sábado, 21 de dezembro de 2013

Pedro

|Luís Quintais

Vivemos depois da música.

Uma grafia abrasiva invade
a imagem que tenho
desse rosto.

As sombras das árvores
desenham uma notação
ilegível
na página.

O piano de Pedro
apodrece
a um canto.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Crença

|Luís Quintais

A literatura é uma província da poesia. Visitemos a pro-
víncia. Há sempre o conforto dos nocturnos onde se explica
a presença das grandes cidades no horizonte da biografia.
Escuta a voz que os poemas desenham. Voz desenhada.
Voz mineral. Voz aguçada pela vária chegada ao porto da
linguagem. Esquecerei tudo isto. Afinal é apenas teoria con-
sagrada à impossível escuta dessa voz antiga mas sem ori-
gem. Do outro lado da rua, alguém grita à janela. Desespera
sob o uniforme que o conduz. Deste lado do mundo, desta
mesa repartindo-se como um território por conquistar, desta
mesa semeada por disciplinas e dispêndios, uma crença é
conduzida por máquinas que rasuram demencialmente.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

“Je ne sais pas, monsieur. Je m´excuse”

|Luís Quintais

Disse o senhor Prudente
Quando interrogado sobre o motivo
Que o levara a esfaquear o poeta Samuel Beckett.

Um acto
É como o abutre
Circulando dentro
No crânio do autor
Que se esvai
Na luz céu cinza,
O único túmulo.

Nada sabemos
Estamos sós.
Sobre uma lâmina
Abate-se
Um corpo,
Um peso,
Um peso morto.

O abutre habita o oco.
Não há saída, apenas
Convulsões na luz
E depois escuridão,
Noite sem asas.

Um acto só pode ser
Revisitado
Pela treva
Que o precipita
Na treva.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O azul de Wallace Stevens

|Luís Quintais

Não recordo esse azul, mas sei
que ele se alia ao azul imaginado
pela acústica impressão:

desprende-se a sua voz, bate
no meu rosto, retoma a mais densa
compreensão, o sonho da matéria

com que haverei de lhe tocar a pele
dizendo o seu nome.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Depois da música

|Luís Quintais

Depois da música, a poesia será escrita como se tingida por
inegociáveis medos. Debruçou-se sobre a mesa, sobre o
arquivo, sobre o mapa da sua morte, escutou o rumor de um
mar espesso, sem mecânica. Saiu pela porta sem porta da
história e voltou ao terreno da biografia. «A música acabou»,
escreveu, «a história jaz sepultada, sem herói civilizador.»
Tudo agoniza, agonizará a partir desse ontem. Um plasma
queima o sangue por dentro, e é suja a noite, suja de um azul
ameaçador. Debruçou-se sobre a mesa. Os prédios estreme-
ciam como uma pele estremecente. A mesa era negra, como
fora o quadro riscado. Dedicado, perseguia um desígnio dis-
tante, talvez apagado no chão móvel da página.


domingo, 15 de dezembro de 2013

Luís Quintais - Biografia



Luís Quintais (1968) nasceu em Angola. É antropólogo social de profissão, leccionando presentemente no Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra. Nesta qualidade, desenvolveu investigação de arquivo e de terreno sobre o exercício e as implicações públicas e forenses da psiquiatria. Trabalha actualmente sobre as relações entre arte, ciência e cognição. Como poeta, está representado em diversas antologias, encontrando-se traduzido em inglês, alemão, castelhano, francês e croata. Publicou o seu primeiro livro de poesia, A Imprecisa Melancolia, em 1995, com o qual arrecadou o Prémio Aula de Poesia de Barcelona. Em 1999 regressa à poesia, publicando os livros Umbria na extinta Pedra Formosa e Lamento nos Livros Cotovia. Dois anos depois, lança Verso Antigo com a chancela da Cotovia. Angst (2002) é o seu terceiro livro de poesia publicado pelos Livros Cotovia. Em 2004 publica na Cotovia Duelo, obra a que foram atribuídos os prémios Luís Miguel Nava - Poesia 2005 e PEN Clube Português de Poesia. Em 2006 publicou Franz Piechowski ou a analítica do arquivo. Também no mesmo ano, retorna à poesia com a obra Canto Onde. Depois de Mais espesso que a água (2008), seguiu-se Riscava a palavra dor no quadro negro, e, em 2013, Depois da Música, pela editora Tinta-da-China.