este livro foi feito porque um dia, há
milênios, alguém teve a ideia de fazer um livro. parou por horas e, sem mais
com o que gastar o tempo, juntou páginas escritas, costurou-as, pôs um título
na capa e chamou aquilo de livro.
mas também houve quem, com um pedaço de
linho, limpasse o rosto de jesus e, observando a bela figura do mestre gravada
como um borrão no pedaço de tecido, não tivesse a coragem de denominar aquilo
livro.
isso equivale a dizer que livros nem
sempre são o que parecem ser.
livros são cópias de livros que copiaram
outros livros que seguiram o modelo de outros livros. cópia entendida como um
modelo seguido por milênios adentro, perpetuado na espécie humana à maneira de
um ritual. ou cópia como erro, pusilanimidade.
um livro é sempre aquilo que estamos
cansados de ver/fazer. é sempre o cansaço de um outro livro, a citação de outro
livro, um metalivro.
conhecemos demais os livros e, no
entanto, jamais tocaremos suas entranhas.
um livro nunca é como o outro. e, assim
como as pessoas, seu suporte invariavelmente é a matéria viva.
livros de plástico, como as flores, não
morrem.

