|Luís Coelho
A neurose do eterno retorno
É como as dores de crescimento
O recuo gera a expansão
Como a evolução da involução
E este é o menor mal!
O Mal puro não é a involução
Ou o recuo temporário
Daqueles que são constantes
A vida é neurose permanente
Desequilíbrio pungente
Entre pólos cabalísticos
O Mal puro não é o Inferno revisitado
Quando se permite o regresso órfico
E o salto quântico iluminado
Nem sequer é o pecado
Como o erro de ver a Luz onde ela é escassa
Ou o eterno no frugal impermanente
As más escolhas são condição do crescer
Os pecados e os males farão recrudescer
Esse destino de sermos Deuses ou Civilização
O Mal puro é mais profundo
Porque é eterno ruminar
No mundo dos demónios encarcerados
O Mal puro é bem mais fundo
Porque é eterna involução
De um eterno retorno
Em que o retorno é mor que evolução
O Mal puro é regressão
É andar para trás e não voltar
É esta a Psicose da mente bárbara
Ou o Inferno da condenação
São estas as trevas verdadeiras
De uma Idade que não é Média
Mas o Anticristo de sombras derradeiras.
O Mal puro é alienação
Porque a Luz se perde para sempre
Sujeito e Objecto já não se vêem
Nem juntos e nem sequer separados
Pois que o mundo dos Demónios
Não é como o Arché das Leis primárias
Ou mesmo o Bom selvagem pacificado
É o terrível de um caos amordaçado
Por isso não é o génio que desconstrói
Porque este selvagem só destrói
Para que o Caos que fica
Seja somente a causa falsamente incausada.
Visite o blogue do autor em www.reeducacaopostural.blogspot.com
sábado, 8 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Folha de papel encontrada na Enfermaria B
| Filipe Cachide
(…)
Dirijo-me, portanto, a sonhadores,
A quem o mundo hoje pertence por direito –
Que andem nas nuvens, poetas ou nefelibatas,
Para quem o mundo não é feito de estradas
Que não as linhas traçadas por pombos
Ou pelas livres andorinhas.
Escancarem portas à magia da palavra
Real, nobilíssima, ufana de amor –
E qual será mais verdadeira do que a poética,
Dos vossos corações em sombra já espremida?
Coroai-vos de lirismos e passeai-vos pela
Métrica do prazer de sentir.
Façam de vossos corações as vossas almas,
Que a solução da Existência existiu sempre
Inscrita em vós – e num momento
A epifania vos abale na poesia em que ressurge:
Deixem os comícios, e deixem as políticas
Que vos distraem de andar nas nuvens!
Retesem vossa argúcia, lustrem vossa ironia.
Um povo como vós é necessário que hoje
Subsista nas entrelinhas da realidade
Prosaica. Lancem poemas e cravem-nos
Em estacas nas muralhas da cidade.
E que todos leiam os versos...!
(…)
Dirijo-me, portanto, a sonhadores,
A quem o mundo hoje pertence por direito –
Que andem nas nuvens, poetas ou nefelibatas,
Para quem o mundo não é feito de estradas
Que não as linhas traçadas por pombos
Ou pelas livres andorinhas.
Escancarem portas à magia da palavra
Real, nobilíssima, ufana de amor –
E qual será mais verdadeira do que a poética,
Dos vossos corações em sombra já espremida?
Coroai-vos de lirismos e passeai-vos pela
Métrica do prazer de sentir.
Façam de vossos corações as vossas almas,
Que a solução da Existência existiu sempre
Inscrita em vós – e num momento
A epifania vos abale na poesia em que ressurge:
Deixem os comícios, e deixem as políticas
Que vos distraem de andar nas nuvens!
Retesem vossa argúcia, lustrem vossa ironia.
Um povo como vós é necessário que hoje
Subsista nas entrelinhas da realidade
Prosaica. Lancem poemas e cravem-nos
Em estacas nas muralhas da cidade.
E que todos leiam os versos...!
Filipe Cachide nasceu em Aveiro em 1991. Interessou-se desde cedo pela
leitura e, por extensão, acabou por
ingressar na escrita, que cultiva nos seus tempos livres, tendo mantido
um
blogue durante dois anos. Concluiu os estudos preparatórios em 2009 e
encontra-se de momento a terminar o curso de Medicina na Universidade de
Coimbra.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Três poemas
|Wellington Amâncio
Ulisses e seu Timoneiro
À noite do riso, a penumbra desce
É a vaga que traz a nau
E sabe o caminho até Ítaca.
