quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

robert, um bom velhinho

|Teodoro Balaven

, Robert, um pobre velhinho de 92 anos, contabilizou nesta noite de sexta-feira seu sétimo estupro.
Curiosamente, Robert, estuprava suas vítimas - companheiras das casas de repouso - com uma agulha de crochê.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Vendo ótimo apartamento 23 metros quadrados

|Teodoro Balaven

, que porra é aquela, não sei, tá vindo pra cá, tá, porra não pode, mas o que é aquilo, parece uma seta, que merda é aquela, é uma pessoa, não sei, não é, acaba logo com isto, p!á!, pronto tá no chão, vai lá, caralho cara, era uma menina, o que, uma menina daquelas que ficam nas esquinas, como assim?, porra, tu é idiota, daquelas que fazem propaganda para construtoras, porra. foda-se. quem mandou pegar o caminho errado.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

reprodutor

|Teodoro Balaven

, acho melhor a gente não se mêtê.
, e ele tá abrindo a calça, tá?
, e ele tá com a mão na boca dela, tá?
, e ele tá puxando a saia dela, tá?
, e ele tá apertando ela no vidro do ônibus, tá?
, e ele tá com o pinto duro, tá?
, e ele tá virando ela de lado, ta?
, e ele tá segurando o pinto, tá?
, e já chegou nosso ponto, já?
, mulher, acho melhor a gente não se mêtê.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Teodoro Balaven - Biografia


Teodoro Balaven nasceu em São Paulo/Brasil, em 1976, mas passou a maior parte da vida entre caixas de papelão e caminhões de mudanças, vivendo em 50 e tantas cidades por tudo isso aí de mundo. Quando era criança foi só criança. Agora anda por São Paulo outra vez: vendendo troco, consertando disco voador e preparando-se para virar agricultor. Autor do livro nunca publicado de contos Bananas Podres (2012. Com ilustrações da artística plástica Ana Rabelo; vídeo-animação de Dimitri Kozma e trilha sonora de Estrela Leminski e Natalia Mallo).

Participou com seus contos na Revista Sexus #3. Edita a página do facebook Bula de Tabaréu (resenhas de literatura contemporânea); participou da antologia de contos ‘Como enganar o Google’ da Editora Terracota e foi cronista do evento Balada Literária 2013 em São Paulo.
Fez oficinas com o mestre e querido escritor Marcelino Freire; com a artista plástica Ana Rabelo e mantém o site www.asfodelos.com onde mantém seus escritos.
Teodoro Balaven agradeceu e mandou um abraço para você.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Os intrépidos portugueses que gostam de apanhar com água nas trombas

|Alexandra Malheiro

A tempestade Hércules que nos tem assolado em todas as suas quatro (e quantas mais, meu Deus, quantas mais?) investidas, se parece não ter servido para mais nada senão destruir património à beira-mar plantado e nossa paciência – pelo menos para quem como eu tem um limite muito finito para tempo cinzento e chuva persistente agravada com vento forte; teve um, chamemos-lhe mérito – ainda que a contragosto – de nos mostrar quão intrépidos, temerários e ousados são os tugas. Numa época em que achávamos já que “o melhor povo do mundo” era de facto um povo mortiço, sem ânimo, sem genica, acobardado no medo de perder o emprego, de se manifestar de outro modo que não nas redes sociais e na mesa do café, um povo, enfim, sem espinha dorsal, sem estamina, uns amorfos. Pois se nos roubam no ordenado, nos impostos, nos feriados, nos dias de férias, na segurança no emprego, se nos atiram precaridade, nos empurram fronteira afora, nos prometerem mais e melhor austeridade, nos saqueiam persistentemente vendendo a preço da uva mijona tudo o que no país haja que seja digno de desejo, tudo privatizado desde a energia aos correios, dos aeroportos às linhas aéreas, tudo, tudo, tudo, mesmo o que nos cai no colo – como a colecção Miró – e que bem podia ser aproveitado para ganhos futuros como mais-valia cultural e aposta no turismo de cultura nacional e estrangeiro – é desbaratado a troco de uns míseros cobres que parecem ter o destino comezinho de um dito que aprendi com a minha Avó acerca daqueles a quem o dinheiro parece arder nas mãos – “é como manteiga em focinho de cão”, some-se! Tudo isto e o povo continuar a digladiar-se, sim, sobre quem demorou mais tempo a saír do balneário.

