sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Constrói-se o poema desmancha-se

|Alexandra Antunes

Constrói-se o poema desmancha-se
O poema — que o meu soluço apreenda
O calor da tua boca
Que as graves luas encontrem as marés subindo
Na tua noite negra e fria

Retira-se o papel das formas do rosto
A ideia desenvolve uma escura luz
Colhida ao caos   esse lugar onde
Só a tua mão
É invisível.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Porque queres destruir Deus

|Alexandra Antunes

Porque queres destruir Deus exercitas a
Extrema beleza.

Encostas a tua boca silenciosa
À palma da minha mão aberta:
— O meu mundo aumenta
De cada vez que respiras

Dás-me o teu mundo
Tenho-o
Nas minhas trémulas mãos
Aperto-te todo contra o meu peito
Fico completamente branca.
Abres-me pela boca
Pousas os dedos
Na minha parte intocável
Desmanchas os meus cabelos
Contra a luz quente e intacta
Gostarias de me ver sangrar:
A língua da navalha lambe
O meu ventre onde abres
Um golpe considerável
— O meu mundo recomeça a doer
Por dentro
Pareço sofrer de uma louca
Alegria.
O sangue desliza
Bate
No chão: — Amas-me
Com a mesma intensidade que têm
As feridas
Sabes que o meu sangue se funde
Bem no teu
Por isso me levaste contigo:
— Quando a primeira chuva de Setembro
Chegou.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A tua voz é o poema que se escreve

|Alexandra Antunes

A tua voz é o poema que se escreve nas
Curvas planícies do meu corpo
Sou agarrada pela
Persistência de grandes mãos enquanto
Os espelhos rompem
A opacidade da terra
Dizes o meu nome tocas a minha
Inocência — e eu sinto que estou
Viva.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Olho por dentro

|Alexandra Antunes

Olho por dentro
Dos teus olhos:
Ao cimo as
Quebradas estrelas reluzindo
A meio uma
Pesada treva
E em baixo
Na fundura da tua memória e pensamento
Flutuando
 A límpida casa dentro da qual me amas até
Ao fundo dos nossos
Precipícios

Então eu toco-te nesse ponto onde
Pulsam os bichos onde
Ardem as estações — o lugar
Em que estancamos a morte
O lugar dos teus
Braços brilhando inteiros
Nos meus.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Alexandra Antunes


Alexandra Antunes nasceu em Lisboa em 1979. É licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos e mestre em Edição de Texto pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Actualmente frequenta, na mesma instituição, o curso de doutoramento em História e Teoria das Ideias, e dirige, desde 2012, a editora Mecanismo Humano.
Publicou os seguintes livros de poesia: A palavra-janela (2010), Um ponto intenso a meio da eternidade (2012) e Trinta e Três (2013). Dedica-se à fotografia, desenvolve trabalhos gráficos onde explora a interacção da imagem com a palavra, muitas vezes através de representações tipográficas, e tem explorado o território da poesia visual nos trabalhos experimentais que expõe, ao longo da última década, em galerias e espaços virtuais.
Alguns dos seus poemas encontram-se dispersos na revista de poesia Piolho, entre outras.

sábado, 16 de novembro de 2013

Mais algumas lições das Substâncias Perigosas

| Pedro Eiras


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Evolução para o ponto de partida

Freud não é um escritor perigoso: é o próprio perigo. Leio-o há muitos anos e cada texto que encontro perturba-me como se fosse o primeiro. Não exagero se contar aqui que discuto, há anos, com Freud. Literalmente. Não posso impedir-me. Leio, e vou sussurrando todas as formas do meu espanto. Acho-o louco. Depois, genial. Depois, outra vez louco. Abandono os livros, volto aos livros. Dou por mim a observar-me, de fora, por dentro, por dentro de fora de mim – e vice-versa. Descubro pulsões e sintomas em cada um dos meus gestos. Interpreto os meus gaguejos, os meus esquecimentos, as minhas distracções. Invento-me. Deito-me com pavor. Acordo com angústia. Freud é o próprio perigo, um génio – e também o meu pior pesadelo.

