domingo, 3 de novembro de 2013

No horizonte de coisa nenhuma

|Clara Henriques


A falta de memória política é um compasso atroz no desenvolvimento de qualquer nação.

Acompanhar o que se tem escrito e dito sobre José Sócrates nesta última aparição que tem como desculpa um livro sobre tortura, é sentir que de facto há uma transversalidade amnésica que delineia todos os quadrantes da querida portugalidade. Pior do que isso. Há neste linguarejar quotidiano um terrível desprezo pela profundidade. Hoje em dia as manchetes desaguam em debates televisivos que por sua vez vestem os comentários domingueiros dos ex-futuros políticos, também eles actores deste circo. Inventam-se discursos, assumem-se culpados e andamos a viver o presente político tendo José Sócrates como personagem fulcral em todas as frentes. O que não é novo, como sabemos. Sócrates é, de facto, um animal político, uma personagem de amores e ódios e provocador de inquietações desmedidas, mas assumi-lo como único culpado do estado do país actualmente supera a infâmia. Não vou entrar no porquê ou no porque não. Já enfastia o que se tem dito e devia ser um dever cívico assumirmos a tal memória política e sermos obrigados a saber na ponta da língua a história que nos desenha a todos.

Vivemos cada vez mais isolados na absorção do imediato, perdemos a curiosidade pelo fundo do poço, pelos bastidores, pelo que vem de dentro. Somos filhos de uma superficialidade que nos impede de agarrar na informação e fazer qualquer coisa com ela. Bebemos os soudbytes que os jornais reproduzem, somos construção do que os alinhamentos editoriais nos impõe e vamos, lenta e repetidamente, construindo a nossa realidade à luz de qualquer coisa que nem nome tem.

Nos entretantos, um espaço imenso para o que pode ser uma boa assessoria política. Nos entretantos, um espaço imenso para albergar livros-tese, promover a heróis quem já dissemos odiar e reeleger os Cavacos desta vida.
As urnas são o mais cruel reflexo da amnésia política de que somos dotados. E tudo isto daria um excelente espectáculo de entretenimento, não fosse o terrível facto de nos atirar a todos para o horizonte de coisa nenhuma.

sábado, 2 de novembro de 2013

Apenas mais uma carta de [des]amor!

|Cláudia Assis



Amei-te aos pouquinhos e, ainda assim, amei muito. Amei especialmente as possibilidades [e eram imensas!]. As pessoas é que têm a mania de dificultar as coisas. Não entendo: vêem o amor e logo se assustam. Talvez isso aconteça um bocado porque a pessoa por quem a gente se apaixona é sempre uma invenção. É a nossa cabeça brincando de deus com o nosso coração. Sei lá... Mas acho que tinha tudo para ser amor esse nosso lance. Amor dos grandes, sabia? Daqueles que vão parar nas páginas de um livro. Tu foste em mim o meu melhor enredo [e ainda tenho tantas palavras por escrever em ti]. Mas isso eu já sabia antes mesmo de pegar papel e caneta [post-its muitos e de cores variadas].

[…]

Não, não pode ser o fim. Finais felizes não deveriam ter este gosto amargo da ausência [saudade!]. E tu que me havias prometido um final feliz, lembras? E por isso permaneço exatamente onde me deixaste, à espera de vislumbrar teus enormes olhos negros e brilhantes que mais parecem um grande par de doces jabuticabas, daquela gigante árvore no quintal da minha velha infância. É isso. É mesmo isso! Teus olhos eram olhos de infância, menino da Terra do Nunca.

 Amei-te aos pouquinhos e, ainda assim... amei tanto. DESMESURADAMENTE!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Editorial: Da vida e da morte num país que acaba

|Luís F. Cristóvão

Muito antes de este ser o dia de visitar os mortos, eu acordava bem cedo com a excitação de ter um saco do pão, em pano, pronto, para sair de casa em busca do “pão por deus”. Era um hábito forte e enraizado na aldeia do meu pai, onde o feriado do primeiro de novembro também marcava o aniversário do grupo desportivo, e juntava toda a gente da aldeia, em bailes populares pela noite e jogos de futebol no campo pelado durante a tarde. A manhã, essa, era das crianças, à solta pelas ruelas, ao “pão por deus”.