Rumores, vozes abafadas e o remo
Algum vinho antigo
Ulisses acabara de sorver
O calor interior, ante o frio
Do infinito mar, é integridade
De poeta, de guerreiro, de sonhador.
O Timoneiro sustenta a flâmula
Na outra mão a lâmpada pende
Às lembranças de amigos que jazeram.
Ulisses, o que vale o navegar?
- talvez, apenas o Retorno.
E o que não vale?
- o chão, onde nenhum homem tombou
Essa terra virgem.
*
O rito da eterna procura
Algo em si já é dado
Completo e acabado
Não tem mais razão de ser (feliz)
Como de um ponto de fuga
É preciso que dele saia
Uma linha de seu Carretel
Para um Ponto Infinito
Onde as vistas não alcançam
Para enfim estar eternamente
Em busca de Fio de Meada
*
Anjos
Anjos nascem frágeis
E sempre aos sete meses
E decerto desnutridos
Mal escapam dos reveses
Anjos são analfabetos
Sentimentais demasiados
Demonstram-nos o que sofrem
No semblante, estampado
Anjos não negam ajuda
Mas isso lhes é sempre negado
Vivem nas margens das margens
A injustiça é seu fado
Socialmente reprimidos
Choram em longos soluços
Presos neste mundo fingido
Morrem em sonhos avulsos
Ulisses e seu Timoneiro
À noite do riso, a penumbra desce
É a vaga que traz a nau
E sabe o caminho até Ítaca.
Rumores, vozes abafadas e o remo
Algum vinho antigo
Ulisses acabara de sorver
O calor interior, ante o frio
Do infinito mar, é integridade
De poeta, de guerreiro, de sonhador.
O Timoneiro sustenta a flâmula
Na outra mão a lâmpada pende
Às lembranças de amigos que jazeram.
Ulisses, o que vale o navegar?
- talvez, apenas o Retorno.
E o que não vale?
- o chão, onde nenhum homem tombou
Essa terra virgem.
*
O rito da eterna procura
Algo em si já é dado
Completo e acabado
Não tem mais razão de ser (feliz)
Como de um ponto de fuga
É preciso que dele saia
Uma linha de seu Carretel
Para um Ponto Infinito
Onde as vistas não alcançam
Para enfim estar eternamente
Em busca de Fio de Meada
*
Anjos
Anjos nascem frágeis
E sempre aos sete meses
E decerto desnutridos
Mal escapam dos reveses
Anjos são analfabetos
Sentimentais demasiados
Demonstram-nos o que sofrem
No semblante, estampado
Anjos não negam ajuda
Mas isso lhes é sempre negado
Vivem nas margens das margens
A injustiça é seu fado
Socialmente reprimidos
Choram em longos soluços
Presos neste mundo fingido
Morrem em sonhos avulsos
Wellington Amancio, 48 anos, graduado em Docência e Gestão de Processos Educativos UNEB, especializado em Ensino de Filosofia, atualmente cursa mestrado em Ecologia Humana pela UNEB/PPGEcoH. Publicou em 2011 o livro de poemas "A Fisionomia das Pedras" e “Baragundaia”, em 2012.
http://lattes.cnpq.br/1092766680924156
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Sem notas de rodapé – Sobre o vício
|Maria João
Escrevo-vos em abstinência. Entenda-se: estado de privação de um vício prejudicial a vários níveis. Esta crónica é destinada a viciados e não viciados. Para os primeiros, na expectativa de que se reconheçam e tirem daí as consequências que quiserem. Dirigida aos segundos, na tentativa de que nos compreendam.
Seja qual for a forma que assuma, o vício constitui um espaço – diria um dos raríssimos espaços – de individualidade suprema. Naquele acto está-se consigo próprio apenas. É algo onde mais ninguém entra nem reclama posse. Como um outro eu, a adição possui uma inteligência emocional autónoma. Conhece-nos e sabe exactamente o que precisamos em cada altura. Amplifica as boas sensações. Analgesia os momentos mais solitários. Nela encontramos sempre o que se procuramos. Sem perguntas. Nunca nos obriga a traçar a fronteira entre o certo e o errado. Não nos confronta com o intervalo entre o que somos e o que queremos ser. Alimenta, simplesmente, a necessidade de evasão. É, ao mesmo tempo, um mecanismo de fuga e de suporte da realidade. Anestesia-nos. Como escape que representa, previne o desvio radical. Garante mais uma dezena de voltas submissas, arrastando o peão no tabuleiro da quotidianidade. E perante o cansaço da mesmidade diária, o vício sente-se como um direito. Conquistado, merecido, legítimo.