Impossível dominá-lo. Passou a vida a rever as suas certezas, reescrevendo as teses nucleares dos livros anteriores. Mesmo a ideia de que o sonho é a satisfação de um desejo, resumo mínimo de A Interpretação dos Sonhos, em 1900, se verá secundarizada após o ensaio fundamental “Para além do princípio de prazer”, de 1920. A pulsão erótica encontrava uma tenebrosa rival: a pulsão de morte, o desejo de morrer, de voltar a um estado originário de não-vida. Porque, como Freud descobria, somos conduzidos pela vontade de repetir o que fomos anteriormente.

São páginas célebres, mas não resisto a citar aqui a frase onde toda a psicanálise se revê numa homenagem a Tanatos:

Se aceitarmos como verdade sem excepção que tudo o que é vivo morre por razões internas – se torna de novo inorgânico – então ver-nos-emos obrigados a afirmar que “o alvo de toda a vida é a morte” e, em retrospectiva, que “as coisas inanimadas existiram antes das vivas”.

O alvo da vida é, não a sobrevivência, não a vida eterna, mas a morte. O grande sono. Menos-que-sono.

E, se a vida é sonho, talvez se possa dizer ainda que nós, a nossa vigília, a nossa cultura, toda a literatura e a lógica, a matemática e o canto, a ignorância e a própria psicanálise, tudo isso – é só um acidente, um complexo acidente que nos impede de sermos nada, “uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria”, um intervalo entre nada e nada, e nada mais.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Algumas lições das Substâncias Perigosas

| Pedro Eiras

3

Onde se defende que a vida é sonho

            Algures na Poética, Aristóteles sugere que a tragédia permite a catarse, ou purificação, de sentimentos opressivos. Na verdade, não sei se compreendemos Aristóteles: porque já não vivemos na Hélade, porque não podemos assistir às estreias de Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, porque às vezes pensamos os aristotélicos antes de pensar Aristóteles. Quanto à catarse, correram rios de tinta, e mais ainda depois de haver Freud, e a sublimação, e o psicodrama…

            A verdade é que ninguém pode saber muito bem de que se trata aqui: a tragédia é “imitação de uma acção de carácter elevado (...) que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito uma purificação dessas emoções”, Poética dixit. E dixit com génio, claro.

            Mas, no fundo, pergunto-me se a tragédia, a poesia, a literatura servem tal apaziguamento. Que senti ao ler O Rei Édipo? E Crime e Castigo? Suscitaram em mim terror e piedade, sim, mas não sei a que posso chamar “purificação”. Porque esse terror, essa piedade – carrego-os comigo desde o instante em que li Sófocles e Dostoievski. Nenhum regresso a um estado purificado, um estado sonolento original.

Freud, defendendo que o sonho é só uma perturbação necessária do sono, um ajuste de contas com as pulsões e os dias, pressupõe esse estado neutro, vazio, alheado, que seria a pacificação absoluta pós-literatura.

            Todavia, a crer em Calderón, a vida é sonho, não sono.

            Talvez a literatura não purifique. Talvez deixe o leitor naquele estado de maldição a que a antropologia chama tabu. E desta vez nenhuma quarentena o pode recuperar para uso social. Fica indelevelmente impuro.

            Mas não há que lamentá-lo. O leitor procura formas de loucura inoculáveis, é capaz de pagar por elas, não dormir por elas – até matar por elas. Quer tornar-se capaz de literatura, conhecer o terror, a piedade, pranto e ranger de dentes, ser digno de ser vítima do livro. Não é pequena missão.

            Escolhendo na estante, o leitor pergunta: será este o livro que me trará o terror e a piedade? será este o livro que me trará a morte? poderei sobreviver-lhe? E sabe que a solução da sobrevivência tem de ser inventada de cada vez, porque a doença inoculada é única, nunca existiu. O que ele procura não é a purificação. É o insustentável. Quer tornar-se digno do insustentável. Só deve ler se for capaz de viver o livro até morrer por ordem dele.