segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Alexandra Antunes


Alexandra Antunes nasceu em Lisboa em 1979. É licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos e mestre em Edição de Texto pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Actualmente frequenta, na mesma instituição, o curso de doutoramento em História e Teoria das Ideias, e dirige, desde 2012, a editora Mecanismo Humano.
Publicou os seguintes livros de poesia: A palavra-janela (2010), Um ponto intenso a meio da eternidade (2012) e Trinta e Três (2013). Dedica-se à fotografia, desenvolve trabalhos gráficos onde explora a interacção da imagem com a palavra, muitas vezes através de representações tipográficas, e tem explorado o território da poesia visual nos trabalhos experimentais que expõe, ao longo da última década, em galerias e espaços virtuais.
Alguns dos seus poemas encontram-se dispersos na revista de poesia Piolho, entre outras.

sábado, 16 de novembro de 2013

Mais algumas lições das Substâncias Perigosas

| Pedro Eiras


54

Evolução para o ponto de partida

Freud não é um escritor perigoso: é o próprio perigo. Leio-o há muitos anos e cada texto que encontro perturba-me como se fosse o primeiro. Não exagero se contar aqui que discuto, há anos, com Freud. Literalmente. Não posso impedir-me. Leio, e vou sussurrando todas as formas do meu espanto. Acho-o louco. Depois, genial. Depois, outra vez louco. Abandono os livros, volto aos livros. Dou por mim a observar-me, de fora, por dentro, por dentro de fora de mim – e vice-versa. Descubro pulsões e sintomas em cada um dos meus gestos. Interpreto os meus gaguejos, os meus esquecimentos, as minhas distracções. Invento-me. Deito-me com pavor. Acordo com angústia. Freud é o próprio perigo, um génio – e também o meu pior pesadelo.

Impossível dominá-lo. Passou a vida a rever as suas certezas, reescrevendo as teses nucleares dos livros anteriores. Mesmo a ideia de que o sonho é a satisfação de um desejo, resumo mínimo de A Interpretação dos Sonhos, em 1900, se verá secundarizada após o ensaio fundamental “Para além do princípio de prazer”, de 1920. A pulsão erótica encontrava uma tenebrosa rival: a pulsão de morte, o desejo de morrer, de voltar a um estado originário de não-vida. Porque, como Freud descobria, somos conduzidos pela vontade de repetir o que fomos anteriormente.

São páginas célebres, mas não resisto a citar aqui a frase onde toda a psicanálise se revê numa homenagem a Tanatos:

Se aceitarmos como verdade sem excepção que tudo o que é vivo morre por razões internas – se torna de novo inorgânico – então ver-nos-emos obrigados a afirmar que “o alvo de toda a vida é a morte” e, em retrospectiva, que “as coisas inanimadas existiram antes das vivas”.

O alvo da vida é, não a sobrevivência, não a vida eterna, mas a morte. O grande sono. Menos-que-sono.

E, se a vida é sonho, talvez se possa dizer ainda que nós, a nossa vigília, a nossa cultura, toda a literatura e a lógica, a matemática e o canto, a ignorância e a própria psicanálise, tudo isso – é só um acidente, um complexo acidente que nos impede de sermos nada, “uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria”, um intervalo entre nada e nada, e nada mais.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Algumas lições das Substâncias Perigosas

| Pedro Eiras

3

Onde se defende que a vida é sonho

            Algures na Poética, Aristóteles sugere que a tragédia permite a catarse, ou purificação, de sentimentos opressivos. Na verdade, não sei se compreendemos Aristóteles: porque já não vivemos na Hélade, porque não podemos assistir às estreias de Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, porque às vezes pensamos os aristotélicos antes de pensar Aristóteles. Quanto à catarse, correram rios de tinta, e mais ainda depois de haver Freud, e a sublimação, e o psicodrama…

            A verdade é que ninguém pode saber muito bem de que se trata aqui: a tragédia é “imitação de uma acção de carácter elevado (...) que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito uma purificação dessas emoções”, Poética dixit. E dixit com génio, claro.