Pois bem, não nos deixemos enganar, o Tuga é um herói dos tempos modernos, basta pô-lo borda de água, e sim somos um país de marinheiros, e é vê-los felizes junto à berma, prestes a apanhar com uma onda de dez metros bem no meio da focinheira. O próprio MacNamara, especialista em ondas de 30 metros (devidamente equipado, treinado, com prancha e fato e motas de água em torno, como deve um profissional de ondas gigantes actuar) partilhou incrédulo a impassividade dos Tugas no farol rodeados de onda tsunâmica por todos os lados como se não fosse nada com eles. E não era. Eu própria observei num telejornal a reportagem – não vou chamar jornalística porque o pasmo envolve-me de cada vez que percebo as coisas que são “notícia” (e prometo que não falo sequer das que não são…) – de um moço algarvio, lançado nas ondas com a sua prancha que se viu transportado por mais de um quilómetro que o pôs na praia vizinha àquela onde tinha começado a surfar (em plena tempestade Hércules, pois então, o medo há-de ser coisa que não lhe assiste), confessando este que nem sabia bem o que lhe tinha acontecido. Foi notícia, graças ao Senhor, se tivesse morrido por, incauto, se ter lançado ao mar em dia de tempestade para treinar o surf, seria notícia na mesma, para a estação era igual e para o público também. O vigor só diferiria se dúvida houvesse se a atitude temerária e parva fosse fruto da sua invenção e dos amigos ou se a mesma fosse de sua invenção e dos amigos mas a tivessem baptizado de praxe. Aí sim o festim seria completo com mais de um mês de assombradas teorias da perseguição, mistérios dignos de um Shelock e horas a fio de airplay televisivo. Soubessem os pescadores que se fazem ao mar por necessidade e que por azar ficam nas ondas, o que deviam fazer para fama e gáudio e, estou certa, este povo intrépido que gosta de apanhar com as ondas no focinho teria uma muito maior quantidade de heróis e mártires, dignos quiçá de embelezar o panteão. Já que estamos numa de transladar à dúzia que há-de ser mais barato e a troika aprovará com um sorriso terno.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Mal puro

|Luís Coelho

A neurose do eterno retorno
É como as dores de crescimento
O recuo gera a expansão
Como a evolução da involução
E este é o menor mal!

O Mal puro não é a involução
Ou o recuo temporário
Daqueles que são constantes
A vida é neurose permanente
Desequilíbrio pungente
Entre pólos cabalísticos

O Mal puro não é o Inferno revisitado
Quando se permite o regresso órfico
E o salto quântico iluminado
Nem sequer é o pecado
Como o erro de ver a Luz onde ela é escassa
Ou o eterno no frugal impermanente

As más escolhas são condição do crescer
Os pecados e os males farão recrudescer
Esse destino de sermos Deuses ou Civilização
O Mal puro é mais profundo
Porque é eterno ruminar
No mundo dos demónios encarcerados
O Mal puro é bem mais fundo
Porque é eterna involução
De um eterno retorno
Em que o retorno é mor que evolução
O Mal puro é regressão
É andar para trás e não voltar
É esta a Psicose da mente bárbara
Ou o Inferno da condenação
São estas as trevas verdadeiras
De uma Idade que não é Média
Mas o Anticristo de sombras derradeiras.

O Mal puro é alienação
Porque a Luz se perde para sempre
Sujeito e Objecto já não se vêem
Nem juntos e nem sequer separados
Pois que o mundo dos Demónios
Não é como o Arché das Leis primárias
Ou mesmo o Bom selvagem pacificado
É o terrível de um caos amordaçado
Por isso não é o génio que desconstrói
Porque este selvagem só destrói
Para que o Caos que fica
Seja somente a causa falsamente incausada.



Visite o blogue do autor em www.reeducacaopostural.blogspot.com

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Folha de papel encontrada na Enfermaria B

| Filipe Cachide

(…)
Dirijo-me, portanto, a sonhadores,
A quem o mundo hoje pertence por direito –
Que andem nas nuvens, poetas ou nefelibatas,
Para quem o mundo não é feito de estradas
Que não as linhas traçadas por pombos
Ou pelas livres andorinhas.

Escancarem portas à magia da palavra
Real, nobilíssima, ufana de amor –
E qual será mais verdadeira do que a poética,
Dos vossos corações em sombra já espremida?
Coroai-vos de lirismos e passeai-vos pela
Métrica do prazer de sentir.

Façam de vossos corações as vossas almas,
Que a solução da Existência existiu sempre
Inscrita em vós – e num momento
A epifania vos abale na poesia em que ressurge:
Deixem os comícios, e deixem as políticas
Que vos distraem de andar nas nuvens!

Retesem vossa argúcia, lustrem vossa ironia.
Um povo como vós é necessário que hoje
Subsista nas entrelinhas da realidade
Prosaica. Lancem poemas e cravem-nos
Em estacas nas muralhas da cidade.
E que todos leiam os versos...!




Filipe Cachide nasceu em Aveiro em 1991. Interessou-se desde cedo pela leitura e, por extensão, acabou por ingressar na escrita, que cultiva nos seus tempos livres, tendo mantido um blogue durante dois anos. Concluiu os estudos preparatórios em 2009 e encontra-se de momento a terminar o curso de Medicina na Universidade de Coimbra.