O que mais me intriga e frustra no vício é o sistema teórico que construímos para o sustentar. Longe de ser um estado transitório de loucura, uma avaria no fusível da sensatez ou um distúrbio mental que nos torna inimputáveis aos olhos da lei, o vício convive com a nossa racionalidade. Temos plena consciência dos seus efeitos adversos. Não somos nem nos sentimos «nós» quando em privação. A dependência é palpável, corrói ainda que possa ser disfarçada. Sabemos as causas e verificamos a degeneração. Odiamos o eu viciado, sentado no canto oposto do ringue. Convencemo-nos a iniciar o combate. Marcamos uma data. Repetimos este procedimento até perder conta das vezes, embrulhados numa guerrilha travada interna e diariamente. Fracassamos. Quebramos promessas com auto-desilusão, mas sem arrependimento. Proferidas por nós, são nossas por descumprir. Existe algo de profundamente satisfatório em cometer um erro. Ponderadas as contribuições positivas que, dia-a-dia, lutamos por alcançar, torna-se tentador e libertador o acto de nos prejudicarmos a nós próprios. Uma dor que se suporta porque somos os seus únicos receptores.
Nestas ocasiões gostaríamos de ser dementes ou alienados. No entanto, todos os regressos à estaca zero ocorrem sob a luz da mais perfeita lucidez. Acarretam, por isso, doses consideráveis de censura e de repúdio pela parcela do cérebro que foge ao nosso controlo. E é neste culminar da evidência de fragilidades próprias que, porque humanos falíveis que todos somos, abraçamos de novo a adição temporariamente ausente.
É incrível o vazio que um vício dominado deixa nas nossas vidas. Talvez mesmo só proporcional, por estranho que pareça, ao quão ocos nos sentimos imediatamente após o seu consumo. É um substituto sem substituição possível. Quando gasto, resta aguardar o reencontro, no qual se deposita a esperança de que ele apague, desligue, interrompa. Seja o que for. Diferente, por certo, para cada um.
Não prometo que amanhã não caia. Conto cada dia como uma vitória, mas não agendo festejos nem prevejo remissões totais. Desconfio de mim própria. Sou polícia de mim mesma.
Escrevo-vos em abstinência. Entenda-se: estado de privação de um vício prejudicial a vários níveis. Esta crónica é destinada a viciados e não viciados. Para os primeiros, na expectativa de que se reconheçam e tirem daí as consequências que quiserem. Dirigida aos segundos, na tentativa de que nos compreendam.
Seja qual for a forma que assuma, o vício constitui um espaço – diria um dos raríssimos espaços – de individualidade suprema. Naquele acto está-se consigo próprio apenas. É algo onde mais ninguém entra nem reclama posse. Como um outro eu, a adição possui uma inteligência emocional autónoma. Conhece-nos e sabe exactamente o que precisamos em cada altura. Amplifica as boas sensações. Analgesia os momentos mais solitários. Nela encontramos sempre o que se procuramos. Sem perguntas. Nunca nos obriga a traçar a fronteira entre o certo e o errado. Não nos confronta com o intervalo entre o que somos e o que queremos ser. Alimenta, simplesmente, a necessidade de evasão. É, ao mesmo tempo, um mecanismo de fuga e de suporte da realidade. Anestesia-nos. Como escape que representa, previne o desvio radical. Garante mais uma dezena de voltas submissas, arrastando o peão no tabuleiro da quotidianidade. E perante o cansaço da mesmidade diária, o vício sente-se como um direito. Conquistado, merecido, legítimo.
O que mais me intriga e frustra no vício é o sistema teórico que construímos para o sustentar. Longe de ser um estado transitório de loucura, uma avaria no fusível da sensatez ou um distúrbio mental que nos torna inimputáveis aos olhos da lei, o vício convive com a nossa racionalidade. Temos plena consciência dos seus efeitos adversos. Não somos nem nos sentimos «nós» quando em privação. A dependência é palpável, corrói ainda que possa ser disfarçada. Sabemos as causas e verificamos a degeneração. Odiamos o eu viciado, sentado no canto oposto do ringue. Convencemo-nos a iniciar o combate. Marcamos uma data. Repetimos este procedimento até perder conta das vezes, embrulhados numa guerrilha travada interna e diariamente. Fracassamos. Quebramos promessas com auto-desilusão, mas sem arrependimento. Proferidas por nós, são nossas por descumprir. Existe algo de profundamente satisfatório em cometer um erro. Ponderadas as contribuições positivas que, dia-a-dia, lutamos por alcançar, torna-se tentador e libertador o acto de nos prejudicarmos a nós próprios. Uma dor que se suporta porque somos os seus únicos receptores.