            Mas, no fundo, pergunto-me se a tragédia, a poesia, a literatura servem tal apaziguamento. Que senti ao ler O Rei Édipo? E Crime e Castigo? Suscitaram em mim terror e piedade, sim, mas não sei a que posso chamar “purificação”. Porque esse terror, essa piedade – carrego-os comigo desde o instante em que li Sófocles e Dostoievski. Nenhum regresso a um estado purificado, um estado sonolento original.

Freud, defendendo que o sonho é só uma perturbação necessária do sono, um ajuste de contas com as pulsões e os dias, pressupõe esse estado neutro, vazio, alheado, que seria a pacificação absoluta pós-literatura.

            Todavia, a crer em Calderón, a vida é sonho, não sono.

            Talvez a literatura não purifique. Talvez deixe o leitor naquele estado de maldição a que a antropologia chama tabu. E desta vez nenhuma quarentena o pode recuperar para uso social. Fica indelevelmente impuro.

            Mas não há que lamentá-lo. O leitor procura formas de loucura inoculáveis, é capaz de pagar por elas, não dormir por elas – até matar por elas. Quer tornar-se capaz de literatura, conhecer o terror, a piedade, pranto e ranger de dentes, ser digno de ser vítima do livro. Não é pequena missão.

            Escolhendo na estante, o leitor pergunta: será este o livro que me trará o terror e a piedade? será este o livro que me trará a morte? poderei sobreviver-lhe? E sabe que a solução da sobrevivência tem de ser inventada de cada vez, porque a doença inoculada é única, nunca existiu. O que ele procura não é a purificação. É o insustentável. Quer tornar-se digno do insustentável. Só deve ler se for capaz de viver o livro até morrer por ordem dele.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A Cura

|Pedro Eiras

Começar a ver os outros como doentes e como mortais foi só metade do meu mal. Desatei a sentir as doenças e a mortalidade também em mim. Descobria sintomas ao espelho, no meu reflexo. Estudava-me agora mais do que aos compêndios, ora porque tinha a realidade presente e clara no meu próprio corpo, ora porque não valia a pena estudar, se ia morrer tão cedo. A morte, cogitava, não acontece só aos outros; aliás, é só a mim que acontece. Dos outros, posso medir uma pulsação que deixa de bater, um cérebro que perde a actividade, mas isso é só uma linguagem, signos, números. E estudava a minha cara fúnebre ao espelho, a tabela das minhas febres, uma mancha suspeita que aparecera na minha mão esquerda.
Claro, já tinha ouvido falar da hipocondria que assalta os estudantes de Medicina. Já me tinham profetizado estes medos; e eu próprio achava divertida a ideia, e declarava-me pronto para o terror. Tratava a hipocondria com a mesma abstracção que me fazia estudar os órgãos desenhados nos compêndios, sem encontrar um elo entre o desenho e a realidade, ou entre a realidade e o meu corpo enquanto coisa real. Antes da experiência, a hipocondria tinha tanta existência para mim como a dor tem relação com a palavra “dor” escrita nos livros. Mas durante a experiência, como acontece àquelas figuras das comédias que só fanfarronam enquanto o perigo está longe, esqueci todos os avisos cheios de teoria e deixei-me afundar no pavor infinito.
Foi então que conheci a Rita e que li o Eclesiastes.


(pp. 10-11)