Foram dezenas e dezenas de rebuçados, bolachas, broas, chupa-chupas, línguas de gato… Na casa de algum primo, uma moeda de 25 escudos, um verdadeiro tesouro prateado, porta para uma série de outras guloseimas ou pequenas compras durante o resto do dia. No café, lembro-me também do “pão por deus” significar uma ou duas carteirinhas dos calendários da bola, onde bigodudos jogadores apareciam prontos a ser colecionados religiosamente, guardados numas capas que estavam sempre perto de mim, no meu quarto, ao acordar.

Muito antes de este ser o dia de visitar os mortos, este foi o dia de festejar a vida. Depois crescemos e saímos de casa para caminhar por cemitérios, em silêncio, em busca de palavras que imaginamos ecoar pelas copas das árvores que, nestes dias, nos protegem mais da chuva do que algum raio de sol envergonhado.  Mas isto, também era dantes.

Hoje ficamos em frente aos computadores, a exercer o mesmo trabalho de um qualquer outro dia. Hoje ficamos presos nas repartições, nas salas de professores, nos balcões das lojas. Hoje não há vida, nem morte, que nos valha. Por algum tipo de negociação que nos custa a perceber, apagaram do calendário um dia que, para mim, não era religioso no sentido canónico de uma qualquer Igreja, mas que fazia e continuará sempre a fazer parte da religião da minha memória.

Hoje ficamos apenas por aqui. Num país que acaba.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mundos

|Ana Correia

Há mundos dentro do mundo. Existe um mundo, vários mundos, dentro de cada um de nós.
Desceu as escadas e caminhava, devagar e com ar enfadado, para o banco. Senta-se enquanto espera pelo metropolitano, comendo um gelado que não parece saborear. Tem um olhar apagado, o olhar de quem não vive o mundo, um olhar de não estar no mundo.
Procura algo no bolso do casaco. Tira a carteira, abre-a, passa os dedos por cada divisão até encontrar o que procurava. Um pequeno papel, dobrado, amaçado, onde começa a rabiscar. Talvez seja um compromisso, uma conta para pagar, talvez a data de uma consulta?
Ouve-se a aproximação do metropolitano, o som mecânico e violento que nos desperta para a consistência de um dia-a-dia urbano. As portas abrem, entra no metro e dirigindo-se a um lugar vazio continua a escrevinhar.
Uma voz monocórdica anuncia a estação seguinte. Sentado, junto da janela que apenas deixa ver o negrume do túnel, o corpo ligeiramente encostado a esta, o seu olhar mantêm-se apagado. É como que uma ausência de estar. É uma janela que não deixa ver para além da barreira frágil do vidro.
Há criaturas que emanam energia, que nos fazem levantar o olhar daquilo que estejamos a fazer, que nos desprendem daquilo em que estamos a pensar.
Encostado à janela, de olhar apagado, a sua presença não faz ninguém retirar os olhos do que estão a fazer. Alguém se senta à sua frente. Levanta a cabeça, olhando sem ver e continuando a fazer a caneta deslizar sob o pequeno papel. Talvez queira apenas passar tempo, talvez esteja só a fazer pequenos desenhos ou rabiscos.
Chegamos à próxima estação. Nada se alterou. O ar enfadonho, o olhar apagado mantêm-se. Cheguei ao meu destino, saio nesta paragem. Ele olha para mim mas não me vê, mordisca o lábio, sem que se aperceba faz trejeitos com a boca. Eu afasto-me, ouço cada vez mais longe o som artificial do metropolitano que se afasta.
Há mundos dentro de mundos. Sai da estação, e voltei ao meu.


Ana Correia escreve no blogue Freak Perfume

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sem notas de rodapé: A Maria João apresenta-se

|Maria João

O cursor pisca. É a primeira vez que faço isto. Escrever liberta do formato académico. Escrever sobre mim e o que me rodeia, de forma assumidamente pessoal. Não existe, é certo, conhecimento neutro e totalmente objectivo em nenhuma área do saber. No entanto, é meu dever prevenir-vos de que a crónica “Sem notas de rodapé” adoptará pontos de vista longe de consensuais e evidenciará a minha própria mundividência. Não terá uma vasta bibliografia de suporte, nem suscitará recensões críticas. Tão-pouco pretende constituir mais do que um exercício de partilha. Estou grata pela oportunidade de o realizar neste «Sítio». Não prescreverei soluções, não ditarei verdades. Serei corrosiva em alguns momentos. Céptica nos dias em que, de forma particular, os meus ideais colidirem com a realidade. Racional, honesta e frontal, pela minha forma de ser. Emocional, sempre.

