domingo, 22 de dezembro de 2013

Desenhar a poesia

Entrevista a Luís Quintais
|Clara Henriques
Luís Quintais desenha a poesia como quem anuncia o que há de mais próximo do que é belo, do que é musica.
Neste "Depois da Música" acabado de editar, há um forte peso de memória, do mundo e das influências de que somos todos filhos. Deixemo-nos ficar nas palavras que se seguem.


Óscar Lopes escreveu sobre Eugénio de Andrade que os seus poemas são “um modo de realidade-esperança, uma esperança impensável, a não ser talvez em música e em poesia paramusical”. Que relação há entre a tua poesia e a música?
A música sempre foi uma influência decisiva. Curiosamente não apenas pela forma como isso é central na construção de um poema, na forma com ele soa, na intensidade expressiva que lhe encontro ou não, mas também no plano das ideias, se quisermos. A música não é apenas som organizado, é também ideias que encontram a sua expressão acústica, e que, nesse encontro, potenciam outras ideias ainda: as ideias que a poesia trabalha ou deve trabalhar. Depois há as homenagens a músicos que sempre me perseguiram. Vai de Monteverdi aos Blues do Delta e não fica por aí. E há mais. A música é uma das metáforas mais produtivas que conheço para compreender a nossa condição presente. Este Depois da música (2013) é sobre isso. Nós vivemos depois da música, depois do sentido, depois de Auschwitz. 
Dizes, a dada altura, que “a literatura é uma província da poesia”. Como habitam em ti uma e outra?
Eu não acho que a poesia seja literatura. A poesia está mais próxima de algo que é prévio à literatura. Aliás, a literatura é uma instituição e uma instituição agonizante, provavelmente já morta. Contrariamente ao que se diz por aí, a poesia continua, continuará sempre, enquanto houver linguagem e humanidade. Daí que a literatura seja somente uma província da literatura.
Ao longo do livro, percebemos que há uma forte influencia musical dos anos 80. De que forma é que esta sonoridade te influenciou enquanto autor?
Sim, muito. Eu vivi em Lisboa durante uma parte significativa da minha vida. Depois de ter chegado do «Ultramar», vivi em Lisboa até aos meus 27 anos. Ainda hoje a entendo como a minha cidade. É uma sombra em tudo o que escrevo, e uma memória de uma memória, também, porque pouco a pouco a minha imagem da cidade e da minha já remota juventude se vai apagando, reinventando, sendo outra, e outra ainda. E a década de oitenta vivia-a em Lisboa. A música desse período, é uma uma música disfórica, densa, talvez doente, mas urgente. Joy Division, anos oitenta, Lisboa, essa foi a minha juventude perdida.
As referências à biografia ou à memória surgem muitas vezes neste Depois da música. Que relação trazes com o passado?
Não é possível fugir à memória. Ela sitia-nos. Duração e escombro, é assim o passado. À medida que envelheço vai havendo cada vez mais passado. Em verdade, escreve-se para os mortos e para os vindouros. O presente não existe.
Como antropólogo achas melhor a divisão de tudo por disciplinas, províncias, continentes, a sistematização e o rótulo, ou antes pelo contrário?
Eu sou um antropólogo atípico. As diferenças e as separações são produtos históricos, realizações políticas. Não aprecio particularmente a axiologia. O meu pensamento é verdadeiramente nómada, ou é assim que me vejo ou gosto de ver. Deleuze tem sido uma influência importante nisso.
Vivemos numa época em que somos atropelados pelo que há de mais efémero ou, arrisco, superficial. Que lugar terá a palavra nesta era? Que lugar terá também a poesia?
A poesia é também uma resposta ao empobrecimento da linguagem e do humano. É aí que estamos. A poesia é uma forma de resistência. Onde há poder há resistência. É aí que estamos. É aí que estaremos sempre.
O que fica depois da música?

O mundo acabou há muito. Ficaram-nos as cinzas e o pó. Depois da música, ficou a poesia, malgré Adorno.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Pedro

|Luís Quintais

Vivemos depois da música.

Uma grafia abrasiva invade
a imagem que tenho
desse rosto.

As sombras das árvores
desenham uma notação
ilegível
na página.

O piano de Pedro
apodrece
a um canto.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Crença

|Luís Quintais

A literatura é uma província da poesia. Visitemos a pro-
víncia. Há sempre o conforto dos nocturnos onde se explica
a presença das grandes cidades no horizonte da biografia.
Escuta a voz que os poemas desenham. Voz desenhada.
Voz mineral. Voz aguçada pela vária chegada ao porto da
linguagem. Esquecerei tudo isto. Afinal é apenas teoria con-
sagrada à impossível escuta dessa voz antiga mas sem ori-
gem. Do outro lado da rua, alguém grita à janela. Desespera
sob o uniforme que o conduz. Deste lado do mundo, desta
mesa repartindo-se como um território por conquistar, desta
mesa semeada por disciplinas e dispêndios, uma crença é
conduzida por máquinas que rasuram demencialmente.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

“Je ne sais pas, monsieur. Je m´excuse”

|Luís Quintais

Disse o senhor Prudente
Quando interrogado sobre o motivo
Que o levara a esfaquear o poeta Samuel Beckett.

Um acto
É como o abutre
Circulando dentro
No crânio do autor
Que se esvai
Na luz céu cinza,
O único túmulo.

Nada sabemos
Estamos sós.
Sobre uma lâmina
Abate-se
Um corpo,
Um peso,
Um peso morto.

O abutre habita o oco.
Não há saída, apenas
Convulsões na luz
E depois escuridão,
Noite sem asas.

Um acto só pode ser
Revisitado
Pela treva
Que o precipita
Na treva.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O azul de Wallace Stevens

|Luís Quintais

Não recordo esse azul, mas sei
que ele se alia ao azul imaginado
pela acústica impressão:

desprende-se a sua voz, bate
no meu rosto, retoma a mais densa
compreensão, o sonho da matéria

com que haverei de lhe tocar a pele
dizendo o seu nome.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Depois da música

|Luís Quintais

Depois da música, a poesia será escrita como se tingida por
inegociáveis medos. Debruçou-se sobre a mesa, sobre o
arquivo, sobre o mapa da sua morte, escutou o rumor de um
mar espesso, sem mecânica. Saiu pela porta sem porta da
história e voltou ao terreno da biografia. «A música acabou»,
escreveu, «a história jaz sepultada, sem herói civilizador.»
Tudo agoniza, agonizará a partir desse ontem. Um plasma
queima o sangue por dentro, e é suja a noite, suja de um azul
ameaçador. Debruçou-se sobre a mesa. Os prédios estreme-
ciam como uma pele estremecente. A mesa era negra, como
fora o quadro riscado. Dedicado, perseguia um desígnio dis-
tante, talvez apagado no chão móvel da página.