Mas agora devo falar do meu Mestre.
Um dia, muitos anos depois, comecei a estudar psicanálise com o Professor Wagner. O Professor gostava de ouvir as óperas do seu ilustre antepassado: tinha no gabinete da Faculdade um gira-discos sempre a tocar excertos de Tannhauser, dos Mestres Cantores de Nuremberga, do Parsifal. Media quase dois metros. Deixava crescer os cabelos para lá dos tamanhos tacitamente previstos pela academia, e uma barba grisalha e caótica. Entendia que lhe cabia estabelecer as regras. Quando não faltava inesperadamente, prolongava as aulas muito depois da hora, e ninguém se atrevia a deixar o anfiteatro. Leccionava Psicanálise e Religião, analisava páginas de Totem e Tabu, de O Futuro de uma Ilusão, de Moisés e o Monoteísmo, subscrevendo as críticas mais perturbadoras de Freud ao cristianismo, escandalizando os ouvintes, deixando entrever que achava o próprio Freud tímido na desconstrução do divino. Recusava o microfone: tinha uma voz tonitruante que alcançava as últimas filas. Nos corredores, era fácil adivinhar que o Professor Wagner se aproximava: ao longe, parecia um navio a furar as ondas de alunos; vinha sempre a falar alto com alguns orientandos que mal o podiam acompanhar, explorando um conceito, disparando sugestões bibliográficas. E às vezes, se escasseavam os discípulos, trauteava um tema do Tristão e Isolda.

pp. 47-48


A Cura, Pedro Eiras, Quidnovi Editores

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Para lá do bem e da Cura. - Parte II

Sobre A Cura, de Pedro Eiras

|Tiago Sousa Garcia

Há alguns plot twists que vou optar por manter secretos mas, mesmo que os revelasse, não trairia em nada o prazer da leitura. Os óbvios: a identidade do paciente, o desfecho, a identidade do narrador. O primeiro pode ser desfeito com o simples folhear das páginas; os outros dois vão-se tornando progressivamente mais claros ao longo da narrativa e, quando chegam, não são exatamente uma surpresa. Mas também não teriam que ser. Mais uma vez, A Cura não é um policial, não caminha para uma revelação final que explicará tudo; A Cura, como a cura da psicanálise, é um processo, e é nesse processo que se esconde o prazer da leitura. A narração, percebemos mais tarde, não nos quer esconder nada, até nos poderia revelar nas primeiras páginas o desfecho – e fá-lo, se estivermos atentos – sem qualquer prejuízo. O narrador faz com um leitor o que um analista faz com um analisando: aponta os caminhos, mas deixa que seja o próprio a percorrê-los sozinho.
É muito difícil falar de um livro que é todo ele interditos: um narrador quase sem nome, um mensageiro X., um paciente Z., uma companheira que, apesar de ser dos poucos personagens com nome, é talvez das mais obscuras, um professor com nome de compositor alemão que é como um pai, ou como um Deus, ou como um Deus Pai, apesar do quase ateísmo de quase todos os envolvidos. A sequência de consultas opõe – e sublinho opõe – o narrador e Z., mas todos os outros personagens vão sendo convocados pelo depoimento. Há ainda mais um, talvez o maior de todos, que se posiciona acima do narrador, olhando-o, sobranceiro: Freud. Cada consulta é encimada com uma epígrafe de Freud, desde A Interpretação dos Sonhos, de 1900 até Moisés e o Monoteísmo, de 1938 – daí a breve história da psicanálise no título. Há duas excepções a esta regra: prólogo e epílogo, o primeiro com Freud, mas anterior ao texto seminal de 1900, o segundo com o Eclesiastes, a única epígrafe que não é retirada da obra do fundador da psicanálise e, também por isso, talvez a mais importante. Mas esta não é a primeira vez que o Eclesiastes surge na narrativa. Desde as primeiras páginas que o analista nos confessa uma relação estranha e próxima com o Eclesiastes. Mais estranha ainda porque o narrador declara não ser religioso, nem na sua juventude, apesar de ter sido educado na fé católica.