Tratem-me por Maria João, por favor. Inevitavelmente, os pseudónimos revelam bem mais sobre nós do que o conforto do anonimato faria supor. Associo “Maria João” ao tipo de mulher que sou. Centros comerciais corporizam o conceito de pesadelo para mim. Nunca compreendi a lógica de (apenas) ver montras. Custa-me, de igual modo, conceber a hipótese de ir ao wc a pares ou de falar mal de uma amiga que acabou de sair da mesa do café onde estávamos a conversar.

Gosto de dizer o que penso, às vezes de forma desconcertantemente directa. Considero-me bastante feminina, mas nunca usaria sapatos que me impedissem de correr para apanhar o autocarro. Não trocaria um livro por qualquer verniz da Channel. Reconheço a minha obsessão por pontualidade. Não sou melhor nem pior do que qualquer outra pessoa. A arrogância tira-me do sério, em proporção directa com os cidadãos que decidem optar pelo sofá em vez de irem votar.

Ainda que não filiada, situo-me no espectro político da esquerda. Sou uma idealista com os pés na terra. Acredito que é possível contribuir todos os dias para modificar as pessoas e o contexto que nos cerca. Faço-o, em grande parte, através da minha profissão e do modo como a exerço. Sou uma professora universitária apaixonada pela minha área e pelo ensino. A ignorância não me choca (eu sofro dela em doses angustiantes também). Revolta-me, apenas, a falta de vontade de aprender e ser mais, a recusa da complexidade, a apologia do facilitismo. Poucas coisas me dão mais prazer do que desconstruir ideias, transmitir entusiasmo, incentivar o espírito crítico na percepção do mundo, ver os olhos dos alunos a brilhar. Dir-me-ão que tal se deve aos meus 30 anos. As probabilidades jogam, bem sei, em meu desfavor. Lutarei, porém, contra a indiferença. Procurarei resistir à tentação de me fechar na redoma universitária, naquela em que pessoas capazes de analisar o sistema económico feudal durante duas horas não conseguem preencher o seu IRS. Acompanhem-me neste esforço e, peço-vos, massacrem-me ao mínimo sinal de fraqueza.


É justa a vossa reclamação entredentes. Disse-vos ainda muito pouco acerca das temáticas que este espaço de crónica abarcará. Não possuo um índice para vos apresentar. Contudo, posso adiantar que as artes plásticas serão uma companhia frequente. As relações entre homens e mulheres terão uma presença forte (risos…). Reflexões sobre opções e ritmos de vida, rotina e fuga saudável às normas instaladas constarão deste reportório. O resto não se inscreve necessariamente numa categoria nem se arruma numa gaveta. A utopia de um Pingo Doce sem filas de espera possuirá o mesmo tempo de antena que o debate sobre a crença ingénua na capacidade da arquitectura mudar o mundo. Os anúncios que astrólogos insistem em colocar nos nossos limpa-para-brisas configurarão um assunto tão válido quanto uma sonata de Chopin. Tanto poderei discutir Michel Foucault, como uma ida à loja do cidadão (na verdade, o primeiro é muito útil para perceber como funciona a segunda). Desconhecer, por um lado, o que nos espera e tentar a todo custo, por outro, antecipar e controlar cenários é algo inerente ao ser humano. Esta crónica repousará nesse frágil (des)equilíbrio.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

“Escrevo para ter acesso a mim mesmo”

Entrevista a João Anzanello Carrascoza
 | Eliana Castro


    Cinto de segurança é acessório inútil para quem decide viajar na escrita emocional de João Anzanello Carrascoza. Também é preciso avisar (pra quem nunca leu seus livros) que ele jamais conduz seus textos pelas autoestradas, em pistas expressas. Prefere levar o leitor para passear por estradas vicinais, viscerais. Foi assim – só para citar algumas viagens - em O Vaso Azul, Espinhos e Alfinetes, Contos Mínimos, Aquela Água Toda ... e é exatamente isso que ele faz agora, no romance Dos 7 aos 40, recém-lançado pela editora Cosac Naify. Carrascoza é um hábil condutor, com prêmios importantes. Entre eles, o Jabuti (O vaso Azul, que recebeu em 2007, e este ano, com Aquela Água Toda, que está entre os finalistas) e o Portugal Telecom 2013 (também com Aquela Água Toda na semifinal).
    Mas não é exatamente por causa da sua reconhecida fama de bom condutor que o cinto de segurança é dispensável. Na verdade, o correto seria dizer que, com ele, usar o acessório é inútil. Simplesmente porque Carroscoza dirige sua escrita de maneira tão intensa que não há como se proteger de acidentes de percurso: quando nos damos conta, saímos da pista em que estávamos, invadimos o acostamento e, de repente, pow! passamos a circular dentro de nossas próprias veias, até entrarmos bem no fundo do coração, em um lugar que não é mais só dele, mas nosso e dele, entrelaçado como interseções rodoviárias.
   “Escrevo para construir um mundo no qual as coisas poderiam ter sido e também para partilhar experiências e sentimentos. Quando o que me toca, toca o leitor, entro em harmonia com o outro. Escrever é buscar a si mesmo para encontrar o outro. Minha escrita é comovida”, confessa.

