quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Apontamentos sobre os livros

|Letícia Féres

este livro foi feito porque um dia, há milênios, alguém teve a ideia de fazer um livro. parou por horas e, sem mais com o que gastar o tempo, juntou páginas escritas, costurou-as, pôs um título na capa e chamou aquilo de livro.

mas também houve quem, com um pedaço de linho, limpasse o rosto de jesus e, observando a bela figura do mestre gravada como um borrão no pedaço de tecido, não tivesse a coragem de denominar aquilo livro.

isso equivale a dizer que livros nem sempre são o que parecem ser.

livros são cópias de livros que copiaram outros livros que seguiram o modelo de outros livros. cópia entendida como um modelo seguido por milênios adentro, perpetuado na espécie humana à maneira de um ritual. ou cópia como erro, pusilanimidade.

um livro é sempre aquilo que estamos cansados de ver/fazer. é sempre o cansaço de um outro livro, a citação de outro livro, um metalivro.

conhecemos demais os livros e, no entanto, jamais tocaremos suas entranhas.

um livro nunca é como o outro. e, assim como as pessoas, seu suporte invariavelmente é a matéria viva.

livros de plástico, como as flores, não morrem.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

das três portas

|Letícia Féres

das três portas que há à sua frente, você olhará somente pelo buraco da fechadura da segunda, posto que as outras duas não possuem nenhum orifício – para respiração ou regalo da alma.

você verá

brancos destroços de um esqueleto, onde se lerá uma triste história de amor na ainda viva tinta vermelha.
tiras da saia de uma donzela peluda. restos de uma amor que viu o circo pegar fogo.
uma caixa de fósforos vazia, com os dizeres: cuidadofrágil.
um chapéu de napoleão, mofado. lembrança das bodas de certa avó.
caixinhas de música, em que se pode ler, em seu verso: by Pandora.
uma lagarta listrada desbotada: um fóssil.


[não necessariamente nessa ordem]

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Uma homenagem

|Letícia Féres

eu não lavo pratos,
mas a adélia,
prado.

Letícia Féres



Letícia Féres (1979) é brasileira. Em 2013 autopublicou os ebooks de poesia Da estranheza das coisas, Meus piores poemas – vol. I e o infantil A cortina, o tapete, a menina. Participou do grupo poesia hoje e do coletivo não macule minha faca. 

domingo, 3 de novembro de 2013

No horizonte de coisa nenhuma

|Clara Henriques


A falta de memória política é um compasso atroz no desenvolvimento de qualquer nação.

Acompanhar o que se tem escrito e dito sobre José Sócrates nesta última aparição que tem como desculpa um livro sobre tortura, é sentir que de facto há uma transversalidade amnésica que delineia todos os quadrantes da querida portugalidade. Pior do que isso. Há neste linguarejar quotidiano um terrível desprezo pela profundidade. Hoje em dia as manchetes desaguam em debates televisivos que por sua vez vestem os comentários domingueiros dos ex-futuros políticos, também eles actores deste circo. Inventam-se discursos, assumem-se culpados e andamos a viver o presente político tendo José Sócrates como personagem fulcral em todas as frentes. O que não é novo, como sabemos. Sócrates é, de facto, um animal político, uma personagem de amores e ódios e provocador de inquietações desmedidas, mas assumi-lo como único culpado do estado do país actualmente supera a infâmia. Não vou entrar no porquê ou no porque não. Já enfastia o que se tem dito e devia ser um dever cívico assumirmos a tal memória política e sermos obrigados a saber na ponta da língua a história que nos desenha a todos.

Vivemos cada vez mais isolados na absorção do imediato, perdemos a curiosidade pelo fundo do poço, pelos bastidores, pelo que vem de dentro. Somos filhos de uma superficialidade que nos impede de agarrar na informação e fazer qualquer coisa com ela. Bebemos os soudbytes que os jornais reproduzem, somos construção do que os alinhamentos editoriais nos impõe e vamos, lenta e repetidamente, construindo a nossa realidade à luz de qualquer coisa que nem nome tem.