As relações deste narrador são, aliás, todas estranhas e estranhamente próximas. A relação com a companheira é quase simbiótica a princípio e quase parasítica no fim; a relação com o professor Wagner, o mestre e modelo, é dependente iniciou-se com uma mentira menos que mentira; a relação com Z., o paciente das consultas, essa, é ainda mais complexa.
A relação do analista com Freud é, apesar de tudo, a mais clara. Freud é Deus, as suas obras são a palavra sagrada. O analista defende Freud contra tudo e contra todos, batalha para o recuperar num mundo que quer desacreditar a sua teoria, enraivece-se com a mera referência ao anti-cristo Jung. E, todavia, apesar de tudo o que disse até agora, não sei se posso considerar A Cura como um romance acerca da psicanálise.
A psicanálise está presente em tudo, é certo. É o método e o caminho do narrador. Mas reduzir o romance à psicanálise seria, claro está, redutor. Se a psicanálise é o foco de tanta atenção, é-o apenas porque este mundo nos é dado a conhecer através dos olhos de um personagem que vê tudo pela psicanálise, que não consegue deixar de enquadrar o que o rodeia num quadro de egos, ids e superegos, Édipos e Laios, Hamlets, conscientes e inconscientes. A Cura mostra-nos como a psicanálise é muito mais que uma ciência ou teoria absurda – dependendo de que lado da barricada nos decidimos colocar. A psicanálise, para este narrador, é o óculo que lhe permite ver e entender o mundo, como a religião para um crente.
Os paralelos entre a psicanálise e a religião multiplicam-se com uma claridade impressionante para todos menos para o próprio narrador. Este paradoxo de uma ciência quase religião é, talvez, o conflito central deste livro. Também nesse campo A Cura marca pontos: não é apenas um romance mas uma tese; mas não é um romance de tese, isto é, quando o livro termina percebemos que não fomos expostos a argumentos a favor ou contra a psicanálise ou a religião; entenderemos o desfecho de maneiras opostas, de acordo com a nossa própria posição. Mais, se esta não for clara, reconheceremos a nossa posição no confronto, nessa altura. Vou ser mais claro: A Cura não nos descreve apenas nem a análise de Z., nem a auto-análise do narrador; o romance leva o leitor a descobrir algumas coisas sobre si próprio, como se o analisando fosse o próprio leitor e o analista o romance.
Mas há mais. Talvez por defeito profissional, ao longo destas páginas fui percebendo também – ou antes, o livro levou-me a perceber – como a psicanálise e a crítica literária são, tantas vezes, similares. A interpretação de um sonho ou a interpretação de um romance são, frequentemente, o mesmo processo com objectos distintos. O analista procura o que o sonho não diz, o crítico procura o que o livro não diz; o analista constrói pontes entre o sonho e o real, o crítico constrói pontes entre o romance e o real; o analista afirma que todos os seus diagnósticos estão no analisando, e que mais não fez que as trazer ao consciente, o crítico jura a pés juntos que as suas conclusões estão no texto, e que ele não fez mais que as trazer à luz. Podia continuar.