Quadros de Sentimentos
   O livro Dos 7 aos 40 é a perfeita tradução desse desejo do autor, de estar em harmonia e contaminar o leitor com sua emoção – e ainda conta com uma curiosa estrutura. A história é contada em dois tempos – o do menino e do homem. Ligeiramente ou totalmente autobiográfico, não importa. O que vale é a estrada: em uma pista, as histórias do menino, narradas em 1ª pessoa; na outra, as histórias do adulto, contadas em 3ª pessoa. “A vida da gente tem que ter um retrovisor. Estamos indo pra frente, mas temos que olhar um pouco para trás para entendermos todo o percurso que fizemos, pra depois seguir adiante”, afirma.
   O romance começa com a narração do menino, que mora em Cravinhos, pequena cidade do interior do Estado de São Paulo, no Brasil [onde Carrascoza nasceu e morou por anos]. Na sequência, pula para a do adulto quarentão, que abandonou o interior e vive em São Paulo, capital do estado e uma das maiores cidades do mundo. [Carrascoza vive em São Paulo, formou-se em publicidade e é professor na ESPM, Escola Superior de Publicidade e Propaganda] Essas duas vias, dos sete aos quarenta, são cruzadas e suas diferentes visões, alternadas em capítulos ao longo do romance. “O livro não está amarrado a uma linha do tempo. Salta de um episódio para outro. Porque a vida também não tem amarração: dá pequenos saltos. Os capítulos são espelhados. São como quadros de sentimentos”, conta.
   A diagramação do romance reforça isso, ao dispor tudo o que é narrado pelo menino na parte superior da página, onde o texto aparece blocado, e, em cada capítulo, faz referência a uma descoberta: morte, tristeza, namoro... Já a voz adulta está disposta na parte de inferior das páginas e surge desalinhado. “Quando garoto, a gente está na fase em que nomeia as coisas à nossa volta e os sentimentos. As pessoas têm nome e optei pelo texto blocado porque, no romance, a sua história desse menino já foi escrita”, explica. “Na fase adulta, você tem a consciência de que é apenas mais um ser”. Para essa parte do livro, ninguém tem nome próprio. A ideia é falar de um universo emocional que, de um modo ou de outro, está dentro de cada um. O texto desalinhado reforça o tempo presente, em que as coisas ainda estão acontecendo, sem sabermos, ao certo, como vão terminar.



Inspirações
     “Aos sete anos, estamos começando a ler as palavras e o mundo. Aos quarenta, já temos uma história escrita, uma vida social. O mundo tá te olhando”, observa Carrascoza, que se inspirou em Vidas Secas, de Gaciliano Ramos.  “Graciliano criou um conjunto de histórias, que Antonio Cândido [crítico literário brasileiro] chama de rosácea, porque cada capítulo é uma pétala. E, em cada história, Graciliano dá elementos para o leitor compor a sua história. Foi o que fiz”, explica.

    Dos 7 aos 40 se beneficia bastante da direção habilidosa de Carrascoza, sem dúvida,  um dos melhores contistas brasileiros. Embora seja um romance, pode ser lido de diversas maneiras. A primeira leitura possível é da forma como o autor organizou a narrativa. Mas também podemos ler o mesmo livro de modo desordenado, porque cada capítulo é um conto – e dos bons. Podemos, ainda, ler apenas a história do menino ou do adulto, como se cada uma fosse um romance separado. E o mais interessante é que, independentemente do modo que o leitor decida explorar as estradas por onde Carrascoza nos leva, o romance não se perde no caminho. E sempre nos conduz, por meio da prosa poética do autor, para o fundo do coração. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mesa do Canto: Todos os lugares onde te amei

|Alexandra Malheiro

Agrada-me começar assim a crónica, com um título piroso e lamechas, ainda que o corpo da crónica possa não confirmar a investida no território afectivo é sempre uma bela forma de deixar o leitor a pensar que me vou permitir a contemplações de ordem amorosa e deleitá-los com o rigoroso detalhe da minha vida íntima. A própria referência, neste mesmo parágrafo, ao "corpo da crónica" já é, só por si, uma vaga alusão ao erotismo que cada um de nós transporta interiormente.