Nos entretantos, um espaço imenso para o que pode ser uma boa assessoria política. Nos entretantos, um espaço imenso para albergar livros-tese, promover a heróis quem já dissemos odiar e reeleger os Cavacos desta vida.
As urnas são o mais cruel reflexo da amnésia política de que somos dotados. E tudo isto daria um excelente espectáculo de entretenimento, não fosse o terrível facto de nos atirar a todos para o horizonte de coisa nenhuma.

sábado, 2 de novembro de 2013

Apenas mais uma carta de [des]amor!

|Cláudia Assis



Amei-te aos pouquinhos e, ainda assim, amei muito. Amei especialmente as possibilidades [e eram imensas!]. As pessoas é que têm a mania de dificultar as coisas. Não entendo: vêem o amor e logo se assustam. Talvez isso aconteça um bocado porque a pessoa por quem a gente se apaixona é sempre uma invenção. É a nossa cabeça brincando de deus com o nosso coração. Sei lá... Mas acho que tinha tudo para ser amor esse nosso lance. Amor dos grandes, sabia? Daqueles que vão parar nas páginas de um livro. Tu foste em mim o meu melhor enredo [e ainda tenho tantas palavras por escrever em ti]. Mas isso eu já sabia antes mesmo de pegar papel e caneta [post-its muitos e de cores variadas].

[…]

Não, não pode ser o fim. Finais felizes não deveriam ter este gosto amargo da ausência [saudade!]. E tu que me havias prometido um final feliz, lembras? E por isso permaneço exatamente onde me deixaste, à espera de vislumbrar teus enormes olhos negros e brilhantes que mais parecem um grande par de doces jabuticabas, daquela gigante árvore no quintal da minha velha infância. É isso. É mesmo isso! Teus olhos eram olhos de infância, menino da Terra do Nunca.

 Amei-te aos pouquinhos e, ainda assim... amei tanto. DESMESURADAMENTE!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Editorial: Da vida e da morte num país que acaba

|Luís F. Cristóvão

Muito antes de este ser o dia de visitar os mortos, eu acordava bem cedo com a excitação de ter um saco do pão, em pano, pronto, para sair de casa em busca do “pão por deus”. Era um hábito forte e enraizado na aldeia do meu pai, onde o feriado do primeiro de novembro também marcava o aniversário do grupo desportivo, e juntava toda a gente da aldeia, em bailes populares pela noite e jogos de futebol no campo pelado durante a tarde. A manhã, essa, era das crianças, à solta pelas ruelas, ao “pão por deus”.

Foram dezenas e dezenas de rebuçados, bolachas, broas, chupa-chupas, línguas de gato… Na casa de algum primo, uma moeda de 25 escudos, um verdadeiro tesouro prateado, porta para uma série de outras guloseimas ou pequenas compras durante o resto do dia. No café, lembro-me também do “pão por deus” significar uma ou duas carteirinhas dos calendários da bola, onde bigodudos jogadores apareciam prontos a ser colecionados religiosamente, guardados numas capas que estavam sempre perto de mim, no meu quarto, ao acordar.

Muito antes de este ser o dia de visitar os mortos, este foi o dia de festejar a vida. Depois crescemos e saímos de casa para caminhar por cemitérios, em silêncio, em busca de palavras que imaginamos ecoar pelas copas das árvores que, nestes dias, nos protegem mais da chuva do que algum raio de sol envergonhado.  Mas isto, também era dantes.

Hoje ficamos em frente aos computadores, a exercer o mesmo trabalho de um qualquer outro dia. Hoje ficamos presos nas repartições, nas salas de professores, nos balcões das lojas. Hoje não há vida, nem morte, que nos valha. Por algum tipo de negociação que nos custa a perceber, apagaram do calendário um dia que, para mim, não era religioso no sentido canónico de uma qualquer Igreja, mas que fazia e continuará sempre a fazer parte da religião da minha memória.

Hoje ficamos apenas por aqui. Num país que acaba.