Estas são apenas algumas das razões que me levaram a escolher A Cura para publicação, mas havia mais, muito mais. No entanto, o motivo primeiro e maior é muito simples: o livro é bom, muito bom. Sim, eu sei, o crítico não deve fazer juízos de valor. Porém, quando li este livro pela primeira vez, não o fiz como crítico. Li-o como representante de uma entidade que mais não faz que criar juízos de valor acerca do mundo literário: este é bom, este não é, aquele deve ser publicado, aquele não deve; e, mais do que cruel, para mim a oportunidade de olhar para um livro e procurar uma resposta simples sempre foi muito libertadora. Os editores são, talvez, a mais determinante das portas do cânone: se um livro não é publicado, não existe. Por isso espero que me perdoem o orgulho imenso que tenho em ter ajudado este livro a existir.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Para lá do bem e da Cura. - Parte I

Sobre A Cura, de Pedro Eiras

|Tiago Sousa Garcia

Pensei em começar com uma piada. Ahem: quantos psicanalistas é que são precisos para mudar uma lâmpada? Dois, um para mudar a lâmpada, o outro para segurar no pénis, quer dizer, na escada!  Acertaram, A Cura é um livro sobre corridas de cavalos.
Freud teria certamente muita coisa a dizer acerca do motivo pelo qual eu tentei começar por fazer rir. A verdade é que não estou aqui para falar de psicanálise – nem saberia como fazê-lo. Estou aqui para falar de um livro fantástico que tive o prazer de ajudar a trazer a público.
Fantástico. Sabe bem poder usar adjectivos nestas coisas. Há algum tempo atrás, quando estava ali no lugar onde está a Andreia, tentava nunca usava estas palavras. Estava a representar uma editora e sabia que ninguém no público queria ouvir um vendedor. Hoje posso usar todos os adjectivos que me apeteça: fantástico, brilhante, inquietante. A Cura é tudo isto. Mas já lá vamos.
Antes de falar um bocadinho sobre o livro, queria partilhar o modo como o livro chegou até aqui. Conheci o Pedro Eiras há já alguns anos, não muitos, não poucos. Foi meu professor na Faculdade de Letras em diferentes disciplinas, três, penso eu. Por algum acaso, não sei bem como – sinceramente não me lembro muito bem – ficamos amigos. Os anos passaram, contra todas as probabilidades comecei a trabalhar exactamente naquilo que desejava: uma editora; pagavam-me para, entre outras coisas, ler e sugerir o que podia ou devia ser publicado. A certa altura, fui tomar café com o Pedro. Já não estávamos juntos há muito tempo, lembro-me que, nesse fim de tarde, falámos durante horas. Já há algum tempo que pensava em desafiá-lo para publicar alguma coisa connosco. Quando nos encontramos nesse dia, tinha também isso na cabeça mas, por algum motivo, não o disse. Talvez por pudor, somos amigos, mas a nossa relação começou com um desequilíbrio de poder, ele o mestre, eu o discípulo. Na cabeça do Pedro, percebi depois, algo de semelhante se devia estar a passar. Felizmente para todos, ele foi menos amedrontado que eu. Quando nos despedíamos, estendeu-me um manuscrito, pediu-me que o lesse. Era um romance, este romance. Li-o avidamente e, alguns dias depois, sabia que o queria publicar. Meses passaram, aqui estamos.
Este não é o primeiro livro do Pedro Eiras, nem sequer o primeiro romance. Muito longe disso. Um rápido escrutínio da última página do livro é suficiente para que se perceba a dimensão gigantesca da sua obra. Romance, ensaio, conto, teatro, poesia. A certa altura, já o cumprimentava a perguntar quando é que saía mais um livro. Mas a dimensão não é nada, a prolixidade é irrelevante. Relevante é a qualidade inegável e o talento do Pedro Eiras em cada um dos seus livros. É um ensaísta corajoso, um dramaturgo que gosta de torturar os seus personagens, um romancista que se delicia com as grandes questões que coloca aos seus diminutos protagonistas.
Se me perguntarem, não saberei enumerar quais as razões me conduziram à certeza de que tinha que publicar este livro. Há muitos factores em jogo numa decisão, alguns muito prosaicos e muito pouco românticos. Publicar um livro é, apesar de tudo, um negócio e, por muito que assim quisesse, não poderia ignorar a responsabilidade que tinha para com os meus colegas de trabalho. Para nós, o mundo editorial era, acima de tudo, o nosso ganha pão. Por isso também, quando o Pedro me estendeu o manuscrito, temi que fosse tentado a publicá-lo apenas porque éramos amigos, mas ele logo me tranquilizou. Disse-me que, antes de tudo, procurava a minha opinião sincera e que, caso eu não gostasse ou não o pudesse publicar, não era importante. Quando li as primeiras páginas, percebi que todas estas dúvidas eram irrelevantes. Lembro-me de a Paula Almeida me dizer, nos meus primeiros dias na editora, que se descobre se um livro é bom, ou não, muito rapidamente. Admito que a minha inexperiência me impediu de perceber imediatamente o que isso queria dizer. Pensei: sim, um livro mau é fácil de identificar. E é verdade, das centenas de livros que recebia, às vezes não precisava de mais do que uns segundos para perceber se devia continuar a ler ou não. Há casos lendários. O que eu não percebi: um livro bom também se pode identificar em segundos. Foi o que aconteceu com A Cura.
Diz-se que um livro não se julga pela capa – talvez sim, talvez não – mas certamente que muito se pode dizer de um livro pelo título. Este agarrou-me logo pelo título, ou antes, pelos títulos. Uma Sátira ou Algumas Improváveis Consequências do Juramento de Hipócrates ou A Cura ou Breve História da Psicanálise ou Por que Razão Tudo o que Escrevo se Transforma Logo Noutra Coisa Diferente. Era um título generoso e, aquele A Cura, central, era particularmente interessante. Do restante título podia tirar algumas conclusões: Sátira, não levar demasiado a sério; Juramento de Hipócrates, envolve médicos que se vêm obrigados a alguma coisa; Psicanálise, bem, envolve psicanálise; Porque razão tudo o que escrevo, temos um narrador na primeira pessoa que se vê a perder o controlo da sua narrativa, a própria multiplicidade de títulos me dava sinais de uma narrativa imprecisa, cheia de avanços e recuos, de ditos, não ditos, interditos e incertezas. Mas aquele A Cura, central, sintético, dizia muito mas deixava-me a desejar muito mais: este livro era um processo, não um resultado; quem curava, quem era curado? Curado de quê, como, por quem? Um livro mau dar-me-ia todas as respostas, mas este não é um livro mau.
Depois, as primeiras páginas. É uma confissão, uma memória, um caso clínico, mas não um diário. Não há datas, nem sequer capítulos. Há consultas, e toda a narrativa se arranja à volta destes momentos centrais. A consulta, isto é, o processo de cura, é o essencial, tudo o resto é acessório.

