sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

tromba

|Ana Carolina Martins



Foste insistindo para que a garganta secasse a raiva.

o que consegui

foi disparar-te um pano frio na tromba

o azeite a escorrer-me pelo peito

a terra agarrada que estava nos tornozelos a não me
deixar ir

a dúvida a empatar-me o
coração


e tu e a tua tromba sem reacção a enxotarem-me

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

vinhas

|Ana Carolina Martins


vinhas

como a chuva
sem pensar
no amanhã
enlameado

vinhas

à deriva

sentado no banco do réu

que se afastava cada vez mais da sentença por dizer
vinhas

sem jeito

de um parapeito mal estudado

tudo o que dizias

era sem obrigação de magoar

tudo o que exprimias

era apenas um andar atordoado

e seco

incompreensível para o ouvido alheio

e ias já sem teres voltado


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

112013

|Ana Carolina Martins


o mar enxuga a vista desmedida
como o manto quente

que me trazes quando estou triste

pergunto-te se ficas

a primeira resposta é vaga

mas acabas por dizer que ficas seis meses à experiência

concordo


mas não ficas.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

nademos

|Ana Carolina Martins

se te importasses

trarias no ventre uma madeixa de cabelo arruivado
como senão importuno

se conquistasses

o barulho das teclas seria apenas
um volver de misérias

arremessaste

a onda postiça

que viste no caderno embaraçado
e por fim o que fizeste
foi

nada

mais
que


dar uns tiros nas saudades

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

como eu me lembro de ti

|Ana Carolina Martins

como eu me lembro de ti

as folhas do mal bajulando o que restava [daquilo]
trepadeiras à antiga.subindo pelos negros poros da parede
delapidada
e as noites tão longas...

o líquido era claro, a voz amarga e distante

dos anos que se mantiveram à parte

soava a presente a claridade que te amortalhava
e assim permaneceste


na fuga em que me alvejaste

domingo, 19 de janeiro de 2014

Ana Carolina Martins - Biografia

Estudou Estudos Artísticos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, especializou-se em cinema e, mais tarde, entrou para o Mestrado de Estudos Literários e Culturais na mesma Instituição. Tem em mãos uma tese na área dos Estudos Comparatistas intitulada “A Corte no Norte – as narrativas da ausência”, visando estudar vários planos narrativos (efectivos ou hipotéticos), como se a obra fosse composta por um multiverso, no qual imagem e palavra convivem em narrativas (in)comuns e paralelas.

Durante os anos académicos, fez parte dos grupos de teatro CITAC e AR-Exploratório das Artes.
Em 2011, foi comunicadora no II Congresso Internacional “Criadores Sobre Outras Obras” da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa com os seguintes artigos: “A Corte do Norte: identidade e ausência” e “Dead Man: discursos reescritos”.



Entre 2012 e 2013, seleccionou alguns dos poemas que escreveu entre 1999 e 2013 e publicou recentemente o resultado desse trabalho, um livro intitulado “Uykusuz Venus – dos confins da vigília”.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Brevidades

|Ricardo Flaitt

Foram doze lavouras de coretos,
Trinta pés-de-laranja quemescorreram dosolhos,
Seis paineiras que sedesprenderam da pele,
Vinte e cinco minérios que se desvencilharam dasunhas,
Quatorze lagartos que correram prouvidos,
Sessenta e seis sinos cultivados em maritacas.

E pensar que a vida contém brevidades...