|Ruy Belo
Caiu sobre o país uma cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e o que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água
Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava em quanto homem morreu por um deus que nasceu
A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal
Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados
Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez pra que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade
A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma
Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste
Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar
Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia
sábado, 28 de dezembro de 2013
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
É Natal
|Eugénio de Andrade
É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.
É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Versos de Natal
|Manuel Bandeira
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Natal
|Fernando Pessoa
O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Poema de Natal
|Vinícius de Moraes
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Natal de 1971
|Jorge de Sena
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?
domingo, 22 de dezembro de 2013
Desenhar a poesia
Entrevista a Luís Quintais
|Clara Henriques
Luís Quintais desenha a poesia como quem anuncia o
que há de mais próximo do que é belo, do que é musica.
Neste "Depois da Música" acabado de
editar, há um forte peso de memória, do mundo e das influências de que somos
todos filhos. Deixemo-nos ficar nas palavras que se seguem.
Óscar Lopes escreveu sobre Eugénio de Andrade que
os seus poemas são “um modo de realidade-esperança, uma esperança impensável, a
não ser talvez em música e em poesia paramusical”. Que relação há entre a tua
poesia e a música?
A música sempre foi uma
influência decisiva. Curiosamente não apenas pela forma como isso é central na
construção de um poema, na forma com ele soa, na intensidade expressiva que lhe
encontro ou não, mas também no plano das ideias, se quisermos. A música não é
apenas som organizado, é também ideias que encontram a sua expressão acústica,
e que, nesse encontro, potenciam outras ideias ainda: as ideias que a poesia
trabalha ou deve trabalhar. Depois há as homenagens a músicos que sempre me
perseguiram. Vai de Monteverdi aos Blues do Delta e não fica por aí. E há mais.
A música é uma das metáforas mais produtivas que conheço para compreender a
nossa condição presente. Este Depois da
música (2013) é sobre isso. Nós vivemos depois da música, depois do
sentido, depois de Auschwitz.
Dizes, a dada altura, que “a literatura é uma
província da poesia”. Como habitam em ti uma e outra?
Eu não acho que a poesia seja
literatura. A poesia está mais próxima de algo que é prévio à literatura.
Aliás, a literatura é uma instituição e uma instituição agonizante,
provavelmente já morta. Contrariamente ao que se diz por aí, a poesia continua,
continuará sempre, enquanto houver linguagem e humanidade. Daí que a literatura
seja somente uma província da literatura.
Ao longo do livro, percebemos que há uma forte
influencia musical dos anos 80. De que forma é que esta sonoridade te
influenciou enquanto autor?
Sim, muito. Eu vivi em Lisboa
durante uma parte significativa da minha vida. Depois de ter chegado do «Ultramar»,
vivi em Lisboa até aos meus 27 anos. Ainda hoje a entendo como a minha cidade.
É uma sombra em tudo o que escrevo, e uma memória de uma memória, também,
porque pouco a pouco a minha imagem da cidade e da minha já remota juventude se
vai apagando, reinventando, sendo outra, e outra ainda. E a década de oitenta
vivia-a em Lisboa. A música desse período, é uma uma música disfórica, densa,
talvez doente, mas urgente. Joy Division, anos oitenta, Lisboa, essa foi a
minha juventude perdida.
As referências à biografia ou à memória surgem
muitas vezes neste Depois da música.
Que relação trazes com o passado?
Não é possível fugir à
memória. Ela sitia-nos. Duração e escombro, é assim o passado. À medida que
envelheço vai havendo cada vez mais passado. Em verdade, escreve-se para os
mortos e para os vindouros. O presente não existe.
Como antropólogo achas melhor a divisão
de tudo por disciplinas, províncias, continentes, a sistematização e o rótulo,
ou antes pelo contrário?
Eu sou um
antropólogo atípico. As diferenças e as separações são produtos históricos,
realizações políticas. Não aprecio particularmente a axiologia. O meu
pensamento é verdadeiramente nómada, ou é assim que me vejo ou gosto de ver.
Deleuze tem sido uma influência importante nisso.
Vivemos numa época em que somos atropelados pelo
que há de mais efémero ou, arrisco, superficial. Que lugar terá a palavra nesta
era? Que lugar terá também a poesia?
A poesia é também uma resposta
ao empobrecimento da linguagem e do humano. É aí que estamos. A poesia é uma
forma de resistência. Onde há poder há resistência. É aí que estamos. É aí que
estaremos sempre.
O que fica depois da música?
O mundo acabou há muito.
Ficaram-nos as cinzas e o pó. Depois da música, ficou a poesia, malgré Adorno.
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