domingo, 24 de novembro de 2013

É com a imaginação que morro

|Alexandra Antunes

Ao A.de C., o meu abraço do mundo dos vivos para o mundo dos mortos e beatificados

É com a imaginação que morro
Ao relento
E tanto sou um deus reles e vil
Como um fantasma sem ideais.
É com a imaginação que escrevo
A compreensão do cais onde me sento
A paciência do universo
Que me obriga a ficar de pé.
É com a imaginação que roda
Num forte espasmo
A dolorosa luz
Como esta fúria e esta febre rangendo
Demasiadamente dentro de mim.
De súbito a cabeça começa a arder
Os nervos são de perto dissecados
E eu vejo a beleza disto tudo.
Por isso deixo
Que os ruidosos trópicos de ferro e fogo
Prendam a minha existência até
Ao limiar do sufoco.
A febre do meu cérebro sempre vence
— Vitorioso delírio que me verga
Porque me obriga a escrever.


sábado, 23 de novembro de 2013

Toco as palavras arrefecidas

|Alexandra Antunes

Toco as palavras arrefecidas
Em cada inspiração
Aproximo o meu ritmo
Ao autêntico ao maior
Engenho
— Preciso escrever
Existindo lentamente na ordem
Divina das estrelas.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Constrói-se o poema desmancha-se

|Alexandra Antunes

Constrói-se o poema desmancha-se
O poema — que o meu soluço apreenda
O calor da tua boca
Que as graves luas encontrem as marés subindo
Na tua noite negra e fria

Retira-se o papel das formas do rosto
A ideia desenvolve uma escura luz
Colhida ao caos   esse lugar onde
Só a tua mão
É invisível.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Porque queres destruir Deus

|Alexandra Antunes

Porque queres destruir Deus exercitas a
Extrema beleza.

Encostas a tua boca silenciosa
À palma da minha mão aberta:
— O meu mundo aumenta
De cada vez que respiras

Dás-me o teu mundo
Tenho-o
Nas minhas trémulas mãos
Aperto-te todo contra o meu peito
Fico completamente branca.
Abres-me pela boca
Pousas os dedos
Na minha parte intocável
Desmanchas os meus cabelos
Contra a luz quente e intacta
Gostarias de me ver sangrar:
A língua da navalha lambe
O meu ventre onde abres
Um golpe considerável
— O meu mundo recomeça a doer
Por dentro
Pareço sofrer de uma louca
Alegria.
O sangue desliza
Bate
No chão: — Amas-me
Com a mesma intensidade que têm
As feridas
Sabes que o meu sangue se funde
Bem no teu
Por isso me levaste contigo:
— Quando a primeira chuva de Setembro
Chegou.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A tua voz é o poema que se escreve

|Alexandra Antunes

A tua voz é o poema que se escreve nas
Curvas planícies do meu corpo
Sou agarrada pela
Persistência de grandes mãos enquanto
Os espelhos rompem
A opacidade da terra
Dizes o meu nome tocas a minha
Inocência — e eu sinto que estou
Viva.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Olho por dentro

|Alexandra Antunes

Olho por dentro
Dos teus olhos:
Ao cimo as
Quebradas estrelas reluzindo
A meio uma
Pesada treva
E em baixo
Na fundura da tua memória e pensamento
Flutuando
 A límpida casa dentro da qual me amas até
Ao fundo dos nossos
Precipícios

Então eu toco-te nesse ponto onde
Pulsam os bichos onde
Ardem as estações — o lugar
Em que estancamos a morte
O lugar dos teus
Braços brilhando inteiros
Nos meus.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Alexandra Antunes


Alexandra Antunes nasceu em Lisboa em 1979. É licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos e mestre em Edição de Texto pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Actualmente frequenta, na mesma instituição, o curso de doutoramento em História e Teoria das Ideias, e dirige, desde 2012, a editora Mecanismo Humano.
Publicou os seguintes livros de poesia: A palavra-janela (2010), Um ponto intenso a meio da eternidade (2012) e Trinta e Três (2013). Dedica-se à fotografia, desenvolve trabalhos gráficos onde explora a interacção da imagem com a palavra, muitas vezes através de representações tipográficas, e tem explorado o território da poesia visual nos trabalhos experimentais que expõe, ao longo da última década, em galerias e espaços virtuais.
Alguns dos seus poemas encontram-se dispersos na revista de poesia Piolho, entre outras.