Má escolha de palavras: o narrador, descobrimos rapidamente, é um analista freudiano, por isso nada é acessório, tudo tem um significado. Esta é uma das grandes vitórias deste livro: qualquer leitor, mesmo o mais desprevenido, percebe rapidamente que tem de estar atento a tudo, que tudo tem um nível de significância escondido, e fá-lo sem recorrer à simplicidade do policial, que imediatamente convida o leitor a fazer parte do jogo, nem à complexidade do ilegível. Subtilmente, o narrador mostra ao leitor como ler o livro: procurar o não dito, ver todas as palavras como imprescindíveis. Desde as primeiras páginas que percebemos que não há uma palavra a mais, não há excursos, não há inconsequências, tudo o que aparece na página deve ser lido como se fosse o nome do assassino.

(continua)

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O autor deve sair ferido, morto e ressuscitado

Conversa com Pedro Eiras a propósito do romance A Cura (QuidNovi, 2012)

|Andreia Faria



- Descreve um book trailer possível para A Cura.

Dois homens lutam. Um é psicanalista; o outro, ***. Um round por mês: treze consultas, mais um prólogo para definir as regras, um epílogo para sarar as feridas. Como se uma ferida alguma vez sarasse.

- Um dos títulos possíveis para a A Cura, apresentado inclusivamente na capa, é Uma sátira. Uma sátira de quê ou de quem?

Outro dos títulos possíveis é Por que razão tudo o que escrevo se transforma logo noutra coisa diferente? Talvez este livro comece por satirizar um alvo, e termine a satirizar outro... Em todo o caso: uma sátira de mim a mesmo mesmo, dividido entre várias personagens. Como sempre.

- O autor sai ileso das suas ficções?

Não. De maneira nenhuma. Ou então, é porque as coisas correram mal, e então a vida continua, incólume. Mas o autor deve sair ferido, morto e ressuscitado: absolutamente diferente de si mesmo depois de escrever o livro. E não por um programa, uma metamorfose mecânica, mas porque ao escrever atravessa um lugar que não conhecia, que ainda não existia. Ele parte para esse lugar desconhecido, mas quem regressa já é o outro.

- Ouvi dizer que Freud é um dos teus autores favoritos, e A Cura vive muito das leituras que dele fizeste. A tua relação com Freud fica maculada pelas descobertas que o teu narrador faz ao longo do livro, ou continuas a lê-lo com a mesma frescura?

