sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Editorial: Um ano

|Luís Filipe Cristóvão

Faz hoje um ano que a Revista Literária Sítio regressou para manter uma existência exclusiva online. Este regresso deveu-se à vontade de um punhado de pessoas, cada uma a partir do seu canto, a imaginar formas de dar espaço público aos autores que gosta de ler. Começámos por procurar os nossos amigos, as nossas ligações, para alargarmos, como sempre foi o destino da Sítio, a demanda para quem acabou por se juntar a nós. No fundo, é para isso que servem as revistas literárias, para encontrar gente que não estava ao nosso alcance conhecer de outra forma.

Mantemos a porta aberta sem grandes pretensões. Não são as linhagens literárias, nem os desejos vazios de ser “alguém” no mundo editorial que nos mantém neste trabalho. É, sim, uma vontade férrea de não desistir do que, parecendo tão natural, vai sendo cada vez mais raro: o viver as coisas pelo simples prazer que elas nos oferecem. Sem deixar que medos nos aterrorizem, sem permitir que ansiedades nos retirem de entre os dedos o que não conseguimos agarrar. A vida segue, na Sítio, dia a dia, com mais uma leitura, mais um projeto de vida de alguém que nos encontra.

Faz hoje um ano, online, fará, em breve, treze anos, que esta caminhada começou. Sempre com a presença do ATV – Académico de Torres Vedras, como base de apoio para uma ideia. Os grandes projetos fazem-se em equipa, mútuo apoio, multiplicada esperança. Há também lugar para ti na Sítio. Bom 2014.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Sem notas de rodapé – Fim de um ano, começo de outro

|Maria João

O fim de um ano e o começo de outro é para mim sempre um momento de balanço. Talvez por feitio, por ser exigente demais comigo e com o mundo, tendo a percepcionar sempre um saldo negativo. Egoísmo, falta de perspectiva, ingratidão. Sublinho a vermelho o que me falta e dou por garantida a longa lista de factores e o curto rol de pessoas que me proporcionam felicidade. Esta é, aliás, uma palavra que raramente pronuncio. Reconheço-a à posteriori, revejo-a naquela situação, invariavelmente passada, pintada com as cores eufemísticas da memória selectiva. Por norma, obcecada com objectivos e cortes de fitas em prazos calculados, grito mentalmente as cinco ou seis determinações que imponho a mim mesma para os próximos 365 dias, enquanto à boa maneira de uma céptica que não quer correr riscos, como as detestáveis doze passas em cima de uma cadeira.

Quis ser diferente nesta passagem de ano. Senti ridícula a Maria João das metas e métodos. Resolução inédita: não ter resoluções. Não pedir a publicação de um livro, uma posição estável no quadro da universidade ou a descoberta de uma pessoa significativa. Sobretudo isto. Resistir à tentação deprimente de pedir felicidade. De gastar, confesso, todas as doze, insuportáveis mas preciosas, passas com este último desejo. Ao invés, sentir-me privilegiada pela noite com amigos queridos. Perante o início de um novo intervalo de tempo que a Terra demora para completar uma volta em torno do Sol, ter a humildade de aceitar que estou a caminho, que ainda estou a caminho. Não vou chegar. Saber que não vou chegar. Perceber que viver é isso mesmo: pôr um pé à frente do outro; conseguir identificar o que de bom nos traz o percurso; lidar o melhor possível com o inesperado e aproveitar a viagem. John Lennon disse-o bem melhor do que eu: “life is what happens to you while you're busy making other plans”. Neste sentido, arriscaria afirmar que a felicidade é o conjunto de momentos que deixamos de reconhecer enquanto permanecemos obcecados pela sua busca. Os meus votos para vós não são, por isso, um “feliz 2014”, mas, sim, os de uma caminhada consciente de si própria, atenta e grata pela sua própria imprevisibilidade.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Um rosto de Natal

|Ruy Belo


Caiu sobre o país uma cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e o que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água
Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava em quanto homem morreu por um deus que nasceu
A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal
Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados
Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez pra que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade
A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma
Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste
Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar
Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

É Natal

|Eugénio de Andrade


É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Versos de Natal

|Manuel Bandeira

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natal

|Fernando Pessoa

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Poema de Natal

|Vinícius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.