Nestas ocasiões gostaríamos de ser dementes ou alienados. No entanto, todos os regressos à estaca zero ocorrem sob a luz da mais perfeita lucidez. Acarretam, por isso, doses consideráveis de censura e de repúdio pela parcela do cérebro que foge ao nosso controlo. E é neste culminar da evidência de fragilidades próprias que, porque humanos falíveis que todos somos, abraçamos de novo a adição temporariamente ausente.
É incrível o vazio que um vício dominado deixa nas nossas vidas. Talvez mesmo só proporcional, por estranho que pareça, ao quão ocos nos sentimos imediatamente após o seu consumo. É um substituto sem substituição possível. Quando gasto, resta aguardar o reencontro, no qual se deposita a esperança de que ele apague, desligue, interrompa. Seja o que for. Diferente, por certo, para cada um.
Não prometo que amanhã não caia. Conto cada dia como uma vitória, mas não agendo festejos nem prevejo remissões totais. Desconfio de mim própria. Sou polícia de mim mesma.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Editorial: Nos 19 anos do ATV
|Luís Filipe Cristóvão
O mês de fevereiro marca o 19º aniversário do ATV – Académico de Torres Vedras, casa deste projeto literário que agora leva o nome de Revista Literária Sítio. Os 19 anos da associação marcam uma plena maturidade de um projeto que, mesmo vivendo diferentes vidas ao longo da sua existência, preocupou-se, sempre, em alimentar bases para o seu crescimento.
Assim também por aqui tentamos que isso seja possível. Mesmo perante dificuldades, desesperos ou desilusões. Tornando o mais importante, não aquilo que nos pode ferir neste momento, mas o que crescerá de cada problema na descoberta da sua solução. Mais do que parecer um otimista em excesso, da mesma forma que noutras alturas foi de negativismo que tentaram cobrir as minhas palavras, trata-se de exercer, sobre todo e qualquer momento, um esforço realista.
A realidade é, neste momento, a de um projeto à procura do seu rumo. As ideias de solidariedade, bem-estar, criatividade e esforço social que fazem parte da essência do ATV estão bem expressas no projeto da Sítio. Torná-lo bem mais abrangente é a missão de cada um de nós. Porque acreditem não custa nada, ser realista por um minuto que seja em cada dia e arriscar o impossível.
O mês de fevereiro marca o 19º aniversário do ATV – Académico de Torres Vedras, casa deste projeto literário que agora leva o nome de Revista Literária Sítio. Os 19 anos da associação marcam uma plena maturidade de um projeto que, mesmo vivendo diferentes vidas ao longo da sua existência, preocupou-se, sempre, em alimentar bases para o seu crescimento.
Assim também por aqui tentamos que isso seja possível. Mesmo perante dificuldades, desesperos ou desilusões. Tornando o mais importante, não aquilo que nos pode ferir neste momento, mas o que crescerá de cada problema na descoberta da sua solução. Mais do que parecer um otimista em excesso, da mesma forma que noutras alturas foi de negativismo que tentaram cobrir as minhas palavras, trata-se de exercer, sobre todo e qualquer momento, um esforço realista.
A realidade é, neste momento, a de um projeto à procura do seu rumo. As ideias de solidariedade, bem-estar, criatividade e esforço social que fazem parte da essência do ATV estão bem expressas no projeto da Sítio. Torná-lo bem mais abrangente é a missão de cada um de nós. Porque acreditem não custa nada, ser realista por um minuto que seja em cada dia e arriscar o impossível.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
tromba
|Ana Carolina Martins
Foste insistindo para que a garganta secasse a raiva.
o
que consegui
foi
disparar-te um pano frio na tromba
o
azeite a escorrer-me pelo peito
a
terra agarrada que estava nos tornozelos a não me
deixar
ir
a
dúvida a empatar-me o
coração
e
tu e a tua tromba sem reacção a enxotarem-me
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
vinhas
|Ana Carolina Martins
vinhas
como
a chuva
sem
pensar
no
amanhã
enlameado
vinhas
à
deriva
sentado
no banco do réu
que
se afastava cada vez mais da sentença por dizer
vinhas
sem
jeito
de
um parapeito mal estudado
tudo
o que dizias
era
sem obrigação de magoar
tudo
o que exprimias
era
apenas um andar atordoado
e
seco
incompreensível
para o ouvido alheio
e
ias já sem teres voltado
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