Bem, a minha relação com Freud nunca foi imaculada; acho que ninguém pode ter uma relação imaculada com Freud, nem sequer antes de o ler (somos freudianos e anti-freudianos mesmo antes de abrir A Interpretação dos Sonhos). Lembro-me das minhas primeiras leituras, de Introdução à Psicanálise, de Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci, etc.: eram leituras violentas, irascíveis. Porquê? Muitas vezes, é para responder a esta pergunta que escrevo. Dito isto, acho Freud um autor magnífico, e quanto mais discuto com ele mais ele me fascina. Se as descobertas do meu narrador “maculam” Freud, isso só pode tornar a leitura mais fascinante. Não me interessa fazer as pazes com Freud.

- O Tiago Sousa Garcia, que apresentou o teu livro no Porto, disse a certa altura que a psicanálise se assemelha em muito à crítica literária: na minúcia da análise, na ausência de crença na inocência do texto, na procura do não-dito, do que o texto quer esconder. Estás de acordo?

Sim, absolutamente de acordo. Sou professor de literatura na Faculdade de Letras do Porto, e espero que as minhas aulas sejam uma espécie de psicanálise do texto lido. Uma aula é interrogar um breve poema durante uma, duas horas, como se fosse um analisando num divã. Ao fim de duas horas, com sorte, o poema começa a revelar o seu inconsciente. E duas horas é pouco tempo, porque a profundidade de um poema é infinita. Então, nenhuma inocência e nenhum acaso: tudo fala, cada vírgula esconde um crime, cada pergunta uma redenção.

- Miguel Real disse no JL que és um dos poucos críticos literários que ousa escrever romances e “sujar as mãos”. Sentes que, enquanto crítico, a escrita de romances te põe a cabeça a prémio?

Espero que os meus ensaios literários estejam tão maculados como as minhas ficções: que se sintam os grãos de terra, o atrito da escrita em todos os meus textos... E, no fundo, talvez não haja contradição: eu coloco-me problemas a mim mesmo; se lhes tento responder com argumentos teóricos, leituras lentas de textos de outros autores, ou com personagens e enredos, o desafio seminal é o mesmo. Espero que os meus romances sejam uma forma de pensar, como os meus ensaios são uma forma de ficção, uma dramaturgia do pensamento.

- Em alguma circunstância o teu escritor foi boicotado pelo teu crítico?

Não. O crítico ajuda o escritor, e vice-versa. O crítico lança obstáculos ao escritor, mas isso serve para o acordar. E o escritor usa o crítico para tornar a escrita mais difícil. Na verdade, nem sequer consigo distingui-los: trabalham juntos, sujam-se juntos.

- Como vês o teu lugar de escritor numa altura em que a publicação de livros passa da democratização à vulgarização? O acesso à publicação de tanta gente que, há umas décadas atrás, não seria validado como "autor(a)", abre novas possibilidades ou limita o trabalho do escritor tal como o entendes?

Não tenho nada contra o “acesso à publicação”; pelo contrário. Não me reconheço, como leitor, em muitos dos livros que são publicados hoje, mas isso também vale para os livros de qualquer época histórica. Acho que um entendimento crítico do que se escreve e publica é fundamental, claro, sobretudo quando existe uma tal sobrecarga de textos em circulação. Mas é uma questão que não me incomoda; o que realmente importa é só: que, no meio de tantos escritos, surjam os livros valiosos, os que me ferem.

Post-scriptum: ainda sobre as máculas, a sujidade, o atrito –
em Stalker, de Andrei Tarkovsky, há um travelling picado sobre textos, moedas, ícones, terra, tudo submerso em água. Vemos esses restos de civilização ascenderem na tela, devagar, muito tempo. Tarkovsky deitou esses bocados de livros, textos e imagens na água, mãos-cheias de terra por cima, e aos técnicos que preparavam o filme, estupefactos, explicou: «Isto – é a matéria de que os sonhos são feitos.»