A verdade verdadinha é que tinha planeado levar esta crónica pelas ruas do Outono, a pisar o restolho e a sentir os primeiros bancos de gélido nevoeiro, começaria assim, sei-o bem - "Entrou-me hoje, pela primeira vez neste ano, o Outono pela boca, à boleia de uma castanha assada comprada na baixa." Seguiria depois pela industriosa tarefa de explicar as razões pelas quais percebemos que pertencemos a um lugar e não a outro qualquer, o reconhecimento implícito das ruas, das suas esquinas, pelos odores, pela textura, até chegar ao imo daquilo com que se faz um poema. Trataria depois de explicar que é sempre isso que procuro em tudo, o poema, a coisa inata que há dentro das pessoas e das coisas e por onde passo farejo o poema até o encontrar, ou não, que às vezes o poema é coisa que não se encontra.

Levaria assim a crónica pelo território da busca, e eventual encontro, com o poema que, quando ocorre, tem sabor idêntico a uma vitória na guerra dos dias, espécie de orgasmo que nos resgata do cinzento a que a vida e as suas circunstâncias nos condena a maior parte do tempo. É por isto, e não por qualquer outra razão, que gosto de oferecer poemas aos amigos - aqui um pormenor de semântica, oferecer não é dedicar. Dedicar implica uma razão subjacente, pode nem sequer se conhecer o sujeito a quem se dedica mas sabemos que algo no sujeito espoletou a arma, nos apertou o gatilho do poema, mostrou a estrada e a luz de por onde levar as palavras e isso é toda uma outra conversa sobre guias e referenciais. Já a oferta do poema é uma coisa livre, não referenciada. Dá-se o poema a quem se apetece, sem pedir licença. Quando se escreve um poema, ou quando se atinge - ainda usando uma metáfora orgástica - ele deixa de ser nosso ou inteiramente nosso e se se partilha já não nos pertence senão numa vaga ilusão de posse de autor, coisa semelhante ao amor que se tem sem de facto se possuir.

Por isso às vezes ofereço poemas, quase sempre recém-nascidos, aos meus amigos, para que não fiquem só comigo e procurem com os outros outra luz, e para que outros possam também iluminar-se neles. Não sei se gostam, se lhes agrada que os importune, quase sempre por telefone, em geral por sms, raras vezes por voz - pranto-lhes o poema no gravador, e mais raramente ainda em directo ao ouvido arriscando interromper-lhes os importantes feitos da vida real, tão cheia de curvas e contracurvas, tão avessa à etereadade dos poemas, nem sempre bons, como são os meus.

Aprecie o estimado leitor a sorte que tem em não fazer parte da minha lista de afectos ou, melhor digo, de telefones, para onde debito poemas a horas ingratas. Se, porém, o leitor acaso é meu amigo e já foi contemplado com um desmando "literário" sem aparente razão que não a minha intermitente loucura, peço-lhe o necessário desconto pelas razões antes expostas em abono da partilha de poemas e entusiasmos. Sou assim mas não represento verdadeiro perigo social ou outro.

Entretanto é sexta-feira, pretendo jantar fora e resolvo marcar mesa, não vá dar-se o caso de o restaurante lotar, telefono para reservar mesa e hora, que sim senhor, dizem-me do outro lado, questionando-me se pretendia apenas jantar ou se tinha igual interesse em marcar consulta de astrologia. Fiquei surpresa, desconhecia a fusão sugerida de jantar com bruxos e entendidos no futuro dos outros. Digo que não, pretendo apenas comer, embora me assalte o pensamento que preferia que ao invés de um futuro inventado me inventassem um poema, ainda que fosse de comer como os da Natália.


No final desta crónica o atento leitor meneia a cabeça recriminatoriamente sem descobrir nela, após tanto palavreado, nenhuma real ligação entre o seu título e tudo o que nela se assunta. Mais lhe valia ler Lobo Antunes pensa, e bem acrescento eu, o estimado leitor. Mas eis que num vislumbre de juízo me apronto a deslindar o novelo. É que todos os poemas partilhados em qualquer esquina mal iluminada do tempo foram  todos os lugares onde te amei.