simplesmente, uma imagem. Hesitava entre a letra da música de Los Hermanos, o apropriado “Todo o Carnaval tem seu fim”, ou a adaptação de uma frase que anda a anos perdida na minha cabeça, transformada agora em “o silêncio deveria ser, definitivamente, a tua filosofia”.

Ocorre que há uns meses visitei o Convento do Varatojo e a sua Mata Sagrada, pelo que acorri à pasta onde guardo uma série de fotografias dessa ocasião, em busca de alguma que pudesse transportar, como maior eficácia, esse elogio ao silêncio. No entanto, a que me saltou à vista foi esta, a de um improvisado campo de futebol onde, imagino eu, alguns dos frades franciscanos se arriscam, de tempos a tempos, a um disputado dérbi.

Encontrei-me assim, quando em busca do silêncio, perante a clara evidência de que não há como parar o jogo. A cada ocasião, a necessidade de fazer o movimento que dará origem a outro e a outro, logo de seguida. Não me ocorre melhor imagem para entrar, agora que o Carnaval termina, no mês de março.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Mesa do Canto – O fadinho da saudade

|Alexandra Malheiro

Quando me propus escrever estas crónicas dei-lhes o título genérico de “Mesa do Canto” por ser no café que as escrevo. É bem certo que a mesa que nele ocupo não é sempre a do canto mas dou-lhe preferência quando está desocupada. Dali, de uma esquina privilegiada, junto à montra, tenho o melhor sossego e a melhor visão para o que vai dentro e fora do café.

Agrada-me a ideia do café como pequena montra do mundo, creio que entre quatro paredes não seria capaz de alinhavar mais do que algumas ideias dispersas, prefiro ficar por ali a reter pedaços de mundo que, acredito, ficam depois aprisionados dentro de mim.

Calhou de hoje me deslocar a um café onde parei há muitos anos, lugar de outros afectos, outras vidas. O regresso ao café de antanho é como o regresso a uma vida anterior. O espaço não sofreu grande alteração e nele permanecem alguns personagens que reconheço iguais, apenas com uns quilos a mais, ou a menos, menos cabelo ou de outra cor, uns mais brancos outros mais loiros e outros mesmo exactissimamente iguais porque o tempo parece deixá-los incólumes. O empregado ainda me reconhece as feições e os vícios, quase intactos. Porém no café há um vazio, como uma mesa persistentemente desocupada onde jazem todos os que partiram, aqueles que sei que não voltam, pela distância, ela morte ou pelo desafecto e todos quantos, não sabendo eu deles, duvido que tornem a um lugar do passado. É agora que o frio me apanha.
Tenho tanto medo da saudade como quem crê em fantasmas e os receia. Por isso evito estes perdidos lugares de afectos antigos antes mesmo de, por artes do diabo, me transformar eu mesma num fadinho pleno de miséria e saudade portuguesinha.